Palavra e Traço – Setembro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/09/1980 – Dicionário do futebol

BANDINHA – Pequena banda musical que anima a torcida. Em Campinas, bandinha é do Seg(*)lio, o destruidor de árvores.
BANDO – Time, equipe desorganizada, tipo equipe do Lau(*)o P(*)ricles.
BANHEIRA – Impedimento. O político supracitado vai ficar na banheira, nas próximas eleições municipais.
BANHO – Ganhar jogo por larga diferença. O mesmo que o pMDB vai fazer com o PDS quando houver eleições. Agora, quando haverá, só Deus sabe.
BARBA, CABELO E BIGODE – Time que ganha e faz o serviço completo, desmoralizando o adversário. O mesmo que o conceito supracitado.
BARBANTE – A rede. Também marca de time sem valor. O PDS é um time marca barbante
BARREIRA – Grupo de jogadores que se postam em linha entre o gol e a bola. Também grupo de partidos da oposição, reunidos, defendendo a democracia.
BASTIÃO – O goleiro, o setor da defesa, etc. Às vezes, o Bastião chama-se Ulysses, Orestes, Franco, Lula, etc.
BATE BOLA – Jogo informal. Também troca de insultos entre parlamentares do governo e da oposição, em sessões do Congresso.
BATEDOR – Jogador encarregado de bater faltas. Na prática, soldado da PM.
BATE PRONTO – Chute dado no momento em que a bola toca o chão. Também cassetete, soco inglês e outros instrumentos dos guarda costas de um certo governador, sempre pronto a mandar bater no povo.
BATER – Cobrar falta ou penalidade. Maiores detalhes, com as tropas de choque, esquemas de segurança paramilitares, etc.
BELINADA – Rebatida violenta, acertando a bola e o adversário. O mesmo que o governo costuma fazer com o povo.
BEXIGA – A bola de futebol. Também coisa que infla muito e estoura, tipo D(*)lfim ou coisa parecida.
BICANCA – Chute violento de bico. O mesmo que deram em uma velhinha, em Brasília, numa manifestação contra o custo de vida…

04/09/1980 – “Loucos & Fanáticos”

De repente, não mais que de repente, (como diria o poetinha do povo, Vinícius de Moraes), começaram a surgir loucos, fanáticos e débeis mentais no Brasil, atacando membros da oposição, jornaleiros da imprensa alternativa e até faixas do pMDB, se não bastassem as bombas que enviaram, pelo correio, à OAB e à Câmara do Rio, além da SUNAB (que não explodiu). A enviada à OAB foi mais trágica, pois causou a morte de D. Lyda Monteiro da Silva, enquanto que a da Câmara mutilou o secretário de um deputado do pMDB.

Mas, nada temos a temer… Segundo as autoridades, todos são apenas loucos, fanáticos e débeis mentais e seus atos nada têm a ver com política. Pelo menos é o que deduzimos, pois, cada vez que um elemento agressor é identificado, as autoridades logo o liberam, como foi o caso da agressão a um jornaleiro de Campinas, João de Deus. O Sr. Carlos Alberto, que agrediu o rapaz a murros e gritou: “Comunista tem que levar tiro!” é apenas um débil mental, segundo o delegado Messias Pimentel, do Deops. Já a Dona Cleide Nogueira Nery, pintora de porcelana, que atacou estudantes a golpes de canivete de pressão, além de jogar álcool e atear fogo às faixas do pMDB por eles transportadas, também deve ser uma espécie de louca, uma vez que a polícia campineira já a libertou e já se apressou a afirmar que “o caso nada tem a ver com política”.

A coitadinha da D. Cleide só fez isso porque gosta do general Figueiredo e era fã adoidada do general Médici (ela tem até um retrato dele em casa). E, vejam só, ela não gostou da faixa que dizia: “Figueiredo não quer deixar, mas o povo vai votar”. Eu ia passando pelo convívio da Catedral, dia 2, por volta de 19 horas e presenciei toda a cena. Pobrezinha da D. Cleide… apenas um caso para o Juqueri ou para o Pinel.

Agora, os elementos ditos da esquerda, presos em Minas, esses sim, são perigosos terroristas, que serão enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Os outros são apenas loucos, fanáticos e débeis mentais… Ainda bem, não é? Puxa, que alívio: não há terrorismo de direita no Brasil!

05/09/1980 – Não votem em mim

A 15 de novembro de 1980 não vai haver eleição.

Com tristeza, assiste o povo brasileiro a mais um achincalhe da nossa já tão estropiada Constituição: 220 deputados e 35 senadores do PDS (inclusive os biônicos) votaram na madrugada do dia 4, numa tumultuada sessão no Congresso Nacional, a prorrogação dos mandatos dos prefeitos e vereadores de todos os municípios.

Eu, como protesto contra essa proposição, a famigerada emenda Anísio de Souza (PDS), havia me lançado como anticandidato a prefeito de Campinas, nesta mesma coluna, há cerca de um mês, que teve o título de: “A 15 DE NOVEMBRO, VOTEM EM MIM”. Agora, tristemente, sou obrigado a escrever: a 15 de novembro NÃO votem em mim, pois não vai haver eleição…

Proponho, isso sim, ao D.D. prefeito Francisco Amaral, fazer um plebiscito em nossa cidade, ainda que simbólico, para saber se o povo apóia a prorrogação dos mandatos dele e dos vereadores municipais. O prefeito de Rezende, Noel de Carvalho (pMDB) já anunciou que pretende realizar um plebiscito em sua cidade, para que o povo diga se ele deve ou não aceitar mais dois anos de mandato.

Por outro lado, um prefeito do PDS (pasmem!), Raul David Linhares, da cidade de Campos, já afirmou que não aceitará a prorrogação de seu mandato e que irá renunciar  e passar o cargo ao seu vice, a 31 de janeiro de 1981.

Se eu fosse vereador, juro que não aceitaria a prorrogação e passaria o meu mandato a que dele quisesse dispor, suplente ou biônico (isso mesmo, qualquer hora vão inventar vereadores biônicos). Seria uma maneira de protestar contra uma decisão arbitrária do Governo, apoiada pela bancada majoritária do PDS na Câmara e no Senado, maioria essa somente conseguida através do malfadado, o nefando “PACOTE DE ABRIL”, criado pelo general Geisel, em abril de 1977.

É isso aí, povo de Campinas… A 15 de novembro não vai ter eleição. O jeito é votar no torcedor símbolo da Ponte ou do Guarani, pois outro tipo de voto vocês não vão poder botar na urna. Meus pêsames.

07/09/1980 – Ou ficar a Pátria livre…

Hoje é Dia da Pátria, dia da Independência, já que, há 158 anos, D. Pedro I proclamava a nossa libertação de Portugal. E é do próprio Imperador o nosso primeiro hino nacional, hoje conhecido como “Hino da Independência”. A música é de D. Pedro I e a letra é de Evaristo Ferreira da Veiga. Todavia, assistindo às comemorações da Semana da Pátria em escolas públicas de Campinas, verifiquei que o hino só é parcialmente ensinado ás crianças. Indagada a respeito da falta de uma parte da letra, uma diretora de colégio afirmou que “essa parte nada tem a ver com a nossa realidade atual”.

Pois eu acho que tem sim, e muito. E, para que todos os jovens nascidos de 1964 para cá possam conhecer a letra integral do Hino da independência, passo a produzi-lo, aqui e agora:

“Já podeis, da Pátria filhos,/Ver contente a mãe gentil;/Já raiou a liberdade/No horizonte do Brasil
Brava gente brasileira!/Longe vá temor servil:/Ou ficar a pátria livre/Ou morrer pelo Brasil!
Os grilhões que nos forjava/Da perfídia astuto ardil…/Houve mão mais poderosa:/Zombou deles o Brasil.
Brava gente brasileira!/Longe vá temor servil:/Ou ficar a pátria livre/Ou morrer pelo Brasil!
Não temais ímpias falanges,/Que apresentam face hostil;/Vossos peitos, vossos braços/São muralhas do Brasil.
Brava gente brasileira!/Longe vá temor servil:/Ou ficar a pátria livre/Ou morrer pelo Brasil!
Parabéns, ó brasileiro,/Já, com garbo varonil,/Do universo entre as nações/Resplandece a do Brasil.
Brava gente brasileira!/Longe vá temor servil:/Ou ficar a pátria livre/Ou morrer pelo Brasil!”

Sim, brasileiros, há partes muito importantes, omitidas: ” Não temais ímpias falanges,/Que apresentam face hostil“… Pode haver algo mais atual?

09/09/1980 – A Super emenda

Hoje será votada a emenda à Constituição que convoca a Assembleia Nacional Constituinte, a qual é de autoria do senador Orestes Quércia,do pMDB. Trata-se de uma super emenda, de suma importância para o avanço do processo de “abertura” política pregado pelo governo. No entender do senador Quércia, a Constituinte é a melhor solução “para os graves problemas econômicos, políticos e sociais que se acumulam no País”.

Realmente, o momento político é grave, os problemas econômicos são quase invioláveis e o problema social é um caso de polícia, com a miséria grassando desde os sertões até a periferia das grandes cidades e capitais. O governo, representado no Congresso Nacional pelo PDS, seu partido oficial, tem, por obrigação, de apoiar a emenda do senador Orestes Quércia, caso contrário ficará provado que, na verdade, não está interessado em abertura alguma,sendo esta tão apregoada “abertura” do general Figueiredo apenas uma fenda numa rocha, numa pedra que a “Redemptora” de 1º de abril de 1964 colocou no nosso caminho…

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, já dizia o poeta. E urge retirá-la, para que o Brasil possa caminhar livremente, soberanamente, rumo ao seu grande destino entre as nações civilizadas do mundo. E eis aí uma boa oportunidade para remover essa imensa pedra.

“Esta não deve ser uma bandeira só da oposição, mas de tantos quantos pretendem ver o Brasil trilhar o caminho da paz, da justiça social e do desenvolvimento, metas que se viabilizarão com uma Assembleia Nacional Constituinte” – disse o senador paulista.

Se o partido do governo, uma vez mais, ausentar-se do Congresso para, através desse subterfúgio, evitar a aprovação da super emenda Quércia, ficará provado que PDS quer dizer, mesmo “Partido da Servidão”… E todos aqueles que se absterem de votar tão importante proposição, não mais serão dignos de serem reeleitos pelo povo brasileiro, quando houver eleição em 1982, ou 1984, ou só no ano 2000, quem sabe? Só Deus.

10/09/1980 – Anedotas do Salim

Dizem que o Salim foi de trem para uma cidadezinha do interior, com uma grande caravana que o povo apelidou de “Expresso da Alegria”. O prefeito da cidadezinha, que era do partido do Governo, sentiu-se muito honrado em receber a visita do Salim. Reuniu todo o povo na única praça da comunidade e começou a discursar: – É uma honra para nóis recebê uma visita tão honrosa, acompanhada de 400 pessoa! – Foi aí que um caipira, que picava fumo para fazer seu cigarrinho de palha, retrucou: – Exagerado…

O prefeito não gostou e continuou o discurso: – Como eu dizia, é muito bão pra nossa cidade recebê tão ilustre personalidadi, com seus 400 acompanhante! – E o caipira, lá do fundo: – Exagerado…

Aí o prefeito se encheu e redarguiu: Exagerado pru mode de que, voismecê pode me explicá? – E o caipira, continuando a picar fumo: – Pru mode de que Ali Babá só tinha 40!

Outra é assim: um cardeal estava passando mal e pensou que iria falecer. Mandou chamar, urgente, o Salim e mais um certo ministro da área econômica. Ambos os políticos saíram voando no primeiro avião, mas, ao chegarem à cidade do cardeal, já encontraram Sua Eminência totalmente restabelecido. Muito felizes, o Salim e o outro, o tal ministro, cumprimentaram o cardeal pelo seu pronto restabelecimento, mas desejaram saber por que ele os havia chamado. Teria sido para ter, em seus últimos momentos, duas personalidades do País junto dele?

– Não é bem isso, meus filhos – redarguiu o cardeal – É que eu queria morrer como Cristo! – Os dois não entenderam e perguntaram: – Como assim? – E o cardeal, serenamente: – Como Cristo morreu: com um ladrão de cada lado!

Dizem também que, se o Salim tivesse ido competir nas Olimpíadas de Moscou teria trazido uma medalha de ouro, com toda a certeza, para o Brasil: a de ASSALTO TRIPLO!

11/09/1980 – Odisséia de um doente

Inferno Nacional do Povão Sofredor

Necessitando de atestado médico, um jornalista doente esteve, há dias, no inferno. Isso mesmo, no Inferno Nacional do Povão Sofredor… Entidade governamental que, há pouco tempo, mudou de sigla (terá sido de vergonha?) e passou a se chamar INAMPS.

O jornalista, com febre alta, tonturas e dores no corpo, tentou conseguir, inicialmente, uma consulta com um clínico geral; mas logo descobriu que isso não é muito fácil de ser conseguido no INAMPS, embora ele veja todos os meses seu “holerite” de pagamento apresentando um desconto de Cr$ 4400,00 em favor desse instituto, ou seja, cerca de um salário mínimo!

Começa que tem uma fila dos diabos. Continua que os médicos chegam quando bem entendem (quando chegam), prossegue que todos os que estão na fila têm, supostamente, problemas relativamente sérios de saúde e lamentam-se o tempo todo, lembrando o “Quinto dos infernos” de Dante.

Quando foi, afinal, atendido por um funcionário que tinha de preencher uma baita duma ficha infernal, descobriu o infortunado jornalista que, embora sua carteira de trabalho estivesse relativamente atualizada (última anotação de janeiro de 1980), teria de apresentar o “holerite” para comprovar que continuava na firma! Além disso, o infeliz não possuía uma certa carteirinha do INAMPS, documento indispensável para o atendimento…

Encapetado, para não dizer p(*)to da vida, o jornalista teria ficado a ver navios, se não cruzasse com médico seu conhecido (aliás, estudante de medicina, talvez, pela pouca idade) e dele recebesse u conselho – Por que perder tempo na fila do INAMPS? Muito melhor ir a um hospital qualquer e simular uma emergência, pois é a única maneira de ser atendido.

Acontece que gripe não é caso de emergência, já que, embora faça o diabo com o corpo do doente, só mata quando vira pneumonia ou pleurite. E foi assim que o jornalista achou mais fácil voltar para a cama, perder alguns dias de trabalho, e se automedicar, depois de ficar cinco horas na fila do Inferno Nacional do Povão Sofredor. E o pior de tudo, é que o jornalista em questão sou eu.

12/09/1980 – A imprevidência social

O Inferno Nacional do Povão Sofredor – II

O Ministro Jair Soares, sempre sorridente, apareceu há pouco tempo num noticiário de TV, afirmando que o INAMPS (ex-INPS) iria executar todas as dívidas de firmas e de particulares que porventura (ou desventura)houvessem para com esse instituto governamental. Agora, publica o INAMPS um listão dos devedores, para que todos quantos essa lista virem, saberem quem deve ao instituto, quanto deve e assim por diante, como se dívida fosse título que se pudesse protestar e publicar nos jornais o nome dos devedores…

Agora, o INAMPS deve bilhões aos hospitais particulares de todo o País, muitas vezes não paga, procura contestar as contas apresentadas pelos mesmos, atrasa todo o processo de atendimento médico no Brasil… E fica tudo por isso mesmo. Por outro lado, o atendimento dispensado ao público que recolhe de 8% a 16% de seus salários, na fonte, mensalmente, em favor do INAMPS, é o pior possível.

Como eu já disse anteriormente, aquilo é uma sucursal do inferno, se é que o inferno existe no mundo astral. Se não existe, aquilo é o próprio inferno na terra. O infeliz doente que precisar de atendimento médico do INAMPS é um candidato sério a defunto fresco, em data muito próxima.

Cobrar, o INAMPS sabe; descontar na fonte, o que é um absurdo e deveria ser inconstitucional, é uma prática comum e obrigatória… Já corresponder às necessidades da população, isso é uma outra história. Nem se fala.

E nem se fala, também, no problema dos aposentados. Os pobres velhinhos e velhinhas, paralíticos, acidentados no trabalho e doentes mentais que se aposentam por tempo de serviço, por idade, ou por invalidez, são submetidos aos maiores vexames para receber suas magérrimas pensões, ficando horas e horas em filas, nas portas dos estabelecimentos bancários. E ainda há uma nova exigência, a da apresentação de carteira de identidade e assinatura, para receber os “benefícios” do INAMPS. Assim sendo, os próprios velhos, inválidos e doentes têm de ir às filas, em lugar de seus parentes ou amigos.

E fica uma pergunta que faço ao Sr. ministro Jair Soares: afinal, o senhor é ministro da Previdência, ou da imprevidência social?

13/09/1980 – Voz da extrema direita

Engana-se o general Golbery ao dizer que a apuração dos atentados da extrema direita é um caso para Hércules Poirot, o famoso detetive de ficção criado por Agatha Christie. Ainda no dia 11 deste mês, a extrema direita botou as manguinhas (ou mangonas?) de fora através de seu porta voz, o deputado Erasmo Noites.

Esse coronel-deputado que, segundo se diz, foi eleito com o voto dos bicheiros e da corrupção, afirmou que “a massa não pode ser tratada de outra maneira a não ser a água para esfriar a cabeça e a bomba de gás para chorar um pouco”.

Triste País este, onde um deputado do PDS pode dizer uma coisa dessas e permanecer impunemente no cargo! E tem mais: o deputado ainda afirmou que acreditava que a extrema esquerda está envolvida nos atentados a bomba recentemente ocorridos no País, embora esses atentados tenham sido feitos contra entidades da oposição com material plástico altamente sofisticado e manipulado por técnicos em explosivos que mais parecem ter saído dos porões da repressão…

Se não bastasse, o coronel-deputado ainda assumiu a responsabilidade pela invasão da PUC paulista em 1978, onde várias moças ficaram gravemente queimadas pelas mesmas bombas de gás que ele prega que se lancem contra o povo. Algumas dessas jovens ficaram marcadas para sempre pelas queimaduras e todas elas traumatizadas com a barbárie policial.

Em outra entrevista, concedida à revista “Veja”, Erasmo Noites afirmou conhecer pessoalmente os autores de vários atentados a bomba e ter dito a eles para “maneirarem” um pouco, para não dar na vista. E, concluindo a entrevista, afirmou que se a tese da Assembléia Nacional Constituinte proposta pelo senador Orestes Quércia (pMDB) fosse aceita, ele pegaria em armas, porque “isto aqui iria virar uma bagunça!”

Coronel, o povo não precisa de “bombas de gás para chorar um pouco”; basta ouvir o senhor falar, para irromper em sentidos prantos. BUÁÁÁÁÁ

14/09/1980 – Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Carneiro de Souza Bandeira foi um dos maiores poetas brasileiros. Nasceu no Recife, em 1886 e, menino ainda, foi para o Rio de Janeiro, onde faleceu há poucos anos. Muito doente, passou algum tempo na Suíça, tentando se recuperar de uma tuberculose. Foi, talvez, ao conhecer o regime político desse adiantado país da Europa, que Manoel Bandeira começou a imaginar um lugar ideal no mundo, onde tudo fosse bom, local esse que ele denominou “Pasárgada” (lê-se Passárgada); uma espécie de região utópica onde se pudesse fazer tudo o que se tivesse vontade.

Como a coisa por aqui está preta, com essa inflação galopante, com o adiamento das eleições, com essa dívida externa monstruosa, com essa fome e essa pobreza, às vezes me dá vontade de ir-me embora para Pasárgada. E foi assim que tomei a liberdade de parodiar essa poesia desse genial mestre das nossas letras: “VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA”.

Vou-me embora pra Pasárgada./ Lá não existe mais rei,/ Lá, votarei em quem quero,/ Na hora que escolherei./ Vou-me embora pra Pasárgada.
Vou-me embora pra Pasárgada,/ Aqui, eu não sou feliz./ Lá a democracia é uma ventura,/ De tal modo consequente,/ Que João, cavaleiro andante,/ Não é rei nem presidente,/ Não tem nenhuma patente,/ Assim como eu nunca tive.
E como farei discursos!/ Andarei sem documentos,/ Xingarei, se estiver bravo,/ Subirei sobre um caixote,/ Pois lá se pode falar!/ E quando estiver cansado,/ Deito num velho sofá,/ Mando ligar a TV,/ Pra saber de todas as notícias,/ Que, em meu tempo de menino,/ O povo podia escutar…
Vou-me embora pra Pasárgada./ Em Pasárgada tem tudo,/ É outra civilização;/ Tem um processo seguro/ De se fazer eleição!/ Tem votação automática,/ Tem liberdade à vontade,/ Tem políticos honestos,/ Em quem se pode votar.
E quando eu estiver mais triste,/ Mas triste de não ter jeito,/ Quando, de noite, me der/ Vontade de protestar/ – Lá, não existe mais rei -/ Terei o espaço que quero,/ No jornal que escolherei./ Vou-me embora pra Pasárgada.

15/09/1980 – Dicionário do Futebol

BICÃO – Chute forte, de bico. Também político que vive querendo aparecer na TV e na imprensa, a todo custo, tipo M(*)luf.
BICHADO – Jogador que tem contusão crônica. Também partido caindo de podre, assim tipo PDS.
BICHEIRA – Doença crônica, de cura difícil, tipo ditadura militar. Mas, um dia, a gente descobre o remédio…
BICHO – Gratificação aos jogadores, em caso de vitória ou empate. Também terrorista de direita, que não pode ser gente, só pode ser bicho.
BICO – A ponta da chuteira. Igualmente, servicinho extra que certos ministros fazem, em viagens pelo exterior, com verbas de representação e mordomias.
BICUDA – Chute de bico. Ultimamente, a inflação está bicuda paca.
BIGORNA – Atacante rompedor, valente; aríete. O mesmo que pMDB.
BLITZ – Ataque em massa, cerrado; sucessão de ataques. O povo tem sofrido com uma terrível blitz de parte da extrema direita. E o governo não está nem aí…
BLOQUEAR – Impedir a movimentação. O que o PDS sempre faz, quando algum projeto é apresentado em benefício do povo.
BOBEIRA – Distração. Os terroristas de direita vão acabar marcando bobeira e aí, não vai dar outra: alguém terá de dar com os costados na prisão.
BOBO – Jogador que é colocado no meio de um círculo, tentando pegar a bola, enquanto os demais tentam impedir que ele consiga. O governo pensa que pode fazer o povo de bobo, mas vai perder a bola nessa brincadeira.
BOCA – Saída do túnel que leva dos vestiários ao campo. Também emprego nas altas esferas de Brasília. Dizem que tem cada boca rica por lá…
BODE – Jogador muito ruim, assim tipo o D(*)lfim.
BODE CEGO – Jogador que atua de cabeça baixa, sem habilidade, com poucos recursos técnicos, assim como o G(*)lvêas.
BOLA – Objeto esférico usado no jogo. O governo pensa que é o dono da bola, mas pode estar redondamente enganado.
BOLACHA – Chute violento. O mesmo que certas tropas paramilitares dão no povo, quando este protesta contra a carestia, principalmente em indefesas velhinhas.

16/09/1980 – Dando corda ao gramofone

Quando o carteiro chegou…

Dando corda ao gramofone, hoje, apresenta a música “A Carta”, antigo sucesso da grande cantora Izaurinha Garcia:

“Quando o carteiro chegou
E meu nome gritou,
Com uma carta na mão,
Levei um susto tão rude,
Nem sei como pude
Chegar ao portão…
Pelo volume esquisito,
E pelo subscrito,
Eu reconheci
A mesma caligrafia
Que ameaçou-me um dia:
“Darei cabo de ti”.
E assim, não tive coragem
De abrir a mensagem,
Fiquei na incerteza…
Eu meditava e dizia:
– Será uma bomba,
Será uma surpresa?
Tanto explosivo medonho,
E atentado tristonho
Uma carta nos traz…
E assim pensando, atirei
Essa carta bem longe,
E a explosão foi demais!
(Breque): BUUUUMMMMMMMMM!”

Gente, a coisa está tão preta, que tem pessoas jogando livros e até presentes volumosos longe, com medo de que seja uma carta bomba. Se eu receber alguma, juro que mando devolver ao remetente.

17/09/1980 – Poema de sete faces

“Quando eu nasci, um exu torto,
Desses que vivem na sombra,
Disse: Vai, Ivan, ser jornalista na vida.
As casas espiam os homens,
Que correm atrás do dinheiro.
O Brasil talvez fosse azul,
Se não houvesse tantas marmeladas.
A viatura passa cheia de bóias frias,
De caras brancas, pretas e amarelas,
Por que tanta miséria, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém é inútil,
Não me respondem nada.
O homem atrás dos óculos
É sério, simples e forte.
Quase não conversa,
Tem poucos, raros amigos,
O homem que está atrás dos óculos e do governo.
Meu Deus, por que nos abandonaste,
Se sabias que o povo não era Deus,
Se sabias que o povo era fraco?
Mundo, mundo, vasto mundo,
Se o Delfim se chamasse Raimundo,
Seria uma rima, não uma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo,
Mais vasta é a nossa inflação.
Eu não devia te dizer,
Mas esta miséria,
Essa dívida externa,
Botam a gente p(*)to da vida como o diabo!”

Perdão, Carlos Drummond de Andrade…

20/09/1980 – Homenagem ao Tonico

Quero prestar minha homenagem ao “Tonico Músico”, jovem campineiro nascido em 1836, na antiga Rua das Flores, filho do “Maneco Músico” e de “Nhá” Fabiana Maria Cardoso. Ao jovem músico que era pouco conhecido, e cuja obra não foi devidamente avaliada pelos seus contemporâneos campineiros.

Homenagear o grande maestro Carlos Gomes, autor de “O Guarani”, “O Escravo” e outras grandes óperas, é muito fácil. Hoje, o maestro é a maior glória cultural de nossa cidade e seus restos mortais repousam sob um monumento mausoléu no qual o maestro é representado em toda a sua glória, de batuta em punho regendo uma orquestra celestial…

Quero homenagear o artista, o homem Antonio Carlos Gomes, cuja luta pelo reconhecimento do valor de sua arte foi muito grande. O jovem “Tonico”, filho de um modesto regente de banda de uma pequena cidade de província, como era Campinas há mais de cem anos, e que chegou muito cedo à corte do Imperador D. Pedro II. Sua Majestade visitou nossa cidade, pela primeira vez, em 1846, quando “Tonico” tinha apenas 10 anos, e já viu nele um grande e precoce talento musical. Com pouco mais de 20 anos, “Tonico” já estava no Rio, depois ganhou uma bolsa de estudos e foi para Milão, na Itália, estudar com o grande Verdi, tornando-se mundialmente famoso.

Mas o que eu quero, mesmo, é homenagear o jovem “Tonico”, que perdeu a mãe na madrugada de 26 de julho de 1844, quando “Nha” Fabiana foi barbaramente assassinada a tiros e facadas, e cujo assassino jamais foi localizado. O crime ficou famoso como “O drama do Roseiral” e deixou na orfandade materna dois irmãos, “Juca” e “Tonico”, este último com apenas oito anos de idade. Mas o jovem “Tonico” não se deixou abater nem pelo drama familiar e nem pela inveja de alguns de seus conterrâneos. Foi em frente, chegou, viu e venceu. Faleceu longe, em Belém do Pará, a 16 de setembro de 1896, de câncer, magoado ainda com sua terra natal… ou talvez, com inimigos que aqui deixou.

O que eu quero, realmente, é que os campineiros vejam Antonio Carlos Gomes como o nosso grande homem que foi, e não apenas como uma estátua.

21/09/1980 – Caçando rolinha com canhão

Eu gosto de revistas eróticas. Acho que são até saudáveis, já que ajudam a liberar a repressão existente na libido de algumas pessoas.

São revistas caras, costumam vir embaladas em envoltórios plásticos e, pela lei, só podem ser vendidas a maiores de idade. Não creio que possam causar dano algum à nossa juventude, já que, nos países mais civilizados do mundo, como a Dinamarca, Suécia, EUA, são vendidas nas bancas, livremente, não só as chamadas revistas eróticas, como também as denominadas “pornográficas”, que exibem cenas de sexo bem explicitas, e a juventude dessas nações vai muito bem, obrigado.

O que, realmente, está sendo um mal maior para a nossa infância e juventude, é a fome, a subnutrição, a falta de escolas, de creches, de assistência médica, de locais para recolhimento de menores delinquentes que os recuperem, em vez de transformá-los em bandidos. A exploração que o nosso povo vem sofrendo nos últimos 16 anos é que está destruindo a família, tornando os filhos das famílias pobres em ladrões, e as filhas prostitutas. Sem instrução, sem orientação alguma, o que mais resta a esses jovens?

Sugiro a Suas Excelências, os meritíssimos juízes de menores de todo o Brasil, que em vez de, amparados no novo Código de Menores, continuarem mandando apreender revistas eróticas, além de instaurar processos contra seus editores a (pasmem!) até contra os jornaleiros que as vendem, façam uma pesquisa sobre os verdadeiros males que afligem os nossos menores, e lutem por melhores condições de vida para a família brasileira, para o menor trabalhador, para o menor em idades escolar, etc.

Como disse José Hamilton Ribeiro, em sua coluna no dia 19 último, “os juízes de menores precisam pensar duas vezes, antes de gastar bala de canhão com rolinha”. É isso aí: não confundam espinafre de caçarolinha com espingarda de caçar rolinha.

22/09/1980 – Dicionário do futebol

BOLADA – Pancada com a bola, jogada muito bonita. Também grandes somas ganhas na bolsa, com vendas de milhões de ações, assim de repente.
BOLÃO – Futebol de categoria. O pMDB está batendo um bolão.
BOLEIRO – Jogador que aceita suborno. Tem cada boleiro se passando pro PDS!
BOLINHA – Futebol fraco, do tipo que está jogando o time do governo. Também excitante, tomado para aumentar o ritmo de jogo de um futebolista. O PDS não vai melhorar, nem enchendo-se de bolinha.
BOLO – Soma de dinheiro. Também uma certa coisa que o D(*)lfim disse que ia deixar crescer pra dividir, e acabou comendo sozinho. E como está gordinho!
BOMBA – Chute extremamente violento. Também explosivo muito comum hoje em dia, infelizmente, usado pela extrema direita contra os democratas brasileiros.
BONDE – Jogador ruim, lento e pesado, assim tipo C(*)sar C(*)ls.
BOTA – A chuteira. Também tacão muito usado no cone sul da América.
BOTINADA – Pontapé. Também uma coluna muito doida, do Walter do Valle e do Márcio Uchoa, que está dando ótimos chutes. Toca em frente, cambada!
BRECHA – Espaço eventualmente estreito, onde mal dá para se lançar a bola. O mesmo que a “abertura” do governo, que é apenas uma brecha.
BRINCAR – (nas onze) – Jogar em qualquer posição. Tem muito político, por aí, disposto a brincar nas onze para continuar no poder… em qualquer posição.
BUGRE – Designação do Guarani F. C. de Campinas, uma das maiores glórias do futebol brasileiro, campeão nacional de 1978. Bugre também é designação de político populista, bravo e combativo, que luta pelo povo como um guerreiro. São poucos os bugres por aí… o que temos muito é caciques, do PDS, é claro.
BUMBA MEU BOI – Chute de um defensor, que sobe muito mas tem pouca extensão, quase sempre acidental. O mesmo que “Viva São João”. Também o mesmo que os chutes que o D(*)lfim vive fazendo a respeito da inflação, sempre errados.
BURRA – Designação popular (e pejorativa) da Portuguesa de Desportos. Mas eu acho que burra, mesmo, é a bancada do PDS, que se torna cada vez mais impopular, chegando a tal ponto que não terá nenhum voto em 1982.

23/09/1980 – Tachito, o mulherengo

O assassinato de Anastácio (Tachito) Somoza Debayle, a tiros de metralhadora e de bazuca, por um grupo terrorista no Paraguai, nos traz uma série de indagações. Haveria um grupo pronto a eliminar os tiranos do mundo? Ou terá sido uma ação de vingança de parte de algum grupo inimigo pessoal de Somoza? O fato é que:

1) Os tiranos são feitos de carne e osso, iguaiszinhos aos milhões de operários, camponeses, mulheres, velhos e crianças que mandam matar, quando estão no poder.

2) De nada adiantam carros à prova de balas, mil guarda costas, etc. Quando estão suficientemente preparados, os grupos terroristas sabem agir com precisão e mortal eficiência.

3) Esse grupo terrorista não se parece com os grupos esquerdista que agiam por aqui, há poucos anos, armados apenas de ideologia e idealismo. É formado por elementos bem treinados e peritos em tiro até mesmo de bazuca, metralhadora e fuzil com mira telescópica.

4) Por mais que queiram se ocultar em “bunkers” (fortalezas), os tiranos acabam por ter de sair às ruas, vez por outra. No caso,  o Sr. Anastácio Somoza Debayle estava, ao que se diz, indo ao encontro de uma amante, mulher de Rara beleza que seria também amante de um parente do ditador do Paraguai, Alfredo Hitler, digo Stroessner. “Tachito” continuava o mesmo velho mulherengo de sempre, e isso causou o seu fim.

5) Se foi um tipo de justiçamento, esse atentado lembra muito um outro, que ocorreu há poucos anos, quando o almirante Carrero Blanco, chefe da Extrema direita espanhola e provável sucessor do generalíssimo Francisco Franco, teve seu carro explodido e atirado a grande altura, indo parar sobre a marquise de um prédio. No final da ditadura de Franco, o povo gritava: “Arriba, Franco! Mas alto que Carrero Blanco!”

25/09/1980 – Dando corda ao gramofone

Você pensa que salário é renda?

O senador Orestes Quércia ( PMDB) revelou, antes de embarcar para a República Democrática da China, que vai apresentar emenda constitucional pela qual o imposto de renda não mais incidiria sobre os salários, sendo cobrado apenas de rendas e proventos de outra natureza.

Está muito certo, é isso aí. Eu sou uma vítima do sistema arbitrário instituído pelo Governo, que cobra 20% dos meus “rendimentos”,  na fonte! Depois de uma data, vem a devolução parcial, com uma correção monetária de apenas 45%, o que vale dizer que o Governo me toma uma nota preta, todos os anos, sendo que vivo exclusivamente de meu trabalho, não tenho imóveis alugados nem outros tipos de rendimentos.

Em apoio à decisão do senador Orestes Quércia, fiz uma paródia da famosa marchinha de carnaval “Você Pensa que Cachaça é Água?”, que é assim:

“Você pensa que salário é renda?
Salário não é renda, não!
A renda é lucro de trambique,
Salário dá um trabalhão…
(breque) – Comigo não!
Assim vai me faltar tudo na vida,
Arroz, feião e pão;
Não vou ter grana pra comida,
E tudo o mais, que custa um dinheirão!
Me tomar grana na fonte,
Isso é coisa que se faça?
Pra gastar com mordomias?!
Esse IR é uma desgraça!

Manda brasa, Quércia! Em vez de cobrar IR na fonte, do trabalhador, o Governo deveria instituir um imposto sobre a remessa de lucros para o exterior de parte das multinacionais que exploram nosso povo sofrido. Mas isso ainda é utopia, que só poderá se concretizar no dia que tivermos um Governo democrático e nacionalista, eleito diretamente pelo povo.

26/09/1980 – No Maranhão tudo ‘bão’

No Maranhão é que é “bão”: povo ali não passa mal! Leiam só que maravilha aconteceu no último domingo, dia 21, no bairro de Sá Viana, nos subúrbios de São Luís, segundo as agências noticiosas:

“Mais de 500 Soldados da PM e agentes federais, fortemente armados, demoliram durante o dia 21 último 41 casas do bairro de Sá Viana, em São Luís, localizado em terras da Universidade Federal do Maranhão, deixando ao desabrigo 250 pessoas, entre elas várias crianças e senhoras gestantes, sendo que uma delas, traumatizada, perdeu o filho.”

Casa é modo de dizer, eram casebres, muitos deles de palha, que abrigavam favelados, além de marginais. O juiz Alberto Tavares Vieira foi quem tomou essa medida tão humanitária, retirando dali esses infelizes, pois eles estavam cometendo, sem saber, um crime: o de invadir propriedade privada! Verdade que a PM e os agentes federais exorbitaram um pouco no cumprimento zeloso de suas funções, pois os moradores afirmaram que os casebres foram derrubados a golpes de sabre e pontapés, além de serem lançadas várias bombas de gás lacrimogêneo sobre os favelados ou dentro dos casebres dos mais renitentes, que queriam continuar morando em terreno alheio.

Por fim, depois que todos os casebres já estavam no chão, tratores da UFMA completaram a operação, limpando o terreno. Manoel de Deus Ferreira, presidente da associação dos moradores de Sá Viana (agora ex-presidente?), ficou bastante nervoso, ao nosso ver sem motivo, só porque os policiais, durante a operação, impediram as pessoas de saírem da área. “Era hora do café e ninguém pode sair nem para comprar o pão. Tivemos de suportar em jejum demolição de nossas casas” – disse ele.

No local, também foram vistos alguns agitadores que, dizendo-se políticos da oposição, aproveitaram-se do momento para fazer alguns comícios e protestar contra “os desmandos dos homens que governam o Maranhão”. Esses indivíduos (provavelmente comunistas) não sabem que, segundo afirmou recentemente o deputado-coronel Erasmo noites, “o povo precisa de água fria para esfriar a cabeça e de bombas de gás para chorar um pouco”…

27/09/1980 – Aiatolá vai se atolar

O aiatolá Raoulah Khomeini depôs o governo do Xá do Irã em fevereiro do ano passado e substituiu o terrível regime ditatorial de Reza Pahlevi por outro regime ainda mais terrível, onde até pessoas acusadas de serem homossexuais e prostitutas foram condenadas à morte. Além disso, permitiu que estudantes iranianos invadissem a Embaixada dos USA em Teerã e capturassem os funcionários norte-americanos da mesma como reféns, acusando-os de espionagem.

Finalmente, Khomeini voltou-se contra seu tradicional rival, o Iraque, país dos antigos caldeus e babilônios, inimigos milenares dos persas, hoje iranianos. Depois de várias provocações de fronteira, envolvendo o problema do canal de Shat Al Arab, por onde passam 40% dos petroleiros que fornecem o óleo chamado de “ouro negro” para o ocidente, o aiatolá Khomeini conseguiu provocar uma guerra com o país vizinho… E se deu muito mal.

Escrevo estas linhas no 5º dia da Guerra, quando o Iraque, sem quase encontrar resistência nenhuma, avança sobre Teerã, capital do Irã, após tomar uma faixa que varia de 12 a 32 quilômetros ao longo da fronteira, defendendo o canal de Shat Al Arab e praticamente tomando o Cuzistão, local habitado por populações de origem árabe, agora já chamado de Arabistão.

Não vejo como Khomeini poderá impedir o avanço do Iraque, posto que o exército do Irã está quase desarticulado, os principais generais fugiram do país ou foram executados, os armamentos e aviões são de origem norte-americana e não possuem peças de reposição desde fevereiro de 1979. Assim ao atacar o Iraque por via aérea, para bombardear Bagdá e outros alvos (refinarias, etc.), muitos aviões iranianos caíram sozinhos, por apresentarem defeitos ou por imperícia dos pilotos.

Dizem que o Aiatolá é uma espécie de bruxo, que reza pelo Alcorão mais pratica um tipo de magia negra, junto com sua seita de fanáticos Xiitas. Não sei se é verdade, mas, se ele for mesmo um bruxo, acho de bom alvitre ir preparando uma vassoura voadora e também preparando uma fuga rápida pela direita, que nem o “Leão da Montanha” dos desenhos animados. Ou a sua magia conseguirá deter as tropas iraquianas? Só Allah sabe…

28/09/1980 – Uma receita de bolo

Hoje falaremos de culinária. Entrando em amenidades, esta coluna vai dar uma receita de bolo aos leitores e leitoras habituais, que tanto têm nos prestigiado, através de cartas e telefonemas. Então vamos lá:

Bolo Econômico

Pega-se duas xícaras bem cheias de coragem, uma grande pitada de boa vontade, uma grande porção de vergonha na cara, duas colheres de chá de honestidade (se estiver difícil de encontrar, substituir por habilidade mesmo), um pouco de dó do povo, uma dose de esforço, meio quilo de boas intenções, patriotismo a gosto (também anda em falta no mercado), um copo de fé (bem cheio), uma pitada de esperança e uma boa porção de liberdade.

Para preparar este bolo econômico, é preciso trabalho, muito trabalho; além de saber lidar com a massa, é preciso impedir que pessoas estranhas ao serviço venham agitá-la. Em vez de bater, como é de hábito, é necessário cuidar da massa com carinho, preparando uma boa calda que dê ótima cobertura ao bolo, temperada com crença nos destinos do País. Não se pode deixar essa calda esfriar antes do bolo estar pronto.

A massa deve ser posta para descansar um pouco, sendo necessário cobrir com cuidado, para evitar moscas vindas de fora, formigas sorrateiras e insetos que possam estragar tudo, pondo o bolo econômico a perder. É preciso alimentar sempre a chama do amor ao próximo, senão o bolo não cresce.

Leva-se o bolo ao forno da democracia, que deve estar bem aquecido, apesar de algumas tentativas que têm sido feitas, por aí, para esfriá-lo. Deve-se esperar que a massa esteja corada e no ponto, para retirar o bolo do forno. O bolo econômico só pode crescer quando a massa estiver firme e coesa, fermentada pelo direito de voto.

Quando o bolo crescer, estará pronto para ser servido. Deve-se colocá-lo na panela do povo (que anda meio vazia, apesar de algumas promessas de que ela ficaria cheia) e depois cortar o bolo em fatias bem finas, para que dê para todos. Atenção: é preciso muito cuidado com um certo sujeito muito gordo, que está disposto a comer o bolo sozinho. Cuidado, povo brasileiro!

29/09/1980 – Dicionário do futebol

Dicionário do futebol – VIII

Cabeça de bagre –  Mau jogador, assim tipo M(*)rilo M(*)cedo, que não aprende as regras do jogo, ou acha que pode mudá-las quando quiser.
Cabeçada –  Testada; jogada errada ou irrefletida, assim como prorrogação de mandatos. Com o tempo,  o PDS verá a cabeçada que deu.
Cabeçudo –  Jogador burro,  assim como Ama(*)ry St(*)bile, que insiste em mandar a turma plantar e depois não garante os preços mínimos dos produtos.
Cacareco –  Jogador imprestável; time formado com jogadores muito ruins, assim tipo PDS, mesmo. Com o tempo, esse partido estará caindo de podre.
Caçar –  Perseguir o adversário com deslealdade. Há poucos anos, o verbo era cassar e não caçar
Cacetada – Chute muito forte. Pontapé violento dado no adversário, como aquele dado por um guarda-costas do prefeito de S. Paulo, que afirmou que o popular agrediu o pé dele com a barriga.
Cacete –  Chute violento. (baixar o): fazer o mesmo que andaram fazendo com o povo no bairro da Freguesia do Ó, quando da visita do Sr. M(*)luf.
Cachorrada – Marcação desprovida de técnica, baseada na perseguição a um craque por um grande número de jogadores. Na prática, o que andam fazendo com o povo brasileiro, há mais de 16 anos.
Cadeira – Assento. (cativa): posição assegurada num time. Atualmente, os ministros da área econômica estão tremendo, pois nenhum pode dizer que tem cadeira cativa, do jeito que as coisas estão pretas. O negócio tá ruço…
Cair – Desequilibrar-se. O que vai acontecer no ministério, logo-logo: ministros começarão a cair… (ver definição anterior).
Caixa – Peito, tórax. Mas caixa hoje em dia é um departamento de financiamento às firmas que estão indo à falência, né, seu M(*)luf?
Caixinha – Gratificação pequena, dada a jogadores de time de várzea. O mesmo que 13º salário de pobre; não dá nem pras castanhas…
Calça-frouxa – Jogador medroso, assim tipo Va(*)dir Arcov(*)rde, que tem medo até que sejam divulgados os números relativos à poliomielite no nosso País. Vai ser calça-frouxa assim lá na… Bom, deixa pra lá.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

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