Reunião A Todo Vapor

História da Margarida, de 1975.

Em alguns países ao redor do mundo, e especialmente nos Estados Unidos e alguns países da Europa, acreditava-se que toda mulher tinha, ou pelo menos deveria ter, um diário pessoal onde relatar um pouco de tudo sobre suas vidas. Pelo menos, até uns anos atrás era moda encorajar as meninas a ter algo assim. Muitas mulheres provavelmente até tinham o tal diário, a mais notória delas é certamente Anne Frank

Antes do advento da Internet, esses diários escritos a mão em livros especialmente fabricados para esse propósito, alguns munidos até de fechos com um minúsculo cadeado, ou mesmo simples cadernos, serviam como histórico pessoal, registrando segredos indizíveis ou mesmo meros desabafos, cenas do dia a dia em diversos graus de monotonia, ou não, ou interações sociais.

Este é o caso desta história. A Margarida, como típica moça do seu tempo, tem seu diário, onde registra os encontros do seu clube feminino. Essa série de histórias começou nos anos 1950, fora do Brasil. São histórias mais ou menos “contadas” por meio de entradas do diário, como se a pata nos tivesse permitido pegar o seu caderno nas mãos e ler alguma passagem.

Essa curiosidade, aliás, era comum entre maridos, parentes e amigos(as) das diaristas. Daí a necessidade se se usar cadeados e esconderijos para se tentar proteger a privacidade da escritora, já que a leitura não autorizada de certas passagens mais sensíveis poderia se desenvolver em um grande problema. A mera descoberta do fato que a mulher mantinha um diário poderia ser um problema. Como tudo o que as mulheres faziam para elas mesmas, por elas mesmas, o diário muitas vezes deveria ser mantido em segredo.

Coisa, aliás, que esta história quase nem tem. Simples e direta, ela se inicia num passeio na casa-barco da excêntrica Baronesa Ricarda, uma nova associada do clube feminino, uma embarcação muito similar aos vapores que se tornaram populares no Rio Mississípi, nos EUA, a partir dos anos 1850.

O amistoso e pacato chá da tarde é brutalmente interrompido por um solavanco do barco, e uma coisa vai levando à outra, até que as nossas amigas se vêem à deriva no mar.

Com o leme quebrado e sem nem mesmo um telégrafo à bordo (rádio nem pensar), as moças não têm como pedir ajuda e resolvem começar um racionamento de biscoitos, entre uma crise de choro e outra. A dona do barco se mostra confiante na hora de pilotar, mas pelo jeito não sabe nada de mecânica, e é incapaz de fazer os reparos necessários.

Patas barco

Elas são finalmente salvas por marinheiros bonitões de um navio comercial que acabou passando por perto, e por motivo de segurança aprovam uma regra para seu clube proibindo reuniões em barcos.

Patas marinheiros

Aqueles eram tempos nos quais as mulheres ainda eram vistas como seres frágeis e pouco compatíveis com grandes máquinas. Notável é a passividade das moças, às quais não resta outra alternativa que não seja chorar e esperar pelos homens que finalmente as socorrerão da encrenca em que elas mesmas se meteram.

Papai tentava não retratar mulheres de forma negativa em suas histórias, mas os costumes da época e o “estilo Disney” muitas vezes reforçavam bastante o estereotipo do “sexo frágil”.

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2 opiniões sobre “Reunião A Todo Vapor

  1. Antes de mais nada, gostaria de agradecer pelo tempo que você tem dedicado a essa página comentando de forma pertinente e inteligente as hqs escritas pelo Ivan Saidenberg. Seria ótimo se outros herdeiros de grandes quadrinistas como seu pai se preocupassem em divulgar o trabalho de quem muito contribuiu para o progresso das hqs Disney e zelar pelo respeito a essa mesma contribuição.

    Quanto à questão do machismo envolvendo a reação desesperada das moças diante do incidente no barco a vapor, encaro essa reação como uma brincadeira com as donzelas enjoadas de outrora, até porque a Margarida, a Clarabela, a Clara de Ovos e a Ricarda não são exatamente mocinhas de filme antigo.

    Em tempo: gosto muito da personagem Ricarda, mais uma genial criação da dupla Al Hubbard & Dick Kinney, mas creio que ela originariamente não tinha o título de baronesa, o qual teria sido dado a ela no Brasil. De qualquer forma, o título combina com ela, que proveio de uma família de aristocrata.

    Saudações,

    Fábio

    • Obrigada pelo comentário, Fábio!
      Pode ser, sim, uma brincadeira, já que tudo na história, a começar do barco a vapor e passando pelo título de baronesa, nos leva ao século 19.
      Um abraço.

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