Pena Kid contra El Sombrero

História do Peninha desenhando na redação de A Patada, de 1976.

A gente já conhece a fórmula: O Peninha está criando uma história em quadrinhos do Pena Kid, quando na verdade gostaria de estar cochilando, e o Tio Patinhas está em cima, cobrando trabalho e dando palpites. Desse modo, a história segue mais ou menos ao sabor dos comentários do Patinhas, mas nem sempre do jeito que ele quer.

Para começar, um clichê dos filmes de Caubói: o bandido não pode ser preso porque “atravessou a fronteira”, numa referência às leis dos EUA, que impedem que policiais de um estado “invadam” outro sem uma ordem judicial.

O mais engraçado é que, quando um mocinho grita para o bandido: “pare, em nome da lei”, a última coisa que ele espera é que o vilão vá realmente parar. Mas isso é também um expediente do Peninha para ver se consegue parar a história ali mesmo, afinal, o bandido está “fora do alcance” do herói. Em todo caso, ainda demonstra boa vontade, quando o truque “não cola”. Coloca a tal ordem judicial nas mãos do Pena Kid e segue com a história.

Com o passar dos quadrinhos a paciência do Peninha vai diminuindo, e a vontade de tirar uma soneca aumentando. Seguindo o bandido, nosso herói chega a Los Tamales, que em 1980 seria visitada também por 00-ZÉro e Pata Hari em outra história de Papai, já comentada aqui.

E já que o desenhista não pode tirar sua soneca, ele a “transfere” para os desenhados. É sempre “hora da siesta” na cidade. E já que está todo mundo cochilando, talvez o Tio Patinhas aceite a sutilmente colocada ideia… O que não cola, é claro. O interessante é o modo como o Peninha modifica a fala do Pena Kid e do Alazão sem mudar mais nada no quadrinho, como papai também fazia muitas vezes quando o pessoal da redação recomendava alterações na história. Naqueles tempos de lápis sobre papel, valia a lei do mínimo esforço. Mas é claro que aqui o que realmente acontece é que papai desenha o mesmo quadrinho novamente, para mostrar como é feito “o truque”.

PK sombrero

Papai aliás aproveita para colocar a si mesmo na história, de bigodes e calça vermelha:

PK sombrero1

Já a inserção da tourada não é tão aleatória quanto parece: depois de tentar declarar mais uma siesta e levar uma “patada” do tio, o Peninha resolve não deixar barato. É claro que ele não pode se levantar da mesa e revidar, afinal, seria violência demais contra um velho pato. Então a vingança vai precisar ser “virtual”, mesmo, o que, aliás, só adiciona à graça da história. Assim, é o Banqueiro Patatinhas que acaba levando a chifrada do touro:

PK sombrero2

É nos quadrinhos que o Peninha se realiza, e apesar de ainda ter de se submeter às ordens do tio, neles tem uma liberdade que não teria em sua “vida real”. É através dos quadrinhos que ele revida as grosserias do tio, e transforma a si mesmo em herói. Ou, como diria Freud: “todo homem é um super herói em seus sonhos”. Com papai não era muito diferente, dentro das devidas proporções. (Será que um dos chefes ou colegas da redação o aborreceu pouco antes desta história ser escrita, e na imaginação dele está levando a chifrada, na “pele” do personagem?)

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