Mil Faces O Contemplam

História do Morcego Vermelho, publicada pela primeira vez em 1977.

A frase de abertura da história, “Morcego Vermelho! Por trás desses espelhos, Mil Faces o contemplam” é uma referência à célebre declaração de um deslumbrado Napoleão Bonaparte ao pé das pirâmides do Egito: “Soldados! Do alto dessas pirâmides 40 séculos vos contemplam”. E isto, é mais do que claro, é a “marca registrada” de papai na história, a sua “assinatura”, por assim dizer.

Esta é a primeira aparição do vilão Mil Faces, um mestre dos disfarces cujo único propósito de vida é infernizar o Morcego Vermelho. Ou seja, e já que ele trabalhava em casa, sem ninguém da redação do lado para dar palpites, este vilão é mais um dos muitos personagens criados por papai para os quadrinhos Disney.

O resto da trama é a caçada ao bandido das mil caras pelo parque de diversões afora. Nesta caçada, o Coronel Cintra fará o papel de “leitor atento” e dará voz a ele. Em meio a tantas descrições diferentes e conflitantes do bandido que vai atacando uma pessoa após outra, a cada vez com uma aparência diferente, o Coronel não se deixa enganar nem uma vez.

Talvez não fique muito claro logo de cara para o leitor como o experiente policial reconhece o bandido disfarçado de marinheiro (pelo jeito de andar, que não era “gingado” como o de quem está acostumado a andar num convés balouçante de navio), mas a segunda chance que o leitor terá será mais óbvia. Deixar pistas para o leitor decifrar, aliás, é mais uma marca registrada das histórias de papai.

MOV mil faces

Este quadrinho também comprova, aliás, que ao desenhar as histórias de papai, os grandes mestres do traço que trabalhavam com ele “mandavam” no desenho bem menos do que se poderia imaginar, e estavam seguindo à risca as instruções que meu pai dava a eles, muitas vezes por meio de um rafe (rascunho). O desenhista “materializa” a história, e muito bem, sem sombra de dúvida, mas quem mandava em cada detalhe do que iria aparecer na página era papai, o argumentista. É por isso que é um absurdo olhar uma história em quadrinhos Disney e creditá-la toda ao desenhista. Se há um argumentista “por trás”, o crédito (até pelo desenho) é mais dele do que realmente do desenhista, que apenas “empresta” o seu traço, colocando-o, generosamente, a serviço do argumento.

Mas o mais engraçado nesta história é que o personagem principal não faz nada além de levar sustos e ficar confuso, mas nem por isso é considerado “menos herói”. A função dele é menos “solucionar o mistério e prender o bandido” (para isso existe a polícia) do que fazer rir, e isso ele faz, sem sombra de dúvida.

http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava