A Fada-Madrinha

História do Zé Carioca, publicada em 1974.

Em mais uma mistura de personagens de “universos” diferentes, a bruxinha Magali está em viagem de férias ao Rio de Janeiro, onde ela encontra por acaso um Zé Carioca que não acredita em histórias de fadas, e ainda ri delas. É aí que ela tem a ideia de se fazer passar por fada, só para atazanar a vida dos dois preguiçosos descrentes.

ZC fada

Usando as palavras mágicas e também os truques de transformação da fada madrinha da Cinderela, a bruxinha começa a sua brincadeira transformando uma abóbora numa carruagem. Até aí, essa é só a introdução da história.

O caldo começa a engrossar quando os dois amigos primeiro brigam pela “propriedade” da fada, e depois têm ambos a mesma ideia sobre o que pedir, ao mesmo tempo. Mas como no fim eles ganham apenas um de cada, o jeito é fazer as pazes e tentar lucrar o máximo com a situação.

ZC fada pedidos

Até aí, entre a ida ao banco na cidade no carrão para trocar o saco de moedas, nenhuma maior que 50 centavos, e arranjar um comprador para o iate e o resto das confusões, o leitor já até esqueceu que tipo de magia a bruxinha está usando para criar tudo aquilo. O efeito cômico é criado quando o efeito dos feitiços passa, e os objetos de luxo voltam ao seu estado original, incluindo as moedas, que não passavam de sementes de abóbora.

ZC abobora

Já a Magali certamente se divertiu à beça com a palhaçada, mas não vai ficar impune por ter enganado os nossos heróis. No fim, bem o fim, o feitiço vira contra a feiticeira, mas o Zé e o Nestor nem se dão conta disso. Isso é algo que só o leitor vê.

Pena David

História do Peninha, escrita em 1984 e publicada em 1986.

Papai tinha um jeito todo seu de recontar as histórias da Bíblia, mantendo-se geralmente fiel e respeitoso ao original, mas tornando hilárias até as histórias mais dramáticas. Esse hábito dele era inspirado nos costumes da festa judaica de Purim, quando é permitido interpretar a Torá de um modo cômico, entre outras coisas.

É nesse espírito, então, que o Peninha se torna o jovem que viria a ser o Rei Bíblico David, em seu momento mais dramático: a luta contra Golias de Gate, que levaria à vitória do povo de Israel sobre os Filisteus.

Na história de papai o jovem David não é lá muito bom no manejo da funda, e logo de saída acaba acertando uma pedrada na cabeça de alguém. Há também uma ou outra piada menos ortodoxa ainda, como a placa abaixo:

Pena David Belem Brasilia

Chamado ao palácio do Rei Saul para consolar seu espírito atormentado, Pena David toca sua harpa em ritmo de rock, o que, surpreendentemente, agrada ao rei. Uma das canções que ele toca para o rei é “Eu sou Boy“, de Kid Vinil e o grupo Magazine, que foi sucesso naquela época.

Pena David Rock

Pena David então descobre que a guerra está sendo travada na base dos xingamentos, tanto escritos quanto orais. Mas pior que isso é que ninguém tem coragem de enfrentar o mais desbocado dos inimigos, a quem papai chama de Piolhosteus (uma referência bastante óbvia a piolhos), um gigante de 3 metros de altura. Já a cena do enfrentamento entre David e Golias está absolutamente fiel ao original. Na cópia que tenho da revista, papai adicionou um símbolo ao escudo do Golias com caneta azul, mas desconheço o significado. Já a passagem bíblica era uma das preferidas dele:

Pena David Golias

Papai se divertia um bocado também com as representações que fazia de palavras de baixo calão, cheias de cobras, lagartos, e objetos pontiagudos. A intenção de “ferir” é clara, e reza a lenda que algumas dessas representações tinham até tradução. Mas, ou o meu vocabulário de palavrões não é lá muito bom (rs), ou essa tradução só era clara para ele próprio.

Pena David xingamentos  Pena David xingamentos1

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O Ladrão Robadô

História do Urtigão, criada em 1982 e publicada pela primeira vez em 1986.

O título da história reflete o modo de falar do Urtigão, cheio de erros de português e regionalismos. De um modo simples e despretensioso, este é um mistério policial, com um desaparecimento a ser investigado, e uma divertida surpresa no final.

Nosso herói vai a Patópolis, mais exatamente à feira dos fazendeiros, para investigar o sumiço de uns “bichinhos” que ele acredita que foram roubados de seu sítio. Enquanto ele espera à mesa de uma lanchonete (para não atrair a atenção) até que algum suspeito apareça, os sobrinhos do Pato Donald aparecem, dispostos a gastar suas mesadas com sucos e sorvetes.

Urtigao meninos joca

Na descrição que ele faz dos bichos para os meninos, os desaparecidos fazem “có có có recó”, o que nos faz pensar em galinhas. Ao mesmo tempo fica a dúvida, pois dificilmente o experiente sitiante Urtigão não saberia o que é uma galinha. A principal pista do nosso mistério está aí: cacarejam, mas não são galinhas. Do jeito que o caipira fala, o leitor fica na dúvida até mesmo se são pássaros.

Urtigao meninos

Depois de causar a maior confusão na feira ao perseguir suspeitos e derrubar e quebrar coisas, gastando todo o dinheiro da colheita para pagar os prejuízos, o Urtigão deixa que os meninos o levem até a casa do Donald, para ver se o tio pode ajudar em alguma coisa. No caminho, o capiau ainda deixa escapar que os bichinhos desaparecidos são azuis, o que causa estranheza nos meninos. Que raio de bicho é esse? Será que o Urtigão finalmente endoidou?

Por coincidência, é no quintal dos meninos que os “bichinhos” estão. São pássaros, afinal de contas. Periquitos australianos, azuis como um céu de primavera, empoleirados numa árvore e cacarejando barulhentamente como galinhas. Não foram roubados, mas simplesmente fugiram em bando para explorar a região.

Urtigao periquitos

Reza a lenda que esses passarinhos podem aprender a falar, mas eu cheguei a ter alguns, e apesar dos nossos esforços “educacionais”, nunca ouvi sair deles outro som que não fosse nada mais que o natural para a espécie.

Enfim, a explicação para o cacarejar dos periquitos é que eles foram criados no galinheiro, por falta de lugar melhor no sítio. E por falar em galinhas, uma das cenas de bagunça na feira tem uma divertida correria atrás de algumas delas. Esta é uma lembrança de infância de papai, que quando criança morou numa fazenda e não raro caçava galinhas no terreiro para o almoço.

Urtigao galinhas

Viagem À Terra Do Nunca

História do Zé Carioca e do Nestor, publicada pela primeira vez em 1981.

Papai gostava muito de se divertir misturando personagens de “universos” diferentes, que normalmente têm pouco ou nenhum contato entre si. Neste caso, nossos heróis cariocas acabam indo parar na Terra do Nunca.

Eles saíram num bote a remo para pescar no mar do Rio de Janeiro, se perderam, e acabaram se deparando primeiro com O Corvo de Edgar Allan Poe, personagem célebre que faz uma participação especial, repetindo ao longo da história toda o seu lúgubre “nunca mais” em momentos significativos, e em seguida com o navio do pirata do Capitão Gancho, que os aprisiona na esperança de atrair o Peter Pan para uma armadilha.

ZC piratas

O Corvo age como um “coringa”, também, intervindo em momentos cruciais durante a história, como quando leva as chaves no bico para ajudar a libertar nossos heróis. Afinal, o Nestor também é um corvo, e diz o ditado que “pássaros da mesma plumagem voam juntos”.

ZC Corvo

O Zé e o Nestor acabam tendo a “experiência completa” da Terra do Nunca: após escapar do navio pirata, ainda têm de fugir a nado do Crocodilo Tic Tac (o Zé não tem sorte, mesmo: quanto mais ele reza, mais jacaré aparece… rsrsrs) e se justificar para os Meninos Perdidos, já na praia.

ZC TicTac

Eles acabam, inclusive, ajudando o Peter Pan e sua turma a libertar a Rainha das Sereias, que o Gancho capturou no lugar dos dois forasteiros, determinado a tentar atrair o moleque voador para uma emboscada.

ZC Peter

O “Pirata da Perna de Pau” é o tema de uma antiga marchinha de carnaval originalmente cantada por Braguinha, em 1946. Até voar com o pó de pirlimpimpim eles conseguem! Uma aventura e tanto, sem dúvida.

ZC voando

Confusão Em Los Tamales

Quem julga só pelo nome poderia achar que esta é uma história do Pena Kid. Mas não, esta história, publicada pela primeira vez em 1980, é protagonizada pelo 00-ZÉro e pela Pata Hari.

O Tamal é um alimento do México, que tanto pode ser doce como salgado, similar à nossa Pamonha.

Como em toda boa história de gentes secretos, nada nem ninguém, aqui, é o que parece ser. A “calma, tranquila e pacata” vila mexicana para a qual nossos agentes são enviados está dominada pela Bronka, que está usando o lugar como base.

Os clichês de histórias de agentes secretos como o “Agente 86” são abundantes, a começar pela necessidade de se falar uma senha como identificação para um contato. O “portunhol” é a língua franca da história, e há também uma referência a uma piada meio antiga, sobre o brasileiro que vai para o Paraguai logo depois da guerra (a do Paraguai, qual outra haveria de ser? Eu avisei que a piada era velha) e pergunta em português ao primeiro camponês que vê: “Ei, amigo, aquela é a igreja de Bom Jesus?” Ao que o paraguaio responde: “Ninguno de los dos!”

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Logo os nossos heróis se veem cercados de agentes da Bronka, e apesar da costumeira ferocidade do Lobo, mesmo assim eles são obrigados a bater em retirada. Mas hoje decididamente não é o dia deles. Os agentes da Bronka roubam até o veículo mutante, e deixam os agentes a pé.

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A surpresa da história é o Lobo, que de repente começa a falar, e a dar instruções aos colegas. Assim, eles conseguem se esconder numas cavernas próximas, até o perigo passar e os bandidos serem presos pela polícia, que foi avisada pelo chefe dos nossos amigos. Que é, também, a pessoa por trás da voz do Lobo, por meio de um implante num de seus dentes.

00zero tamales Lobo

Mas isso não quer dizer que a história termina bem para os bons. A cidade de Tamales era sim, uma cidadezinha pacata antes desse monte de agentes, tanto do bem como do mal, aparecer, e os moradores locais se ressentem um bocado da bagunça toda, descontando no ZÉro e na Hari.

O Assalto Perfeito

Esta é uma história dos Irmãos Metralha, publicada pela primeira vez em 1975.

O plano do tal “assalto perfeito” é do Vovô Metralha, que costuma ter um pouco mais de cabeça que os outros, apesar da ocasional caduquice, mas de resto basta dizer que o Metralha 1313 está presente. A partir daí, o leitor não precisa esperar nada mais do que um erro espetacular e hilário atrás do outro.

O alvo do ataque também é escolhido a dedo por papai para o fracasso da missão: trata-se de uma usina de açúcar no dia anterior ao do pagamento dos funcionários, e os Metralhas esperam encontrar os cofres cheios de dinheiro.

Metralhas lama

Para começar com o desfile de fracassos, um ou mais para cada etapa do plano, está caindo a maior tempestade. Mas adiar a execução do assalto significaria uma espera de um mês inteiro, então eles saem do esconderijo assim mesmo. A descida num barranco de terra no caminho da usina com essa chuva toda se transforma num tobogã enlameado, mas os trovões abafam a barulheira da queda e da briga que se segue, e a desculpa que eles encontram para bater na porta até que funciona.

Metralhas 1313 velhinha

Mas é quando eles estão quase estourando a porta do cofre com bananas de dinamite que o plano dá errado de vez:

Metralhas cana

Até aí, de trapalhada em trapalhada, e de risada em risada, o leitor já quase se esqueceu de qual é mesmo o local que os Metralhas estão assaltando. Os próprios bandidos já se esqueceram do “detalhe”. Mas papai não. Afinal de contas, essa é justamente a ideia que “amarra” a trama toda num conjunto coeso. E é esse “pequeno detalhe” que vai mandar a quadrilha para a cadeia novamente.

E tem também o livro de papai, bem aqui.

Agência Moleza De Investigações

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1975.

Aqui vemos que o endereço Vila Xurupita/Morro do Papagaio já existe, e a história em si é inspirada em mais de uma novela policial da Agatha Christie, daquelas que papai gostava de ler.

ZC anuncio moleza

 

“Vila Xurupita” foi um nome que papai inventou para fazer os censores militares da época de bobos, já que a palavra em si tem uma conotação sexual e pejorativa, um obscuro xingamento dirigido a crianças do sexo feminino, algo que de outro modo dificilmente seria usado nos quadrinhos Disney.

Já o “Morro do Papagaio” foi em parte inspirado no Morro do Pavão, no Rio de Janeiro, onde papai colheu nos anos seguintes muitas ideias para histórias, conversando com a população local.

A ambientação da história em si não poderia ser mais clássica: um milionário que se curou recentemente de uma surdez graças a um aparelho de audição novo, suspeita que há uma conspiração de seus herdeiros para matá-lo e ficar com a herança.

Há mais ou menos uma dezena de pessoas vivendo com ele na mansão, entre parentes e empregados, e todos são suspeitos. O Zé é contratado porque consegue convencer o ricaço de que o fato de não se parecer com um detetive é o seu maior trunfo para manter as investigações secretas, e juntamente com o Nestor é levado à mansão para iniciar as investigações.

ZC sobrinhos  ZC sobrinhas mordomo

A técnica narrativa, aqui, é também clássica das histórias policiais: o culpado é sempre o personagem mais óbvio e menos suspeito, e de tudo um pouco é feito para confundir o leitor e desviar sua atenção para comportamentos suspeitos de outros personagens. Há pistas falsas e armadilhas – algumas bem perigosas – por todos os lados, e em quase todos os quadrinhos há um parente do Comendador em atitude suspeita, vigiando os detetives, ou olhando de soslaio. Em dado momento, a suspeita é lançada até mesmo sobre o próprio milionário.

ZC flecha

O Zé e o Nestor conseguem desvendar o mistério no final, meio por acidente, mas conseguem, e esta é uma das raras vezes em que tudo termina bem para eles, com direito a recompensa e tudo.

E só um esclarecimento: o Renato Canini desenhou esta história. Ele desenhou, muito bem aliás, mas só desenhou. Desenhar uma história não dá a artista nenhum a autoria da história. O autor dela é Ivan Saidenberg, o meu pai. Foi papai quem criou a trama de mistério, e os personagens que participam dela, os diálogos, etc. O Canini só, apenas, única e exclusivamente, desenhou. Eu gostaria muito que alguns fãs dos quadrinhos Disney, e especialmente os donos de outros blogs mais influentes que o meu, entendessem isso e parassem de dar automaticamente ao Canini o crédito por tudo o que papai fez, só porque ele é o desenhista. Não é justo, nem para a memória do desenhista, e nem para a memória do meu pai (o escritor). Obrigada.

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