Achbar Hamidbar (O Rato do Deserto) 1991

Enquanto estávamos em Israel, papai continuou desenhando e tentando fazer algo na direção dos quadrinhos, ou charges. Mas isso infelizmente não era muito uma parte da cultura por lá, e um dos únicos jornais que publicavam charges ou páginas de quadrinhos, talvez o único na época, era o Jerusalem Post, em inglês.

O fato é que sua arte não foi lá muito compreendida pelos israelenses, mas isso não o impediu de continuar tentando. Uma de suas tentativas foi uma série de cartuns/tiras satíricas, mais ou menos no estilo do Rei Napo, mas adaptada à realidade percebida pelos novos imigrantes no país: as dificuldades em encontrar moradia a preços acessíveis, ou mesmo trabalho, o intenso calor, as dificuldades de comunicação com os israelenses nativos, e a guerra com os árabes dos países em volta.

Reconheço que o formato de “rato” dos personagens, por suas péssimas conotações na iconografia antissemita nazista, talvez não tenha sido das mais simpáticas aos olhos dos israelenses, apesar de que Art Spiegelman também usou algo parecido (e bem mais sombrio) em seu “Maus“, com bastante sucesso.

Outro problema talvez tenha sido o espírito bastante crítico das tirinhas. Na cultura israelense, não se espera que os recém chegados tenham críticas à política do país que os abriga. É visto meio que como “falta de gratidão”. Tenho certeza que a intenção de papai passou longe disso, e que tudo o que ele queria era realmente fazer humor com as próprias dificuldades, rir um pouco de si próprio numa situação séria, já que isto também é uma característica do humor judaico.

Além dos ratos, que representam os novos imigrantes e suas dificuldades de adaptação, temos também a sempre presente figura do sol escaldante acima e também os cactus, que a tudo observam, meio de longe. Na cultura israelense essas plantas espinhosas representam os nascidos no país. Na imaginação deles, se consideram “espinhosos por fora mas doces por dentro”, como os frutos do Tzabar, o cactus da Terra de Israel.

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Emprego – Rato: Mas que espantalho perfeito! Parece uma pessoa viva… – Espantalho: Sou um novo imigrante, e este é o único emprego que encontrei!

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Guerra do Golfo, 1991 – Rato: Detesto estes novos modelos… (de máscara contra gases)

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Calor – Rato 1: Está muito quente hoje! Rato 2: O calor ataca os nervos (notem o cactus ao fundo, criando vida aos poucos) Cactus: O calor resseca o cérebro! Rato 1: Quieto! Você é apenas mais um efeito do calor…

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Moradia – Rato 1: Aquele é o Boris… ele tem uma moradia melhor que a minha! Rato 2: Ele paga aluguel? Rato 1: Não exatamente… ele mora debaixo de um grande casaco, que trouxe de seu país. (A plaquinha acima do guarda chuva que serve de moradia ao rato diz: “minha mansão”)

Perdoem a qualidade um pouco estranha das imagens, mas o papel de desenho que ele usou é um pouco grande demais para a minha impressora, então decidi fotografar. Há várias outras tiras como essas, mas acho que já dá para ter uma ideia do que foi o Rato do Deserto.

A verdade é que até hoje os cidadãos de Israel, tanto imigrantes quanto nascidos lá, ainda enfrentam sérios problemas com moradia e empregos. O conflito aparentemente interminável não faz nada bem para a economia, infelizmente.

Mais sobre o tempo em que moramos em Israel pode ser encontrado no meu livro:

Marsupial: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Comix: http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=23238

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