O Baú Misterioso

História do Zé Carioca, publicada uma vez só em 1975.

A história trabalha as expectativas do leitor ao brincar com as dos personagens: neste caso, um “baú misterioso” vem parar nas mãos do Zé. Por serem geralmente associados a tesouros, a menção a baús, especialmente em conjunção com mistérios, logo desperta a imaginação das pessoas.

O expediente do leilão é comum em histórias em quadrinhos, e um ótimo ponto de partida para uma bela confusão. Um incauto qualquer (hoje o Zé) vai assistir a um leilão só para ver como é que é, e por acaso faz um gesto brusco que é interpretado como o lance final que arrematará um objeto. Pode ser uma coisa involuntária, como um espirro ou, no nosso caso, um aceno amigável ao leiloeiro.

(Papai uma vez me contou uma história sobre um amigo ou parente que um dia entrou em uma casa de leilões e, ao ver um belo vaso de aparência oriental sendo leiloado pelo que parecia ser um valor irrisório, resolveu dar uns lances. Foi só depois que arrematou a coisa que ele descobriu que aquilo era um antiquíssimo vaso chinês, e que o preço era *por grama* de peso do objeto. Mas regras são regras, e a pessoa teve de fazer um acordo, pagar em prestações, mas não conseguiu anular a compra.)

Além disso, temos outros elementos na história que vão se conectando como em um jogo de “ligar os pontos”. O Nestor está com fome, e entende tudo o que o Zé fala como referência a comida. Assim, “leilão” vira “leitão” em sua imaginação esfomeada, o dinheiro pago pelo baú é lamentado porque poderia comprar um sanduíche, etc.

Isso é uma referência a uma velha piada que papai contava sobre uma pessoa que estava com tanta fome que acabava entendendo “dez para as três” como “dez pastéis”. Mas, mais do que só isso, a fome do Nestor terá na trama uma função a mais: ela vai ajudar com a surpresa final.

ZC bau

Enquanto isso o Zé está às voltas com a *possibilidade* de um tesouro. O baú está vazio, mas há um mapa sob o forro, visível por um rasgo. A pista que papai dá ao leitor é o nome do antigo dono, um certo “Marquês de Qué-Qué-Qué”. Isso é uma referência à brincadeira que se fazia no passado para denotar desprezo por títulos de nobreza: o nobre é sempre um barão, marquês, duque, etc. de algum lugar. Assim, temos o “Duque de Norfolk”, o “Barão de Mauá”, e o “Conde de não sei quê”.

Além disso, a onomatopeia “qué” lembra o grasnar dos patos e é usada como riso, nas histórias Disney. No final, a busca pelo tesouro é mais importante (e mais divertida) do que achar um tesouro ou não. A parte mais importante da viagem é o caminho, dizem os sábios, e nem sempre o lugar onde se quer chegar.

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