Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Fevereiro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

07/02/1980 – Estão brincando com a gente?

As fábricas de brinquedo já estão lançando novos e sensacionais modelos de jogos, brincadeiras, quebra-cabeças, etc., no mercado brasileiro. Entre as novidades apresentadas, destacamos as seguintes:

– Jogo do “Cals não Cai” – Divertida brincadeira que consiste em saber se o Cals cai ou não cai. Na verdade, todos sabem que cai, mas não se sabe é quando cai e como cai.

– “João Teimoso” – Um boneco muito engraçado que teima em se manter de pé, apesar de muitas forças contrárias quererem derrubá-lo. A brincadeira consiste em saber se o João Teimoso ficará firme ou acabará sendo derrubado por golpes vindos de todos os lados, principalmente do lado direito.

– Balão Gigante Zédelfim – Um enorme balão inflável, que fica cada vez maior e mais imponente. Mas o zédelfim gigante, tal como a rã da fábula, não pode se inflar indefinidamente. A graça da brincadeira é saber até onde ele pode se expandir antes de estourar.

– Jogo do Xadrez – Também chamado de “jogo da prisão cautelar”. Bobeou, o parceiro perdedor vai em cana por 10 dias, sem direito a nenhuma defesa. Este jogo ainda está em estudos, mas todos afirmam que será lançado na praça brevemente. Criação de um inventor maligno chamado Erasmo Dias,

– Boliche Político – Jogo preferido por um ministro muito conhecido, que adora praticá-lo nas horas vagas. O jogo consiste em derrubar pinos com uma bola, sendo que cada pino tem a cara de um adversário político dele. O ministro já derrubou vários pinos… Resta saber quantos ele ainda derrubará nos próximos dias.

– Trem da alegria – Trenzinho a corda, preferido por um certo governador por aí. Chama-se o “trem da Alegria”, mas o único que está alegre é o próprio governador, que, aliás, está com a corda toda. O povo, por outro lado, esta torcendo para esse trem entrar no desvio.

– Maleta SNI – Dez entre dez agentes secretos usam essa maleta. Ela contém aparelhos para escuta telefônica, microfones para serem ocultos nos lugares mais incríveis, binóculos possantes, aparelhos de escuta direcional, etc.

– Guerra nas Estrelas – Jogo que exige muita habilidade e destreza. Muito praticado quando há sucessão presidencial, não pode ser, no entanto, jogado por quem não usa farda. Onde já se viu?

– Democracia Plena – Um jogo que ainda não está sendo praticado, mas que todos prometem que será levado a efeito ainda este ano. Será?

– Reforma Partidária – O quebra cabeças mais difícil que já foi inventado. Por mais que se tente, ninguém consegue montá-lo.

– Jogo de Malha – Muito praticado pela PM, que malha sem dó nem piedade, principalmente quando há greves e comícios políticos.

– Jogo da Paciência – É preciso muita paciência para aturar este brinquedo. Vai haver eleições em 1980? Em 1982 elas serão diretas? A capital será mesma mudada? Teremos um civil na presidência, em 1984? Mistério…

08/02/1980 – Ano Olímpico

Embora se fale muito em boicote, 1980 é um ano olímpico e as Olimpíadas de Moscou certamente serão realizadas. O Brasil, que nada tem a ver com a invasão da Rússia pelo Afeganistão (ou o contrário, sei lá), vai mandar uma equipe sensacional, que nos trará, certamente, muitas medalhas de ouro. Vejam só que atletas nós temos:

  1. Maluf – Especialista em corridas de longa distância e de obstáculos. Maluf já passou por cima de muito obstáculo e já deixou muita gente para trás. Corre tanto que até some de vista, vez por outra. Recentemente, andou pelas arábias, passando muitos árabes pra trás e dizendo que ganhou muitas medalhas. Anda pulando por cima de muita lei por aí.
  2. Delfim – Um pouco acima do peso ideal, este atleta, todavia, tem tudo para chegar na frente. Ele mesmo diz que “já está chegando lá”. Ele é bom na prova de revezamento, mas não costuma passar o bastão. Agora, tomar o bastão da mão dos outros é com ele mesmo. Delfim também é bom na prova de obstáculos, pois derruba todos e passa por cima.
  3. Cals – Ginasta excelente, é campeão de equilíbrio. Todos dizem que ele cai e, vai se ver, o Cals não cai. Outros mais cotados já levaram o maior tombo e o Cais continua firme, segurando nas barras paralelas. Dizem que tem as mãos oleosas e que precisa usar muito talco, caso contrário o problema do óleo poderá derrubá-lo quando menos se espera.
  4. Couto e Silva – Nadador de primeira, é especialista em nadar por baixo d’água. O homem nada o tempo inteiro e ninguém vê; enquanto o Couto nada, os outros ficam boiando. Dizem que ele está organizando um time próprio, para competir nas Olimpíadas, sem que ninguém perceba.
  5. Brizola – Grande corredor, fundista de primeira! Há mais de 15 anos, correu tanto que ninguém o alcançou. Afastado das competições olímpicas, agora está de volta. Muitos dizem que ele já não tem mais fôlego, mas quem é que sabe?
  6. Quadros – Campeão de levantamento de peso, foi o maior alterocopista que já tivemos, em todos os tempos. Pena que perdeu há muitos anos uma prova, justo quando pensava que ia ganhar a medalha de ouro. Também já está meio fora de forma, mas promete varrer os adversários da sua frente.

João do Pulo – Atleta completo! Na corrida, passou na frente de muitos adversários; no boxe, nocauteou um estudante de Florianópolis; no hipismo, nunca caiu do cavalo; no levantamento de peso, deu um duro danado; na queda de braço dizem que ninguém pode com ele. Mas o João é bom mesmo no salto tríplice… Dizem que ele conhece o pulo do gato. Se ele vai ganhar medalhas, não sei; mas não há dúvida que está fazendo uma força danada. O técnico, Sr. Farhat, diz que ele vai chegar lá…

09/02/1980 – Vem aí o “Mundialito”

Para comemorar os 50 anos da realização da primeira Copa do Mundo, o Uruguai, que sediou essa competição, em 1930, vai realizar um campeonato chamado “Mundialito”, convidando para tanto as equipes que participaram da primeira taça mundial e outros times que estiverem interessados.

Já que os Estados Unidos, misturando política com esporte, estão ameaçando não participar das Olimpíadas de Moscou, eu acho que o Brasil deveria fazer coisa parecida, boicotando o “Mundialito” no Uruguai, por diversas razões, a saber:

O governo uruguaio é uma das ditaduras mais ferrenhas e sanguinárias do mundo. Um em Cada dez uruguaios já esteve ou está preso, por motivos políticos: Como o Brasil é um País que caminha para a democracia plena, em fase de abertura e anistia, deveria repudiar esse estado de coisas.

A política do Uruguai é useira e vezeira em sequestrar cidadãos uruguaios “foragidos” (segundo ela) no Brasil. Na realidade, são cidadãos refugiados, que gozam dos direitos internacionais de asilo. Em novembro de 1978 sequestraram Lilian Celiberti e Universindo Diaz, além de duas crianças, caso que só ficou conhecido graças a dois jornalistas brasileiros. Até o presente momento ninguém foi punido por isso, nem no Uruguai e nem no Brasil, pois alguns policiais daqui foram coniventes.

Flávia Schilling, uma brasileira, está presa num cárcere político uruguaio.

Seu crime foi namorar um jovem daquele país, que era “Tupamaro”, ou seja, um guerrilheiro. Que o rapaz tenha sido preso, isso é um assunto interno do Uruguai, a bem da verdade… Mas a moça não tinha praticado nenhum crime e ainda foi baleada ao tentar fugir, no momento da captura do casal. Torturada selvagemente, deve ter confessado tudo o que inventaram para justificar o tiro que lhe deram, pois era preciso dizer que a polícia política só atiraria numa guerrilheira perigosa.

Flávia, em virtude dos “maus tratos” que sofreu (eufemismo para designar torturas), ficou muito doente e teve de ser operada de um tumor. E nem assim as autoridades (?) uruguaias se dignaram a liberá-la. Ela está mofando numa prisão de mulheres, por crimes que jamais cometeu.

Campanhas já foram feitas pela libertação de Flávia, inclusive com arrecadação de verba para pagar a taxa de carceragem (imaginem, a pessoa é presa no Uruguai, torturada e tratada como animal e, se sobrevive, ainda tem de pagar!) e nem assim soltaram a moça.

Vamos boicotar o “Mundialito” do Uruguai, se até lá não soltarem a nossa compatriota. Vamos lutar para que Flávia Schilling possa voltar ao Brasil. Liberdade é uma coisa muito perigosa, especialmente para quem ainda é jovem. Liberdade para Flávia Schilling!

15/02/1980 – Nossos Índios, Nossos Mortos

A terra de Pindorama lhes pertencia… Coberta de palmeiras e matas, onde a caça era abundante e onde plantando tudo dava. Nus, eles viviam num paraíso sem pecado, em contato com a natureza e em harmonia com a fauna e a flora. Espiritualizados, acreditavam na vida após a morte, na comunicação com os espíritos, nos deuses da natureza, da chuva, da mata, da água e do vento. O trovão, a quem chamavam Tupã, era sua maior divindade; mas também acreditavam em Tupãci, Jaci, Guaraci, Jurupari, Anhangá, Caapora, Curupira, Saci, Ruda e tantas outras divindades, às quais adoravam sem temor, pois faziam parte do mundo harmonioso em que viviam.

Guerras? Vez por outra havia desentendimentos entre tribos, os Tupis afugentavam os Tapuias para o interior, os Tupinambás tinham escaramuças com os Tupiniquins, mas tudo não passava de lutas sem maior dimensão, disputas por campos de caça ou pesca. Os nossos aborígenes eram felizes por milhares de anos, até que o homem “civilizado” chegou…

O “civilizado” mudou o nome da terra, tomou posse da mesma, afugentou, escravizou e exterminou milhões de índios, na época colonial e no tempo do império. E, até hoje, isso continua ocorrendo… Os poucos indígenas que ainda sobrevivem estão ameaçados de extinção. É uma guerra de genocídio, que prossegue sem que nenhuma providência seja tomada!

Quantos eles eram? Quatro, cinco milhões? Hoje, menos de 500 anos depois do “descobrimento” do Brasil, são poucos milhares, na maioria aculturados, transformados em caboclos miseráveis e analfabetos, vestidos com andrajos e viciados em bebida e, segundo se diz, até em maconha!

Um deputado de Roraima, da antiga Arena, hoje PDS, Hélio Campos, entrou na câmara com um projeto de lei para retirar os índios das fronteiras, por motivos de “Segurança Nacional”… O cacique Pankararé Ângelo Xavier, na Bahia, foi assassinado numa emboscada, por motivo de disputas de terras, por posseiros “civilizados”. No Paraná, um estranho e suspeito acidente matou outro cacique, Ângelo Kretã, dos Kaiguangues…

Dois Ângelos mortos, nenhuma providencia concreta da polícia, nenhuma medida efetiva da Funai. Mário Juruna, da tribo Xavante, também foi vítima de atentado em Goiás, enquanto outro cacique, José Sizenanda, no Espírito Santo, está sendo ameaçado de morte… E tudo vai ficar por isso mesmo. Espoliados, trucidados, enganados com promessas vãs (apesar do gravador do Mário Juruna), ainda assim os nossos índios têm muito a nos ensinar.

A televisão mostrou, há poucos dias, a eleição do substituto de Ângelo Kretã… A eleição foi livre e pelo voto direto e secreto. Como a maioria dos índios é analfabeta, a votação foi feita por meio de fotos dos candidatos a cacique, as quais foram colocadas em urnas lacradas!

Nossos índios, a quem muitos julgam serem selvagens ignorantes e bárbaros, estão nos ensinando uma lição que parece que já esquecemos: como votar para eleger nossos governantes! É disso que precisamos: democracia plena e total no Brasil, direito de voto para todos, inclusive os analfabetos, liberdade para escolher os que devem reger os destinos da Pátria!

Obrigado por mais essa lição, índios do Brasil!

16/02/1980 – O Brasil foi invadido!

Estive no Rio Grande do Sul e constatei: o Brasil foi invadido! Os argentinos (e também alguns uruguaios) tomaram o nosso País de assalto, numa operação que burlou a Segurança Nacional.

No hotel em que me hospedei, minha família e eu compúnhamos, talvez, os únicos hóspedes brasileiros; o resto era o resto: a classe média baixa e o operariado portenho que, de carro ou de ônibus de excursão, tomava conta de todos os apartamentos, chegava a qualquer hora da madrugada, fazendo a maior algazarra, batendo os pés, gritando em castelhano, perturbando qualquer cristão que desejasse dormir.

Os restaurantes também foram invadidos por essa cambada, para felicidade dos comerciantes e infelicidade geral da Nação; os preços subiram a tal ponto, que alguns locais do litoral sulriograndense chegaram a cobrar Cr$ 50,00 por um chope! As churrascarias sulinas deixaram de fazer o tradicional (e farto) serviço de rodízio, para trabalhar “a la carte”, cobrando o triplo do habitual. E os portenhos pagando tudo, muitas vezes em dólares, comprando todo o estoque das lojas, esvaziando as prateleiras e enchendo o nosso saco.

Os eletrodomésticos, em especial os aparelhos de televisão, eram a principal mercadoria adquirida pelos Argentinos (ou boludos, como o povo prefere chamá-los), uma vez que um aparelho em branco e preto custa aqui a bagatela de Cr$ 5.000,00, podendo ser revendido por quatro vezes mais, na argentina, com lucro para o comprador. O aparelho em cores, que custa cerca de Cr$ 20.000,00, pode ser revendido por aquelas plagas pelo equivalente a Cr$ 100.000,00! Quantia essa que paga todas as despesas eventuais de viagem, estadia e refeições dos boludos, em nosso País.

Quando era o contrário que ocorria, quando os brasileiros invadiam a Argentina fazendo compras e passeando, os portenhos apelidaram a nossa gente de “los macaquitos”, fazendo uma alusão pejorativa à cor morena da pele dos nossos patrícios. Em compensação, agora, os brasileiros apelidaram os portenhos de “las cucarachas” (as baratas), pela sua cor que lembra uma barata descascada. Muitos, se sentido prejudicados pela arrogância desses novos turistas (e novos ricos, pelas circunstâncias), foram mais além, apelidando-os de “los perros” (os cachorros), porque vivem querendo se impor aos berros e brigando por pequenas diferenças nas contas apresentadas, nos hotéis e restaurantes.

Não sou xenófobo e não concordo com muitas dessas atitudes; acho que o povo e a classe média argentina e uruguaia, antes sem opções, tem todo o direito de vir aqui para passear e se divertir… Todavia, não posso concordar com esse estado de coisas, gerado não por culpa dos portenhos e sim do nosso governo que, na pessoa de super-hiper-primeiro-ministro Delfim Neto desvalorizou o nosso dinheiro a tal ponto, que ele vale menos do que as pobres moedas da Argentina e do Uruguai.

Se o Brasil foi invadido, a culpa é do governo, que, com suas medidas arbitrárias e surpreendentes, está empobrecendo o País de tal maneira que, além de quintal dos norte americanos, estamos virando parque de diversões de todos os outros latino americanos, por mais pobres que sejam.

E necessário por um basta nisso, re-valorizando o nosso cruzeiro e tomando medidas que protejam a nossa economia. O Brasil deve ser um País para uso e usufruto dos brasileiros. Falei!

21/02/1980 – Sucessos do Carnaval-80

Num carnaval dos mais animados dos últimos anos, o povo se esqueceu da miséria e se esbaldou nas ruas e nos salões, cantando alguns dos mais famosos sucessos atuais e de antigos carnavais. Para que todos possam cantar esses sucessos, damos aqui a letra de alguns deles:

Marchinha do Delfim:

Se você fosse sincero, o, o, o, o, Delfim,

Não mentia tanto assim, o, o, o, o, Delfim!

Chiquito Banana:

Chiquito Banana, lá da prefeitura,

Entrou para o PP com a maior caradura!

Marcha da Petrobrás:

Você pensa que petróleo é água?

Petróleo não é água, não!

A água sai lá da torneira,

Petróleo custa um dinheirão!

Sambinha do Cals

Cai Cals, cai Cals,

Quem mandou escorregar?

Cai Cals, cai Cals,

Eu não vou te segurar!

Sambão da desvalorização do cruzeiro

Tem mamata, pessoal,

No pacote de natal! (BIS)

Marchinha do Maluf

Alá lá o, o o o, o o o,

Faça um favor, o o o, o o o,

Mande o homem pra Arábia.

Mande o cara ficar lá,

Alá, meu bom Alá!

Cabeleira do Portela

Olha a cabeleira do Portela,

Será que é preta, será que é amarela?

Samba do João

Isso é papel, João? Papel que se faça?

Brigando na rua, brigando na praça

João, eu quero

João, eu quero, João eu quero,

João, eu quero votar!

Dá um jeito, dá um jeito,

Dá um jeito pra democratizar!

Marcha do Ueki

O teu sorriso não nega, Ueki,

Que já acabou o monopólio.

O resto a turma entrega, Ueki,

Brasil não vai mais ter petróleo

Marchinha do índio

Chega de apito, índio agora quer viver! (BIS)

Co-co-co-co-co-co-ró

Co-co-co-co-co-c’o-ró, co-co-co-co-co-co-ré

A gente tem saudade de comer um bom filé!

22/02/1980 – Outras marchinhas de Carnaval

No carnaval, para afugentar as mágoas (que não são poucas) o povo cantou assim:

MARCHA DO DELFIM

Oh, Delfim Neto, por que estás contente?

Mas o que foi que aconteceu?

– Foi Rischbieter que caiu do galho,

Deu dois suspiros… E se escafedeu!

MARCHINHA DO CONTRATO DE RISCO

Eu mato, eu mato,

Quem mandou o seu Ueki

Assinar o tal contrato!

MARCHA DO PDS

(vulgo Arenão)

Ei, voce aí

Me dá um emprego aí,

Me dá um emprego aí!

MARCHA DO JEITINHO

Me dá um jeitinho aí,

Que eu tava a cem por hora…

Aceite isto aqui por favor, o o o

E jogue a multa fora! (TRIS)

MIL PALHAÇOS (Marcha rancho)

Quanto riso, oh, quanta alegria,

Mais de mil palhaços no poder

E o povo está chorando sem confete e serpentina

Não tendo o que comer!

DESABAFO DO SETÚBAL

Vem cá seu guarda,

Bota pra fora esse moço,

Está lá no palácio,

Metendo dinheiro no bolso

(Estribilho)

Foi ele, foi ele sim,

Foi ele que passou a perna em mim (BIS)

CABEÇAS VÃO ROLAR

Cabeças vão rolar

No ministério eu não sei se vai sobrar

Um só ministro da economia

Se a inflação continuar!

(Breque)

Deixa ela estourar!

MARCHA DA MAMATA

Chiquito eu quero,

Chiquito eu quero,

Chiquito, eu quero mamar!

Me dá um cargo, na prefeitura,

Me dá um cargo para eu prosperar!

26/02/1980 – Enterrem Meu Coração na Curva do Rio São Francisco

O “Velho Chico” enfrenta uma das maiores enchentes de sua história, deixando milhares de desabrigados e centenas de mortos junto às suas margens. O Rio São Francisco, chamado de “rio da unidade nacional”, já foi uma das principais artérias de comunicação do nosso País, ligando o sudoeste ao nordeste e integrando os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.

As razões dessas enchentes são inúmeras e complexas. Os estudiosos atribuem as cheias à grande intensidade de chuvas (é evidente), ao desmatamento das áreas onde ficam as nascentes do rio e ao despreparo dos governos estaduais, municipais e até do governo federal, para enfrentar algo tão elementar como um sobrecarga de chuvas.

Mas, os místicos estão atribuindo essas cheias a algo mais… Há quem fale em castigo do céu, em fim do mundo (vide a seita “Borboletas Azuis”) e em outras hipóteses. Alguns falam em castigo divino, por motivo do extermínio das populações indígenas que viviam ao longo do Rio São Francisco.

Que viviam, porque quase não há mais índios e nem seus descendentes ao longo do “Velho Chico”… E eles eram milhares, há pouco mais de uma centena de anos. Foi ao longo desse grande rio que se observou uma política genocida sistemática, contra os nossos índios.

Talvez o fato seja pouco conhecido, porque nosso cinema e nossa televisão nunca deram destaque a essa política de extermínio. O povo brasileiro, por influência dos filmes de “faroeste” e dos abomináveis “bangue bangues” da televisão, conhece melhor a história da destruição dos “sioux” e de outros índios norte-americanos do que a história da matança dos nossos aborígenes.

Nossos índios, mais pacíficos do que os da América do Norte, pouca ou nenhuma resistência ofereceram aos invasores ditos “civilizados”. Assim quase sem lutas, quase sem tiros, os índios foram sendo exterminados… A princípio a “fio de espada”, como relatou o Padre José de Anchieta; depois, a tiros e facadas desferidos pelos chamados “bugreiros”, indivíduos recrutados entre os piores bandoleiros, incumbidos unicamente de exterminar os silvícolas e suas famílias, para lhes tomar suas terras.

Por fim e mais recentemente, as doenças e o alcoolismo, aliados à prostituição e à miséria, acabaram por dizimar os últimos indígenas ainda existentes nessa fértil região. O São Francisco já foi chamado de “Nilo Brasileiro” e já teve a importante missão de fertilizar as terras adjacentes.

Hoje, “graças” à falta de previsão dos governos municipais, estaduais e do governo federal, “graças” ao desmatamento e à imbecilidade, o Rio São Francisco se torna uma verdadeira tragédia nacional…

Não sei se os místicos têm razão, ao atribuir os atuais acontecimentos a castigos do céu ou a expiação das maldades feitas contra os índios. Tenho certeza, porém, que se um chefe índio pudesse ainda manter sua cultura e tradição em meio a tanta aculturação e “civilização”, ele certamente pediria, como sua última vontade à morte:

“Enterrem meu coração na curva do Rio São Francisco!”

27/02/1980 – Ao mestre, com carinho

Nem me lembro que idade eu tinha, quando meu pai leu para mim o “Pif-Paf”, pela primeira vez… Para quem não conheceu, explico que o “Pif-Paf” era uma seção publicada no antigo “O Cruzeiro” e assinada por um certo Emanuel Vão Gogo. E isso ocorreu no início da década de 40.

Meu pai leu, porque eu ainda não sabia ler*, não devia ter mais de três ou quatro anos, e eu já ria com o humor fino, inteligente e sutil desse mestre das letras e das tintas. E como eu ria, ao ouvir seus pensamentos satíricos, sua filosofia diferente, seu estilo próprio e inconfundível… Seu traço não era bonito, era até feio**, para falar a verdade, aos meus olhos de criança; mas como era engraçado! As figuras de Vão Gogo, em si, já traziam aquele sabor original, aquela graça única que fariam dele, poucos anos mais tarde, um dos artistas mais conceituados do mundo.

Foi só alguns anos depois que fiquei sabendo o verdadeiro nome de Emanuel Vão Gogo… E que nome mais estranho: Millôr! Eu não conhecia (e não conheço até hoje) ninguém com um nome assim. Millôr Fernandes era original até no nome; era não… É, porque ele está vivo e, talvez, mais vivo e mais lúcido do que nunca!

Mais tarde, fiquei sabendo através do JH que ele deveria se chamar Milton, mas, por uma ironia do destino, o escrivão esqueceu-se de cortar o “t”, ao fazer o seu registro de nascimento; além disso, fez um “n” tão mal feito, no final do nome, que mais parecia um “r”. E, ao entrar para a escola primária, necessitando de uma certidão de nascimento, Milton descobriu que se chamava Millôr! Até ao nascer o homem fez graça, sem querer.

Ás vezes eu não entendia as piadas do Millôr, aliás, Vão Gogo… Eu era criança e seu humor sempre foi adulto e destinado a pessoas inteligentes e bem informadas. E assim fui crescendo e aprendendo a fazer graça, só de ler sua seção no “O Cruzeiro”. Um dia, para minha (e de todos) surpresa, após publicar uma genial sátira de Adão e Eva no Paraíso, vi o Millôr ser despedido daquela revista.

“O Cruzeiro” nunca mais deve ter sido o mesmo. Nem sei, porque nunca mais li essa publicação, após a saída do Millôr. Fiquei revoltado ao saber que o motivo de sua dispensa foi justamente a sátira da criação do mundo. Acho que foi ali que fiquei sabendo que havia uma coisa muito feia, chamada censura (no caso posterior, pois algum imbecil julgou que a sátira era uma ofensa às crenças religiosas de alguém).

Por sorte, isso não bloqueou a carreira desse genial humorista, muito pelo contrário. Ele prosseguiu na luta, lançou uma revista chamada “Pif-Paf”, trabalhou numa outra, chamada “Urubu”, depois no “O Pasquim” e na “Veja”… E agora está conosco no JH.

Imaginem, Millôr no JH! E, o que é melhor para mim, ao meu lado, na mesma página! Meus olhos ficaram cheios de lágrimas (de alegria), quando abri a edição do dia 15 de fevereiro e vi o Millôr junto comigo e com os “Cronistas de Campinas”… Só tive a felicidade de conhecer esse gênio incomparável na casa dos amigos comuns, Laís e Julião, em 1976. Depois, fui revê-lo em agosto de 1979, no Salão de Humor de Piracicaba, onde ele era convidado de honra. Mal tive oportunidade de trocar algumas palavras com ele, nessas ocasiões e, por isso, quero agora lhe dizer, por escrito, o que não pude fazer de viva voz: muito obrigado pelo muito que tem feito pelo humor brasileiro! Muito obrigado por ter me ensinado, através de suas obras a fazer os outros rirem… Muito obrigado, mil vezes obrigado, Mestre!

* Millôr não e velho, eu é que sou de outra geração; ele escreve profissionalmente desde a juventude.

** Millôr faz traços rudimentares de propósito; seus desenhos e quadros são magníficos.

28/02/1980 – Os três porquinhos

Era uma vez três porquinhos: Prático, Cícero e Heitor, que morriam de medo da Emenda Lobão. Para eles, isso representava uma tremenda ameaça, pois o Lobão queria, com essa Emenda, restabelecer as eleições diretas no País das Fadas, onde moravam os três porquinhos.

E, se essas eleições diretas acontecessem realmente, os três porquinhos e muitos dos seus amigos poderiam perder uma série de regalias, mordomias e outras “ias”, que eles haviam acumulado através de mais de 15 anos de lutas. O povo daquele país não iria votar nos três porquinhos e nem nos seus amigos do Partido Defensor dos Suínos, do qual eles faziam parte.

Foi então que os três porquinhos resolveram tomar medidas efetivas contra o Lobão e sua Emenda. Prático, o mais velho e mais inteligente dos três, foi o primeiro a se manifestar contra a emenda. “Eleições diretas? – disse ele – Se depender de mim, nunca acontecerão!”

Cícero, hábil planejador, sempre apoiava as opiniões do chefe e, a partir desse momento, começou a planejar um meio de destruir a Emenda Lobão. Heitor, “o justo” começou a manipular os meios legais para impedir que essa emenda fosse aprovada no congresso do País das Fadas.

Prático havia construído uma verdadeira fortaleza no planalto onde ele morava; ali ele pretendia resistir à Emenda Lobão, até o fim. Cícero e Heitor, menos hábeis, nem por isso deixavam de estar com o chefe em todas as situações. Com a ajuda dos outros dois, Prático armou mil armadilhas contra o Lobão, junto à sua fortaleza do planalto. Se o Lobão fizesse qualquer tentativa de aprovar a sua Emenda, cairia fatalmente numa dessas esparrelas…

Todos os dias eles apareciam na televisão semi-oficial do país deles, chamada de “Rede Bobo”, onde desafiavam o Lobão cantando a musiquinha “Who is Afraid of the Big Bad Wolf”? cujo título poderia ser mal traduzido por “Quem tem medo do Lobão Mau”? Com isso, eles procuravam incutir na cabeça do povo do País das Fadas (e, segundo as más línguas, das marmeladas), que o Lobão é que era mau, nessa história toda.

O Lobão não se atemorizou com as medidas tomadas pelos três porquinhos, foi até à fortaleza deles e soprou e bufou, e bufou e soprou. Não sei contar se ele conseguiu ou não derrubar a fortaleza deles, pois a história ainda não terminou.

O que eu sei é que o Lobão, no caso, tem todo o apoio do povo e, se dependesse dele, sua emenda seria aprovada e a democracia plena restabelecida. Pena, mas pena mesmo, é que o povo não manda absolutamente nada no País das Fadas… E das marmeladas.

**************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.