Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Abril de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/04/1980 – 1° de Abril

Na republiqueta latino americana de La Bananera tudo era paz… “El Presidente” dormitava placidamente numa rede, em sua residência de verão (é sempre verão em La Bananera), depois de cumpridas “las obrigaciones del dia”, ou seja, meia dúzia de discursos demagógicos nos sindicatos operários, uma manifestação em “plaza pública” pela legalização do “Partido Comunista Bananero” e “outras cositas más”…

Enquanto isso, as “plantaciones” de banana de “la hacienda del señor presidente” produziam milhões de cachos para “las exportaciones”, uma produção que supria todas as necessidades do país, visto que “la hacienda” ocupava todo o território nacional.

Foi então que se ouviu um estrondo! “El señor presidente” ergueu-se da rede, de um salto, exclamando: – “Carajo! Quien és el idiota que está a soltar hoguetes, en la hora de la siesta?!” – Mas não eram foguetes e sim disparos de canhão de tanques militares…

Tendo levado a sério os discursos “d’el señor presidente”, “algunos oficiales” de “La Guardia Nacional de La Bananera”, tomaram um porre e resolveram pregar-lhe um susto, dando uns tiros para o ar. Foi o suficiente para “el gran presidente” sair correndo de sua residência de verão (é sempre verão em La Bananera), gritando: – “Jo renuncio! Jo renuncio!”

“El señor presidente” saiu “volando” para o aeroporto, pegou o primeiro avião que encontrou e gritou: – “Toca pra Cuba!” – e o piloto, que nem conhecia “el señor presidente”, pensou que era um sequestro e tocou.

Foi então que “los oficiales” de “La Guardia Nacional” assumiram o poder em “La Bananera”, decretando “el estado de sítio”, o que não foi nenhuma mudança no esquema de vida de “los bananeros”, já que todos viviam en el “estado de hacienda”.

“Los oficiales” prometeram moralizar “la republiqueta”, acabar com a corrupção, banir para sempre “el comunismo internacional”, deter “la inflación galopante”, melhorar o nível de vida de “los labregos”, ou seja camponeses, e de “los trabajadores en general” (general, em espanhol, quer dizer geral, tá?)…

“Muchos y muchos” anos depois, “el señor presidente de planton”, um oficial que havia sucedido a outro oficial, que tinha sucedido a um outro oficial e assim por diante, tomou do microfone de “La Rádio Nacional Bananera”, no aniversário de “La Revolución” e declarou: – “Presados cidadanos de La República Federativa Bananera… jo quiero decir a todos que tiene ocorrido um pequenito engafio, en todos estes años… (aham!) – pigarrou e conclui – “Preciso decir a ustedes que todo non se passo de un grande 1° de Abril! Quiá, quiá, quiá. quiá!”

02/04/1980 – Vocês Sabin disso?

Albert Sabin, prêmio Nobel de medicina, descobridor da vacina contra a poliomielite (paralisia infantil) abandonou o trabalho que vinha fazendo, em cooperação com o governo brasileiro, de erradicação dessa terrível moléstia no nosso País.

E sabem por quê? Segundo carta que ele próprio enviou ao general Figueiredo, ele afirma que “problemas burocráticos, de diversas naturezas, impediram que esse trabalho fosse convenientemente desenvolvido. Devo ressaltar a V.Exa. que esta mesma burocracia determinou fracassos no combate à poliomielite, no passado e, no presente, tenho fortes razões para duvidar do sucesso das próximas iniciativas”.

Vocês sabem a que “burocracia” ele se refere? O negócio é o seguinte: o ministro da Saúde, Waldyr Arcoverde, está criando barreiras para a revelação do verdadeiro número de crianças atingidas pela moléstia em nossa terra. Por outro lado, é igualmente “tabu” a revelação do número de crianças (e adultos) atingidas pela doença quando ela estava no auge, durante o governo Médici, de triste memória.

Os deputados Israel Dias Novaes (PMDB-SP) e Carlos Santana (PP-BA) denunciaram na Câmara Federal a falência do Ministério da Saúde e a incompetência do ministro Waldyr Arcoverde na condução do assunto, que, segundo eles, só poderia mesmo levar Albert Sabin a desistir de colaborar com as autoridades brasileiras na erradicação da poliomielite.

Novaes observou que o episódio, envolvendo um técnico de renome mundial e o governo brasileiro, “nada mais é que o reflexo de uma época (no caso, o governo Médici) em que nem a Saúde escapou da mistificação, pra que não fosse revelado ao mundo a enormidade da impostura do milagre brasileiro”.

Santana, por sua vez, afirmou que “o Ministério da Saúde deveria fechar para balanço, pois hoje não passa de um apêndice da Previdência Social, com os melhores médicos e sanitaristas marginalizados, e sem que exista ao menos, uma política nacional de saúde e o correto emprego da medicina preventiva”.

Ele lamentou também que “quando Sabin tenta corrigir esta situação no setor da poliomielite, atuando em favor da infância brasileira, a insensibilidade de um ministro de Estado e de seus burocratas põe tudo a perder”.

03/04/1980 – PLANTE, QUE O JOÃO GARANTE!

Quando o João (como prefere ser chamado o general Figueiredo) assumiu as rédeas do País (desculpem o tordilho, digo, o trocadilho), ele prometeu dar ênfase à agricultura, para estimular o plantio de gêneros alimentícios.

“Plante, que o João garante!” – berrava o Dr. Sardinha, caricatura mal-feita do Dr. Delfim, interpretada por Jo Soares no “Planeta dos Homens”. Ninguém me tira da cabeça que quem faz os textos desse programa, pseudo-crítico e bajulatório, é o pessoal da SECOM…

E os coitados dos agricultores acreditaram na campanha e plantaram pra burro, dando especial ênfase ao cultivo de soja. Enfim, era a política implantada pelo Dr. Delfim, então ministro da Agricultura, pra “encher-a panela do povo”.

Agora, os agricultores da região centro-sul do País saem às ruas, com seus tratores, protestando contra os preços aviltantes oferecidos para seus produtos, resultado do plantio garantido do governo.

Já o povo, que desejava fazer a passeata da “panela vazia”, foi proibido de fazê-la pela polícia do Rio Grande do Sul. Neste País, produtor pode protestar e consumidor não pode…

O Dr. Delfim já não é mais ministro da Agricultura, agora ele tudo vê e tudo planeja. Já não pretende mais encher a panela do povo e só conseguiu encher o saco de todo mundo, com a maxi-desvalorização do Cruzeiro e outras medidinhas tais. E os agricultores, que acreditaram nele, estão também de saco cheio, enquanto que o povo, que está de panela vazia, não pode nem protestar.

Isso me faz lembrar uma velha marchinha de carnaval, dos tempos do Getúlio, que dizia assim:

“O Brasil tem muito doutor, muito funcionário, muita professora; se eu fosse o Getúlio, eu mandava metade dessa gente pra lavoura! Mandava muita loura ir plantar cenoura, e muito bonitão plantar feijão… E essa turma da mamata, eu mandava plantar batata!”

04/04/1980 – VALE TUDO!

Galveas, não o imperador do Acre e sim o ministro da Fazenda, cargo onde foi colocado pelo Sr. Delfim Neto, que tudo vê e tudo planeja, é o novo ministro “Skylab” do governo… Todos sabem que ele vai cair; só não se sabe quando.

O caso da venda das ações da Cia. Vale do Rio Doce, companhia estatal, despertou uma onda de revolta contra o ministro, em todo o País. Até a semana passada, 40 deputados estaduais, de todos os partidos (até do PDS, vulgo “Arenão”!) já tinham subscrito moção pedindo o afastamento de Emane Gáveas de seu cargo.

Francisco Dias, do PMDB, lembrou que o Sr. Galveas é um dos chamados “Delfin’s boys” e, recordando o chamado “Relatório Saraiva”, que acusou o ex-embaixador em Paris e diversos assessores seus de receberem subornos, afirmou: – “Não é só Galveas, mas também o senhor Delfim Neto não deveria estar mais no País. Há ainda o ministro das Minas e Energia, César Cals, alvo de várias acusações até hoje não esclarecidas”.

O caso da Vale, pra quem não sabe, é um escândalo no mercado de ações. O ministro Galveas determinou a venda súbita de um imenso bloco de papéis daquela empresa, provocando alarme e pânico entre os investidores e comprometendo a imagem desse tipo de investimento.

Geraldo Menezes, do PDS, disse que o governo deveria demitir logo o ministro Galveas, “que nos vendeu para uma corretora do Rio de Janeiro e não tem jeito de explicar. Foi uma negociata suja, pútrida, fétida, inexplicável. Sou do governo, mas não sou avalista de quem fere o Erário!”

Alberto Goldman (PMDB) liderou a moção contra o ministro, pedindo o seu imediato afastamento – “O Ministro da Fazenda – afirmou ele – cometeu crime de responsabilidade contra a guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos, ao negligenciar o patrimônio da União, quando da desastrada, ilegal e criminosa venda de ações da Vale do Rio Doce”.

Pois é, ou o governo toma providências no caso da Vale, ou a briga vai se transformar num autêntico VALE TUDO!

07/04/1980 – César Caos no País das Maravilhas

Era uma vez um menino chamado César Caos que, certo dia, quando dormitava (gostaram?) placidamente na relva verdinha de um jardim público de Quixaramobin da Serra, acordou ouvindo uma vozinha que dizia: – Como é tarde! É tarde, é tarde, é tarde!

Menino, nem te conto! Era um coelho branco, gordinho, rechonchudo e vestido com uma roupa engraçada, que corria na direção do oco de uma árvore oca (é claro)… César Caos correu atrás do coelho branco e tentou apanhá-lo (para comer, naturalmente, pois em Quixaramobin da Serra os meninos vivem morrendo de fome) e, para sua surpresa, caiu num buraco escuro.

César Caos foi caindo bem devagarzinho (dizem que, em matéria de cair devagar, ele é mestre até hoje), até chegar a uma sala onde havia uma portinha, tão pequena que não dava para ele passar por ela. Com certeza o coelho branco fugiu por ali! – pensou ele. Foi quando viu uma mesinha, onde havia um vidro cheio de um líquido estranho, escrito “beba-me” e um prato com doces esquisitos escrito “coma-me”…

Como estava morrendo de fome, César Caos comeu um doce mais que depressa e, para seu espanto, diminuiu de tamanho! Agora dava para ele passar pela porta, mas só então ele percebeu que a chave estava sobre a mesinha. Aí ele escalou a mesa, trabalho que lhe deu uma sede danada. E então – Vupt! – mandou o conteúdo do vidro pra goela. Para novo espanto, cresceu muito! Pra compensar, ele comeu mais um doce e diminuiu, bebeu mais um gole de líquido e cresceu, uma bagunça! Só sei que no fim ele conseguiu passar pela porta e ficou do tamanho normal, só que com as orelhas enormes…

E foi então que ele se viu no “País das Maravilhas”, governado pela Rainha de Copas, uma mulher meio esquisita, muito nervosa, que vivia dando sopapos em estudantes, coisinhas assim. A Rainha de Copas gostou muito do César Caos e lhe deu, para morar, uma casa que mais parecia um palácio! Menino, só para empregados domésticos, havia uma verba anual de 1 milhão, 425 mil e lá vai pedrada de pilas! (ah, sim… “pila” é o dinheiro do País das Maravilhas) – Uma coisa horrorosa!

César Caos ficou muito feliz e foi morar na casa, vizinha à do coelho branco e de muitos outros bichos, inclusive a Lebre Maluca e o Chapeleiro Doido, todos ministros da Rainha de Copas. César Caos também desejou ser um ministro, no que foi prontamente atendido pela rainha…

O fim dá história eu não sei bem, só sei que eles todos ficavam sentados em volta de uma mesa, tomando chá e dizendo baboseiras sem fim. A maior de todas foi a Rainha de Copas quem disse, pois, em meio àquela mordomia e àquele luxo, ela declarou: Este é um país pobre! Paaalmas para a Rainha de Copas, que ela merece!

08/04/1980 – O Dia em que o Maluf Comprou o Papa

“Só se São Paulo virou o Estado do absurdo!” – Assim se manifestou o cardeal dom Ivo Lorscheiter, com irritação, ao saber da existência de um inacreditável contrato comercial, assinado sigilosamente há três semanas e só recentemente divulgado, que dá exclusividade de transmissão e cobertura jornalística da visita do papa João Paulo II a Aparecida do Norte.

Ao dizer que a CNBB não admitirá qualquer tipo de contrato de exclusividade com empresas de comunicações, para a cobertura da vinda do papa ao Brasil, dom Ivo (que é presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), acrescentou que será extremamente negativa a utilização da visita de João Paulo II para fins políticos.

Dom Ivo lembrou ainda que a Rede Capital, beneficiária do contrato de exclusividade concedido pelos padres de Aparecida do Norte, pertence a um amigo do governador Maluf. “Não queremos – disse dom Ivo – que esta visita seja aproveitada para fins políticos, e deixamos claro, para aqueles que pretendem tirar proveito da situação, que o nosso grupo de coroinhas já está completo!”

A Rede Capital pertence a um certo Sr. Edevaldo Alves da Silva, até há pouco tempo um ilustre desconhecido, que agora anda por Paris com a sua digníssima cara-metade. Em 1977, o Sr. Edevaldo comprou a Rádio Novo Mundo, uma emissora inexpressiva. Em menos de três anos, o Sr. Edevaldo já integrou à sua rede mais seis estações de rádio AM e duas FM, além de contar com licença para instalar emissoras em diversas capitais do País.

Edevaldo não está sozinho, pois é íntimo amigo do Sr. Maluf, que, por acaso, é governador indireto de São Paulo. Maluf é cliente dele, pois Edevaldo é também advogado nas horas vagas, tendo defendido o governador das acusações que pesavam contra ele no escândalo Maluf-Lutfalia. Muita gente boa, ligada ao setor de comunicações, tem a mais absoluta certeza de que a Rede Capital pertence, na realidade, a Maluf; sendo o Sr. Edevaldo um mero “testa-de-ferro”.

Se nada for feito de concreto para impedir essa pouca vergonha que é o contrato exclusivo entre os pobres de Aparecida e a Rede Capital, logo, logo o Sr. Maluf acabará comprando até o papa, que fará uma espantosa declaração, quando da sua visita, apoiando o PDS. Não se espantem, pois São Paulo já é o Estado do absurdo…

09/04/1980 – Uma Greve Surrealista

O ministro do Trabalho, Murilo Macedo, classificou a greve dos metalúrgicos, que paralisa milhares deles (300 mil só no Estado de São Paulo), de surrealista!

O Sr. Macedo declarou-se “perplexo” com as lideranças sindicais, por não terem chegado a um acordo, quando a diferença entre a proposta da Fiesp e a última reivindicação dos trabalhadores era pequena.

E ainda acrescentou: – “Essa greve não me parecia com finalidade reivindicatória. Se fosse, ontem mesmo (segunda-feira da semana passada), eles teriam chegado a um acordo, pois a diferença era de apenas 0.88%!”

E mais: – “Me parece uma aventura cara demais. Será necessário novo carne para pagar os dias parados, numa hora em que as diferenças são tão pequenas? Não faz o menor sentido”.

Para mim, faz muito sentido. Ainda há poucos dias, quando da greve dos portuários de Santos (ver “Tão Cedo, Macedo?” – 22/3/80), eu afirmava que o Decreto-Lei n° 1.632, de 4/11/78, que proíbe greves nos setores considerados de Segurança Nacional, ou que sejam de atividades essenciais, poderia ser ampliado de forma a atingir todas as atividades nacionais. Afinal, o que é que pode ser definido como “atividade essencial?” Ora, tudo! Qual é a atividade que não é essencial ao País?

A fala do “perplexo” Sr. Macedo, na minha modesta opinião, visa tão somente alegar que a greve dos metalúrgicos não é reivindicatória e sim de natureza política, para depois declará-la ilegal.

Uma vez declarada ilegal, a greve terá que terminar, nem que seja a custa de borrachadas, tiros e bombas de gás, de parte da Polícia Militar e de “demissões por justa causa” de parte dos empregadores, quase todos eles representantes de empresas multinacionais que assolam o país.

Sabe, Sr. Macedo, eu não acho que só essa greve é que é surrealista. Acho que temos também um ministro surrealista, num governo surrealista e num país surrealista. Como disse o imortal Charles De Gaulle, referindo-se ao Brasil: – N’est pas un paix serieux!

Sim, não somos um país sério… Somos um País surrealista!

11/04/1980 – Ex-índio, ex-vivo!

O novo presidente da FUNAI, coronel João Carlos Nobre da Veiga, “tem um curriculum pavoroso: dedicou grande parte de sua vida aos serviços de informação na área oficial, militar e das multinacionais”.

Essa afirmativa é do jornal mensal Porantim editado em Manaus (AM), que faz graves acusações à FUNAI e a seu novo dirigente, defendendo os índios brasileiros (ou o que resta deles). Ainda segundo o jornal, o coronel recebeu, de braços abertos, os cumprimentos de declarados inimigos dos povos indígenas, “aqueles que se apressam em fornecer certidões negativas, os que autorizam prospecções e exploração de minérios, os que permitem a construção de barragens – tudo em área indígena”.

O fato é que o Cel. Veiga deseja efetuar a integração definitiva dos índios brasileiros, obrigando-os até a usar carteira de identidade, o que os tornaria cidadãos comuns e faria com que perdessem a condição de índios. Acredito que o coronel seja bem intencionado, em verdade, querendo apenas integrar o indígena à nossa cultura e civilização, para melhor protegê-lo…

Mas, na minha opinião, isso é um erro. O índio, passando à categoria de cidadão comum, numa sociedade para a qual não está preparado, numa cultura que lhe é estranha, num sistema de capitalismo selvagem do tipo que, infelizmente, assola o nosso País, é um elemento fadado à extinção!

Como índio, ele hão pode ser preso nem processado, pois, pela lei atual, é considerado como um “menor de idade”. Como índio, ele deve ter direito de viver nas terras onde nasceu e se criou, nu, em contato íntimo com a natureza e com suas crenças, com seus deuses que se assemelham aos orixás africanos.

Aculturar o índio é um erro, tentar integrá-lo, à força, na nossa sociedade é um crime! Passando da condição de índio, guerreiro altivo, à condição de mísero caboclo devidamente identificado, o índio será um ex-índio… E, em pouco tempo, também, um ex-vivo.

12/04/1980 – Mulheres de Todo o Mundo, Uni-vos!

Muita gente não entendeu minha matéria do dia 31/03/80, sob o título “Aborto, sim ou não?”, onde eu não me definia nem contra nem a favor do aborto. Talvez porque, na ocasião, fiz apenas uma abordagem política sobre o assunto, considerando a polêmica a respeito do aborto como mera fórmula para distrair a opinião pública dos seus verdadeiros problemas.

Para quem quer saber, eu sou a favor do aborto, se bem que isto é apenas uma opinião pessoal. Como homem, jamais vou conceber e jamais terei a oportunidade de decidir entre o aborto e o nascimento duma criança.

Acredito, como democrata convicto, que toda mulher que desejar abortar, antes do 3º mês de gravidez, deverá ter o direito de fazê-lo. Com lei ou sem lei, o aborto existe e é praticado em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Sou um espiritualista, mas creio que, acima de divagações sobre os direitos de um hipotético ser humano, que ainda não nasceu, estão os direitos da mulher que já nasceu, cresceu e reproduziu. Ter ou não ter filhos deve ser uma decisão de cada mulher, dependendo das circunstâncias, do condicionamento social, das possibilidades econômicas de criar filhos e de inúmeros outros problemas, que podem envolver a família, a mãe-solteira, a mentalidade retrógrada de certos pais e mães, questões de saúde e tantas outras coisas, que não vem ao caso discutir.

Todavia, após esta definição, volto a ser a favor de outros direitos da mulher, que não devem ser relegados ao esquecimento pelo problema do aborto ser ou não legal em nosso País…

Refiro-me à condição da mulher brasileira, que dificilmente consegue empregos sem levar “cantadas”, que sofre todo tipo de discriminação no serviço, que é despedida ao engravidar ou ao se casar, que recebe salários inferiores ao do homem (que já costumam ser baixíssimos), que é despedida se não quiser ir para a cama com o chefe ou com o patrão e que, depois de marginalizada e vilipendiada, é chamada de puta pela sociedade.

A questão do aborto não é essencial. Essencial, sim, é todas as mulheres do mundo se unirem para lutar pelos seus direitos e conseguirem um lugar ao sol, no mesmo nível dos homens. Creches e escolas para seus filhos gerados são problemas maiores do que a legalização do aborto.

Mulheres de todo o mundo, uni-vos!

14/04/1980 – Filmes da Semana

Depois da Semana Santa, quando a programação dos cinemas costuma ser meio fraca, temos um excelente filme em cartaz, ao lado de outros muito ruins. Para alegria dos leitores cinemaníacos, anotamos os seguintes:

COMO ERA DOCE O MEU VALE – Com E. Galveas e grande elenco.

O filme tem muita ação (muita mesmo), mas o público sai do cinema decepcionado, sentindo que esvaziaram o seu bolso (ou sua bolsa). Cotação: baixíssima.

O MEDICO E O MONSTRO – Com A. Sabin (no papel de médico) e W. Arco-verde (no outro papel). O médico deseja curar milhões de crianças de uma terrível moléstia, mas o monstro não permite, atrapalhando o seu trabalho. Cotação: abaixo da crítica.

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM – Com L. Inácio, o “Lula” e 300 mil coadjuvantes. As máquinas param no duro, apesar dos esforços de M. Macedo (que faz o papel de um ministro), de P. Maluf (que faz de governador) e de milhares de atores que fingem de policiais. Cotação: ótimo para o povo.

O CRUZEIRO FURADO – Bangue bangue nacional, cópia mal-feita do “Dólar Furado”. Com D. Neto no papel principal, lutando para que o Cruzeiro fique cada vez mais furado e desvalorizado. D. Neto é auxiliado por E. Galveas, que trabalha muito mal. Cotação: 0,45 centavos de dólar… E baixando.

ALICE NO PAÍS DAS MORDOMIAS – Com C. Cals no papel de Alice. As mordomias são tantas, que a Alice tem mais de cem empregados e gasta uma verba superior a Cr$ 1.425.427,00 só com o pagamento deles. Alice precisa de vinte serviçais só para lhe servir chá e mais de cinquenta só para lhe limpar as orelhas. Cotação: péssimo para o País.

O PREÇO DA AMBIÇÃO – Com P. Maluf no papel de um homem poderoso, que compra todo mundo. Ele sabe que cada um tem seu preço, mas desconhece o desfecho que terá sua ambição desmedida. O filme atinge o auge quando P. Maluf tenta comprar até o papa! Cotação: caríssima para o erário público.

A VOLTA DE DRACULA – Com L. Péricles no papel do vampiro que quer sair de seu sarcófago para voltar a sugar o sangue do povo, como fez há alguns anos atrás. Mas ele sugou tanto da outra vez, que parece que não vai conseguir sair da tumba. Cotação: esperamos que fique por lá.

15/04/1980 – Democracia à Paraguaia

Em recente visita ao Paraguai, país vizinho e amigo, o general Figueiredo entregou a seu colega, o general Stroessner, “presidente vitalício e perpétuo” daquela nação, vários objetos pertencentes ao marechal Solano Lopez e sua família, capturados quando da derrota deste, no final da trágica “Guerra do Paraguai”, no século passado. Emocionado, o general Stroessner chorou…

Curioso, as prisões paraguaias estão cheias de prisioneiros políticos, e o general não se emociona com isso; milhares de paraguaios estão “desaparecidos”, desde que Stroessner tomou o poder (e isso faz tempo paca), eufemismo que designa pessoas assassinadas por motivos políticos, quer seja sob torturas terríveis, quer por fuzilamento puro e simples… E o general Stroessner não chora por isso.

O Paraguai tem eleições de tempos em tempos e o general Stroessner, candidato único, é sempre eleito (ó surpresa!) e re eleito para dirigir os piais altos destinos da nação. É estranho que tenha se emocionado e chorado por receber uma espada e outros pertences, pois ele é tido como o mais duro e mais insensível ditador latino-americano, tão cruel como Videla, da Argentina, Pinnochet do Chile, Aparício Mendez, do Uruguai e outros coleguinhas que dirigem o “Cone Sul’ da América.

“Paz, trabajo, bienestar: STROESSNER”, apregoam dezenas de anúncios pisca-pisca, no centro de Assunção, capital daquele país. No poder desde 1954, o choroso ditador dirige uma nação muito pobre, onde a imensa maioria da população é de miseráveis e analfabetos absolutos. Os paraguaios não são mais de 3 milhões, mas há cerca de 1 milhão deles vivendo no exílio, principalmente na Argentina e no Brasil.

Nos cárceres políticos, não há nenhuma preocupação com formalidades; só na prisão de La Emboscada (nome bem sugestivo, não), havia 175 prisioneiros políticos, sendo que 98 deles não tinham, contra si, qualquer tipo de processo (dados de 1977). As funções de perseguição e prisão de dissidentes são cumpridas por uma complexa rede de informações, dividida em, pelo menos, quatro ramos. De cada três paraguaios, um é pyragiie (dedo-duro)…

O contrabando é uma atividade normal no país, além da produção e tráfico de entorpecentes. Os carros roubados no Brasil são levados para o Paraguai e lá vendidos a membros das forças armadas. Mas, o general Figueiredo, quando em visita ao Paraguai, afirmou que lá existe democracia plena! Isso dá até um arrepio na espinha… Será que ele não entende nada de democracia?!

16/04/1980 – As casinhas do Vovô

Neste País acontece cada uma… O deputado Domingos Leonelli (pMDB-BA) classificou, dia 10, em Salvador, de “escandaloso favorecimento” e de “fato que já configura uma negociata” a decisão do ministro do Interior, Mário Andreazza, de adquirir 800 casas pré fabricadas de uma empresa gaúcha. Isso tudo só porque a empresa em questão foi fundada peio avó do ministro e pertence à sua família até hoje… E a compra foi efetuada sem concorrência pública.

Exageros do parlamentar, visto que o ministro nega que a firma ainda pertença à sua família (e o ministro é um homem honrado!). O diretor-presidente da firma. Cia. Industrial Madeireira, Luiz Jair de Zorzi, confirmou a compra e a inexistência da concorrência, mas negou-se a admitir qualquer ligação entre a firma e o ministro. Ela foi apenas fundada pelo avô dele, é tudo mera coincidência, é claro…

Quanto à falta de concorrência publica, o Sr, Zorzi afirmou que “há um decreto que permite tal procedimento”. Estão vendo só? O ministro apoiou-se em um ponto de vista perfeitamente legal. O fato de ninguém saber que decreto é esse (nem o ministro), não tem nenhuma importância. Nada prova que o ilustre e digníssimo construtor da Transamazônica e da Ponte Rio-Niterói, tenha comprado as casinhas do vovô…

Aliás, por falar na ponte e na famosa estrada, dizem as más línguas que o ministro usou muitas vezes desse tal decreto, naquela ocasião, durante o governo Médici, comprando materiais produzidos não pelo vovô, mas sim pela vovó, pelo titio, pelo priminho, etc. Mas, e claro que isso não passa de maledicências. Essa turma tem uma língua preta só!

E verdade que a Assembléia Legislativa da Bahia condenou a aplicação de recursos, da ordem de Cr$ 80 milhões na aquisição das casas pré-fabricadas, sem aplicar um só tostão na região de Bom Jesus da Lapa, onde as casas serão construídas, para abrigar vitimas das recentes inundações… É verdade, também, que o ministro autorizou a compra, pagando o preço de Cr$ 4 mil o metro quadrado, quando o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Bahia já desenvolveu técnica de construção de casa popular ao custo de apenas Cr$ 2 mil o metro quadrado…

Que que é isso, gente! Pegando no pé do Andreazza só porque ele gastou o dobro do que deveria, comprando sem concorrência as casinhas que (dizem as más línguas) são do vovô! Bobagem… O ministro só quer abrigar as vítimas das enchentes! Ele provará que tudo não passa de um MAR DE LAMA!

18/04/1980 – As bodas de prata de Mustafá-Al-Salim

Era uma vez, no país das mil e uma noites, um riquíssimo Xeque chamado Mustafá-Al-Salim, que completou 20 anos de casado. Para comemorar, ele mandou fazer a maior festa já vista, convidando amigos e parentes, xeques e califas, rajás e marajás de todos os cantos do país.

Engraçado que ele mandou fazer convites aos milhões, usando a imprensa oficial do estado que ele chefiava. A festa magnífica, igualmente, foi feita com o dinheiro do erário público e no palácio de jade e cristal que também pertencia ao povo e não ao xeque. Mas, isso são apenas detalhes…

Ele aproveitou o ensejo para convidar a todos os presentes, para ingressarem no seu partido político, o Partido Do Salim. Como muitos estavam vacilando, o xeque Mustafa-Ai-Salim não teve dúvidas: presenteou aos indecisos com as mais raras opalas. com os rubis mais finos, com os diamantes mais brilhantes, com as esmeraldas mais ricas, como se atirasse pérolas aos porcos, tudo isso tirado também do erário publico, é evidente, mas não vem ao caso.

E assim, muitos dos que pertenciam a outros partidos se passaram para o Partido Do Salim, batendo palmas e gritando vivas ao magnífico xeque. Para mostrar o quanto era generoso, ele mandou, então, servir o banquete mais lauto que o pais já tinha visto, em suas mil e uma noites… Faisões e cabritos, frutas de todas as espécies, codornas à omental, tâmaras e pêssegos do deserto, peixes e camarões, comes e bebes dos mais requintados. As bebidas eram todas importadas, desde os mais finos Whiskys até as mais deliciosas champanhes… Tudo era pouco pura agradar aos marajás!

Quando alguém lembrou a Salim que Maomé dissera: – “Uma gota de vinho não beberás!”, o astucioso xeque não teve dúvidas… Jogou uma gota de vinho fora e bebeu o resto. Assim, resolveu dois problemas de uma só vez, o da gota de vinho e o do “gole pro santo”. Como se vê, Mustafa-Al-Salim não era um maometano dos mais ortodoxos.

Mas, parece que o espírito do Profeta não gostou da brincadeira. Quando ia se curvar para beijar a mão dum marajá, Mustafa-Al-Salim levou um tremendo escorregão e caiu sobre uma rica taça de cristal, cortando a bun… Digo, a região glútea.

O povo, que tinha ficado do lado de fora do palácio, morrendo de fome e se babando de ver a festança, não perdoou e caiu na gargalhada!

MORAL DA HISTÓRIA: quem se abaixa aos poderosos mostra a região glútea ao povo.

19/04/1980 – A Falência de uma Campanha

“Plante que João garante!” – gritava um personagem inspirado então no ministro da Agricultura, Delfim Neto, interpretado por Jô Soares na TV. E acrescentava: – “O milharal não está milharando? Vai ter que milharar! Eu não sou de capinar sentado!” – e outras coisinhas assim.

Um ano depois, já podemos avaliar os resultados da campanha do governo Figueiredo, também chamada de “ênfase à Agricultura”… A Apassem – Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Paraná, lançou um ultimato ao governo, no último dia 6: ou se estabelece um maior índice de financiamento de valor básico de custeio, ou os produtores irão paralisar a produção de sementes de trigo para a próxima safra, optando por girassol e soja. Exigem ainda, os produtores, que o Banco do Brasil retire as sementes estocadas das unidades de beneficiamento, para dar lugar à soja.

Já o empresário e diretor do Sindicato dos Produtores de Açúcar de Pernambuco, Gustavo Queirós, afirmou: – “Nós vamos dar um prazo para que o governo se conscientize de que não estamos brincando, que nossa situação é muito grave e que precisamos de uma solução definitiva para o problema da indústria açucareira”. Ele disse, ainda, que todos os usineiros estão unidos e cansados de tantas promessas, esperando que o Governo Federal resolva a questão até o dia 25. Eles pedem um aumento de 100% em seus produtos, a cana, o açúcar e o álcool, para poderem continuar produzindo.

No Rio Grande do Sul, a demissão dos ministros Delfim Neto (Planejamento) e Amaury Stabile (Agricultura) será solicitada pelos agricultores, “a bem da agropecuária brasileira”, conforme decisão tomada dia 6, na sede da Federação dos Trabalhadores na Agricultura. A partir de agora, anunciaram que lançarão uma campanha pela queda do atual modelo agrícola, que chamaram de “nocivo aos interesses nacionais”.

Já o deputado Joaquim Guerra – PDS (PE) – afirmou no mesmo dia, na tribuna da Câmara, que o ministro Delfim Neto, ao ser procurado pelo governador de Alagoas, acompanhado de vários deputados federais, pleiteando medidas em favor da indústria canavieira, respondeu: – “Não suporto pressões. Voltem e toquem fogo nos canaviais”…

Pois é, o milharal não está milharando, o trigal não está trigando, o canavial não está canaviando. É o fim do “milagre brasileiro”… o MILAGRAL não está MILAGRANDO!

21/04/1980 – Carta a Flávia Schilling

Ela é brasileira! Está de volta depois de 16 anos de exílio e 7 anos e meio de prisão nos cárceres uruguaios

Querida Flávia:

Espero que tenha feito boa viagem e que esteja gozando de boa saúde, junto dos seus entes queridos. Aqui na terra, como diria o poeta, “a gente vai levando…” Em primeiro lugar, eu queria lhe dar boas vindas, esperando, sinceramente, que sua estada aqui seja mais agradável que os anos que você passou no Uruguai.

Desculpe se o Brasil que você veio reencontrar ainda não é o ideal, desculpe se ainda não vivemos em plena democracia e em total estado de direito. Sabe, apesar de toda a luta desenvolvida durante esses 16 anos pelo povo brasileiro, ainda não chegamos á normalidade democrática tão sonhada.

Verdade que conseguimos extinguir o AI-5, de tão triste memória. Verdade que não há mais torturas por motivos políticos em nosso País, verdade que, cedendo a inúmeras pressões populares, os cárceres da repressão se esvaziaram. Verdade que houve uma anistia, embora incompleta e restrita, verdade que os direitos humanos já começam a ser respeitados e as classes populares já começam a reivindicar seus direitos, fazendo greves, apesar dos esforços contrários daqueles que vivem a soldo das multinacionais, e apesar da lei anti-greve, que declara todas as greves ilegais…

Sei que você vai estranhar o preço de tudo, o custo de vida, a pobreza do povo, o incrível aumento de tamanho das favelas e do número de favelados. Sei que você vai achar o nosso Brasil mais triste do que quando você o deixou, com apenas 11 anos de idade, mas, o que fazer?

Aqueles que promoveram os golpes militares de 1964 e de 1968 tiveram muitos anos para consertar o Brasil, conter a corrupção, acabar com a miséria e com a inflação e colocar o País no caminho do seu grande destino. Mas, sabe como é, parece que a coisa não saiu bem como foi prometido e, sei lá por que, a miséria aumentou, a inflação estourou, a corrupção comeu solta e o País desandou…

Mas, eu confio no esforço e na capacidade de luta do povo brasileiro; eu ainda acredito que chegaremos à democracia plena e à liberdade, sei que ainda votaremos a eleger o próximo presidente da República e que vamos conseguir, nós, o povo e não os governantes, conduzir o Brasil ao seu destino de grande Nação! Apesar de tudo, seja bem-vinda ao lar, Flávia!

Atenciosamente, Ivan Saidenberg

23/04/1980 – Abertura democrática

Peça em um ato, escrita e dirigida pelo Marquês de Sade e encenada pelos internos do Hospício de Charenton, em mil setecentos e lá vai pedrada.

(Abre-se o pano – os internos estão reunidos numa sala, de camisolão)

JOÃO – Hei de promover a abertura democrática! (Com ar solene)

COUTO – E se alguém for contra? (Cochichando na orelha de lá)

JOÃO – Eu prendo e arrebento! (Dando um soco na mesa)

COUTO – Eu sou a favor! Eu sou a favor! (Cochichando na orelha de cá)

ANTONIO – Vou plantar essa ideia! (Plantando bananeira)

AMAURY – Plante, que o João garante! (Subindo no lustre)

COUTO – Democracia tem cheiro de povo! (Cochichando na orelha de lá)

JOÃO – Prefiro o cheiro de cavalo! (Relinchando)

COUTO – Eu também! Eu também! (Cochichando na orelha de cá e dando coices)

ANTONIO – Antes, se faz necessário conter a inflação! (Pulando amarelinha)_

JOÃO – Tens algum plano a respeito? (Dando um soco num estudante de medicina)

ANTONIO – Ei-lo: contenhamos os salários dos trabalhadores! (Comendo peru)

PAULO – Bravo! Apoiado! E também dos professores! (Fantasiado de Ali Babá)

CÉSAR – Menos os dos criados particulares! Preciso de muitos! (Quase caindo)

JOÃO – Precisas de 50 só pra limpar-te as orelhas! (Rindo muito… de quê?)

IBRAHIM – Não há crise alguma! Terás o que quiseres! (Limpando o nariz)

JOÃO – E quanto à corrupção, o que faremos? (Galopando pelo palco)

PAULO – Há que incrementá-la! (Fantasiado de torre de petróleo)

ERNÂNI – Eu sou muito corrupto! Locupletei-me vendendo ações! (Rindo)

MÁRIO – Eu sou mais! Comprei casas de meu avô, com dinheiros públicos! (Equilibrando-se sobre uma grande ponte)

ANTONIO – Quando eu estive em Paris, recebi umas comissõezinhas por fora… (Comendo caviar e bebendo champanhe francesa)

COUTO – Aposto em ti! (Cochichando na orelha de lá)

CÉSAR – Eu ganho! Basta ver a mordomia de que disponho! (Limpando a orelha)

COUTO – Aposto em ti! (Cochichando no orelhão de cá)

ANTONIO – Promovi a maxi-desvalorização do dinheiro! (Comendo filé mignon)

COUTO – Já ganhaste! Já ganhaste! (Cochichando na orelha errada)

WALDIR – Eu tenho mais mordomias do que todos! (Vacinando todo mundo contra raiva) Sou acusado de corrupção até no exterior!

COUTO – Ai! (Levando vacina ao tentar cochichar na orelha de alguém)

PAULO – Bem, por falar em corrupção, (Fantasiado de odalisca) eu roubei…

JOÃO – Minha carteira! (Espumando de raiva) Bateram a minha carteira! (pano rápido)

26/04/1980 – 1984 já Chegou

“The Big Brother is watching you!” – Sim, irmãos, o Grande Irmão está de olho em vocês, como previa George Orwell, em seu genial livro denominado “1984”… Orwell previu que, nesse ano, haveria um local no mundo onde tudo seria dominado pelo Grande Irmão, ser que tudo via e que tudo sabia, e que falava ao povo por milhões de aparelhos de TV, instalados nas casas, nas ruas, nas praças, nos bares e clubes, em todos os lugares.

No país do Grande Irmão, o Ministério da Paz cuidava da guerra, o Ministério do Amor promovia o ódio e assim por diante. Até a vida particular dos cidadãos era controlada, toda e qualquer tentativa de insurreição contra a ordem instituída (mesmo que fosse uma simples opinião) era violentamente reprimida.

Curiosamente, hoje vemos, em um certo país, uma situação bem semelhante à prevista por George Orwell… É um local onde existe democracia, mas não existem eleições diretas para os principais postos executivos, tais como governadores estaduais e presidente da nação; existe um Ministério da Saúde, mas há milhões de doentes e, quando um eminente cientista estrangeiro tenta curar determinada moléstia, é barrado por todos os meios burocráticos possíveis…

Existe um Ministério da Educação, mas há milhões de analfabetos sem educação nenhuma; há o Ministério das Minas e Energia, mas as minas e a energia estão entregues às mãos de empresas estrangeiras; há o Ministério do Planejamento, mas tudo é feito de improviso, sem planejamento algum; existe o Ministério da Previdência Social, mas o que se vê é uma total imprevidência, com o povo morrendo em pé nas filas dos institutos…

Existe uma “Lei de Segurança Nacional”, que só promove a insegurança dos cidadãos que, por qualquer motivo (até mesmo uma opinião) podem ser enquadrados nela. Existe Liberdade de Imprensa, mas os jornais que criticam o governo são apreendidos; há o Ministério da Justiça, mas não existe justiça igual para todos: todas as greves são declaradas ilegais, nem que precise haver dois ou três julgamentos para tanto…

Os militares nacionalistas, que fazem declarações contra as empresas multinacionais que assolam o país, são demitidos de uma penada; diretores de sindicatos, eleitos pelos trabalhadores, são afastados por meio de intervenção federal e presos! E o Grande Irmão é conhecido, nesse país, como o Super Nacionalista Irmão, que tudo vê e tudo ouve…

Que país é este? Mistério… Ninguém sabe. O que se sabe é que George Orwell errou em suas previsões por apenas quatro anos: 1984 já chegou!

28/04/1980 – O Livro dos Porquês

Obedecendo às ordens do general Figueiredo, que mandou os jornalistas (esses caras que têm de fazer perguntas) a lerem “O Livro dos Porquês”, de uma antiga coleção juvenil, “Thesouro da Juventude”, li.

Eis o que encontrei no Volume IX, à página 2695:

“Os meninos governarão o mundo?

Os meninos de hoje serão os homens de amanhã. Toda a gente sabe que os homens e as mulheres, os reis e os mendigos, os nobres e os plebeus começam a sua vida neste mundo por ser creanças invalidas, mas invalidas do que nenhum outro ser vivo, embora muitas vezes nos esqueçamos completamente d’isto.

Os homens são mortaes sem excepção alguma, e o destino do mundo e seu governo em breve estarão nas mãos dos meninos de hoje. Os que actualmente dirigem o mundo eram meninos hontem e serão amanhã pó impalpável. Tal é a lei da vida. Quer isto dizer que a educação dos meninos é a obra mais pura, mais nobre e mais necessária do mundo; obra difficilima porque o ser humano é tudo quanto conhecemos de mais complicado nos seus dois aspectos: physico e moral.

Quando os homens se convencerem de que o verdadeiro patriotismo, o verdadeiro amor ao paiz que nos viu nascer consiste, antes de mais nada, em vigorizar e enobrecer a vida humana, e se compenetrarem de que, desde o momento em que temos que morrer, tudo aquilo só se consegue educando com cuidado, desde a mais tenra infância, as gerações novas, nesse dia não só teremos o mundo organizado com o principal objectivo da educação da infância, como também os meninos, convenientemente preparados para a vida por uma sólida educação do corpo e do espírito, serão dignos dirigentes das sociedades futuras, que elles saberão fazer mais perfeitas”.

Como os leitores podem perceber, pela ortografia desatualizada, o texto acima foi escrito quando o general Figueiredo era criança. Ele era um dos meninos de então, que hoje governa parte do mundo que mede 8.511.965 Km2, sem contar o mar territorial de duzentas milhas…

Peço a ele que releia o “Livro dos Porquês”, ou pelo menos o trecho acima. Ele, que jurou fazer deste País uma democracia, que concedeu uma anistia (ainda que parcial e restrita), que pretende promover uma “abertura política”, deve se conscientizar de que tem, por primeira obrigação, de fazer mais perfeita esta sociedade que dirige.

Ou pelo menos, menos imperfeita…

29/04/1980 – Acabou a Semana do índio

A semana passada foi chamada de “Semana do índio”, por abranger o dia 19 de Abril, que é o “Dia do índio”. Antropólogos, estudiosos, interessados no assunto e governantes se reuniram, falaram sobre o índio, exibiram filmes, fizeram palestras, o escambau.

Agora, a “Semana do índio” passou. Será que houve alguma melhora para o silvícola brasileiro? Será que o governo tomou alguma medida em favor do indígena? Será que a FUNAI – Fundação Nacional do índio – fez alguma coisa para resolver os problemas do nosso aborígene?

O que eu sei é que dois terços dos territórios indígenas ainda não foram demarcados, o que possibilita a invasão dos mesmos pelos posseiros e jagunços, com o consequente extermínio das populações silvícolas. De cerca de 5 milhões que eram, quando o Brasil foi “descoberto” por Cabral, só restam cerca de 120 mil elementos, a maioria aculturados e em fase de extinção, vivendo como caboclos miseráveis.

O que eu sei é que a floresta amazônica, que poderia servir de habitat para os remanescentes (ou sobreviventes) das tribos indígenas, está sendo arrasada. 11 milhões e 200 mil hectares da floresta já foram destruídos, sem que o governo tomasse qualquer providência. E isso é hectare paca!

O que eu sei é que caciques indígenas foram assassinados recentemente, um deles, Ângelo Cretan, num acidente simulado; e o outro, Ângelo Xavier, de tiro mesmo, desferido por um tal de Antonio de Lino, pelas costas. Apesar de devidamente identificado, o assassino deste último não foi preso pela polícia. O que dizer, então, dos assassinos do primeiro, que não são conhecidos?

O dia 1° de abril registrou três séculos da proibição da escravização dos nossos aborígenes, mas isso ficou só no papel. O que eu sei é que milhares de índios continuam escravizados pelos “civilizados”, embora sem a condição oficial de escravos… Trabalham duro e recebem pequenas ferramentas, colares de contas de plástico, óculos escuros e outras quinquilharias como “pagamento”, vivendo como autênticos escravos.

Acabou a “Semana do Índio”… E agora? Quantas semanas desse tipo ainda teremos, antes que acabem também os índios?

30/04/1980 – Feira de Utilidades Domésticas

Nada de política hoje. Vamos falar da UD, feira de utilidades domésticas, que se realiza todos os anos, em São Paulo. Entre as inúmeras utilidades (e algumas inutilidades) apresentadas, destacamos as seguintes:

FECHADURA ABI-ACKEL – Fecha mesmo. Se alguém duvidar, verifique: tranca no duro. É a fechadura mais usada por nove entre dez indústrias metalúrgicas do ABC. Em caso de greve, a fechadura é imediatamente acionada. Luis Inácio da Silva duvidou e ficou trancado. É a fechadura que está contigo e não abre…

CASAS PRÉ FABRICADAS ANDREAZZA – Feitas no Rio Grande do Sul, estão sendo montadas na Bahia, sei lá por quê. Custam o dobro das casas pré-fabricadas comuns, mas são as preferidas pelo ministro do Interior, que as compra sem concorrência pública. Afinal, quem fundou a firma que constrói as casas foi o vovô dele. De pai para filho, desde 1910.

FURADEIRA MALUF – Fura qualquer coisa, desde poço de petróleo até o esquema do governo federal. Não há lei que resista à furadeira Maluf, que sempre encontra uma brecha. Já furou o orçamento das universidades e vai furar o bolso dos funcionários públicos, particularmente dos professores. Bobeou, furadeira Maluf furou!

BATEDEIRA PM – A batedeira que funciona sempre que ocorrem greves. Bate pra valer, não respeita cara, credencial ou batina. Uma batedeira porreta!

CONGELADOR DELFIM – Já foi muito eficiente, há alguns anos, congelando os salários dos trabalhadores. O novo modelo congelou a correção monetária em 45%, haja o que houver. Só não consegue congelar a inflação.

ABRIDOR DE LATAS FIGUEIREDO – Que abre, abre; todavia, anda apresentando alguns defeitos, abrindo de um lado e fechando de outro.

PANELA DE PRESSÃO ABC – Um caldeirão fantástico, que vive sempre fervendo. Mas apresenta o perigo de poder explodir a qualquer momento.

FERRO DE PASSAR POVO – Anda passando mal à beça, nos últimos 16 anos. Acho que o povo anda queimado e fumegando. Cuidado, onde há fumaça há fogo!

VASSOURA JÂNIO – Uma inutilidade completa. Ha quase vinte anos já ficou provado que varre mal e não funciona. Deveria estar no museu.

ASPIRADOR LAURINHO – Aspira demais, muito além do que deveria. O melhor que se tem a fazer é deixá-lo desligado, num canto. Sendo um aspirador de pó, ao pó há de voltar.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

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