Viagem À Terra Do Nunca

História do Zé Carioca e do Nestor, publicada pela primeira vez em 1981.

Papai gostava muito de se divertir misturando personagens de “universos” diferentes, que normalmente têm pouco ou nenhum contato entre si. Neste caso, nossos heróis cariocas acabam indo parar na Terra do Nunca.

Eles saíram num bote a remo para pescar no mar do Rio de Janeiro, se perderam, e acabaram se deparando primeiro com O Corvo de Edgar Allan Poe, personagem célebre que faz uma participação especial, repetindo ao longo da história toda o seu lúgubre “nunca mais” em momentos significativos, e em seguida com o navio do pirata do Capitão Gancho, que os aprisiona na esperança de atrair o Peter Pan para uma armadilha.

ZC piratas

O Corvo age como um “coringa”, também, intervindo em momentos cruciais durante a história, como quando leva as chaves no bico para ajudar a libertar nossos heróis. Afinal, o Nestor também é um corvo, e diz o ditado que “pássaros da mesma plumagem voam juntos”.

ZC Corvo

O Zé e o Nestor acabam tendo a “experiência completa” da Terra do Nunca: após escapar do navio pirata, ainda têm de fugir a nado do Crocodilo Tic Tac (o Zé não tem sorte, mesmo: quanto mais ele reza, mais jacaré aparece… rsrsrs) e se justificar para os Meninos Perdidos, já na praia.

ZC TicTac

Eles acabam, inclusive, ajudando o Peter Pan e sua turma a libertar a Rainha das Sereias, que o Gancho capturou no lugar dos dois forasteiros, determinado a tentar atrair o moleque voador para uma emboscada.

ZC Peter

O “Pirata da Perna de Pau” é o tema de uma antiga marchinha de carnaval originalmente cantada por Braguinha, em 1946. Até voar com o pó de pirlimpimpim eles conseguem! Uma aventura e tanto, sem dúvida.

ZC voando

Confusão Em Los Tamales

Quem julga só pelo nome poderia achar que esta é uma história do Pena Kid. Mas não, esta história, publicada pela primeira vez em 1980, é protagonizada pelo 00-ZÉro e pela Pata Hari.

O Tamal é um alimento do México, que tanto pode ser doce como salgado, similar à nossa Pamonha.

Como em toda boa história de gentes secretos, nada nem ninguém, aqui, é o que parece ser. A “calma, tranquila e pacata” vila mexicana para a qual nossos agentes são enviados está dominada pela Bronka, que está usando o lugar como base.

Os clichês de histórias de agentes secretos como o “Agente 86” são abundantes, a começar pela necessidade de se falar uma senha como identificação para um contato. O “portunhol” é a língua franca da história, e há também uma referência a uma piada meio antiga, sobre o brasileiro que vai para o Paraguai logo depois da guerra (a do Paraguai, qual outra haveria de ser? Eu avisei que a piada era velha) e pergunta em português ao primeiro camponês que vê: “Ei, amigo, aquela é a igreja de Bom Jesus?” Ao que o paraguaio responde: “Ninguno de los dos!”

00zero tamales

Logo os nossos heróis se veem cercados de agentes da Bronka, e apesar da costumeira ferocidade do Lobo, mesmo assim eles são obrigados a bater em retirada. Mas hoje decididamente não é o dia deles. Os agentes da Bronka roubam até o veículo mutante, e deixam os agentes a pé.

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A surpresa da história é o Lobo, que de repente começa a falar, e a dar instruções aos colegas. Assim, eles conseguem se esconder numas cavernas próximas, até o perigo passar e os bandidos serem presos pela polícia, que foi avisada pelo chefe dos nossos amigos. Que é, também, a pessoa por trás da voz do Lobo, por meio de um implante num de seus dentes.

00zero tamales Lobo

Mas isso não quer dizer que a história termina bem para os bons. A cidade de Tamales era sim, uma cidadezinha pacata antes desse monte de agentes, tanto do bem como do mal, aparecer, e os moradores locais se ressentem um bocado da bagunça toda, descontando no ZÉro e na Hari.

O Assalto Perfeito

Esta é uma história dos Irmãos Metralha, publicada pela primeira vez em 1975.

O plano do tal “assalto perfeito” é do Vovô Metralha, que costuma ter um pouco mais de cabeça que os outros, apesar da ocasional caduquice, mas de resto basta dizer que o Metralha 1313 está presente. A partir daí, o leitor não precisa esperar nada mais do que um erro espetacular e hilário atrás do outro.

O alvo do ataque também é escolhido a dedo por papai para o fracasso da missão: trata-se de uma usina de açúcar no dia anterior ao do pagamento dos funcionários, e os Metralhas esperam encontrar os cofres cheios de dinheiro.

Metralhas lama

Para começar com o desfile de fracassos, um ou mais para cada etapa do plano, está caindo a maior tempestade. Mas adiar a execução do assalto significaria uma espera de um mês inteiro, então eles saem do esconderijo assim mesmo. A descida num barranco de terra no caminho da usina com essa chuva toda se transforma num tobogã enlameado, mas os trovões abafam a barulheira da queda e da briga que se segue, e a desculpa que eles encontram para bater na porta até que funciona.

Metralhas 1313 velhinha

Mas é quando eles estão quase estourando a porta do cofre com bananas de dinamite que o plano dá errado de vez:

Metralhas cana

Até aí, de trapalhada em trapalhada, e de risada em risada, o leitor já quase se esqueceu de qual é mesmo o local que os Metralhas estão assaltando. Os próprios bandidos já se esqueceram do “detalhe”. Mas papai não. Afinal de contas, essa é justamente a ideia que “amarra” a trama toda num conjunto coeso. E é esse “pequeno detalhe” que vai mandar a quadrilha para a cadeia novamente.

E tem também o livro de papai, bem aqui.

Agência Moleza De Investigações

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1975.

Aqui vemos que o endereço Vila Xurupita/Morro do Papagaio já existe, e a história em si é inspirada em mais de uma novela policial da Agatha Christie, daquelas que papai gostava de ler.

ZC anuncio moleza

 

“Vila Xurupita” foi um nome que papai inventou para fazer os censores militares da época de bobos, já que a palavra em si tem uma conotação sexual e pejorativa, um obscuro xingamento dirigido a crianças do sexo feminino, algo que de outro modo dificilmente seria usado nos quadrinhos Disney.

Já o “Morro do Papagaio” foi em parte inspirado no Morro do Pavão, no Rio de Janeiro, onde papai colheu nos anos seguintes muitas ideias para histórias, conversando com a população local.

A ambientação da história em si não poderia ser mais clássica: um milionário que se curou recentemente de uma surdez graças a um aparelho de audição novo, suspeita que há uma conspiração de seus herdeiros para matá-lo e ficar com a herança.

Há mais ou menos uma dezena de pessoas vivendo com ele na mansão, entre parentes e empregados, e todos são suspeitos. O Zé é contratado porque consegue convencer o ricaço de que o fato de não se parecer com um detetive é o seu maior trunfo para manter as investigações secretas, e juntamente com o Nestor é levado à mansão para iniciar as investigações.

ZC sobrinhos  ZC sobrinhas mordomo

A técnica narrativa, aqui, é também clássica das histórias policiais: o culpado é sempre o personagem mais óbvio e menos suspeito, e de tudo um pouco é feito para confundir o leitor e desviar sua atenção para comportamentos suspeitos de outros personagens. Há pistas falsas e armadilhas – algumas bem perigosas – por todos os lados, e em quase todos os quadrinhos há um parente do Comendador em atitude suspeita, vigiando os detetives, ou olhando de soslaio. Em dado momento, a suspeita é lançada até mesmo sobre o próprio milionário.

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O Zé e o Nestor conseguem desvendar o mistério no final, meio por acidente, mas conseguem, e esta é uma das raras vezes em que tudo termina bem para eles, com direito a recompensa e tudo.

E só um esclarecimento: o Renato Canini desenhou esta história. Ele desenhou, muito bem aliás, mas só desenhou. Desenhar uma história não dá a artista nenhum a autoria da história. O autor dela é Ivan Saidenberg, o meu pai. Foi papai quem criou a trama de mistério, e os personagens que participam dela, os diálogos, etc. O Canini só, apenas, única e exclusivamente, desenhou. Eu gostaria muito que alguns fãs dos quadrinhos Disney, e especialmente os donos de outros blogs mais influentes que o meu, entendessem isso e parassem de dar automaticamente ao Canini o crédito por tudo o que papai fez, só porque ele é o desenhista. Não é justo, nem para a memória do desenhista, e nem para a memória do meu pai (o escritor). Obrigada.

Já passou pela Amazon hoje para ver o livro de papai? É aqui.

O Grande Gênio

História do Peninha na agência do Pato Eurico, publicada pela primeira vez em 1975.

O Pato Eurico é um personagem criado fora do Brasil. Lá, ele é o tipo de trambiqueiro que faz qualquer negócio, incluindo vender gelo para esquimós, por exemplo. Em 1965 ele apareceu numa história estrangeira como publicitário, e 10 anos depois papai o “adotou” para fazer o mesmo papel, contracenando com o Peninha, sob a justificativa de que seria seu colega de escola primária.

Esta é a primeira de três histórias que papai escreveu com o Eurico, duas das quais com o Peninha fazendo o papel de “gênio da publicidade”. Aqui vemos o Peninha voltando a Patópolis de avião após ser acidentalmente embalado e despachado, em seu mais recente local de trabalho – uma empresa de embalagens – para Hula Hula, uma paradisíaca ilha nos mares do sul.

No aeroporto que ele encontra o Pato Eurico, que está voltando da Europa com uma campanha nova para a agência dele fazer. É aí que o Peninha, acreditando já ter perdido o emprego na embaladora, resolve pedir emprego para o Eurico, que então o deixa a cargo de responder a vários interfones que ficam sobre uma mesa.

O problema começa quando o Peninha passa a responder a todos os interfones de uma vez só, criando a maior confusão, o maior “telefone sem fio”, entre os diversos departamentos da agência. O “bate boca interfônico” é tão grande, que os aparelhos chegam a pular da mesa.

Peninha interfones

É quando o Peninha vai à sala de reuniões pedir demissão que sua “carreira de gênio publicitário” tem início.

Deparado com um pedido de sugestão para aumentar as vendas de um produto, a primeira ideia do Peninha é aumentar… o produto! Na verdade, não é má ideia, em se tratando de uma caixa de cereais matinais. São comuns até hoje as embalagens “econômicas”, “tamanho família” e afins, algumas até prometendo uma certa porcentagem de produto “grátis”.

É uma boa estratégia de vendas, e todos ganham um pouquinho com ela. Essa é a “veia de publicitário” de papai falando mais alto, já que em pelo menos um momento em sua vida ele chegou a colaborar com algumas agências de publicidade em Campinas, para ver se conseguia entrar nesse mercado. Não sei por que não conseguiu, mas ganham os quadrinhos, de qualquer maneira.

Peninha genio

O Eurico, que pode ser um louco mas é bom publicitário, gosta, e promove o Peninha a “gênio da propaganda”, entregando a ele a marca registrada, o “uniforme” do departamento de criação da agência: os grandes óculos redondos e sem lentes, igual à dos óculos do próprio chefe, símbolo da “genialidade”, ou capacidade intelectual, dos publicitários da agência.

Durante algum tempo o Peninha se dá bem, ganha uma sala só para ele, e mordomias mil. Quando novamente se faz necessário que ele use o seu “talento genial” para fazer uma campanha, ele incorre no erro de muitos profissionais de propaganda do mundo real: tentar repetir a mesma “fórmula de sucesso” em todos os produtos que promove. Assim, ele novamente manda aumentar o tamanho do produto – uma revista – desta vez com resultados desastrosos.

E é assim que o Peninha vai parar novamente em Hula Hula, desta vez sem pressa de voltar.

Peninha embalagem

O Abominável Peninha Das Neves

História do Peninha, publicada pela primeira vez em 1976.

Mitos e lendas dos mais variados sempre forneceram uma infindável fonte de inspiração para as histórias de papai, isso sem contar que ele também se interessava muito pela pesquisa e especulação sobre seres míticos como o Ieti, também conhecido como o Abominável Homem das Neves.

O maior problema que há com esses seres lendários é que eles são abominavelmente elusivos. Apesar disso, o Peninha consegue convencer o Tio Patinhas a enviar a ele e ao Donald aos Himalaias, mais exatamente na região entre os montes Annapurna e Everest, justamente para procurar pelo monstro.

A princípio os nativos os tratam como turistas e querem vender um monte de mapas e guias, mas ao saberem que se trata de uma busca ao abominável, saem todos de cena, rapidinho. Quando os nossos heróis já estão quase desistindo, surge um nativo apavorado que dá a entender que viu o bicho.

Nativo Ieti

A história continua assim, entre pistas falsas e verdadeiras, entre a esperança de encontrar o monstro e a desilusão. Até mesmo o pesquisador, um certo Professor Hermann Kada, que os patos encontram numa barraca no meio da neve, e que já está lá há meses atrás do monstro, está pensando em desistir. O nome desse professor é mais um dos cacófatos/trocadilhos que papai adorava usar.

Como último recurso ele prepara um prato de salmão com ervas locais que, no dizer dos os nativos, atrai o monstro… e não é que ele aparece? Enorme, 3 ou 4 metros de altura, peludo, feroz.

Ieti barraca

Eis aí o Ieti, para todos verem e até fotografarem. Mais um mistério da humanidade é revelado! Donald e Peninha voltam felizes para Patópolis, e o pesquisador decide ficar por mais uns meses, à procura de um novo avistamento que ele possa documentar de modo científico.

Peninha Ieti

Mas, como eu disse no início, o problema é que esses seres lendários costumam ser abominavelmente elusivos, e apesar da foto (será que o adjetivo “abominável” para o Peninha no título se refere ao grau de habilidade dele com a câmera?), nossos heróis continuam sem a prova que procuravam.

Menos elusivo é o livro de papai, que pode ser encontrado bem aqui.

Um Alfaiate Sobre Medida

História do Peninha, de 1978.

Para começar a comentar esta história, é primeiro preciso explicar que o erro de português no título é intencional. Muita gente costuma se confundir com os prefixos sob e sobre, tocando as bolas, e é a isso que papai se refere, com este título.

A música que o Peninha está cantando no primeiro quadrinho é uma valsinha do Luiz Gonzaga, que pode ser ouvida aqui.

Peninha costura

O fato é que o nosso pato fez um curso de corte e custura por correspondência, e resolveu abrir uma alfaiataria. Como fez a propaganda prometendo um terno grátis para o primeiro freguês, adivinhem quem fez a primeira encomenda? Pois é, o Tio Patinhas. Pelo menos ele teve o bom senso de dar o tecido para o terno, que é para o Peninha também não ficar no prejuízo.

Entre panos cortados de qualquer jeito, dedos cortados com a tesoura, e as costumeiras interrupções do Tio Patinhas (que não larga do pé nem fora da redação da Patada), ainda por cima o nosso alfaiate de primeira viagem também se vê às voltas com dois fugitivos da polícia, o Bigode e o Comprido.

No afã de se disfarçarem, os dois entram na alfaiataria do Peninha e exigem paletós novos, a serem feitos com o tecido do Patinhas, já que ele era o único disponível. Outra coisa comum que leva a erros na alfaiataria é quando o cliente não aceita a forma de seu corpo, e obriga o alfaiate a fazer as roupas para as medidas que ele acha que tem, como no caso dos nossos bandidos.

Peninha medidas

Depois de muita correria com a polícia, os paletós mal cortados acabam levando à prisão dos bandidos e são devolvidos ao Peninha pela polícia. O mais engraçado é que o paletó menor acaba servindo no Tio Patinhas, para a sorte do Peninha. Disso, aliás, podemos deduzir que o Tio Patinhas (e outros membros da Família Pato) tem exatos um metro e cinquenta de altura.

Agora só falta achar uma explicação para a existência do paletó maior, que ficou… “sobre medida” (ô trocadilho… kkk)

Peninha Patinhas

E não esqueça de dar uma passadinha lá na Amazon e conferir o livro do meu pai, clicando aqui.

Pardal, O Ama-Seca

Esta história foi publicada pela primeira vez em 1972.

O nosso inventor de repente se vê às voltas com um bebê abandonado em sua porta, enquanto tenta terminar um invento sob encomenda e se incomoda com as frequentes interrupções causadas por vendedores que tocam frequentemente a campainha.

Está aí uma profissão que quase não existe mais, a do vendedor de quinquilharias de porta em porta. Ao que parece eles já foram bastante abundantes numa época anterior à dos altos arranha céus, quando a maioria das pessoas ainda morava em casas térreas. Diz-se que essas criaturas extintas podiam ser bastante irritantes, tanto pelas constantes interrupções que causavam na vida das donas de casa, como também por sua insistência e às vezes até métodos não muito simpáticos para “empurrar” seus produtos (e até a si mesmos) para dentro das casas das pessoas.

Daí entende-se que uma pessoa ocupada como o Professor Pardal não goste nem um pouco deles. Mas desta vez quem bate à porta não é nenhum vendedor, mas sim alguém que acaba de deixar um bebê num cesto diante da porta, completo com a clássica nota que pede para que “cuidem bem deste bebê”.

É tarde para levar a criança às autoridades, na opinião do Pardal, e ele resolve cuidar do bebê até o amanhecer, quando então o levará até a delegacia de polícia mais próxima.

Logo fica claro que o inventor não faz ideia de como tratar uma criança pequena, e só o seu constrangimento já é motivo de riso para o leitor. Para suprir essa deficiência, ele então é obrigado a abandonar o projeto sob encomenda, e começa a inventar máquina atrás de máquina para ajudá-lo na tarefa de dar de mamar, trocar fraldas, ninar, dar banho, etc.

pardal bebe

Isso, é claro, depois de “inventar” a mamadeira feita de leite em pó e água, como quem “inventa a roda”.

pardal leite

Por fim, ele consegue chegar à delegacia, onde encontra a mãe do pimpolho aos prantos e acaba tendo de dar muitas explicações antes de ser liberado para ir para casa.

É só então que todos os fios das meadas da trama se “amarram” num só: o tal invento sob encomenda era para o Gansolino, que virou vendedor de porta em porta, e ainda por cima tenta “empurrar” ao Pardal um livro sobre… como cuidar de bebês!

Esse tipo de livro, aliás, também foi muito popular nos anos 1940, 1950, 1960 e 1970. Mamãe tinha, em lugar de honra na estante, um exemplar já bastante folheado de “A Vida do Bebê”, de autoria do Dr. Rinaldo De Lamare. Desconfio que mais de uma geração de bebês da minha família foi criada com base nele.

E por falar em livros, o livro póstumo de papai pode ser encontrado clicando aqui.

A Mascote Do Biquinho

Publicada em 1984, esta história é uma sátira aos mascotes muitas vezes inusitados que as crianças, e especialmente os meninos, gostam de ter.

As crianças em geral gostam de criar cães e gatos, algumas gostam de hamsters, chichilas, e até de peixinhos de aquário. Mas o Biquinho, sendo o patinho que é, tinha de ser diferente.

Biquinho pulgas

Ele está criando nada menos que um Circo de Pulgas dentro de um velho relógio de pulso quebrado que ganhou de seu tio Peninha, porque quer fazer apresentações e ganhar dinheiro para comprar um relógio de verdade. Além de tudo, o patinho é exigente, e não se contenta em brincar com qualquer coisa, como outras crianças.

Biquinho pulgo

Enquanto isso, tudo o que o Peninha quer é que o Biquinho pare de fazer bagunça um minutinho só e concorde em ir tomar seu banho. Aliás, eu tenho a impressão que fui eu quem disse a frase abaixo, uns anos antes:

Biquinho banho

Parte da graça das histórias do Biquinho é justamente essa: toda criança se identifica com ele, porque as muitas das situações que ele vive são hilariamente corriqueiras, coisas que poderiam acontecer, e de fato acontecem, todos os dias em todas as famílias.

Depois de muita confusão com os insetos, que não hesitam em atacar o Peninha a cada oportunidade que têm, o Pato resolve usar de psicologia infantil, e propõe dar ao Biquinho um relógio que funciona, se apenas ele concordar em trocar as pulgas por outro animal de estimação.

Peninha pulgas

Mas o Biquinho, sendo o patinho que é, tinha que escolher outro bicho nada ortodoxo.

Pois é, vai começar tudo de novo…

A História Do Computador

Em 1984, com o início do interesse das pessoas em geral pela computação como “a profissão do futuro” e a introdução dos primeiros computadores caseiros, surgiu uma ideia ambiciosa nos estúdios Disney da Editora Abril, e “A História do Computador” foi encomendada a papai, já que ele já havia demonstrado mais de uma vez que era bom em fazer pesquisas e transformá-las em histórias.

Aqui temos o Professor Pardal e o Professor Ludovico palestrando de cima de um palco às crianças de Patópolis sobre os avanços tecnológicos que, desde a pré história (contar nos dedos também é um tipo de tecnologia/técnica matemática) e até aqueles dias, haviam levado ao desenvolvimento dos computadores.

Assim, vemos a origem do cálculo, que vem da palavra “calculus” (pedra) em grego. A técnica consistia em contar ovelhas retirando uma pedrinha de uma sacolinha para cada bicho que saia para pastar. Se ao final da tarde, quando os animais voltavam ao curral, sobrasse pedra, é porque faltava ovelha.

Pateta calculo

Daí passamos ao Ábaco, uma ferramenta oriental feita de continhas numa armação retangular, aos Quipus dos Incas, uma ferramente semelhante ao ábaco, os inventários agrícolas sumérios gravados em tabuinhas de argila, os numerais romanos, os numerais arábicos, e a coisas como a máquina de Antiquítera, enquanto apresenta ao leitor grandes matemáticos e cientistas de todos os tempos, de Pitágoras a Robert Noyce, criador do chip de computador e do circuito integrado.

Digna de nota é a inserção que papai fez da participação dos Hebreus e Judeus na história da matemática, demonstrando como eles contavam usando as letras do alfabeto Hebraico, e até mesmo contando a história do Golem de Praga, equiparando-o a uma espécie de precursor da robótica.

numeros hebraicos

Uma curiosidade é que papai pediu para os desenhistas representarem os judeus de Praga com um “xale de franjas” nos ombros, uma referência ao Talit, um xale que os homens judeus usam para rezar, mas não achou nenhuma foto para mostrar a eles. O resultado foi o que se vê abaixo: nada parecido, mas na verdade não importa muito. O mais importante é contar uma história divertida.

Golem 1    Golem 2

Por fim, temos uma demonstração de robôs e autômatos dos mais variados tipos, entre os inventados, como a Máquina Talvez e os reais, como o AROK, inventado por Ben Skora, e uma demonstração prática sobre redes de computadores e games (esta, para a alegria da criançada de Patópolis).

É claro que é uma história longa e cheia de detalhes técnicos que tentam explicar tecnologias de última geração que nem papai conseguiu compreender completamente, e alguns erros de terminologia aconteceram, como chamar os chips de “pastilhas de silício”, por exemplo. Mas nada disso prejudica a história e a graça que ela tem, como uma introdução leve e bem humorada a um assunto realmente complexo. A intenção de papai ao escrever  esta história em quadrinhos nunca foi ser completamente exato, mas apenas fazer uma introdução bem humorada ao tema. Era criar interesse por meio do riso.

Para quem queria informações mais técnicas e acuradas, um outro caderno acompanhava a revista, escrito por um xará, um certo Ivan Haro Martins, contando a história de um menino do século XXI e fazendo previsões futuristas enquanto conta a história dos computadores em formato texto, mais completo e didático.