Palavra e Traço – Julho de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

02/07/1980 – Não Põe Veto no Voto

Ninguém segura a juventude do Brasil! Vejam só o que os estudantes andam cantando pelas ruas, a despeito de todas as tentativas de repressão e intimidação:

Não põe veto no meu voto,
Não tente bancar o chefe,
Não dá ordem ao pessoal…
Não me venha com mentira,
Ninguém mais te admira,
Eleição não é um carnaval!

Não sou candidato a nada,
Meu negócio é batucada,
Mas, meu coração é do povo
De poder votar de novo,
Exigindo plataforma!

Por um voto,
Que balance o teu coreto,
Que eleja quem, de fato,
É político correto…

Por um voto,
Livre, simples e direto,
Democrático e secreto,
Que demonstre um sentimento…

Por um voto que seja um documento,
Que destrua e arrebente
Teu cordão de isolamento!
(breque)
Não põe no meu!

04/07/1980 – Meu voto para João Paulo II

Em sua coluna do dia 3 último, o prezado colega Roberto Godoy dignou-se a citar o meu nome, pela vez primeira, para informar a um leitor mal informado, que ligou para a casa dele e não se identificou, que quem escreveu a columa “Campinas-2” no dia 1° de julho fui eu e não ele, posto que o Godoy estava com pneumonia e tive a honra de substituí-lo.
Na mesma coluna do dia 3, o Roberto diz que ele está adorando a visita do Papa e que ele gosta muito de Joao Paulo II. Eu quero acrescentar que eu também estou e que sinto-me honrado, juntamente com todos os brasileiros, por receber tao insigne visitante.
O que eu critiquei no dia 1°, foram os “vendilhões do templo”, aqueles que se aproveitam da visita do Papa para faturar em cima, vendendo tudo que é bugiganga ao povo, abusando da fé pura dos católicos. Critico, também, a improvisação de nossas autoridades que, sem planejamento algum, estão gastando verbas enormes para embelezar os lugares por onde o representante de Cristo na terra irá passar ou já passou.
Eu desejaria, até, fazer um convite a Sua Santidade João Paulo II para vir residir no Brasil. Eu sei que isso é impossível, mas gostaria muito se pudesse ser uma realidade… como isto aqui iria endireitar, meu Deus! O governo iria fazer de tudo para que o Brasil se tornasse um pais limpo e saudavel, com um povo feliz, para que o Papa se sentisse bem entre nós.
Morando, por exemplo, em Aparecida do Norte, Sua Santidade poderia percorrer o Pais de norte a sul, e de leste a oeste. E como tudo ficaria bonito! Consertariam os buracos das ruas, colocariam água e luz em toda parte, esgotos; fariam estradas asfaltadas pelo sertão todo e até resolveriam, aposto, a questão da seca no nordeste, só para o Papa não ver nordestino morrendo de fome e sede! Ate os índios seriam salvos do extermínio total!
E quero esclarecer aos leitores que não sou católico, nem judeu (apesar do sobrenome), sou espiritualista, nao tenho nada contra religiao nenhuma e acho que todas levam a Deus. E viva o Papa João Paulo II!

05/07/1980 – Buuuuuuummmm!!!

O que é bom para a Alemanha é buuuuuuuummmrnmmmmmmmmmmmmm para o Brasil?

Os serviços de segurança do Ministério das Minas e Energia estão acusando, oficialmente, os comunistas e os sionistas pela campanha anti nuclear que está sendo feita no Brasil, face à teimosia daquele Ministério, entregue às mãos de César Cals (ou será Caos?), de levar à frente o programa nuclear brasileiro, não só concluindo as centrais atômicas de Angra I e II, como também instalando outras duas no litoral sul de São Paulo.
Acusar os comunistas não é novidade, neste País: eles são sempre acusados de tudo: de tentar a subversão da ordem pública, de tentar instituir a “ditadura do proletariado”, de criar “condições psicológicas adversas” ao regime atual, de serem os responsáveis pela inflação e até (pasmem!) pelo aumento de preço dos derivados do petróleo.
Agora, acusar os sionistas é novidade – sionista, pra quem não sabe, é um eufemismo usado para dizer “judeu”, palavra que este governo considera pejorativa para designar os israelitas, os israelenses e seus aliados – acusação esta feita, muito provavelmente, porque o governo precisa ficar “de bem” com os árabes, para conseguir o seu rico petroleozinho.
Eu mesmo já fui acusado de ser sionista, por causa de meu sobrenome (Saidenberg), de evidente origem judaica. Mas não venho em defesa dos judeus em causa própria, visto que, embora descendente do povo de Abraham, por parte de pai, jamais tive a honra de pisar numa sinagoga, não conheço nenhuma palavra de hebraico, nunca estive em Israel e não tenho qualquer contato com a comunidade israelita de Campinas (infelizmente, só me lembro de um amigo de infância que era israelita: Bernardo Kaplan, que faleceu há pouco).
Os judeus já foram acusados de tudo, inclusive de matar Jesus Cristo (que também era judeu, ora), quando este foi morto por ordem de Pôncio Pilatos, proconsul romano que então mandava na Judéia. Não creio que os judeus tenham qualquer interesse particular em, prejudicar o programa nuclear do governo. Quem tem esse interesse é todo o povo brasileiro, pois esse programa é uma pouca-vergonha, um pretexto pra mamatas e roubalheiras e, se der certo, vai suprir 3% das necessidades energéticas do Brasil.
Se não der certo – Bummmmmmmmmmmmmmmmm! ! ! ! ! l ! ! ! ! ! !

06/07/1980 – Eta esquadrão de ouro

A Seleção Brasileira só vem dando vexame. Sugiro uma total modificação no time, inclusive mudando até o técnico. Eis a Seleção ideal:
GOLEIRO (GORQUIPE): César: com suas imensas orelhas, tampa qualquer gol. ZAGUEIRO DIREITO (BEQUE): Ernane: não sei se ele defende bem a zaga, mas sabe se defender muito bem. No jogo contra o Valeriodoce, defendeu o dele.
ZAGUEIRO ESQUERDO (BEQUE TAMBÉM): Said: inventa cada uma pra defender o seu time, que nem Domingos da Guia faria melhor.
MÉDIO DIREITO (ARFE): Couto: sempre fez muita média com a direita.
CENTRO MÉDIO (CENTERARFE): Portela: outro mestre em fazer média.
MÉDIO ESQUERDO (OUTRO ARFE): Arcoverde: outro que vive tentando fazer média, mas tem se mostrado extremamente canhestro.
PONTA DIREITA (FORVARDE): Murillo: chuta com os dois pés e esmagou o Operário, em partida recente. O lugar dele é mesmo na extrema-direita.
MEIA DIREITA (OUTRO FORVARDE): Delfim: só dá chute, mas chuta pra valer. Recentemente andou dando uns chutes fora, mas ficou bem na posição.
CENTRO AVANTE (CENTERFOR): Camillo: às vezes, joga mal de dar pena, mas andou entrando em grandes jogadas por aí, juntamente com o Couto.
MEIA ESQUERDA (FORVARDE TAMBÉM): Medeiros: quase nada se sabe sobre o modo deste atacante jogar, mas fica bem colocado numa posição meio-sinistra.
PONTA ESQUERDA (MAIS FORVARDE): Paulo: extremamente canhestro, há quem diga que ele joga muito mal,, mas sei que faz grandes jogadas (para ele mesmo). É mestre em tomar a bola dos outros por trás, razão pela qual a torcida sempre grita: “olha o ladrão!” — Figura que fica bem na posição, pois é realmente um elemento sinistro.
ROUPEIRO: Ibrahim (TURCÃO) – um cara “legal”.
TÉCNICO: João: tipo durão, estende a mão direita aos seus comandados, mas assina a demissão deles com a esquerda. Se o time está perdendo, parte para a briga, razão pela qual foi apelidado de “João Valentão”. Jurou levar a Seleção à vitória, coisa que terá de conseguir, ou será afastado do cargo antes do tempo previsto, segundo se diz por aí.
Se esta Seleção não der certo, o pMDB tem outra prontinha, para 1984.

07/07/1980 – O Salim e o – Atchim!

A danada da gripe me pegou e me atirou na cama por uns dias. Isso não é novidade, pois são poucos os que conseguem resistir a ela, que já tem até o apelido de “Geni”. Todavia, ninguém se lembrou ainda de apelidar o vírus que provoca a gripe. Eu me lembrei e mandei-lhe o apelido de Salim. Fiz até uma paródia para ele, que aqui transcrevo:

De tudo que é nego torto,
Do mangue e do cais do porto,
Ele já veio embarcado.
E um vírus imigrante,
Já pegou gente importante,
E a muitos tem derrubado!

É um vírus pequenino,
Já atacou muito menino
E os moleques do internato.
Infestou pobres detentos,
Os pobres e os lazarentos,
Precisa ser afastado!

E também mata, amiúde,
As velhinhas sem saúde
E as crianças, de – Atchim!
Atacou com tal maldade,

Que o povo da cidade
Deu-lhe o nome de “Salim”!

– Bota fora esse Salim!
Faz vacina anti-Salim!
Ele pode nos matar
E ao povo dar o fim!
Ele ataca qualquer um!
Maldito Salim!

Obs: Novamente, não viso nenhum Salim em particular. Mas se a carapuça servir…

08/07/1980 – Excomunhão de Maluf

– “Excomunhão?! (É piada!)” – foi o que disse o governador biônico de São Paulo, Paulo Salim Maluf, ao saber do pedido que foi enviado peio frei Almiro, da Paróquia de Vila Brasilândia, em São Paulo, a Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo do nosso Estado.
Esse pedido de excomunhão foi enviado pelo frei Almiro, após uma consulta ao cardeal e depois de uma reunião que o frei teve com padres, freiras e leigos que trabalham na Região Oeste-1 da arquidiocese de São Paulo, e que foram agredidos em tumulto recente, durante a instalação de mais um “governo de integração”, de Paulo Maluf, ocorrido no bairro da Freguesia do Ó.
Nessa consulta, o frei Almiro indaga ao cardeal-arcebispo se o governador biônico, o prefeito da capital, Reynaldo de Barros e o secretário da Segurança Pública, desembargador Octávio Gonzaga Jr., não infringiram um artigo do Código Canônico e estão, portanto, sujeitos ai excomunhão. Caso o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns aceite o pedido, ele poderá encaminhá-lo diretamente ao Papa João Paulo II.
Maluf, como sempre, achou que isso é “uma piada”; tudo é piada para o sorridente morador provisório do Palácio dos Bandeirantes. Na minha opinião, o governo dele é também uma piada e ele próprio é uma anedota!
Só que Maluf é uma piada que, em vez de fazer rir, só consegue fazer chorar… Vejam só as declarações dele sobre o pedido de excomunhão:
– “Não vejo razão para a minha excomunhão. Sou católico, apostólico romano praticante. Sou sempre favorável às posições da Igreja e amigo dos padres, cardeais e de meus ex-professores religiosos. Entendo que quem propõe isso deveria ver sua própria consciência”.
Se Maluf é amigo dos padres, cardeais e da Igreja, eu não sei. Então quem é que está baixando o pau no lombo dos padres, invadindo igrejas, quebrando até altares e imagens, ao mesmo tempo em que agride violentamente o povo que, cansado de ouvir promessas do Maluf, vem às ruas para fazer reivindicações e, frustrado, vaiá-lo? Se não é a polícia do Sr. Maluf, então temos, em nosso Estado, tropas paramilitares, disfarçadas de policiais da PM, do Deops e do DOI-CODI, que não hesitam em jogar bombas de gás lacrimogêneo no povo, além de baixar o cassetete, dar golpes de caratê, jogar jatos de água com “Brucutus” e até usar “socos ingleses” para calar o povo…
Piada mesmo, seria, para mim, se o cardeal tivesse entregado o pedido ao Papa, quando da visita deste ao nosso País… E ele, S. S. João Paulo II o aceitasse. Aí, sim eu (e muita gente, aposto) iria morrer de rir! AH, AH. AH!

09/07/1980 – Abaixo o Capitão América-I

O Capitão América é agente da CIA e inimigo número um dos desenhistas e argumentistas de histórias em quadrinhos brasileiros. Ele não é o único, mas eu o escolhi como símbolo dos personagens estrangeiros que são impingidos às crianças, adolescentes e adultos do nosso País, que gostam de histórias em quadrinhos.
Esses personagens são sempre apresentados como heróis, sendo que o Capitão América, vestido com as cores da bandeira de seu país, USA (e abUSA), foi criado para simbolizar o espírito do povo americano. Aliás, para os estadunidenses, “América” é apenas a terra lá deles. O resto (nós) não passa de lixo. Chamam-nos de “latin-americans”, ou pior, de “chicanos”.
Criado durante a 2a Guerra Mundial, o Capitão América lutou contra o Capitão Nazi, personagem que simbolizava o nazismo de Adolf Hitler, e o derrotou. Até aí, muito louvável; porém, recentemente, o grande artista norte-americano Stan Lee fez o personagem renascer, desenhado por Gene Colan. Nesta nova fase, o Capitão América enfrenta inimigos que lembram os comunistas em geral, russos, cubanos, chineses, etc.
Respeito o ponto de vista do autor, bem como sua ideologia política, visto que, para os USA, tais personagens representam o inimigo, contra o qual desfecharão, inevitavelmente, uma 3ª Guerra Mundial, de resultados imprevisíveis, mas certamente catastróficos para todos nós, do 3º mundo, que nada temos a ver com a briga lá deles.
Mas eu escolhi o Capitão América para simbolizar o monopólio que os norte-americanos (em especial) e os estrangeiros (em geral) detém, no momento, das publicações em quadrinhos. De nacional, só temos os personagens de Maurício de Souza, de Ely Barbosa e de alguns abnegados tais como Júlio Shimamoto, Luiz Saidenberg (meu irmão), Renato Canini e mais uns poucos. E necessário, de algum modo, deter esse monopólio e proteger o artista nacional de histórias em quadrinhos, com uma lei de proporcionalidade, a exemplo do que já ocorre com o cinema nacional e com a música popular brasileira.
(CONTINUA AMANHÃ)

10/07/1980 – Abaixo o Capitão América!-II

Como vimos no capítulo anterior, o tenebroso Capitão América, agente da CIA e inimigo número um dos artistas brasileiros que tentam fazer histórias em quadrinhos, tudo tem feito, juntamente com os demais (e inúmeros) personagens estrangeiros, para esmagar a nossa indústria nacional, no ramo. Os desenhistas e argumentistas não têm mercado de trabalho, com raras exceções (Maurício de Souza, Ely Barbosa, Júlio Shimamoto, Luiz Saidenberg, Renato Canini e mais alguns que, por muito esforço, valor e suor, conseguem publicar, a preços aviltantes, suas histórias e seus personagens).
Desde 1961 que eu luto pela nacionalização das HQ (histórias em quadrinhos). Estive em Brasília, juntamente com Maurício e mais alguns artistas brasileiros, fazendo a entrega de um manifesto ao então presidente Jânio Quadros. Mas o “homem da vassoura” provou ser um doido varrido e varreu a si próprio do governo, criando uma enorme crise que ainda perdura. João Goulart, que o sucedeu (contra a vontade de algumas facções militares de extrema direita), era um nacionalista e não um filo-comunista, como andam mentindo para as crianças e adolescentes, nas escolas. Goulart aprovou uma lei, em 1963, nacionalizando as HQ aos poucos, começando com uma proporção de 20% de obrigatoriedade de histórias nacionais nas publicações de jornais e revistas. Essa proporção iria crescer de ano para ano e hoje, se não tivesse ocorrido o golpe de 1964, desfechado pela CIA e efetuado por militares brasileiros que foram iludidos por essa agência internacional de espionagem, que os convenceu de que Goulart era filo-comunista, hoje, repito, teríamos 100% de HQ nacionais nas bancas, com personagens brasileiros, criados e desenhados por artistas brasileiros. Os personagens estrangeiros só poderiam ser adquiridos em álbuns, por colecionadores de HQ.
Há poucos dias, encaminhei uma carta ao senador Orestes Quércia, do pMDB de Campinas, pedindo a ele que tente fazer valer essa lei, que não tem sido respeitada; ou que, em caso de impossibilidade, crie um projeto de uma nova lei. Ele, que já criou um projeto que ampara os artistas gráficos, é a nossa esperança! Em nome das crianças brasileiras, pedi-lhe que lute por nós! Viva a história em quadrinhos brasileira e abaixo o Capitão América!

12/07/1980 – Maluf, água e petróleo

“Na pior das hipóteses, daremos água ao município”, disse o secretario Osvaldo Palma, da Indústria e do Comércio do Estado, a 28 jornalistas levados a conhecer o poço-pesquisa da Paulipetro, em Taciba, município distante 530 quilômetros de São Paulo.
Eu sabia, eu sabia! A Paulipetro é uma jogada do Maluf para ajudar a acabar com o monopólio da Petrobrás, tão duramente conseguido pelo povo brasileiro nos tempos de Getúlio Vargas. Ninguém tem esperança nenhuma de achar petróleo no Estado de São Paulo, nem mesmo o secretário da Indústria e do Comércio!
Segundo Palma, a Paulipetro ainda não está procurando petróleo na Bacia do Paranapanema, onde fica Taciba; o que esta sendo feito é um levantamento do subsolo, com os três bilhões (EU DISSE Cr$ 3.000.000.000,00!) de cruzeiros colocados à disposição do programa, para serem gastos este ano, na perfuração de oito ou dez poços, que, no mínimo, darão uma excelente água de poço artesiano para os municípios. AH, AH, AH, AH!
Dinheiro para dar aumento ao funcionalismo, não tem. Dinheiro para pagar dignamente o professorado estadual, neca; grana para a alimentação das crianças no 1° grau, pouquíssima; dinheiro para financiar as refeições de Estudiantes universitários, o Seu Maluf não tem…
O Seu Palma ainda disse que a Paulipetro poderá “contar com o apoio de bancos internacionais”, explicando que serão abertos 35 poços em 1981. Em outras palavras, o homem disse que o Seu Maluf não titubeará em aumentar a já gigantesca e impagável dívida externa brasileira…
No final, o secretario negou que a promoção tivesse finalidade política a favor de Paulo Maluf, mas admitiu que o governador não faltará ao próximo encontro, que será realizado na segunda fase dos trabalhos, em Taciba. A população local já está ensaiando o famoso coro (“Um, dois, três… (*) no xadrez!”) e pede que não sejam enviados ovos nem tomates. Agora, respondam depressa: o Maluf já está pedindo água, ou a Paulipetro é um furo n’água?

13/07/1980 – Homenagem à minha mãe – I

Quando citei, na minha coluna do dia 24/06, que minha saudosa mãe, Dona Lucilla, foi jornalista e poetisa, muitos leitores telefonaram para minha casa, alguns dizendo que se lembravam dos escritos e versos dela, e outros pedindo informações mais detalhadas a respeito.
Ela escreveu durante 35 anos, inicialmente para o jornal “O Progresso”, de Brotas, sua cidade natal. Depois, casando-se com meu pai e mudando para Campinas, passou a colaborar com o “Correio Popular”. Quando da comemoração de um dos bicentenários de nossa cidade (O da vila de Campinas Velha, fundada em 1747), ela escreveu uma poesia sobre Campinas, que foi premiada em 1º lugar, num concurso promovido pela radio Educadora.
Agora, quando se comemora mais um aniversário da fundação da Campinas Nova (14/07/1774), acho oportuno reproduzir a poesia:

“No tanger da lira, linda cidade,
Princesa bela é que eu vou cantar,
Já foi cantada pelos grandes poetas,
Simbolizando, quero-a também saudar!

De longa data tem gravado o nome,
O de São Carlos era o seu chamar.
Depois, mais tarde, no correr das eras,
O de Campinas foi o que tomou lugar.

Campinas eu canto, no tanger da lira,
Meus acordes soam… um fulgor se faz!
Vejo Campinas num clarão de ouro,
Riqueza imensa, que não tem rival!

Eis-me avistando novas vias e praças,
Ricos contornos que já vão lhe dar:
Lá, bem no centro, na cidade velha,
Os arranha-céus que se vão no ar!”
(Continua amanhã)

14/07/1980 – Homenagem à minha mãe – II

(Continuação)
“Os bairros todos, cada qual mais lindo,
Grande progresso já se vê raiar;
Céleres surgindo, confundidos em cores,
Mais vivos os acordes fazem-me entoar!

Fazendo pausa no tanger da lira,
Vejo Campinas, muitos anos atrás,
Antes de vê-la, já garbosa e linda,
De minha avó, constante, era o seu falar.

Berço antigo de bandeirantes,
Aquela história do Camargo audaz…
Aquele lema, que por divisa tinham,
– Avante! Avante! Sempre a caminhar!

Já bem mais perto, outras histórias vivas,
Quem não ouviu, ainda não ouviu falar?
Ó grandes vultos! Ó Carlos Gomes!
Em estátuas belas, seus feitos fico a recordar!

É pois, Campinas, que teus filhos vivos,
Aqueles que, no sangue, trazem o padrão real,
São tão altivos e orgulhosos ficam,
Quando o teu nome ouvem falar!

Tangendo a lira, novos acordes voam,
São acordes vivos para te saudar!
Eu te saúdo bela cidade, ó pioneira,
Princesa D’Oeste, linda princesa que não tem rival!”
LUCILLA DE CAMARGO SIMÕES SAIDENBERG – 1947

Aí está pálido retrato de uma poetisa que começou a escrever por volta de 1920 e só parou com a morte de meu pai, em 1955. Parou de publicar suas poesias e crônicas, mas não de fazer versos, que fazia por puro amor à arte. Versejou até falecer, em 1964, vitimada por um derrame, ao tomar conhecimento do golpe militar que destruiu nossa democracia.

16/07/1980 – Viva o rato que ruge!- II

Como vimos no capitulo anterior, o Sr. Ivan Saidenberg, modesto redator desta coluna, durante a vigência do AI-5, colaborou com o jornal “O Pasquim”, que lhe deu a maior força, publicando seu “Picles”, sob o pseudônimo de “DODOIS”. Eis mais alguns:

“O PASQUIM” Nº 426 – 26/8 a 2/9/77:
Afinal, é pacote ou é embrulho de abril?
O petróleo é nosso, mas a borracha está na mão deles.
Se, cada vez que o Zébonifácio dissesse uma besteira, o povo ganhasse um cruzeiro, acabava a miséria.
Pagar pra sair não é nada… o duro é ter que voltar.
Pois é… foram dizer que ninguém segura a juventude do Brasil!
Um dia é da caça e outro é da cassação.
Os cães ladram e a vaca vai pro brejo.
Ninguém sabe investir tão bem quanto eles… sobre nós!

“O PASQUIM” Nº 446 – 13 a 19/1/78:
1970: 90 milhões em ação. 1977: 110 milhões sem ação.
Pagar pra sair não é nada… o duro é ter que voltar. (*)
Bacana a “Carta aos Brasileiros”… pena que 70% são analfabetos.
Mais vale uma democracia absoluta do que duas relativas.
Gritou: – “Abaixo a ditadura!” – ficou sem a dentadura.
Este Pais foi tão pra frente, que não consegue voltar atrás.
Torcer para a Seleção nunca foi solução.
Gritava – “Queremos pão” – Levou foi pau.

Eis uma pálida ideia do meu trabalho como “DODOIS”, nos anos negros do AI-5.
* Publicado duas vezes por engano.

17/07/1980 – Pegou a seca do norte

O Sócrates veio a Campinas e cantou “Peguei uma Ita no Norte”, acompanhado pela maravilhosa Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência do esplêndido maestro Benito Juarez. Vai daí, o “Cego Cantadô” ousou fazer uma parodia dessa música:

Pegou uma seca no norte,
Que num dá mais pra aguentá,
Adeus, meu boi, meu jeguinho,
Adeus, sertão do Ceará,

Ai, ai, ai, ai, adeus, sertão do Ceará… (BIS)

Andreazza fez um projeto,
Pra seca se acabá,
Mas o dinheiro secou,
E a seca vai continuá!

Ai, ai, ai, ai, e a seca vai continuá… (BIS)

João fez uma promessa,
De que eu podia plantá,
Mas não fizeram açude,
E tudo deu pra secá!

Ai, ai, ai, ai, e tudo deu pra secar… (BIS)

Juntei meus trecos, que eu tinha,
E o resto eu larguei por lá
Não veio a irrigação,
Promessa não vai molhá…
Ai, ai, ai, ai, promessa não vai molhá.
Tou há bem tempo pensando:
Pra seca se acabá, ”
Só tem um jeito, ó xente,
E a terra moralizá!

Ai, ai, ai, ai, é a terra mora1izá… (BIS)

18/07/1980 – “Uma República Umbandista”

O semanário “O Pasquim”, em seu nº 575 (4 a 10/7/80), à página nº 15, estampa uma matéria de Ivan Lessa que, sob o pseudônimo de “Edélsio Tavares”, Propõe uma “Republica Umbandista” no Brasil e lança-se como candidato a presidente da dita cuja.
Como espiritualista que sou, com todo o respeito que tenho por todas as religiões, inclusive pela Umbanda, discordo do tom jocoso com que o autor redigiu sua matéria, mas sou obrigado a concordar com ele em alguns pontos, além de confessar que achei muito engraçado o que ele escreveu. Vou reproduzir aqui alguns pontos do programa da dita republica, que achei mais interessantes; essa proposição é melhor do que tudo que esta ai (pior, não dá).
“O Brasil passará a ser uma republica umbandista e não federativa”.
“Dividida não em estados, mas em terreiros”.
“Parar com essa história de partido. E Nações: Queto, Angola, Omolocô, Jeje (no kin Vargas), Nagô, Cambinda e Guiné”.
“Ou então Umbanda e Quimbanda. Sou mais quimbanda. Seria, assim, a nossa Arena ou Terreiro. Quimbanda esta bem mais dentro do espírito alegre e anárquico da nossa gente”.
“Os analfabetos teriam suas cabeças feitas, ou seja, poder de voto. Em lugar de impostos, arriar obrigações”.
“Desfile de atabaques em todas as nossas grandes festas nacionais”.
“Oxósse para ministro da Reforma Agrária”.
“A preservação do meio ambiente será feita mediante defumação”.
“Despachos finalmente pra valer: tudo para os Exus”.
“Lula é um Espírito de Luz. Maluf é um Espírito sem Luz”.
“Pra cá de 200 milhas é Iemanjá, pra lá é pesqueiro norueguês”.
“Basta de corrupção! Negócio de Santo”.
“Frente ampla hoje! Trabalhar em todas as linhas”.
“Xangô (no kin Goulart) já raia no horizonte”.
“Oxalá tudo dê certo. Oxalá”.

22/07/1980 – Prêmio “cara-de-pau”

Já existem muitos prêmios por aí, como o “Esso”, “Troféu Imprensa”, “Andorinha”, “Homem de Visão”, “Personalidade do Ano” etc. Mas eu queria instituir um novo prêmio: O PRÊMIO “CARA-DE-PAU” DO ANO!
E, neste ano de 1980, este prêmio já tem um ganhador disparado, que vai deixar os outros “caras-de-pau” comendo poeira: Paulo Salim Maluf, ilustríssimo governador biônico de São Paulo.
Além de ter começado com uma serraria, que era do senhor seu pai, Salim F. Maluf, o nosso digníssimo governador biônico ainda é diretor presidente da Eucatex S/A, que, como todos sabem, faz compensados de madeira.
Se isso não bastasse, ouçam só a obra-prima de frase com que o nosso governador indireto nos brindou, a nós, os profissionais de imprensa, no dia 8 último:
– “Sou o governador que melhor se relaciona com a imprensa. Sou amigo dos jornalistas”.
Ó pérola rara da sabedoria oriental! Ó frase digna de um Omar Kahian, autor de “Rubbaiath”! Nem no livro “O Profeta”, de Gibran Kahlil Gibran, eu li uma frase tão cheia de conteúdo, tão perfeita, tão bem elaborada, refletindo claramente uma nítida visão individual que o Sr. Dr. Paulo Salim Maluf tem de si próprio.
Que pena que o digno governador indicado do Estado de São Paulo se esqueceu de avisar à sua polícia, às tropas de choque da PM, ao Deops, e a seus guarda-costas particulares, que ele é amigo da imprensa e dos jornalistas! Oh, que pena!
Pedimos, nós, os profissionais a imprensa, ao ilustre e mui digno governante imposto, que mande, imediatamente, avisar aos seus comandados da sua amizade por nós. Pedimos, também, que mande pagar as máquinas fotográficas que foram quebradas, os filmes que foram inutilizados, e indenizações aos repórteres, fotógrafos e jornalistas em geral, que foram duramente espancados durante os conflitos de rua, ocorridos tanto durante as greves do ABC, quanto das várias instalações do “governo de integração” de sua excelência Dr. Paulo Salim Maluf, nosso grande amigo! Prêmio para ele!

23/07/1980 – Lágrimas de um preto velho

Num cantinho de terreiro, sentado num banquinho, pitando o seu cachimbo, um triste preto velho chorava. De seus olhos molhados, esquisitas lágrimas decaíam-lhe pelas faces e, não sei por que, contei-as… Foram sete.
Na incontida vontade de saber, aproximei-me e o interroguei: – Fale, Pai João, diga ao teu filho por que externas, assim, tão visível dor? E ele, suavemente, respondeu: – “Estás vendo esta multidão, que entra e sai? As lágrimas contadas estão distribuídas a cada uma dessas pessoas…
A primeira eu dei a esses indiferentes, que estão no Governo e não ligam para o sofrimento do povo, que nem tem o que comer…
A segunda, a esses eternos duvidosos, que se fazem de amigos do povo, são eleitos pela oposição e se passam para o PDS…
A terceira, distribuí aos maus, àqueles que mandam jogar bombas de gás lacrimogêneo e distribuir cacetadas em quem só está pedindo justiça.
A quarta, aos frios e calculistas, que, usando essas máquinas modernas de fazer contas, manipulam os índices de inflação e, com isso, arrocham o minguado salário do trabalhador.
A quinta, chega suave, tem o riso e o elogio da flor dos lábios, mas, se olharem bem o semblante de quem sorri, verão escrito: Estendo a mão aos meus adversários mas, na outra mão verão um terrível chicote.
A sexta, eu dei aos fúteis, que chegam a altos postos e só pensam em se enriquecer, as custas de mordomias e negociatas, prejudicando o povo.
A sétima, filho, notas como foi grande e como deslizou pesada? Foi a ultima lágrima, aquela que vive nos olhos de todos os pobres; fiz doação dessa aos venais, que se vendem aos interesses das grandes empresas estrangeiras, endividando o País. Esquecem que existem tantos irmãos precisando de caridade, e tantas criancinhas precisando de amparo material e espiritual. Assim, meu filho, foi para todos esses que viste cair, uma a uma, as sete lágrimas de um preto velho…”
Deus lhe pague, Pai João.

24/07/1980 – Gordon no planeta Mongo

Vão fazer nova versão desse seriado, inspirado na genial história em quadrinhos de Alex Raymond: desta vez, Flash Gordon será interpretado pelo Lula, Dale Arden pela Ivette, Ming pelo João, Vultan (amigo de Ming) pelo Delfim, Thun, o rei dos “homens leões”, imbatíveis rivais de Ming, pelo Ulysses. O sinistro “papa” que é companheiro e cúmplice de Ming, será interpretado por Couto, uma figura igualmente sinistra, uma espécie de “eminência parda”.
Os presos do “cadeião” farão o papel dos escravos, tratados a porrada e a gás lacrimogêneo. Os “homens-pássaros”, servidores de Vultan (amigo de Ming) serão interpretados por Murillo, Waldir, Ernane, Ibrahim, Eduardo, César, Camilla, Mário,
Amaury, Ramiro, Jair, Said, Eliseu, Walter, Maximiano, Délio, Danilo, Haroldo e o extra-ordinário Hélio. Os “homens-pássaros” vivem no chão… O que voa é o dinheiro do povo.
O chefe de espionagem de Ming será o Medeiros, que ficará de olho em tudo o que está acontecendo. O príncipe Barin, pretendente ao trono, será interpretado por Paulo, que rouba todas as cenas onde aparece. Paulo fará o papel de um sujeito que vai dar uma de “amigo de Flash Gordon” mas, no final, dará uma rasteira no herói e tentará chegar ao trono pelas vias indiretas, sob intensas vaias da platéia.
Ao contrário da versão original, cheia de conotações políticas com a situação mundial antes da 2ª Grande Guerra, esse filme, nacional e inteiramente realizado no sertão árido da Paraíba, não terá nenhuma conotação política. Temo apenas que se transforme numa pornochanchada.
Ah, só um detalhe, que só vai entender quem assistiu à versão original do seriado: caso o Delfim não esteja disponível para fazer o papel de Vultan (o amigo do Ming), já que o homem é muito ocupado e o negócio dele é números, não haverá nenhum problema. O papel de Vultan poderá ser, com rara semelhança com o artista original, interpretado pelo Roberto Godoy.

25/07/1980 – Cantinho da poesia – I

CANTINHO DA POESIA: I – Hoje, parodiando Carlos Drummond de Andrade.

E agora, João?
A festa acabou,
A luz apagou,
A abertura esfriou.
E agora, João?
E agora, Delfim?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que apanha de todos,
Você, que trabalha,
Que grita, protesta?
E agora, povão?
Está sem dinheiro,
Está sem discurso,
Está sem trabalho,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir não pode;
A noite esfriou
A abertura não veio,
A democracia não veio,
O riso não veio,
Não veio a utopia
E tudo acabou,
E tudo fugiu,
E tudo mofou.
E agora, João?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua promessa e sua jura,
Sua democracia.
Sua palavra de ouro,
Seu cavalo tordilho,
Sua incoerência,
Seu ódio – e agora?

(SEGUE)

26/07/1980 – Cantinho da Poesia – II

(continuação – desculpe, Carlos Drummond de Andrade)

Com tudo na mão,
Quer fazer a abertura.
Não existe porta.
Quer abrir na marra,
Mas o PDS fechou.
Quer ir para a frente,
Mas não dá mais!
João, e agora?
Se você gritasse.
Se você berrasse,
Se você tocasse,
Pra fora quem não convence,
Se você agisse,
Se você brigasse.
Se você não esmorecesse…
Mas você não esmorece,
Você é duro, João!
Sozinho no escuro,
Qual bicho do mato,
Sem democracia,
Sem constituinte,
Pra se amparar,
Sem seu cavalo baio
Que fuja a galope.
Você segue, João!
João, para onde?!

27/07/1980 – Cantinho do sucesso

Cantinho do sucesso – (Hoje, com um sucesso dedicado ao Prof. Antoninho)

“Explode, inflação”

Chega de tentar dissimular,
De disfargar e de esconder
O que não dá mais pra ocultar,
E vocé não pode mais calar!
Sei que o brilho desse olhar
Foi traidor! E já entregou
O que você não quis contar,
O que tentou manipular,
E fracassou…

Chega de temer, chorar, sofrer,
Fiugir, negar, tudo perder,
Nada encontrar,
Do que é preciso pra viver.
Eu quero mais é ver abrir,
E que a democracia entre assim,
Como se fosse o sol,
Desvirginando a madrugada.
Para você sentir a dor dessa manhã!

Nascendo, rompendo.
Rasgando, tomando
Seu corpo e então, você,
Chorando, sofrendo
Gemendo, gritando,
Feito um louco, alucinado,
E, sem esperança, vendo tudo se acabando,
Gritar: – Não dá mais pra segurar,
Explode, inflação!

28/07/1980 – A estátua ficou verde

Ao lavar a estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, para prepará-la para a visita de S.S. o Papa João Paulo II descobriu-se, para surpresa geral, que ela é verde.
Como nada consta sobre a cor verde original, só posso deduzir que o Cristo Redentor não era verde antes… Ficou verde! Terá sido por efeito de algum produto químico usado na lavagem da estátua? Dizem até que está virando “Hulk”, de raiva do Governo… Eu tenho muitas outras indagações a fazer a respeito (e com todo respeito ao Cristo, nosso Senhor e Salvador) da cor apresentada agora pela estátua. Quem souber a resposta a alguma das perguntas, poderá enviar cartas à redação.
Mas, vamos às perguntas, sem mais delongas. A estátua do Cristo Redentor ficou verde, por quê?
a) Por que o povo está verde de fome?
b) Por que ainda há muita gente verde de medo?
c) De tanto ver militares no poder, de 16 anos para cá?
d) Por causa da poluição ambiental do Rio de Janeiro?
e) De tanto ver nordestino faminto chegar ao Rio?
f) Dever tanta mortalidade infantil no nosso País?
g) Ao tomar conhecimento do preço da gasolina?
h) Ao saber dos índices de inflação, superiores a 100%?
i) Por que estão acabando com a Amazônia?
j) Por que o Delfim continua no ministério?
l) Ao tomar conhecimento do preço da cebola?
m) Por que nada foi feito para evitar a seca do nordeste?
n) Ao saber que temos a maior taxa de paralisia infantil?
o) Ao ser informado de que não haverá eleições, este ano?
p) Ao saber que quem manda aqui é o Golbery?
q) Ao contarem-lhe sobre as ações da Cia. Vale do Rio Doce?
r) Ao saber da instalação de mais duas usinas nucleares?
s) Ficou sabendo que temos a pior e mais cara gasolina do mundo?
t) Por que o ministro da Saúde é o Waldir Arcoverde?
u) Ao saber da nossa incrível dívida externa?
v) De pena do pobre povo brasileiro?
x) Soube da existência do “Esquadrão da Morte”?
z) Ou descobriu que o Maluf é governador de São Paulo?

29/07/1980 – Criminosa ameaça “falangista”

Mais de 70 atentados de extrema direita foram cometidos nos últimos meses em nosso País, sem que as autoridades tenham localizado nenhum dos seus autores! Recentemente, o eminente jurista Dalmo de Abreu Dallari foi sequestrado, barbaramente espancado e esfaqueado, porque ia ler um manifesto da Comissão de Justiça e Paz ao papa.
Agora, a moda é tocar fogo nas bancas de jornais e revistas. Uma certa organização clandestina, que se autodenomina “FALANGE PÁTRIA NOVA”, evidentemente inspirada nas organizações falangistas de Franco, o fascista espanhol que aniquilou seu povo por mais de 40 anos, está ameaçando milhares de humildes jornaleiros e cumprindo algumas dessas ameaças.
Primeiro, explodiram uma banca em Belo Horizonte, depois várias no Rio e em São Paulo, Curitiba e outras cidades. O motivo? A tal “falange” quer impedir que os jornaleiros vendam os jornais alternativos (ou nanicos), da imprensa independente: “Hora do Povo”, “O Pasquim”, “A Voz da Unidade”, “Tribuna Operária”, “O Repórter” “Companheiro”. “Movimento” e “Convergência Socialista”.
Num cartum muito mal desenhado e escrito, mostram a morte ameaçando um pobre e roto jornaleiro, que empunha um jornal com a “Foice e o Marcelo”. Ao lado, bananas de dinamite prestes a explodir e uma tétrica advertência: – “Cuidado, teu pavio já está aceso…”
Não calarão a voz do povo! Ruge, rato, ruge!
Não sei qual é a tal “Pátria Nova” que essa falange quer fundar, mas deve ser qualquer coisa entre a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco ou o Chile de Pinochet. Não dá, o Brasil não pode ser um país de escravos!
Como colaborador que fui de “O Pasquim”, durante vários anos, posso garantir que não calarão, pelo menos, esse semanário, mais conhecido como “O Rato que Ruge”. Se necessário, ele (e os demais nanicos) serão vendidos nas ruas e praças, de porta em porta, ou por meio de assinaturas.

30/07/1980 – Dando corda ao gramofone

Ainda não faz um mês que S.S. João Paulo II, que a todos comoveu e deslumbrou, deixou nossa terra e voltou para Roma. Mas, como sua passagem pelo Brasil foi muito marcante e o povo não o esqueceu, dedico a ele esta paródia da música “A BANDA”, de Chico Buarque de Hollanda:
Estava à toa na vida/ Meu amor me chamou/ Pra ver o Papa passar/ Falando coisas de amor…/ A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver o Papa passar/ Falando coisas de amor
O “seu” M(*)luf que contava dinheiro, parou,/ O D(*)lfim N(*)tto, que contava mentiras, parou/, O C(*)sar C(*)os, que contava as usinas,/ Parou para ver, ouvir e dar passagem…/ E muita gente, que vivia escondida, surgiu,/ E o povo triste, que vivia calado, se abriu,/ E a cidade toda se animou,/ Pra ver o Papa passar/ Falando coisas de amor…
Estava à toa na vida/ Meu amor me chamou… (etc.)
A velha “Are(*)a” se esqueceu do cansaço, e pensou/ Que ainda era moça pra pintar no pedaço, e “pifou”/ Igual à feia, que saiu na janela,/ Pensando que o Papa acenava pra ela…/ O Fig(*)eiredo fez discurso bonito e sorriu,/ O P(*)S se fez de amigo do povo e sentiu/ Que a nossa gente não se enganou,/ Porque o Papa passou/ Falando coisas de amor…
Estava à toa na vida,/Meu amor me chamou… (etc.)
A caravana se espalhou na avenida e seguiu,/ O Papa deu uma benzida no povo e partiu,/ E a meninada toda se aquietou,/ Depois do Papa passar,/ Falando coisas de amor…/ E cada qual no seu canto,/ Em cada canto uma dor/ Depois que o Papa passou/ Falando coisas de amor.
Sim, S.S. João Paulo Il já não está mais no Brasil e todos nós voltamos à nossa tristeza; às nossas dívidas, à nossa fome, à nossa carestia, à nossa inflação implacável… Mas, que as palavras ditas pelo Santo Padre não se percam ao vento; vamos lutar por um Brasil melhor e mais justo,por um País grande, livre e democrático, onde todos possam ser felizes, tal e qual foram ao ver o Papa passar falando coisas de amor.

31/07/1980 – Novembro: votem em mim

Apesar de todos os esforços da oposição (pMDB, PT, PTB, PP, PDT), não serão realizadas as eleições municipais marcadas para 15 de novembro deste ano. O Governo pretende prorrogar os mandatos dos atuais prefeitos e vereadores até 1982.
E o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, em recente pronunciamento, declarou que “se as oposições não aceitarem a prorrogação de mandatos, será inevitável a decretação de intervenção nos municípios!” Em outras palavras, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…
Em reação contra esse estado de coisas, resolvi lançar uma candidatura de protesto (ou uma anti candidatura, quem sabe?) para concorrer às eleições de 15 de novembro de 1980: VOTEM EM MIM!
Isso mesmo, por que não? Até 0 Lauro Péricles, que afundou com as finanças de Campinas, já se lançou candidato a prefeito, apesar de estar respondendo a seis processos por malversação dos dinheiros públicos e abuso de poder, quando da sua administração municipal (1973/76)!
No dia 15 de novembro, colocarei uma caixa de papelão em cada praça pública da cidade e pedirei ao povo que coloque ali seu voto para prefeito, escolhendo, livremente, um entre os vários possíveis candidatos (ou anti-candidatos), que possam surgir até lá.
E pedirei a todos que votem em mim, pois estou na plenitude de meus direitos políticos, tenho título de eleitor desde 1958, desejo me inscrever no pMDB e sempre defendi os direitos do povo e as reivindicações dos trabalhadores. Sempre combati os abusos de poder dos m(*)lufs da vida e jamais tive medo de ridicularizar aqueles que, usando indevidamente o nome do povo, se locupletam com as mamatas e as negociatas, aleivosias e mordomias.
A 15 de novembro de 1980, mesmo (e principalmente) não havendo eleições, votem em mim: Ivan Saidenberg, um homem de PALAVRA… E TRAÇO!

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