Um Causo de Duvidá – Inédita

História do Urtigão, escrita e rascunhada em 5 de junho de 1993 e nunca publicada.

Este é mais um “causo” envolvendo as “Solteironas Anônimas”, em mais um plano mirabolante para tentar obrigar o Urtigão a se casar com uma delas. Mas é claro que não pode dar certo, até porque elas são três, e a rã encantada é uma só. Mesmo que elas conseguissem aparecer no lugar da rã, ia ser difícil explicar como uma virou três.

A logica da rã encantada é uma “inversão” do príncipe-sapo: se existem príncipes encantados, transformados em sapos, por que motivo não existiriam princesas transformadas em rãs? Até aí, tudo bem. Que as solteironas usem um microfone sem fio e um alto-falante escondido na coroa da sapinha, tudo bem também. Mas a coisa começa a complicar quando a rã começa a seguir o Urtigão para todo lado, por vontade própria. Rãs não fazem isso.

A canção que o Urtigão cantarola no primeiro quadrinho existe de verdade, se chama “De Papo Pro Ar” e só vai entender a história completamente quem conhece a letra. A ideia é que o Urtigão já tem tudo de que precisa para viver com pouco esforço, está feliz assim, e não precisa se casar, nem mesmo com uma princesa, para viver tranquilamente. Dinheiro, luxo e riqueza não são coisas que ele deseje.

Papai não guardou as folhas de avaliação deste último lote de histórias devolvidas, porque simplesmente não gostava delas. Às vezes era implicância dele, que realmente não gostava de ser criticado, mas neste caso eu tenho de concordar com ele. A história está perfeitamente boa do jeito que está, e as colocações do avaliador, em azul, chegam a demonstrar alguma ironia e ser francamente desdenhosas, como se procurando motivos para devolver a história.

Mas mais do que tudo, demonstram desconhecimento da letra da música, que dá o tom da história, do dialeto caipira (principalmente do Estado de São Paulo), e falta de compreensão de texto, pura e simples.

Ora vejamos: “devera” (página 4), é uma corruptela de “deveras“, que quer dizer “realmente” ou “de verdade”. Esta palavra soou familiar aos ouvidos dos imigrantes italianos que vieram ao Brasil antigamente para trabalhar na agricultura, (influenciando e sendo influenciados pelo jeito de falar dos brasileiros e contribuindo bastante para o modo de falar “caipira”), pois soa como “davvero“, cuja tradução é justamente “deveras”. Fecha-se, assim, o círculo. Ou o avaliador não conhece a palavra, ou estava de implicância. Não dá para entender.

Outra implicância está ao pé da página 5: ou será que o avaliador não sabia que quem mora em chácara ou fazenda, ou até mesmo “no meio do mato”, tem frutas à vontade e de graça (é só pegar nas árvores, ou no máximo pedir ou trocar com um vizinho)? O Urtigão já vive sem fazer nada mesmo (não é preciso ele ser rico para isso) e ossos para o Cão também não hão de faltar. De que mundo extraterrestre essa pessoa caiu?

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