História Da Marinha Do Brasil

História do Zé Carioca e seus sobrinhos publicada em 1974 com pesquisa e roteiro de Ivan Saidenberg e desenhos de Ignácio Justo.

Eu fico aqui só imaginando o pessoal dos ministérios da Aeronáutica e da Marinha da época competindo para ver quem encomendava a “melhor” (do ponto de vista deles, é claro) história em quadrinhos sobre suas respectivas atividades. A ideia inicial parece ter sido da Aeronáutica, mas alguém na Marinha claramente resolveu não ficar atrás.

A julgar pela fala do Zé no último quadrinho da primeira página, está claro que papai recebeu um roteiro muito exato e detalhado de como pesquisar e compor a história, com o envio de folhetos explicativos e outras instruções, já que ela (e as outras três da série) fogem completamente do estilo normal dele.

ZC Marinha

Outra coisa que chama a atenção nesta história é a ambição do cliente. A Marinha não apenas convida os personagens para dar um passeio no porta aviões Minas Gerais, como também não se limita a descrever a História da corporação. Este é um não muito sutil convite aos jovens para que se alistem na escola de oficiais, completo com instruções bastante claras de como se faz isso. Além disso, o “tom” do texto como um todo é perfeitamente ufanista.

ZC Marinha1

De resto, o “esquema” é o mesmo: muito texto, muitas explicações, uma abundância de nomes, fatos e datas que podem ser usados em trabalhos escolares, imagens detalhadas, infográficos (um deles de página inteira), e uma inovação não menos ambiciosa: entre as muitas homenagens a figurões da Marinha, de históricos a modernos, uma singela “menção honrosa” (que também revela uma grande vontade de “aproximação” do povo) a um marinheiro de baixa patente, aluno da escola naval, que salvou duas vidas em Pernambuco.

ZC Marinha2

Essas encomendas certamente faziam parte do trabalho de um autor de quadrinhos em uma grande empresa, e trabalho é trabalho (e papai era sem sombra de dúvida o escritor mais indicado para compilar estes quatro “Frankensteins” dos quadrinhos – uns mais do que outros, já que as primeiras encomendas tinham um tom bem mais sóbrio), mas realmente, ele deve ter se divertido muito com a falta de entendimento dos clientes governamentais, ansiosos por promover suas agendas num meio que “todo mundo lia”, sobre o que é realmente uma história do gênero.

É aquela coisa: se a definição do dicionário de “Dança” é “a execução de movimentos ao ritmo de música”, será que qualquer tremelique musicado é dança? Do mesmo modo, será que qualquer texto desenhado e arrumado para caber dentro de uma página cheia de quadradinhos é história em quadrinhos?

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