Palavra e Traço – Agosto de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/08/1980 – Mudemos as provas olímpicas

As Olimpíadas de Moscou chegam ao seu final, com o Brasil obtendo poucas medalhas, ainda que tendo feito bonito ao conquistar o tão sonhado ouro, proeza que não era conseguida desde 1956. Todavia, como disse o “João do Pulo”, os russos fizeram as Olimpíadas para eles ganharem a maioria das medalhas. O negócio é reformular as provas olímpicas para 1984. Se isto for feito ao nosso modo, ganharemos todas as medalhas de ouro! Basta instituir as seguintes modalidades de competição desportiva:

  1. a) Em vez de prova de Hipismo, prova de Inflação: ganharemos disparado, porque teremos, até 1984, a maior inflação galopante do mundo!
  2. b) Em lugar de Natação, prova de Mamação: somos campeões mundiais de mamatas e negociatas. Nessa, o atleta olímpico mais indicado é o M(*)luf.
  3. c) Nada de Box, Judô ou Luta Romana; prova de Pancadaria Grossa: mais uma vez a medalha seria obtida fácil pelo M(*)luf, vulgo “Paulo Pauladas”.
  4. d) Em vez de Maratona, teríamos uma prova de Corrida à Bolsa: o famoso atleta G(*)lvêas faturaria fácil a medalha de ouro (muito ouro).
  5. e) Em lugar de provas de Corrida, com 100, 400, 1.000 metros rasos, faríamos uma prova de Fuga da Polícia: no ABC encontraríamos milhares de atletas acostumados a correr em alta velocidade, quando escutam gritar: – “Olha o D(*)ps!”
  6. f) Pra quê Esgrima? Vamos instituir a prova de Troca de Insultos: os nossos excelentíssimos deputados e vereadores ganhariam essa fácil, fácil!
  7. g) Nada de Levantamento de Peso, vamos fazer uma prova de Aumento de Preços: só com o preço da gasolina ganhamos qualquer medalha de ouro!
  8. h) Salto Tríplice? Salto à Distância? Salto em Altura? Qual nada! Vamos promover uma prova de Assalto: temos aí centenas de milhares de atletas que nos assaltam, desde a mão armada, até por decreto, de uma penada!
  9. i) E, finalmente, em vez de provas de Arremesso de Dardo, Disco ou Peso, faremos uma prova de Arremesso de Dívida Externa: medalha de ouro para nós, que o D(*)lfim já conseguiu arremessar nossa dívida pro espaço!

02/08/1980 – Dando corda ao gramofone

Cantinho do Sucesso

O povo, para se vingar das pauladas e das bombas de gás 1acrimogêneo que tem recebido de parte de um certo governador, mais conhecido como “Paulo Pauladas”, está cantando uma música que é uma paródia de genial de “OI PEGA EU, QUE EU SOU LADRÃO”:

O Paulão foi no meu bairro,
Quase morreu do coração! (BIS)
Já pensou se ele tem um enfarte, malandro,
E estica no meio do meu calçadão?
O meu povo não tem nada de luxo,
Que possa agradar ao Paulão…
Só uma faixa, com dizeres
E muita reivindicação.
Muita vaia e muito grito.
Pra receber o Paulão!
O Paulão ficou maluco
E saiu gritando, na multidão:
Oi, pega eu!
Pega eu, que eu sou o Paulão
Pega eu, pega eu, que eu sou o Paulão!
Lelé da cuca, ele está no palácio,
Fazendo a maior confusão,
Sentando em cima de redoma de vidro
E cantando este refrão:
Oi, pega eu!
Pega eu, que eu sou o Paulão
Pega eu, pega eu, que eu sou o Paulão!

Bonitinha, a paródia. Mas, que coisa estranha, por mais que eu dê tratos à bola, não consigo descobrir a quem ela se refere. Quem será esse tal de “Paulão”, mais conhecido como “Paulo Pauladas”? Que mistério…

03/08/1980- Por que as bombas

Bomba, bomba, bomba! Bombas contra bancas de humildes jornaleiros, só porque vendem jornais independentes (devidamente liberados pelo ministério da Justiça), bombas contra carros de políticos da oposição, bombas de gás contra o povo que pede justiça e paz…

De tanto ver explodir bombas, resolvi pegar no pé do Raimundo Correia e parodiar sua famosa poesia “As Pombas”, sob novo título: AS BOMBAS

Vai-se a primeira bomba atirada…
Vai-se outra… mais outra… enfim dezenas
De bombas são lançadas, apenas,
Surge na esquina o povo, em passeata…
Mais tarde, quando a rígida armada
Largando as faixas e usando as pernas,
Baixa o cacete sem dó e sem ter pena,
Foge o povo, em bando e em retirada…
E assim os camburões, onde amontoam
Os presos, um a um céleres voam,
Rumo às celas, porões e aos “currais”;
Fichadas as pessoas. eles as soltam,
Partem, mas, às passeatas elas voltam,
Pois a voz do Brasil não calam mais!

Sei que é triste parodiar uma poesia que fala de pombas, animais que representam a paz, falando em bombas, que são armas de guerra; mas, o que fazer? Estamos nos aproximando de 1984 quando, tal como no livro profético de George Orwell, que tem como título essa data, “o ódio será amor, a mentira será verdade, a guerra será a paz…”

Como eu gostaria de ver um mundo diferente, onde revoadas de pombas surgissem no céu, no lugar de revoadas de aviões de guerra… mas; o mundo em que Raimundo Correia viveu já não mais existe. Os sonhos de paz e de um mundo melhor, ao inverso das pombas “Que voltam aos pombais”, “aos corações não voltam mais”.

04/08/1980 – Dicionário do futebol

Peço licença aos colegas Walter do Valle e Márcio Uchoa, para falar de futebol. É que eu bolei um dicionário de gíria futebolística, que é assim:

ABAFAR: exercer pressão sobre o time adversário. O PDS é mestre na arte do “abafa”. Mas a oposição ainda vai virar o jogo…
ACARICIAR: movimentar a bola com jeito, esperando o tempo passar. É o mesmo que o Governo anda fazendo com a tal “abertura”…
ACERTAR: Chutar com acerto ou precisão. D*lfim não dá um chute certo.  Chutou que a inflação deste ano ia ficar em 45% e ela já passou disso longe!
AÇOUGUEIRO: Jogador violento e brutal. O mesmo que torturador do Deops e do Doi-Codi, antes da “abertura”.
ADEUS: passe mal-feito. Foi o que aconteceu, quando passaram o Ministério da Fazenda para o G*lveas.
AÉREO: jogada pelo alto. Andre*zza é mestre nessas “altas jogadas”.
AFINAR: fugir do jogo duro. É o que o M*luf anda fazendo, depois das últimas vaias, seguidas de violenta repressão.
AGARRAR: pegar bem a bola. Tem muito ministro que está agarrando a bola com tudo, mas ela teima em lhe escapar das mãos.
AGREDIR: chutar o adversário ou o juiz. Mais detalhes sobre agressão, falar com o João. O caso de Florianópolis ainda está mal explicado…
AGRIÃO: zona perigosa, onde a grama não vinga (nem o agrião, que é duro de matar com o pé). Atualmente, a questão das eleições municipais está na zona do agrião.
ÁGUA: Fazer água é ser ineficiente na defesa. Na prática, é um precioso líquido que costuma faltar na periferia, apesar das promessas dos políticos
AGUDO: chute de bico. O que o João faz, vez por outra. O Couto sempre grita: – “Chuta de bico, que o jogo é de taça!” – (Arroste).
AJEITAR: Colocar a bola com jeito. É o que o governo está tentando fazer, com relação ao adiamento das eleições.
ALÇAPÃO: Pequeno estádio, onde a turma faz pressão sobre o adversário. É o mesmo que o estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo…

06/08/1980 – Agosto, mês do desgosto

Tradicionalmente, agosto é o mês mais azarado do ano. Mês do desgosto, de cachorro louco e de grandes desgraças. Na crença popular, o maior azar do mundo é nascer numa sexta-feira, 13 de agosto. É um mês no qual quase ninguém se casa e, tradicionalmente também, ocorrem golpes no cenário político nacional.

Ninguém pode se esquecer que Getulio Vargas suicidou-se (?) num dia 24 de agosto, enquanto que Jânio Quadros renunciou a presidência da República num dia 25 do mesmo mês. Foi em agosto, também, que se iniciou o processo de revolta que levaria à revolução de 1930, apos o assassinato de João Pessoa.

É a época em que o Congresso Nacional Volta às atividades normais, após as férias de julho. É o período em que são feitos grandes pronunciamentos políticos e, terminado o recesso parlamentar, as brigas políticas se reacendem com toda a sua intensidade.

Para o governo atual, é um período extremamente difícil. A inflação, que deveria ficar em torno de 45%, de acordo com o mago dos números, o Prof. D(*)lfim, já passou dos 100%, este ano. Estamos importando feijão e outros alimentos de primeira necessidade, visto que a política da soja, tão alardeada um ano atrás, fracassou redondamente.

Em um importante Estado da União, um governador cujo nome não desejamos reproduzir, por razões de decoro, está montando uma verdadeira tropa paramilitar, visando acabar com a “abertura” e iniciar um processo de “fechadura”, que só interessa a ele, visto que, pelo voto do povo, o citado senhor jamais será eleito, nem mesmo para vereador de Caraminguá da Serra.

Nos USA, fala-se que Ronald Reagan, ex-ator canastrão de cinema e, atualmente, representando o papel pior de sua carreira, o de porta-voz da extrema-direita norte-americana, esta ganhando terreno e pode até ser eleito presidente, para a desgraça de todos. Cuidado, .povo brasileiro! Cuidado, liberais de todo o mundo; é agosto e as bruxas estão soltas…

07/08/1980 – Somos todos estrangeiros

Pelo “Estatuto dos Estrangeiros”, bolado pelo Governo, todo e qualquer elemento, que não seja natural da terra e se envolva em política, pode ser imediatamente expulso do País.

Pena que os índios, em 1500, não sabiam ler nem escrever, para fazer um estatuto desse tipo… assim, os portugueses, franceses, holandeses, espanhóis e ingleses, que disputavam nossas riquezas, no inicio da colonização, seriam todos expulsos do maravilhoso país de Pindorama (era assim que os silvícolas chamavam esta nação), que era um verdadeiro paraíso na Terra.

E vejam só como está agora a chamada “Ilha de Vera Cruz”, depois “Terra de Santa Cruz” e, finalmente, Brasil… dá pena ver um país, tão vasto e tão rico em recursos naturais, numa pindura de fazer gosto, devendo para Deus e o mundo, pedindo empréstimos de chapéu na mão, com uma imensa dívida externa e interna. Será que deveria se chamar “Pindurama”, agora?

Há poucos dias o general Figueiredo disse que “nada mais nos resta” senão trabalhar para pagar os juros das dívidas do País. A que ponto chegamos! E não faz um mês, ainda, que o papa João Paulo II, no Piauí, olhou para os céus e exclamou: – “Deus, o povo passa fome!”

E agora, está aí o tal “Estatuto dos Estrangeiros”, que visa expulsar todos os que não são brasileiros e que se envolvam em política. Como o “Estatuto” ainda não estava aprovado, o Papa pode vir ao Brasil. Se estivesse, Sua Santidade já seria considerada “persona non grata”, já que o Papa falou em problemas políticos, econômicos e sociais, o tempo todo.

E fica uma pergunta no ar: será que o tal “Estatuto” não visa, justamente, expulsar do Brasil os padres (na maioria estrangeiros) da Igreja Católica, que se envolvem em política ao defender o pobre povo brasileiro?

Quem souber a resposta que fale agora, ou se cale para sempre! O “Estatuto” acaba de ser aprovado por decurso de prazo, apesar das tentativas de modificação feitas pelos membros da oposição. Se o próprio Governo não modificar essa lei, mais uma vez ficaremos envergonhados perante o mundo! O Brasil se curvará ante as nações…

08/08/1980 – Abominável estatuto

Ontem eu escrevi, brincando, que se os índios tivessem feito um “Estatuto dos Estrangeiros” como o atual governo fez, talvez nossa terra ainda fosse o paraíso de “Pindorama”, como eles a chamavam. Mas, é claro que isso é uma piada, pois foram os imigrantes que ajudaram a fazer o nosso País progredir.

Não cabe aos estrangeiros a culpa pela terrível situação econômica em que o Brasil se encontra, e sim ao governo. Talvez grandes empresas multinacionais, que aqui se instalaram, com suas enormes remessas de lucros para o exterior, tenham ajudado a nos levar à bancarrota, mas jamais os imigrantes, aqueles que aqui vieram pra trabalhar e construir uma Nação.

Primeiro vieram os portugueses, depois os espanhóis, os ingleses, os italianos, os alemães. Mais recentemente, os japoneses, latino-americanos em geral, norte-americanos, franceses, suíços, israelitas, árabes, sírios, libaneses, armênios, poloneses, romenos, austríacos, e tantos outros.

E pensar que o abominável “Estatuto dos Estrangeiros”, aprovado por decurso de prazo e com a cumplicidade do PDS, partiu de um governo que, até poucos anos, tinha como chefes homens com os sobrenomes de Garrastazu Médici e Geisel! E que dizer dos sobrenomes dos atuais ministros e dirigentes das grandes empresas estatais?

Que acham desse “Estatuto” os senhores Abi-Ackel, Delfim, Galvêas,Ueki,Stabile, Penna, Cals, Portella, Andreazza, Venturini; Farhat? Ou mesmo os que têm sobrenome de origem portuguesa, como Arcoverde, Guerreiro, Correia de Mattos, Soares,

Macedo, Carvalho, Fonseca, Jardim de Mattos, Couto e Silva, Beltrão e Figueiredo?

Expulsar pessoas físicas é fácil, quero ver alguém mexer com ITT, Exxon, Volkswagen, Fiat, Telefunken, GE, GM, Ford, Toshiba, Texaco, Shell, Kodak, Kolynos, Gessy Lever, Gilette, City Bank, Sharp, Phillips, etc. É como eu disse: numa visão mais ampla, tirando os índios, somos todos estrangeiros! a) Ivan Saidenberg

09081980 – Dando corda ao gramofone

 

Mordomia aqui me tens de regresso

Depois que a imprensa voltou a denunciar as mordomias, as mansões, os cavalos de raça, os pássaros em viveiros esplêndidos e os carrões com chapa oficial, particular e até fria dos nossos homens em Brasília, o povo está cantando uma paródia da música “Boemia”, que é assim:

“Mordomia, aqui me tens de regresso,
E, suplicante, eu lhe peço,
A minha nova mansão…
Voltei pra rever as piscinas, que um dia
Eu deixei, a chorar de nostalgia,
Me acompanha todo um pelotão…
Mordomia, sabendo que andei distante,
Toda essa gente falante
Vai, agora, ironizar…
Ele voltou, o ministro voltou novamente,
Partiu daqui tão contente,
Por que razão vai voltar?
Acontece que a nomeação, que floriu meu caminho
De ventura, dinheiro e carrinho,
Me oferece um novo carrão…
Com chofer, com mordomo, que vive a sorrir,
Gasolina para eu ir e vir,
Com uísque e com um dinheirão…
Vou rever meu dinheiro, rolando em cascatas,
Vou cantar em novas serenatas
E abraçar meus amigos legais…
E agora, ainda me resta um consolo e alegria,
Vou gozar uma bela mordomia,
Pois é disso que eu gosto mais!

Atenção, gente de Brasília: o povo passa fome, mas ainda sabe rir.

10/08/1980 – O estatuto cheira mal

Como eu já disse, tirando os índios, somos todos estrangeiros, numa visão mais ampla. Eu mesmo sou meio estrangeiro, pois, embora descendente do cacique Tibiriçá, por parte de mãe, descendo de judeus por parte de pai.

Mas, o tal “Estatuto dos Estrangeiros” esta cheirando muito mal! A impressão que dá é que o governo deseja evitar novos sequestros, do tipo do que levou Lilian Celiberti e Universindo Diaz de volta ao Uruguai… Sim, o governo parece querer legalizar os sequestros, devolvendo os fugitivos do chamado “cone sul” da América a seus respectivos países. Já estou com pena dos uruguaios, chilenos, argentinos e outros, que, com visto de turistas, estão no Brasil irregularmente, escapando das polícias secretas e dos torturadores dos seus países de origem, todos sob o tacão de terríveis ditaduras militares.

Sorriem Pinochet, Videla e Aparício Mendez, mas choram milhares de refugados que, se o governo não mudar o “Estatuto dos Estrangeiros”, serão recambiados às suas infelizes pátrias e presos, e até mortos, passando a integrar a já imensa lista de “desaparecidos” existente no Chile, Argentina e Uruguai.

Urge tomarmos providências, para impedir tal desgraça. Além desses infelizes refugiados políticos, ainda temos muitos padres e bispos estrangeiros no Brasil, que têm trabalhado em favor do povo sofrido de nosso País. Se esses religiosos não se calarem, Serão todos expulsos, dando fim ao seu longo e árduo trabalho em favor de camadas pobres da nossa população, justamente as mais carentes e vítimas das maiores injustiças e arbitrariedades.

É mister de que o próprio governo revogue a lei recentemente aprovada por decurso de prazo e com a cumplicidade de membros do PDS (Partido Da Servidão?), que não compareceram ao Congresso Nacional para votar. General Figueiredo, revogue o “Estatuto dos Estrangeiros”, ou estaremos expostos à vergonha perante todas as nações civilizadas do mundo!

11/08/1980 – Dicionário do futebol

Hoje vamos dar continuidade ao nosso dicionário da gíria do futebol:

ALUGAR – Ceder, ocupar o passe por tempo indeterminado. O governo está nos alugando, com essa história de prorrogação de mandatos ou intervenção.
ALVO – Objetivo, meta. O alvo do M(*)luf é acabar com a “abertura” e promover a “fechadura”, golpeando a “democracia” do governo.
AMARELAR – Perder a coragem. É o que está acontecendo com muitos jornaleiros, que estão amarelando diante das ameaças de bombas dos terroristas.
AMARRAR – Fazer cera. Mais uma vez, o governo está amarrando a questão das eleições municipais de 1980.
AMOLECER – Fazer corpo mole. É o que os operários do ABC estão fazendo, já que foram proibidos de fazer greves. O lema deles é: devagar e sempre.
APAGAR – Os últimos instantes de uma partida são o “apagar das luzes”. Estão apagando a luz no fim do túnel, para azar do povo brasileiro.
APITO – (Ganhar no) – Vencer partida com ajuda do juiz. É o que o PDS costuma fazer, na votação de projetos no Congresso Nacional.
APRONTAR – Provocar confusão. É o que o governo fez, com a reforma partidária. Só que a confusão foi tanta, que muitos saíram do PDS e foram pro PP.
ARANHA – Jogador arredio. O mesmo que terrorista de direita, que estoura banca de jornal e depois some; a policia, pra variar, não tem pistas.
ARARUTA – Refrão cantado em conjunto, pelo povo, para vaiar o juiz. A última rima encerra uma injúria. – O mesmo que “um, dois, três, M(*)luf no xadrez!”
ARÍETE – Atacante impetuoso. O mesmo que membro do pMDB, que ataca o governo e denuncia as aleivosias e as mordomias dos altos escalões.
ARRANCADA – Ação ofensiva e súbita. O pMDB já deu sua arrancada e, em 1982, vai chover votos para esse partido, nas urnas, se houver eleições, é claro.
ARRANCA TOCO – Time de várzea. O mesmo que PDS – um esquadrão sem classe.
ARREPIAR – Entrar com violência sobre o adversário. Os terroristas de direita estão fazendo coisas de arrepiar, contra a imprensa alternativa.
ARTISTA – Jogador que faz jogadas bonitas, mas nem sempre necessárias. O mesmo que D(*)lfim N(*)tto.

12/08/1980 – Anúncios desclassificados

Vamos inaugurar em nossa coluna um serviço de utilidade pública para os nossos leitores. Trata-se do nosso serviço de ANÚNCIOS DESCLASSIFICADOS, vamos publicar hoje o primeiro, vindo por carta:

Terreninho na América do Sul

Vende-se, urgente, por motivo de dívidas insolúveis e insolventes, um terreninho na América do Sul, pela melhor oferta. O terreno mede, de sul a norte, cerca da mesma distância que mede de leste a oeste, em sua maior extensão. Todavia, é uma área um tanto irregular.

Trata-se de terra excelente para o plantio de qualquer tipo de cereais, verduras e arvores frutíferas. Conta com matas, rios, lagos e cachoeiras, muitas nascentes de água cristalina e, do lado leste, confronta com o mar, numa vasta região cheia de praias maravilhosas.

Conta também com áreas grandes para pasto e excelente para a criação de qualquer tipo de gado, seja bovino, ovino ou caprino. Acredita-se ser uma região rica em minerais, desde ferro ao manganês, havendo a possibilidade de se encontrar até petróleo, em certas áreas ainda não muito bem delimitadas. Já foi muito rica em ouro e pedras preciosas, mas não conta com reservas de vulto, atualmente, em virtude de ação predadora de elementos estranhos e inescrupulosos.

Os interessados deverão enviar suas ofertas para Brasília, em envelope lacrado e confidencial, no sistema de concorrência pública, aos cuidados do Dr. Netto. Garante-se sigilo absoluto.

PS-: Por um lapso de nossa parte deixamos de registrar, no anúncio acima, a área do terreninho, que é de 8.511.965 Km2. Desculpem.

Vende-se, troca-se, ou dá-se de graça o aparelho acima. Oferece-se um prêmio, também, para quem descobrir do que se trata e para que isso aí serve.

13/08/1980 – Anedotas do Salim

Dentro do anedotário político nacional, as anedotas do Salim têm particular destaque. Como uma piada velha para uns pode ser nova para outros, vamos contar algumas delas:

Dizem que o Salim morreu e foi bater na porta do céu, junto com mais um outro político de estaque (parece que eles viajavam no mesmo avião, que caiu, sei lá). São Pedro os atendeu muito bem, mas disse: – A moda aqui no céu, agora, é cavalo! Só entra quem tiver um cavalo bem bonito!

O outro político ficou muito sorridente e confiante, pois um de seus muitos cavalos também estava sendo transportado no tal avião que caiu. Ele chamou o espírito do cavalo, montou-o e, garbosamente, foi entrando no céu. Quando ele já estava junto à porta, ouviu um galope e, voltando-se, deparou com o Salim, que vinha montado num magnífico corcel ajaezado, todo branco.

O Salim passou pelo outro cavaleiro e entrou no céu, numa disparada só. São Pedro, ao ver a cena, ficou muito surpreso e disse: – Meu Deus, que cavalo bonito! Eu só vi um cavalo tão lindo assim uma vez… Onde é que foi, mesmo?

Nisso, veio São Jorge correndo, a pé, e gritando: – Meu cavalo! Pega! Pega ladrão!!!

Esta outra também é boazinha: O Salim estava viajando pelo interior, com um belíssimo automóvel com chofer, quando o carro quebrou. Enquanto o motorista reparava o veículo, o Salim viu uma casinha de caboclo, ali perto, e resolveu pedir um pouco de água, pois ele estava com sede e no bar de seu carrão só tinha uísque.

A dona da casa o atendeu e, ao saber de sua sede, gritou para um moleque: – Salim, vá buscar água para o doutor! – O Salim ficou muito surpreso e perguntou: – O nome desse menino, também é Salim, dona?

Ao que a mulher respondeu: – Não é não, seu doutor; o nome dele é Zé… Salim é o apelido, porque esse garoto é ladrão, que só vendo!

14/08/1980 – Os não identificados

Na calada da noite, elementos não identificados estão ameaçando jornaleiros e explodindo ou queimando bancas de jornais que vendem os chamados “semanários nanicos”, ou seja, os representantes da imprensa alternativa e independente.

A princípio, tudo parece ser apenas uma brincadeira de mau gosto, mas, por trás dessa aparência, paira uma terrível ameaça contra a imprensa livre. Parodiei uma música do compositor Sidney Miller (há pouco falecido), para protestar contra esse estado de coisas. A parodia é assim:

“Vai, vai, vai começar a brincadeira/ Tem, tem bomba estourando a noite inteira,/ Tem, tem, tem terrorista na cidade,/ Eles querem calar nossa Liberdade!

Faço versos aos jornaleiros,/ Que eles são gente fina,/ Ninguém vai calar a boca/ Da imprensa pequenina;/ Mas a polícia, até agora,/ Se agiu, foi na surdina;/ Quem tem medo pula fora,/ Quem não tinha já afina,/ E as bombas só terminam/ Quando a noite vai-se embora…

Vai, vai, vai continuar a brincadeira,/ Tem, tem bomba estourando a noite inteira,/ Tem, tem, tem terrorista na cidade,/ Eles querem calar nossa Liberdade!

Faço versos pro covarde,/ Que na vida já fez tudo/ E hoje virou terrorista,/ Desordeiro e vagabundo;/ E que pensa que com bombas,/ Causará terror profundo,/ Mas não sabe que o povo,/ Está unido e vai mais fundo,/ E que um dia a Liberdade,/ Reinará em todo o mundo…

Vai, vai, vai terminar a brincadeira,/ A imprensa está coesa e está inteira,/ Não será com dinamite e com maldade,/ Que irão calar a voz da Liberdade!”

É isso aí, desordeiros! Não há de ser destruindo algumas bancas de gente simples e trabalhadora que calarão a imprensa independente, livre e denunciante do arbítrio e dos desmandos dos que não desejam a democracia. Às ruas, estudantes, intelectuais e artistas! Vamos ajudar a vender, em praça pública, os jornais alternativos. Não nos calarão!

15/08/1980 – O Poder Econômico e o Povo

O povo brasileiro é, talvez, o mais irreverente e gozador do mundo, a ponto de gozar com a própria desgraça. Vejam só esta joia do anedotário político nacional:

O Juquinha nem bem estava no primeiro ano e já recebeu uma aula de “Moral e Civismo”, na qual a professora falou de Governo, poder econômico, povo e Nação. O Juquinha, coitado, não entendeu nada e resolveu pedir melhores explicações a seu pai, depois da escola.

O pai sorriu e deu a seguinte explicação: – É o seguinte, Juquinha: vamos tomar como exemplo a nossa casa, onde o poder econômico sou eu, porque trabalho fora e recebo dinheiro para pagar todas as despesas da casa. Já o Governo é a sua mamãe, pois ela cuida de tudo, paga as contas, o salário da empregada, faz a feira, etc. A empregada é o povo, já que é ela quem faz todo o trabalho da casa, limpando, lavando roupa, fazendo comida e assim por diante. Agora, você é a Nação, uma vez que todos nós juntos, poder econômico, Governo e povo trabalhamos para ver você crescer forte e bonito, saudável e instruído!

Maravilhosa explicação! O Juquinha entendeu quase tudo e foi dormir. Acontece que, alta madrugada, o menino borrou-se todo na cama e, muito agitado, foi pedir ajuda à sua mãe. Entretanto, a mãe estava ferrada no sono e o menino não quis despertá-la. Juquinha estranhou a ausência do pai na cama do casal, mas deduziu que ele tinha saído para o trabalho e resolveu pedir ajuda à empregada, que dormia no quarto dos fundos. Qual não foi a surpresa do menino, ao abrir a porta do quarto e deparar com seu pai na cama da empregada.

O pai, muito sem graça, tentou disfarçar, mas não dava. A empregada deu um grito e cobriu-se com o lençol, mas o Juquinha nem se abalou, e disse: – Agora eu já entendi tudo mesmo, pai… o negócio é o seguinte: enquanto o Governo dorme profundamente, o poder econômico ferra o povo e a Nação fica na m…

16/08/1980 – A composição do Juquinha

Meu filho, que tem dez anos e estuda em colégio público, veio me mostrar uma composição de um colega dele, o Juquinha, que é assim:

“O IMPOSTO DE RENDA:

O Imposto de Renda, é um negócio muito engraçado, porque o meu pai que vive de salário e não tem renda nenhuma paga e o patrão dele, que vive da renda do trabalho do meu pai não paga, porque ele faz uma coisa muito esquisita que chama balanço, só que não é pras crianças balançarem coisíssima nenhuma e diz que a firma dele deu prejuízo.

Eu li uma revista muito bonita chamada Vamos Construir Juntos, de onde eu recortei uma folha e lá diz que o governo somos nós, só que eu acho que esqueceram de botar o meu pai nesse governo aí. A minha mãe falou assim que é para o meu pai largar de ser pedreiro e entrar pra Pe-Mê, que ele vai ganhar mais, além de ter uma farda muito bonita e um revólver e um cassetete e um capacete. Ai meu pai disse que não queria, porque achava que ia ter de bater no povo, qualquer dia, só porque o povo não tem feijão e faz passeata. Aí minha mãe falou que, por falar nisso lá em casa também não tinha feijão e nem arroz e nem farinha e nem mistura e nem ovo, e que meu irmãozinho, que ainda é neném, não tinha leite pra por na mamadeira porque estão escondendo o leite.

É por isso que eu vou na escola para ver se ganho a merenda senão eu vou ter de vender “chicrete” no farol para poder comer um sanduíche de “mortandela” no bar do Seu Mané. Só que diz que andou faltando verba pra merenda porque o seu Malufi cortou.

Então a minha mãe disse vai trabalhar de engraxate, menino, que dá mais certo. Só que eu tenho medo de arrumar uma profissão porque na revista Vamos Construir Juntos diz que quem trabalha, tem que pagar Imposto de Renda.

Aí eu disse que eu ia virar ladrão quando eu “crecesse”, e meu pai me deu um pé de ouvido. Ele falou assim para eu continuar a estudar e ficar numa boa que nem o seu Malufi no futuro. Eu não vejo onde que está a diferença”.

17/08/1980 – O Fantasma da intervenção

Foi o “Nostradamus do/Planalto” quem disse: – “Se quem é da oposição,/ Obstinado, continuar na posição/ Que tomou, em recesso entrarão/ As câmaras das municipalidades,/ Os alcaides mores sairão/E os interventores, então,/ Tomar-se-ão duras realidades”.

Ibrahim, o Profeta, escreveu essa obra prima enquanto recebia “o santo”, nos idos de maio próximo passado. Embora em linguagem obscura e cifrada, conseguimos interpretar o texto acima da seguinte maneira: – “Se as oposições continuarem obstinadas na posição que tomaram, lamentavelmente, as câmaras municipais entrarão em recesso e os atuais prefeitos cederão lugar a interventores”.

Acontece que as oposições continuam obstinadas na posição que tomaram: a de defender a realização das eleições para prefeitos e para vereadores, em todos os municípios, conforme reza a nossa Carta Magna, a 15 de novembro de 1980. Nossa Constituição já foi por demais desrespeitada, nos idos negros do AI-5, e não pode ser rasgada como se fosse um papel sem valor. Assim, não creio que as oposições (pMDB, PP, PDT, PTB, PT) reunidas permitam que haja a prorrogação dos mandatos dos atuais prefeitos e vereadores. Dessa forma, paira sobre nossas cabeças um terrível fantasma: o espectro da intervenção nos municípios!

Agora, o “Nostradamus do Planalto” se contradisse, desfazendo a sua própria profecia. Em novo pronunciamento, após receber algum outro santo, o iluminado Profeta afirmou que não mais ocorrerão as intervenções nos municípios, posto que, de acordo com suas novas profecias, as oposições já se renderam ao inevitável: a prorrogação dos mandatos dos prefeitos e vereadores.

Sei lá, profeta que profetiza e depois desprofetiza não é muito digno de crédito. Alerta, povo brasileiro! Alerta, partidos da oposição! “Nostradamus do Planalto” pode estar vislumbrando novas formas de golpear a nossa já tão golpeada Constituição. No velho Nostradamus eu confiava, pois era o tempo que um fio de barba valia como palavra. Este novo nem barba tem…

18/08/1980 – Dicionário do futebol

 

ASPIRANTE – Jogador que procura atingir a equipe principal. Também político em véspera de eleição. O M*luf aspira chegar à presidência pelas vias indiretas, mas não passa de um mero aspirante, é o que todos esperamos.
ASSALTO – Diz-se que foi cometido um “assalto” quando o juiz beneficia um dos times, em prejuízo do outro. Também é coisa muito corriqueira nas ruas das grandes cidades, e há assaltantes de terno e gravata que nos assaltam de uma penada, com decretos que achatam os salários dos trabalhadores.
ATACANTE – Jogador que atua na linha de frente. O mesmo que terrorista de direita, que destrói com bombas as bancas de jornais, jogando na linha de frente duma certa “Falange Pátria Nova”. Esperamos que esse tipo de atacante seja expulso de campo. Cartão vermelho para ele!
ATADURA – Faixa de pano que envolve ferimentos dos jogadores. Envolve também, via de regra, a cabeça dos operários, em tempos de greve.
ATESTADO LIBERATÓRIO – Cessão de direitos sobre um jogador que pertencia a determinado clube. Certos ministros, da área econômica do governo, vão receber “atestado liberatório”, já, já… E nós vamos morrer de rir.
ATRASAR – Tocar a bola no sentido contrário. O governo está tentando atrasar as eleições de novembro, mas vai acabando por marcar gol contra…
AUTORIDADE – Pessoa que tem poder de decisão num clube, ou tribunal desportivo etc. Quando se trata de apurar os atentados da direita contra a liberdade de imprensa, descobrimos que não há nenhuma autoridade competente.
AVANTE – O mesmo que atacante. Todavia, o povo anda gritando: – “Avante, avante! Não pode haver retrocesso no processo de abertura!”
AVENIDA – Zagueiro que marca de um modo ineficiente. O mesmo que ministro da área econômica, que deixa a inflação passar de 120% e não faz nada.
AZARÃO – Time cuja vitória é altamente improvável. O mesmo que PDS.
AZOUGUE – Jogador ágil, rápido, perigoso e imprevisível. Cuidado com o maior “azougue” dos últimos tempos: o M*luf é um terrível perigo. Cuidado!

19/08/1980 – Dando corda ao gramofone

Este “País Tropical”

Com muita saudade dos bons tempos, o povo está cantando uma paródia da música “País Tropical”, de Jorge Bem, que é assim:

PAÍS QUE VAI MAL

Moro num país que vai mal,
Peço, pelo amor de Deus,
Que acabe logo esta incerteza,
Mas que dureza!
Em fevereiro (em feverê)
Nem vou ter carnaval,
Perdi meu fusca e meu violão,
Botei no prego até minha nega,
Chamada Teresa…
“Seu” João, “Seu” João
Pode não ser um grande líder, (pois é)
Mas seus amigos, seus camaradinhas o respeitam; (pois é)
Apesar de toda a carestia,
Do poder do “Seu” Delfim
E das mordomias…
(E agora, everibode🙂
Mó, num pá que vá má,
Pé, pelo amô de Dê,
Que acá ló está incertê,
Ma que durê!
Em feverê (em feverê)
Nem vô tê carná
Per me fu e me viô,
Bo no pré até mi nê,
Chamá Terê

É, conseguiram acabar até com a esperança e a alegria do povão…

20/08/1980 – Ele vai cair do cavalo

Ronald Reagan, candidato do Partido Republicano à presidência dos USA (e abUSA) foi, na juventude, “astro de cinema” segundo as agências noticiosas. Segundo essas mesmas agências, cujo noticiário tem sido amplamente noticiado pela Rede Globo, Reagan já ganhou, posto que o outro candidato, James Earl Carter, o atual presidente, anda desprestigiado.

Mais uma mentira que tentam impingir ao povo brasileiro! As eleições nos USA (e como abUSA!) são importantes para nós, posto que somos, muito infelizmente, quarto de despejo do nosso grande “Tio do Norte”. Os reacionários, aqueles que não desejam o triunfo da democracia, os mesmos que atiram bombas nas bancas de jornal e que espancam juristas e parlamentares liberais, que explodem carros e dão tiros em janelas de deputados, estão é torcendo os fatos, posto que estão torcendo (no duro) pela vitória de Reagan.

Ronald Reagan não foi um grande astro e sim um canastrão insignificante, que ficou pouco conhecido, interpretando papéis secundários, onde era sempre policial ou “cowboy”. Hoje está interpretando o pior papel de sua fraca carreira: o de porta voz da extrema direita americana, dos neonazistas e da Klu-Klux-Klan, que odeiam os negros e os judeus, os comunistas e os democratas, os liberais e todos aqueles que desejam ver um mundo mais justo, mais pacífico, mais feliz…

Mas, James Earl Carter, o popular “Jimmy”, não está derrotado de antemão, como querem nos fazer acreditar. Pelo contrário, conta com o apoio de Edward (Ted) Kennedy e de todos os liberais do Partido Democrata, que são renhidos inimigos das ditaduras latino americanas, e incansáveis lutadores pelos direitos humanos!

Tremei, tiranos! Gemei, Pinochets, Videlas, Stroessners, Aparícios e Mazas da América Latina! Jimmy Carter vai se reeleger e vocês todos vão para o espaço, juntamente com o velho e canastrão “cowboy” Ronald Reagan, que já deveria ter pendurado as esporas há muito tempo. Em novembro, veremos a vitória da Democracia… esse velho “cowboy” vai cair do cavalo!

21/08/1980 – Um projeto carinhoso

O “Projeto Pixinguinha”, que nos tem sido trazido através de um convênio com a Secretaria Municipal de Cultura, é uma das melhores coisas que já foram vistas em Campinas, nos últimos anos.

Além de muito acessível (ingressos a Cr$ 100,00), o projeto nos brindou, recentemente, com grandes nomes da nossa música popular, como Moreira da Silva, Dicró, Mongol, Elizeth Cardoso, Carmem Costa, Wandelley Cardoso e muitos outros, no Centro de Convivência.

Agora nos trouxe Emilinha Borba, Eduardo Dusek e Tânia Alves, misturando samba, rumba e carnaval, novos valores com antigos, humor carioca com uma boa dose de “malandragem” no bom sentido, é claro.

Foi uma excelente oportunidade para o povo de Campinas (principalmente os jovens) conhecerem Emilinha, que já foi a “Rainha do Rádio” e a “Favorita da Marinha”, cantou para presidentes da república (no tempo em que eles eram eleitos pelo povo) e já fez milhares de “shows” pelo Brasil.

Dusek já é um “pô louca”um exemplo da criatividade da nova geração, o homem que fez o Maracanãzinho quase vir abaixo (de tanto rir) com sua música “Nostradamus”. Versátil e inteligente, tem muito a dizer aos jovens.

Tânia veio do teatro e do cinema (Cabaré Mineiro) e é uma revelação como “falsa rumbeira”, ou seja, como as antigas rumbeiras brasileiras que imitavam as cubanas e mexicanas nos anos 50. Não percam o próximo, com Nana Caymmi, João Bosco e Cláudio Nucci, que será o último do ano.

Enfim, eis aí o “Projeto Pixinguinha”, um projeto carinhoso.

22/08/1980 – Turma da Asa Negra

Ontem houve um grande ato público contra o terror da direita, e como Gonzaga e Gonzaguinha passaram por Campinas, fazendo um excelente “show” no ginásio do Guarani, em homenagem a todos os participantes do ato, resolvi fazer uma paródia da música que foi o maior sucesso da vida do “Rei do Baião”, Luís Gonzaga (pai), a famosíssima “Asa Branca”, que é assim:

ASA NEGRA

“Quando eu vi a banca ardendo,
Depois de uma explosão,
Eu perguntei a Deus do céu:
Quem fez tamanha destruição?
Que braseiro, que fornalha,
Não escapou nem a “VISÃO”…
Por falta d’água e de bombeiros
Queimaram até nossa “ILUSÃO”!
Essa turma é uma ASA NEGRA
Ameaçando esta Nação…
Querem calar a Imprensa Livre,
Nos reduzir à escravidão!
Está longe, muitas léguas,
A “abertura” do João…
Mas sei que a Imprensa irá pra luta,
Para acabar co’ a corrupção!
Quando o verde da esperança
Ressurgir no meu Torrão,
Eu te asseguro, não chores não, (viu?)
A voz da Imprensa não calarão!”

A turma da ASA NEGRA quer ver ressurgir o nazi-fascismo, que pretendia escravizar o mundo por mil anos, dentro da doutrina do louco ADOLF HITLER e do bufão BENITO MUSSOLINI. Mas estou certo de que a ASA BRANCA da democracia e da liberdade acabará por triunfar!

24/08/1980 – Getúlio e a carta

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenadas, novamente, se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto (…) Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida (…) Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão, aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

Hoje, 26 anos atrás, Getúlio Vargas teria se suicidado no Palácio do Catete, no Rio, e deixado uma “Carta Testamento”, da qual extraí trechos, acima reproduzidos. A figura de Getúlio é controversa: tirano, para uns, herói para outros. O que importa é que ele disse que “o povo não mais será escravo de ninguém”… há 26 anos eu venho rezando para que isso aconteça um dia. Não sei quando, só espero que venha a acontecer – quem sabe?

25/08/1980 – Dicionário do futebol

BABA – Jogador afastado do time principal. O mesmo que Sim(*)sen.
BAGAÇO – Jogador que não é mais aproveitável. É a mesma coisa que Ri(*)chbieter.
BAGRINHO – Jogador de divisão inferior. É a mesma coisa que N(*)tal Gale.
BAIANA – Jogador que fica parado no campo com as mãos nas cadeiras. O mesmo que Cami(*)o Penna.
BAILE – Troca de passes no final do jogo, dado pelo time que está ganhando, para desmoralizar o adversário. O pMDB vai dar um baile no PDS, em 1982.
BALAÇO – Tiro forte e violento a gol. Também disparo feito contra operários piqueteiros, em dias de greve. Santo Dias da Silva levou um no peito…
BALANÇAR – Sacudir, criar perigo.// – o coreto: ameaçar ou desorganizar o esquema do time adversário. Vamos balançar o coreto do partido do governo.
BALÃO – A bola. Também chute alto, sem direção. Também coisa que sobe muito para depois cair. O mesmo que De(*)fim Neto.
BALÃOZINHO – Jogada que encobre o adversário pelo alto. Sinônimo de chapéu ou lençol. Essa jogada da “NOSSA CAIXA” deu um balãozinho no M(*)luf…
BALEADO – Jogador contundido, fora de forma, mas que continua participando do jogo. O mesmo que Er(*)esto Gei(*)el
BALÍPODO – O mesmo que ludopédio, ou futebol. Balípodo também parece termo usado por político que quer falar bonito e não sabe, tipo Seg(*)lio.
BANCADA – Arquibancada, ou a torcida. A bancada do PDS só torce contra o povo e costuma abandonar o local do jogo, para nos sacanear.
BANCO – Local de assento dos reservas. Também local, na Suíça, onde certos políticos do governo estariam colocando grande somas de dinheiro…
BANDA – Rasteira, pernada, chute com o lado do pé. O rei da rasteira é, mais uma vez o M(*)luf. Passou a perna no Natal e agora passa a mesma perna no povo.
BANDEIRA – Símbolo de um time ou agremiação.Mas já tem muito terrorista de direita dando bandeira… qualquer hora, eles vão se dar mal.
BANDEIRINHA – Auxiliar do juiz. Também símbolo de agremiação sem importância, tipo PDS.
BANDEJA – Entregar a bola com facilidade para o adversário. O governo anda entregando a Amazônia de bandeja, para as multinacionais.
BANDIDO – Jogador violento e desleal. Tem um certo governador jogando de bandido com o povo, mas se esquecendo que lugar de bandido é no xadrez.

26/08/1980 – 7, conta de mentiroso

Diz o folheto do 7º Salão de Humor de Piracicaba: “7 não é conta de mentiroso… e para provar que isso é uma enorme ‘mentira’, estamos trabalhando há vários meses no 7º Salão de Humor de Piracicaba, que está de cara nova. Queremos que você venha tirar a prova dos nove aqui, assistindo e participando de nossa programação”.

Como todos podem ver, a própria Coordenadoria de Ação Cultural, responsável pelo salão, se contradiz ao usar as duas primeiras frases, pois diz que “7 não é conta de mentiroso” e depois prova que isso é uma enorme mentira! Fui lá tirar a prova dos nove, assisti à inauguração do salão número 7 e lhe dei nota zero.

Para começar, este ano o salão foi bolado com um tema obrigatório: MULHER. Para continuar, baixei o pau nessa má ideia de limitar a criatividade dos cartunistas concorrentes, num artigo intitulado “Tá com medo, tabaréu?”, datado de 23/05/80, pois eu considerava, na ocasião, que a intenção dos responsáveis pela mostra de humor era desviar a atenção dos artistas para sexo, já que, infelizmente, na nossa sociedade machista, a MULHER, que deveria ser um assunto altamente político, é vista ainda como mero objeto sexual. E agora ficou provado que eu tinha razão: o 7º Salão de Piracicaba mais parece uma mostra de pornografia dinamarquesa…

Foram tantos os protestos que, na última hora, a diretoria do salão liberou o tema, mas, dos seis trabalhos premiados, apenas um não era sobre o tema MULHER. Um dos organizadores do salão (cujo nome não citarei, por questão de ética) me confidenciou que a comissão julgadora resolveu premiar um cartum de tema livre, só para não dar na vista.

Como premiado no salão do ano passado (júri popular) e piracicabano, só posso lamentar tudo isso. O Salão Internacional de Humor de Piracicaba está tal e qual a ilustração escolhida para ser seu símbolo, este ano: um palhaço de monociclo, andando numa corda bamba sem começo e nem fim, que ele próprio está traçando no ar…

27/08/1980 – Vamos reconstruir o teatro

Na minha infância tive a felicidade de conhecer o Teatro Municipal Carlos Gomes, maravilhosa casa de espetáculos, que era o reino das musas da arte cênica, da música sinfônica, da ópera e da opereta. Salão nobre para a entrega de diplomas, reuniões solenes da Prefeitura, etc., o Teatro Carlos Gomes era um dos maiores monumentos à cultura de Campinas.

Localizado bem no centro, logo atrás da Catedral Metropolitana, a belíssima casa de espetáculos era construída no melhor estilo dos teatros da Europa, pois tinha lustres de cristal, pisos de mármore, estátuas de rara beleza, querubins pintados a ouro, camarotes maravilhosos e um pano de boca onde se via o imortal Antônio Carlos Gomes compondo “O Guarani”, “O Escravo” e outras de suas grandes óperas…

Ele fazia frente para a Rua José Paulino e era ladeado pelas ruas 13 de maio e Costa Aguiar, ficando bem no centro do atual convívio. E estaria ali até hoje, se um certo prefeito pela “ARENA” (de triste memória cujo nome não citarei por questão de decoro), não tivesse resolvido derrubar o Teatro Carlos Gomes, baseado num estranho laudo técnico que afirmava haver cupins no madeirame do telhado.

Como Campinas já havia sofrido um lamentável acidente, na década de 50, quando desabou o telhado do Cine Rink, esse “inteligentíssimo” alcaide mor resolveu, em vez de trocar o madeirame, derrubar todo o prédio! De nada adiantaram os protestos do povo campineiro, das pessoas ligadas à cultura em geral, e à arte teatral em particular… As picaretas do “progresso” colocaram a obra de arte no chão, em pouco tempo, em 1966.

Agora eu proponho ao povo da minha terra: VAMOS RECONSTRUIR O TEATRO CARLOS GOMES! Sim, vamos reerguer o prédio tal e qual era, igualzinho nos mínimos detalhes, baseando-nos em fotos do V8, em plantas que estão nos museus, na miniatura do pano de boca que está no museu do Bosque dos Jequitibás, etc. Vamos lançar uma grande campanha em prol dessa reconstrução, mesmo que a prefeitura não tenha verbas suficientes para tanto; vamos pedir donativos às grandes empresas que operam em Campinas e mesmo ao bravo povo campineiro, para reerguer esse monumento à tradição da arte.

A Prefeitura poderia doar um terreno em local adequado, com fácil estacionamento, para reerguer o Teatro Carlos Gomes. Mãos à obra, campineiros!

28/08/1980 – Dando corda ao gramofone

Todos devem conhecer “TEREZINHA” de Chico Buarque de Holanda. Hoje, a paródia se chama “PREFEITURA” E É ASSIM:

“O primeiro me chegou como sendo um idealista,
Trouxe um monte de promessas, porém era um vigarista…
Fez um monte de tramóias; que esperteza que ele tinha!
Disse que, sendo princesa, me faria uma rainha…
Me deixou tão arrasada, até o último tostão,
Quase que não sobra nada… Seu Laurinho, essa não!
O segundo me chegou com apoio popular,
Trouxe um monte de projetos que não pode realizar…
Foi consertando o meu passado, remendando a minha vida,
Foi pedindo afastamento, dando a causa por perdida…
Me encontrou tão desfalcada, que lavou a sua mão,
Seu esforço deu em nada… Seu Chiquinho, foi em vão!
O terceiro vai chegar como quem chega do nada,
Talvez nem me traga nada, porém nada irá levar…
Nem sei como ele se chama, seja lá o que Deus quiser,
Mas eu já estou preparada para o que der e vier…
E um projeto sorrateiro deixa esta indagação:
Quando é que esse posseiro vai ganhar meu coração?

Acho que deu para todo mundo entender: a luta, desta vez, não é só para escolher um bom prefeito que corrija os desmandos do primeiro, ou solucione os problemas que o segundo não conseguiu solucionar… a luta é pela realização de eleições diretas a 15 de novembro de 1980, conforme reza a nossa sagrada Carta Magna. Campineiros, vamos lutar pelo cumprimento do calendário eleitoral! No dia 15 de novembro, se não houver eleição, vou colocar urnas nas praças públicas e fazer um plebiscito, pois o Governo precisa saber se o povo de nossa cidade concorda ou não com essa palhaçada de prorrogar mandatos de prefeitos e vereadores até 1982. Vamos votar, campineiros!

29/08/1980 – Exemplo do pastor luterano

“Primeiro, os nazistas vieram buscar os judeus, e como não sou judeu, não me preocupei. Depois, pegaram os anarquistas e, como não sou anarquista, também não protestei. Finalmente, chegou a vez dos comunistas: nunca fui comunista, não tinha porque defendê-los. Agora, eles estão chegando para me prender, e não sobrou ninguém para impedir”.

(De pastor luterano, durante a ocupação da Europa pelos nazistas).

Este foi o texto de abertura do manifesto divulgado no dia 21, em Campinas, por diversas entidades estudantis, sindicais e membros da oposição, unidos em torno do mesmo ideal: o do combate ao terrorismo de direita, que tem tantos danos provocado à “abertura” do General Figueiredo. No mesmo dia, foi realizado um ato público no Salão Vermelho da Prefeitura, com a presença do prefeito Francisco Amaral, do vice-prefeito José Roberto Magalhães Teixeira, dos vereadores Rui Amaral (PDT) e Manoel Moreira (PT), além de líderes sindicais, de Raimundo Ferreira (representante dos jornais alternativos), do deputado Wanderlei Simionato (pMDB) e outras figuras muito expressivas da oposição.

Foi um ato de coragem contra o terrorismo, que culminou com os oradores presentes incitando o povo de Campinas a não aceitar, de braços cruzados, os atentados da direita, que espanca jornaleiros, queima bancas de jornal e comete vários outros atentados contra as liberdades democráticas, bem como contra a liberdade de Imprensa e de expressão.

Não vamos fazer como o pastor luterano, que esperou, de braços cruzados, que os nazi-fascistas tivessem força suficiente para, depois de prender os judeus, os anarquistas e os comunistas, se voltassem sobre os pastores luteranos, bem como contra todos os religiosos (ou não) que não pensavam da mesma maneira que eles.

Como diz o manifesto distribuído no Salão Vermelho, no dia 21, nós não podemos ficar quietos, julgando que os atentados não nos dizem respeito. “Vamos apagar logo este fogo, antes que ele queime todos nós!”

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