Palavra e Traço – Maio de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/05/1980 – Trabalhadores do Brasil!

Estava eu sentado à minha escrivaninha, pronto para rascunhar mais uma “Palavra e Traço”, quando meu braço tremeu, minha vista se turvou e comecei a redigir uma mensagem psicográfica, que ora transcrevo;

“Trabalhadores do Brasil!

Na oportunidade em que se comemora o Dia do Trabalho, dirijo-me à Nação para cumprimentar o operariado brasileiro, pela sua capacidade de luta e de organização, mesmo diante das funestas provações que lhes têm sido impostas nos últimos anos.

Direitos trabalhistas, leis de proteção ao trabalhador e a própria Consolidação das Leis do Trabalho, tão duramente conquistados através de muitos anos de luta, têm sido desrespeitados por aqueles a quem deveria caber o ônus de zelar por essas mesmas leis e direitos! A estabilidade por tempo de serviço, conquista maior do trabalhador brasileiro, já não mais existe.

O direito de greve, claramente expresso no conjunto de leis de proteção ao trabalhador, não mais é respeitado. A liberdade de reunião deixou de existir na plenitude, já que as praças públicas e os estádios de futebol foram vedados para a realização das assembléias trabalhistas. A ilegalidade das greves tem sido decretada, a todo custo, mesmo ao alto preço do achincalhe dos mais elementares conceitos de Justiça e do aviltamento do nome de juristas brasileiros!

Equivocaram-se aqueles que me atribuíram afirmações de que fui escravo do povo e que este povo não mais seria escravo de ninguém! O povo só pode ser livre na medida em que a sua capacidade de organização e de união se torne maior do que as forças contrárias, geradas pelo poder da concentração do capital, pelo anseio do lucro e pela cupidez daqueles que se locupletam com os desvios da Lei, gerados pelo abuso do poder!

Unidos no mesmo espírito de coesão, lograrão os trabalhadores brasileiros atingir seus objetivos, a despeito do uso da força, da intimidação e da prisão arbitrária. Não há de ser a intervenção nos sindicatos dos operários, nem as bombas e nem os cassetetes das forças da repressão, que irão deter a marcha do operariado brasileiro rumo aos horizontes do seu grande destino!

Trabalhadores do Brasil! Antevejo, com olhos marejados de lágrimas, o grande dia de glória em que a democracia plena será atingida e o povo brasileiro verá, altivamente, conquistadas as suas mais legítimas aspirações!

  1. A) Um espírito amigo”.

Um espírito amigo… Faz lembrar alguém, não faz?

03/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Inflação, poluição, desmatamento, falta de moradia, fome, falta de assistência médica, de dinheiro para comprar remédios etc. São estes alguns dos pequenos probleminhas do povo brasileiro, pra não falar na dívida externa. Desconsolado, o povo, pra espantaras mágoas, canta assim:

MINHA RUA

Nesta rua, nesta rua tinha um bosque,
Onde agora só existe um espigão…
Desse jeito, desse jeito minha rua
Vai chamar, vai chamar desolação!
Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava replantar,
Com mudinhas, com mudinhas de jaqueira,
De mangueira e até de jequitibá!

Ou então, assim:

EU QUERIA

Eu tenho andado tão faminto, ultimamente,
E nem vejo em minha frente
Nada, nada pra comer…
Às vezes fico a caminhar pela cidade,
Relembrando, com saudade,
De uma bóia pra valer…
Eu queria ter na vida, simplesmente,
Um salário mais decente,
Pra comer e pra beber…
Uma casinha sem financiamento,
Correção e nem aumento,
Pra de noite adormecer!

05/05/1980 – Cantinho do Sucesso – II

Aumento do pedágio, gasolina a Cr$ 28,00, leite marronzinho e carinho, falta de vergonha na cara de uns e outros… Tudo isto faz com que o povo, sem outras opções, cante para desabafar, assim:

UM LENCINHO

Aquele aumentinho,
Que você negou,
E só um pedacinho
Do muito que malufou!
Um lencinho
Não dá pra enxugar
O rio de lágrimas,
Que o povo vai chorar,
Que nasce da vontade
Que você tem de malufar
Que nasce da vontade
Que você tem de malufar!

Ou até músicas juninas, antes do tempo:

SEU JOÃO

A inflação vai subindo,
Vai caindo o salário.
Meu nível de vida
Está muito precário…
Seu João, Seu João
Avise ao Delfim
Que assim não dá não!
Seu João, Seu João
Avise ao Delfim
Que assim não dá não!

06/05/1980 – O Povo é de Paz

O povo brasileiro é pacífico e ordeiro, como ficou provado no dia 1° de maio, o “Dia do Trabalhador” que, em nossa terra, chama-se “Dia do Trabalho”, o que é um absurdo, pois nesse dia ninguém trabalha.

No ABC, (após alguns incidentes onde a Polícia Militar baixou o cacete, arrancou faixas das mãos dos operários, atirou bombas de gás lacrimogêneo e agrediu um senador da República, Franco Montoro, a socos e pontapés, além de outras amenidades costumeiras) houve uma passeata-monstro, onde 120 mil pessoas, na mais absoluta ordem, protestaram contra as prisões ilegais dos líderes sindicais e apoiaram os metalúrgicos em greve.

E sabem por que a passeata foi feita em ordem e na mais perfeita paz? Porque o comando da PM resolveu, num rasgo de bom senso, retirar o policiamento e permitir a realização da manifestação pública, liberando inclusive o estádio da Vila Euclides para o uso da assembléia de trabalhadores em greve.

Assim, fica demonstrado que o povo é de paz.

Quem provoca os choques, ferimentos, agressões, etc., é a própria polícia, que deveria ter, como primeira obrigação, o dever de manter a ordem e paz. Basta se recordar outro incidente, ocorrido há poucos dias, em que outro senador da República, Orestes Quércia, do pMDB tal como Franco Montoro, e de Campinas, foi estupidamente agredido com uma bomba de gás lacrimogêneo, quando transportava, em carro oficial, o líder metalúrgico conhecido como “Alemão”. Uma vez mais, a agressão partiu da polícia, não se sabendo se de agentes do Deops ou do Doi-Codi.

Sob pressão popular, o comando policial cedeu no dia 1° de maio… Mais uma vitória do operariado brasileiro, que demonstrou ser ordeiro e pacífico.

O trabalhador só deseja melhores salários e condições mais dignas de vida (ou menos indignas).

E é isso aí, minha gente: como dizia o poeta, “a praça é do povo, a praça é do povo, a praça é do povo, como o céu é do condor”! Só que, no ABC, o céu é dos helicópteros do exército.

07/05/1980 – Modinha do Cego Cantadô

Rua de terra, vila do Nordeste, porta da igreja. Foi lá que ouvi um cego “cantadô” dedilhar a viola e cantar assim:

“Oxente, eu vou falá
Da greve do ABC.
O que tá cuntecendo lá,
Só quem é cego num vê.
No papé de trovadô,
Num posso sê a favô
E contra num posso sê.
Eu sei que aqui no Brasí
Tem ministro, sim sinhô.
Tem ministro do trabaio,
Num tem do trabaiadô.
E se acauso alguém se atrave
A arresorvê fazê greve,
Vai pro xadreiz, sim sinhô.
Sei que num é novidade
As puliça, com vontade,
Baixa o pau pra valê,
Batê nos trabaiadô…
Só que lá no ABC
Apanha inté deputado,
Apanha inté senadô.
Em veiz de aribu, no céu,
Tem uns treco com motô,
Recheado de sordado,
Coisa da gota serena!
O povo aqui do nordeste
Chama de coisa da peste
Esses aribu sem pena.
Tem uns líder sindicá,
Que tá tudo no xadreiz.
E o governado de lá
Já mandou prender mais seis…
Sô cego e num vejo a luiz,
Mas eu juro por Jesuis,
Que pobre lá num tem veiz.
É mió eu me calá,
Se eu continuá a canta,
Os homi pode pensa
Que eu quero subivertê.
No papé de trovadô,
Num posso sê a favô
E contra num posso sê.

08/05/1980 – E o Circo Chegou!

O Grande Circo Brasil chegou! Venham todos ver os palhaços, as bailarinas, os equilibristas, os mágicos, os animais amestrados! Não percam! Vejam as principais atrações:

Na corda bamba – Incrível número estrelado por César, o inimitável! O homem está na corda bamba há meses e não caiu até hoje! Nem mesmo o caso das mordomias e nem os constantes aumentos dos derivados de petróleo o derrubaram. Mas há quem ainda garanta que ele vai cair.

A gorda bailarina – Com cento e vinte quilos, essa artista incrível vai na valsa com a maior tranquilidade. Já bailou em Paris, onde recebeu (segundo se diz) polpudos cachês. Não deixem de ver Delfina – corram comprar seus ingressos, pois, do jeito que as coisas vão, ela vai dançar!

O incrível mágico – Mário, o magnífico, já tirou da cartola uma ponte imensa e uma estrada sem fim! Agora anda tirando casas pré-fabricadas para os flagelados das enchentes, ao preço de Cr$ 4 mil o metro quadrado, quando poderia tirar casas da metade do preço. Sua maior mágica, entretanto, é conseguir permanecer no posto, apesar disso.

O domador de feras – Número estrelado por Ernane, com muita ação (mas muita ação mesmo!). Esse domador extraordinário soltou as feras no vale e, quando o povo se apavorou, acalmou a todos gritando: Senta que o leão é manso!

O homem invisível – Só este circo tem este número! Couto, o homem invisível, está em toda parte e ninguém o vê. Por trás dos bastidores, ele rouba o espetáculo, há anos. Há quem afirme que o circo é dele, mas ninguém tem certeza. Couto, o invisível, atua nas sombras!

O mestre da equitação – João é um cavaleiro incrível, que consegue manter-se na sela, apesar de todos os contratempos pelos quais passa o Circo Brasil. Em seu número, cavalga com a mão estendida, enquanto que puxa as rédeas e o bridão com a outra. Todavia, há quem afirme que ele ainda vai cair do cavalo…

O rei dos palhaços – Rindo e fazendo rir, Paulo é, sem dúvida, o rei dos palhaços! Suas tiradas provocam as maiores gargalhadas, mas há quem diga que seus atos, fora do picadeiro, são de fazer chorar. Paulo também é mágico e promete tirar petróleo até de pedra! Seu maior número é dar pirueta e cair sentado sobre uma redoma de cristal. O povo não sabe se ri ou se chora, mas Paulo gargalha, pois alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo!

Sessões diárias, a preços altos, mas vale à pena ouvir o arauto do circo, Said. gritar: – Hoje tem marmelada? E o povo responder: – Tem, sim senhor! – Hoje tem goiabada? – Tem, sim senhor! – E o palhaço, o que é? E o povo, em peso: – É ladrão! É ladrão! É ladrão!!!

10/05/1980 – The Blind Singer Rides Again!

O cego “cantadô” ataca novamente! Ele veio pra “Sumpaulo” e anda cantando pelas quebradas de São Miguel Paulista, subúrbio onde predominam os nordestinos. Fui encontrá-lo na porta duma igreja, cantando assim:

“No dia que o sertão fô virá mar,
No dia que o mar virá sertão,
O povo nesta terra vai mandá,
Por enquanto só quem manda é os tubarão!
Eu sei que eu num posso enxerga,
Mas enxergo mió que os patrão…
E sei que esse dia vai chega,
E que vai terminá nossa aflição!
É mió se vivê pedindo esmola,
Do que sê trabaiadô no ABC.
É mió cantá moda de viola,
Do que nas indústria padecê!
Oxente, é honesto trabaiá,
Mas quem trabaia deve recebê…
O povo só merece melhorá,
Em veiz de cacetada pra valê!
Diz que é um direito fazê greve,
Pará, cruza os braço, sim sinhô
Mas se os pobre faiz isso, a coisa freve,
E é pau no lombo dos trabaiadô!
Eu queria vê a paz no meu país,
E a orde e o pogresso imperá,
Eu queria vê o povo sê feliz,
Mas sô cego e num posso enxergá…
Já dizia o veio Antonho Conseiero,
Que o povo tem direito ao seu quinhão,
Mas, enquanto só manda quem tem dinhero,
Esta terra num vai pra frente, não!
No dia que o sertão fô virá mar,
No dia que o mar virá sertão,
O povo nesta terra vai mandá.
Por enquanto só quem manda é os tubarão!

12/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Nem o “rei” escapa! O povo, angustiado com a inflação, com as greves, com o custo de vida e com a falta de vergonha na cara de uns e outros pela aí, está cantando paródias das músicas do Bebeto:

Força Estranha
(ou, Pega que é Trombadinha!)

Eu vi o menino correndo,
Não tive tempo
De barrar o caminho daquele menino…
Eu pus minhas mãos no diacho,
Mas acho que não segurei,
Só sei que, ali na estrada,
Sem minha carteira fiquei!

Café da Manhã
(ou, Tamos em Greve!)

Amanhã de manhã,
Vai haver confusão no ABC,
Camburão no caminho e depois
Pelotão da PM…
Vou escapar
Da desordem da praça e esperar,
Lentamente, a coisa acalmar,
Pra sair amanhã…
Pensando bem,
Amanhã eu nem vou trabalhar…
E, além do mais,
Da polícia eu
Não quero apanhar!
Amanhã de manhã,
Eu não quero nenhum compromisso,
Meu salário tá baixo,
E por isso,
Vou cruzar os meus braços
Quando, mais tarde,
Derem aumento,
A gente se anima,
Dá um jeito e a
Greve termina,
Vou poder trabalhar!
(Na praça apinhada,
Os PMS dão
Muita cacetada,
Muito pescoção…
Bombas que estouram,
Tiras que trituram
O trabalhador,
Quando o seguram…)

13/05/1980 – Cantinho do sucesso – III

Mesmo chorando, com bombas de gás na cara, a poluição ambiental e a inflação galopante (pra não falar da falta de vergonha de alguns políticos no poder), o povo ainda acha tempo para cantar:

Está faltando

Está faltando uma coisa em mim,
E é dinheiro, amor
A culpa é do Delfim!
Novos aumentos já foram demais,
Por isso é que eu
Não tenho paz!

Buchinho vazio

Buchinho vazio,
Um frio que provoca arrepio,
Feijão nem pintou no pedaço,
E eu já tou indo pro espaço…
Meu feijão,
Quero comer-te,
Ao menos, ver-te…
Buchinho vazio,
Feijão, meu feijão que sumiu,
Eu peço pra Deus
Devolver-te!

Porque senão, ela estoura!

É preciso muita grana,
Para suportar essa inflação!
Tudo que eu ganho a danada quer levar,
Tudo que o Delfim tem de fazer é congelar,
Porque senão
Ela estoura,
E a grana vai-se embora, o,
A grana vai-se embora! (Bis)

14/05/1980 – Futebol, Ópio do Povo

“Minha maior preocupação é com o time do Fluminense, que não anda bem!” – Quem teria feito esta declaração? Algum torcedor, no Maracanã, ou algum dirigente de clube desportivo? Nada disso: ninguém mais e nem menos do que o general Figueiredo, Presidente de plantão da República Federativa do Brasil!

Temos uma dívida externa de quase 70 bilhões de dólares, impossível de ser paga, pois os juros, os novos empréstimos e o déficit na balança comercial só tendem a aumentar essa quantia inacreditável. Mas, o Presidente está preocupado com o Fluminense…

A fome ronda 40 milhões de brasileiros, que vivem em condições precaríssimas, desempregados ou subempregados, ganhando menos do que o necessário para comer o arroz com feijão. Mas, o Presidente está muito preocupado com a má fase de seu clube…

Greves espocam por todo o País, líderes sindicais são presos, professores fazem greve de fome no xadrez, policiais da PM, do Deops e do Doi-Codi baixam a lenha nos trabalhadores grevistas, no ABC. Mas, o Sr. Presidente está mesmo é preocupado com onze marmanjos de calção..

As favelas se multiplicam, não há moradia digna para todos; o custo de vida está insuportável, os aluguéis caríssimos, o povo não tem como alimentar seus filhos e cerca de 60 crianças morrem de fome, no Brasil, por hora! Mas, S. Exa. está mesmo é preocupado com um time de futebol.

A corrupção come solta, há denúncias quase diárias contra ministros, fala-se de mordomias e de falcatruas, negociatas e mamatas entre os homens que estão no poder. Mas, o general só pensa no Flu…

O esquadrão da morte mata diariamente, a sangue frio, dezenas de pessoas, supostamente envolvidas com roubos ou tráficos de entorpecentes. Isso é um grave desrespeito á lei e à ordem, mas o D.D. Presidente está é preocupado com a falta de gols de seu time…

Ao conversar com crianças ou com operários, a primeira coisa que o general João Baptista faz é perguntar qual o time de preferência dos entrevistados: Flamengo? Corinthians? Palmeiras? Náutico? Internacional?

Será que o nosso maior governante é mesmo tão interessado em futebol, ou alguém da Secom está querendo transformar o nosso principal esporte em ópio do povo?

15/05/1980 – Moda de Viola

Eta, ceguinho cabra duma peste! Quando o pessoal lá de cima pensa que ele já parou de cantar, depara com ele na porta duma igreja, de viola em punho e cantando assim:

“Moda de viola
De um cego infeliz, ai, ai!
Moda de viola
Vai falá agora
Dum pobre país, ai, ai!
Acabou-se a greve,
Mas a coisa freve, ai, ai!
Lula na prisão,
Enquanto nas rua
Tem muito ladrão, ai, ai!
Um ministro ri,
Mas o povo chora, ai, ai!
A humiação
Que impusero ao povo
Num fica ansim não, ai, ai!
Moda de viola
Fala do João, ai, ai!
Que só pensa em bola,
Enquanto que o povo
Tá pedindo esmola, ai, ai!
Moda de viola
Num canta, só chora, ai, ai!
Isso eu num nego,
Moda de viola
Num dá luiz a cego, ai, ai!
Moda de viola
De um cego infeliz, ai, ai!
Moda de viola
Vai calá agora,
Pobre do país, ai, ai!”

19/05/1980 – Cotação

 

Hoje quem vai fazer a cotação dos filmes da semana serei eu. Mas o colega Laerte Ziggiatti não precisa ficar preocupado, uma vez que os filmes em questão não estão passando em Campinas e sim em outras localidades.

Eis os principais filmes em exibição:

Convite a Depor – Nacional. Direção de R. Turma. Em exibição em São Paulo, Santo André, São Bernardo, São Caetano etc. Com a participação de operários, professores e outros infelizes. Um delegado emprega seu tempo convidando os demais participantes para depor na sua delegacia.

Uma desagradável surpresa.

 

Os Sete Porquinhos – Nacional. Sem direção, ao que tudo indica. Em exibição em Brasília, com a participação de Merlin Netto, Emane Gavião, Mário Andaasa, Waldir Arcovarde, Lambary C. Silva, Amaury Instável e Murilo Maiscedo, além de outros. Tragicomédia baseada em novela policial de Ágata Triste, focalizando a desintegração de um governo.

Muito artificial. Não justifica a permanência desses caras nos respectivos cargos

Inflação, A Verdadeira – Nacional. Direção de Merlin Netto, César Caos, Camelo Pena e outros. Com a participação de atravessadores, agiotas, especuladores e muitos tubarões. Um elenco multinacional! Antes já tivemos umas inflações falsas, além de índices manipulados para diminuí-las, desde 1973. Agora sim, temos uma inflação verdadeira, de arrebentar a caixa de qualquer um. Em exibição em todo o território nacional.

Banditismo gratuito. Pura roubalheira.

A Classe Operária Vai Pro Quinto dos Infernos – Nacional. Direção de Luís Inácio, com a participação de boa parte da classe operária. Em exibição em São Bernardo do Campo e em todo o ABC. Trata-se da triste história do operariado. Filme pesado e amargo, sem faltar alguns toques de humor negro, sobre os problemas vividos pelos operários de indústrias metalúrgicas, derivados do trabalho profundamente aviltante a que eles são submetidos, além de salários humilhantes.

Excelente para o povo, péssimo para o governo.

20/05/1980 – Merlim Netto

A terrível e poderosa bruxa INFLAÇÃO assolava o país. O velho mago Merlin Netto, o feiticeiro dos números, jurou que acabava com ela e partiu para a luta, munido de sua varinha mágica que, em 1973, transformara uma inflação de 25% em apenas 12% (segundo os cálculos dele, pois o negócio do Merlin Netto é números)…

A velha bruxa, que já andava solta há muito, não se atemorizou e o desafiou para um duelo de magia! Nesse estranho duelo, cada um poderia se transformar no que quisesse, para enfrentar o outro.

– Lembre-se das regras! – disse a bruxa – Minerais e vegetais não valem: só animais! E também não vale desaparecer!

Merlin Netto topou, pois não queria desaparecer de jeito nenhum, e sabia que a Inflação não iria desaparecer jamais. Na verdade, o que o Merlin Netto gostava, mesmo, era de aparecer!

Assim, começou o terrível duelo: a bruxa se transformou num cavalo e virou a inflação galopante. Merlin Netto virou onça e atacou pra valer! Mas a bruxa se inflou tanto, ficou tão imensa, que a onça, perto dela, parecia um gatinho gordo e inofensivo…

Aí surgiu Emane, amigo e assistente do mago dos números, um corujão esperto e metido a sábio, que entrou também no duelo. Ernane, o amigo da onça, atacou a bruxa, gritando: – VALE TUDO! E aí foi uma luta com muita, mas muita ação! Tanta ação, mas tanta

foi só pena voando pra todo lado… Para Ernane, a luta virou um vale de lágrimas.

Depenado e muito sem graça, o Ernane saiu-se mal no caso do vale tudo. Há quem diga que, depois, ele recebeu um polpudo cachê pela sua participação na luta, mas isso já é outra história… Vendo que ser onça não adiantava, Merlin Netto transformou-se num porco selvagem!

Mas a Inflação transformou-se num dragão verde e imenso, gritando: – Oba! Hoje vai ter porco com farofa! – E partiu para cima do porcão, que fugiu correndo e gritando que não queria virar presunto das “Casas da Banha”!

Um pobre operário que passava por ali, chamado Salário, tentou ajudar o mago dos números na luta contra a Inflação, mas esta estava tão grande e poderosa que gritou: – E eu lá vou ter medo de um Salário mínimo? – E devorou o operário, sem dó nem piedade!

Merlin Netto foi se refugiar no palácio do rei João, “o sem medo”, também conhecido como João Valentão. Quando o rei viu o feiticeiro dos números transformado em porco e verde de medo, quis saber por que ele tinha sido derrotado vergonhosamente pela Inflação.

Tremendo de medo de perder o seu posto de “ministro feiticeiro” do rei, o porcão, digo, o feiticeiro explicou: – A Inflação engoliu o Salário e ficou gorda e forte, Majestade! Nada po-posso f-fazer… é tudo culpa do Salário!

E o rei, bocejando enquanto assistia a um jogo do Fluminense na TV, aceitou a desculpa, dizendo: – Ah, bom! Então está tudo bem… Minha única preocupação é o danado do Flu!

21/05/1980 – O Nostradamus do Planalto

Há pouco tempo atrás, um fanático meio maluco, chamado Roldão Mangueira, afirmou que o mundo ia se acabar num novo dilúvio. Talvez impressionado pelo próprio nome, ele afirmou que Deus ia abrir as mangueiras do céu e levar o mundo de roldão…

As profecias desse fanático, chefe da seita “Barboletas Azuis”, só assustaram umas poucas pessoas, na maioria semi (ou totalmente) analfabetas, que se recolheram a um templo e ficaram rezando, acreditando nessa conversa mole e pensando que o mundo ia se acabar…

Mas, eis que surge outro profeta no pedaço: Ibrahim, o Nostradamus do planalto! E suas tétricas profecias estão assustando muito mais gente, visto que elas têm grande chance de se concretizarem.

Por alta noite, em visionária luz, o profeta se concentrou, recebeu o santo e mandou ver esta obra prima de profecia:

“Se quem é da oposição,
Obstinado, continuar na posição
Que tomou, em recesso entrarão
As câmaras das municipalidades, os alcaides mores sairão
E os interventores, então,
Tornar-se-ão duras realidades.”

Como os leitores podem notar, trata-se de profecia em verso, de significado obscuro e sujeito a diversas interpretações. Como sou dado a decifrar sonhos e profecias, lendo os versos do novo Nostradamus cheguei á seguinte conclusão: se as oposições continuarem obstinadas na posição que tomaram, lamentavelmente as Câmaras municipais entrarão em recesso e os atuais prefeitos cederão lugar a interventores.

É de arrepiar! É o fim do mundo! Já pensaram, mais de 4.000 interventores municipais sendo designados pelos governadores estaduais de uma penada? Prefiro ver Campinas destruída por um novo dilúvio, a ver o Sr. P. Maluf designar um amigo dele, tirado do bolso do colete, para reger os destinos da nossa amada cidade!

E como, recentemente, o Sr. P. Maluf recebeu, a portas fechadas o Sr. Lauro P. Gonçalves, ex-prefeito de Campinas, que já responde a nada menos de 6 processos por abuso de poder e malversação de dinheiro público, só se pode sentir um calafrio na espinha…

Entre as profecias do Roldão Mangueira e as do Ibrahim Nostradamus, sinceramente, prefiro que o mundo se acabe.

26/05/1980 – O ministro maravilhoso

Ah, o País das Maravilhas tem um ministro maravilhoso! Eram precisamente cinco da tarde (são sempre cinco da tarde no País das Maravilhas), quando o ministro da Falta de Planejamento, Merlin (Coelho Branco) Netto chegou para o chá, pois todo mundo sabe que cinco da tarde é hora de chá

Nem bem ele tinha começado a degustar uma garrafa de “Chateneuf de Quelquechose”, importado da França, além do tradicional “filet de escargot au bouilabasse” (idem), acompanhado de um “fromage de suisse flambée”, importado da Suíça, chegou um jornalista…

Jornalista, pra quem não sabe, é um daqueles chatos que só pergunta coisas que a gente não quer ou não gosta de responder (segundo definição do próprio Coelho Branco). Vai daí, o jornalista chegou e perguntou: – É verdade que a Rainha de Copas vai determinar um corte nas importações do reino, Sr. Ministro?

– Trata-se de uma informação que não tem fundamento! – declarou o Coelho Branco, enquanto tomava um gole de champanhe “Veuve Clicot”, safra 1952, recém-chegada de Paris, acompanhada de “pomes de terre” deliciosas, desembarcadas do mesmo avião em que veio o champanhe.

– Todas as restrições já foram feitas, inclusive no setor público! – complementou o coelho, enquanto devorava uma revista em quadrinhos com o “Incrível Hulk”, o “Surfista Prateado”, o “Capitão América” e outras superfluidades ostentatórias, recentemente chegadas dos Estados Unidos.

– Aceita um pedaço de bolo?

– indagou o Coelho Branco para o jornalista – Acabou de chegar da Itália, é todo recoberto de passas e tem recheio de tâmaras da Arábia Saudita!

– E, enquanto falava, repartia o bolo.

– B-bem, eu… – retrucou o jornalista – não sei se…

– Ótimo! – redarguiu o coelho. – Se você não quer, como eu! – E engoliu o Dolo todo, de uma garfada só. O garfo e a faca, aliás, eram de prata mexicana, e tinham acabado de chegar de navio, junto com os pratos de ouro, vindos do Peru.

– Então, não haverá corte?

Indagou novamente o jornalista, engolindo seco, já morrendo de fome (como a maioria da classe, aliás)…

– Um novo corte implica em admitir que, a esta altura, ainda estamos realizando importações supérfluas, o que ê um absurdo! – declarou o ministro, tomando um gole de “Chivas Regal 12 years old”, recém chegado da Escócia, enquanto ouvia, no FM vindo do Japão, a canção “The Beatles Are Still Alive”, ou qualquer coisa parecida, vinda da Inglaterra.

– Estamos importando o estritamente necessário! – Arrematou o ministro Merlin Netto, engolindo maravilhosos figos ao licor, chegados naquele momentinho da Síria. Que ministro maravilhoso, no País das Maravilhas!

28/05/1980 – Este é um país pobre

País das Maravilhas, cinco da tarde: a Rainha de Copas manda chamar seu ministro da Falta de Comunicação, para lhe dar importantes instruções. Correndo feito o Coelho Branco, esbaforido, o ministro atendeu prontamente ao chamado, antes que a rainha mandasse cortar a sua cabeça.

Saidessa Vida, o ministro em questão, chegou às cinco em ponto (pois é sempre cinco da tarde no País das Maravilhas) e disse: – Puf… puf… puf! – Pois era a única coisa que poderia dizer, depois de correr tanto.

– Puf puf puf pra você também – respondeu a Rainha de Copas – ainda bem que atendeu prontamente ao meu chamado! Vejo que preza manter sua cabeça sobre os ombros! – E deu um trago em seu “Parliament” importado dos EUA.

– Por que me chamaste. Majestade? – Indagou Saidessa Vida, limpando o suor com um lenço de seda finíssima, importado de Hong Kong.

Os jornais do reino andaram noticiando que mais de cem autoridades governamentais estão depositando dinheiro em bancos SUÍÇOS! – Explicou a Rainha, comendo um queijo dessa mesma nacionalidade.

– Jóia! – replicou o ministro – Pode me pôr nessa boca, Majestade!

– Estúpido! – berrou a Rainha, dando-lhe um catiripapo nas orelhas – Não é nada disso! Quero que você desminta essa notícia e ainda ameace os jornais com uma nova lei de responsabilidade.

– M-mas, Majestade – redarguiu o ministro – nós já temos uma lei de imprensa, uma lei de segurança nacional, uma lei de censura… pra que mais?

– Cretino! – urrou a Rainha, atirando-lhe um rico prato de ouro na cara – Fique sabendo que lei nunca é demais!

E continuou degustando o queijo suíço, enquanto bebia champanhe francesa.

– É isso daí! – complementou Lambary, o chefe da Casa Civil da Rainha, que curiosamente era um militar – Nem sempre os donos de jornais concordam com o que é publicado nos mesmos! – E tomou um gole de vinho Chatô de Nunseiquê, recentemente importado de Paris.

Enquanto isso, o ministro da Falta de Trabalho virava uma cartola cheia de vinho branco (alemão, é claro) na cabeça, ao passo que o ministro de Falta de Planejamento repartia o bolo (de cerejas e nozes) e depois o comia sozinho.

– M-mas afinal Majestade… – disse, trêmulo, o ministro da Falta de Comunicação – o que devo dizer ao povo?

– Ora – respondeu a Rainha de Copas, enquanto degustava deliciosos bombons recém-chegados da Inglaterra – diga ao povo que isso de ter contas em bancos estrangeiros é uma calúnia!

E, complementando, enquanto deglutia legítimos marrons glacês, a Rainha saiu-se com esta: Este é um país pobre!

– Arroste! – Arrotou o chefe da Casa Civil.

29/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Quem não conhece “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque de Hollanda? O povo vive cantando essa música, só que numa versão um pouco diferente:

“De tudo que é nego torto,
Do mangue e do cais do porto,
Ele já foi aliado;
É amigo dos tratantes,
Dos falsos, dos meliantes,
Dos que muito têm roubado…
É assim desde menino,
Já roubava em pequenino,
E escondia no mato.
Ele nunca foi detento,
Escapou, o lazarento,
Até mesmo do internato.
Hoje rouba, amiúde,
As velhinhas sem saúde
E as mestras sem porvir…
Ele é um poço de vaidade,
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
Joga pedra no Salim,
Joga b* no Salim,
Ele só sabe roubar,
Ele vai nos destruir,
Ele rouba qualquer um…
Maldito Salim!”

OS: Não viso a nenhum Salim em particular. Quem achar que a carapuça lhe serve…

31/05/1980 – O Chapeleiro Louco endoidou!

Eram exatamente cinco da tarde no relógio do Chapeleiro Louco(l), ministro da Falta de Trabalho do País das Maravilhas. Foi então que a Lebre Maluca, chefe da Casa Civil da Rainha de Copas se aprochegou(2) e disse:

– Os ferreiros reais estão em greve! Cansaram de malhar em ferro frio! O líder deles, o Polvo, já foi afastado, preso e enquadrado na LSPM(3)!

– Estou sabendo! – redarguiu o Chapeleiro – Aceita não tomar chá?

– Você não deveria dizer: “não aceita tomar chá”? – Indagou a Lebre.

– Acontece que isto não é chá, é uísque, – respondeu o Chapeleiro – e não estou tomando, porque o médico me mandou só beber antes das cinco, ou depois, o que não faz diferença alguma!(4).

– O Polvo já está solto! – gritou o Rato do Campo, ministro da Falta de Justiça, que dormitava(5) dentro do bule cheio de uísque… – Hic! – arrematou – E vai voltar à presidência do sindicato!

– Não, enquanto eu for ministro da Falta de Trabalho! – berrou o Chapeleiro – O Polvo está completamente impedido! Impedido!

– Mas como, se ele não é jogador de futebol? – Argumentou a Lebre Maluca, inutilmente, pois ninguém lhe deu atenção…

– Ele não poderá se candidatar nem mesmo para o próximo mandato! – Urrou o Chapeleiro – O Polvo não será mais nada na área sindical!

– Hic! Eu não sabia que você era profeta! – disse o Rato do Campo, pondo a cabeça para fora do bule, mais uma vez, ato de que se arrependeu em seguida, pois levou um catiripapo no quengo.

– Ele não poderá recorrer â Justiça para voltar à presidência do sindicato? – Indagou a Lebre Maluca, virando uma terrina cheia de geléia na cabeça.

– Ele pode fazer o que quiser, mas enquanto eu for ministro, ele não volta! – Vociferou o Chapeleiro Louco, derramando uma cartola cheia de champanhe na goela.(6)

– Ora, você está louco! – Sentenciou a Lebre Maluca, comendo pastéis de vento e bebendo água com sabão.

– Bah, somos todos loucos!(7) Hic! – Declarou o Rato do Campo, ousando sair do bule, uma vez mais.

– Cortem-lhe a cabeça! – Berrou a Rainha de Copas, que chegava à mesa do “chá doido” naquele momento…

Como ninguém sabia á qual cabeça ela se referia, todos os ministros saíram correndo, apavorados, pois muitas cabeças já haviam rolado naquele ministério. Comendo e bebendo sozinha tudo que havia na mesa, a Rainha de Copas sorriu e, de barriga cheia, sentenciou:

– Quem confere ferro, conferido será ferrado!(8)

 

(1) – E daí, se o relógio dele está sempre parado?

(2) -Ai!

(3) – Lei de Segurança do País das Maravilhas, é claro.

(4) – São sempre cinco da tarde no País das Maravilhas.

(5) – Dormitava, já não mais dorme, posto que acordou.

(6) – De quem?

(7) – Inclusive eu, que penso ter sido Lewis Carrol na outra encarnação.

(8) – Ou qualquer coisa semelhante, bolas. Afinal, ela bebeu tudo, não?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s