Je Suis Charlie

Sinto muito, mas hoje não conseguirei comentar coisas engraçadas neste blog. Hoje, eu também sou Charlie.

Esta manhã, homens mascarados e armados invadiram a redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo, no centro de Paris, matando a tiros pelo menos doze pessoas – entre jornalistas e policiais – e deixando outras cinco feridas em estado grave.

O desenhista Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb, e os cartunistas Jean Cabut (Cabu), Bernard Verlhac (Tignous), Philippe Honoré e Georges Wolinski foram mortos durante a reunião de pauta, praticamente na mesa de desenho.

Os perpetradores de tal crime? Terroristas radicais muçulmanos. O pretenso motivo? Caricaturas do Profeta Maomé publicadas por esse jornal satírico ao longo dos anos. Mas este não é um ataque apenas a esses cartunistas, ou a este jornal em especial. É um ataque ao humor, à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão e, em última instância, a toda a cultura ocidental.

A qualidade dos cartuns, se são de “mau gosto” (como dizem alguns) ou não, ou se os cartunistas “foram longe demais” também não vêm ao caso. A culpa de uma violência nunca é da vítima. Por mais controversos que eles possam ser, isso nunca deveria ser motivo para crimes de morte.

Se o surgimento do grupo terrorista islâmico Isil (e eu me recuso a chamá-los de “Isis”, nome da antiga e venerada deusa egípcia da magia e do amor, e que certamente não merece ter essa infâmia atrelada ao seu sagrado nome) ensinou ao mundo alguma coisa, é que a provocação não vem ao caso. Os jihadistas matam porque é isso que eles fazem. Não importa se você é um cartunista francês ou uma criança Yezidi, ou um trabalhador humanitário ou jornalista: se você não é um dos poucos escolhidos, você é um alvo legítimo. A provocação é apenas uma desculpa usada pelos valentões para justificar suas ações, garantindo ao mesmo tempo que o mundo se curve à sua vontade.

O jornal já havia sido atacado, com coquetéis molotov, em 2011. Na ocasião o diretor da ‘Charlie Hebdo’, Stéphane Charbonnier, afirmou: “Se nos fizermos a pergunta: temos direito de desenhar ou não Maomé, é perigoso ou não publicar, a questão que virá depois será se podemos representar os muçulmanos no jornal, e depois nos perguntaremos se podemos mostrar seres humanos…”. E mais tarde acrescentou, a respeito da ameaça feita à sua vida e da Fatwa da Al Qaeda: “Prefiro morrer de pé do que viver de joelhos.”

Papai também era um ferrenho defensor da liberdade de expressão e do direito da sátira (vejam bem, fazer sátira é um direito inalienável do artista), e tenho certeza que, se estivesse vivo, estaria tão escandalizado quanto eu com este crime que é, em todos os sentidos, um atentado não apenas contra a civilização ocidental, mas contra toda a humanidade.

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