Palavra e Traço – Junho de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

02/06/1980 – O Cego Cantadô Volta a Cantar

Inimigos do povo, tremei! De viola em punho, o Cego Cantado, mais conhecido como “a voz que clama no sertão”, voltou a cantar assim:

Acreditei numa conversa mole, ah,
Pensei que o mundo ia se acabá…
Roldão Mangueira foi quem profetizô,
E o tar do mundo num se acabô.
Olhando o mundo, agora, face a face,
Oxente, eu preferia que se acabasse!
A gasolina foi pra 30 pau, ah,
E a inflação, de novo, vai estourá…
É o fim do mundo, o povo já falô,
E o tar do mundo não se acabô.
Se o César Cals pro futuro olhasse,
Oxente, preferiria que se acabasse!
O leite “C”já num existe mais, ah,
E o outro num dá mais para comprá…
É o fim do mundo, uma mãe gritô,
E o tar do mundo num se acabô.
Se o Camillo Pena pras criança olhasse,
Oxente, de pena, ia quere que acabasse!
A dívida externa já estoro, ah,
Essa daí num dá mais pra segurá…
É o fim do mundo, um dotô gritô,
E o tar do mundo num se acabô.
Se o Delfim Neto pro Brasí olhasse,
Oxente, rezaria pra que acabasse!
A tar democracia inda não veio, ah,
E neste ano ninguém mais vai votá…
É o fim do mundo, o eleitô falô,
E o tar do mundo num se acabô.
Se o Figueiredo do meu voto precisasse,
Oxente, seria o mesmo que o mundo acabasse!

03/06/1980 – Loteria Esportiva

A semana é das mais difíceis, mas assim mesmo vamos dar nossos palpites sobre os jogos a serem disputados, pedindo licença ao Walter do Valle:

JOGO 1 – DELFIM X INFLAÇÃO – Jogo duro, de difícil prognóstico. Delfim jura que vence a Inflação, mas pode ser arrasado por ela. Delfim joga na retranca, mas a Inflação vem com tudo e não está fácil de segurar. – TRIPLO

JOGO 2 – MURILLO X LULA – Já se enfrentaram em duas oportunidades. No primeiro jogo Lula ganhou fácil; no segundo, foi expulso de (S. Bernardo do) campo, após o juiz ter apitado um impedimento duvidoso. – COLUNA DOIS – ZEE-BRA!

JOGO 3 – MALUF X S. PAULO – Maluf está com a corda toda, atacando e furando as barreiras, não respeitando nem mesmo as regras do jogo. S. Paulo, todavia, não é de se deixar vencer facilmente e vai encarar Maluf até o fim. – COLUNA DOIS

JOGO 4 – ABERTURA X LINHA DURA – O técnico João Figueiredo prometeu levar a Abertura até a vitória final. Todavia, a turma da Linha Dura joga retrancada e vai tentar vencer no contra-ataque. – COLUNA UM

JOGO 5 – TUBARÃO X POVÃO – Povão vem sofrendo muito nas mãos do Tubarão, de dezesseis anos para cá. Apesar dos esforços, Povão não ganha uma. – COLUNA UM, FÁCIL

JOGO 6 – ELEIÇÂO X PRORROGAÇÃO – Essa disputa vem se estendendo demais. Eleição deveria vencer na cabeça, mas, por baixo do pano, há muitos interessados na vitória da Prorrogação. Um jogo sujo, com risco de intervenção. COLUNAS UM E DOIS – Pois empate é impossível.

JOGO 7 – POLÍCIA X LADRÃO – Polícia está bem armado, mas Ladrão costuma atacar de surpresa. Apesar de muitos esforços da Polícia, nos últimos tempos Ladrão tem vencido quase todas as partidas. – COLUNA DOIS – Pois Ladrão ganha até no apito.

JOGO 8 – CARRO X GASOLINA – Carro é muito veloz, mas Gasolina está a toda e não dá mais pra segurar. Carro vai acabar parado em campo. – COLUNA DOIS.

JOGO 9 – LEITE X CRIANÇA – Criança ainda tem muito a aprender e Leite é assessorado por técnicos internacionais. Coitada da Criança… – COLUNA UM.

JOGO 10 – CUSTO DE VIDA X SALÁRIO – Salário anda em baixa, esmagado, sem valor algum. Custo de Vida está com a bola toda. – COLUNA UM, FÁCIL.

JOGO 11 – ARCOVERDE X PÓLIO – Arcoverde perdeu, recentemente, seu maior auxiliar, Sabin, por puro desleixo. Pólio é sorrateira e vem crescendo, apesar das estatísticas falhas desde 1970. COLUNA DOIS – Infelizmente…

JOGO 12 – FEIJÃO X BOCA DO POVO –            Feijão anda sumido e parece que nem vai entrar em campo, tão cedo. Boca do Povo está sempre aberta, mas ali só entra mosca. – ESTE VAI PRA SORTEIO -TRIPLO

JOGO 13 – SITUAÇÃO X OPOSIÇÃO – Situação costuma ganhar no apito; quando a coisa aperta, apela para um pacote de reformas e muda as regras do jogo. Oposição, apesar de dividida, está cada vez mais forte, de vento em popa. É bem possível que este jogo seja adiado por dois anos, mas vai dar COLUNA DOIS! É ZEBRAAA!

04/06/1980 – O Cavaleiro do Céu – 1

O Cego Cantadô agora está dando uma de profeta e fazendo moda sobre o fim do mundo, depois que o Roldão Mangueira afirmou que um novo dilúvio ia destruir a humanidade… há poucos dias, eu escutei esta modinha:

Eu vi descê do céu um cavaleiro,
Montado num cavalo ajaezado,
Atrás dele vinha, bem ligeiro,
Um bando, do inferno despejado…
Oxente, eu pensei aqui pra mim,
É siná de que o mundo tá no fim!
Eu vi sofrê o povo brasileiro,
Cansado de sê tanto explorado,
Sobre ele vinha os estrangeiro,
Um bando de ladrão endinheirado…
Oxente, eu pensei aqui pra mim,
É siná de que o mundo tá no fim!
Eu vi um ladrão sorrindo, bem fagueiro,
Num trono muito arto assentado,
Junto dele, nadando no dinheiro,
Um bando de político safado…
Oxente, eu disse, oiando pro Salim,
E siná de que o mundo tá no fim!
Eu vi um ministro, todo galhofeiro.
Rindo muito dos assalariado,
Junto dele, um gordo prazenteiro,
E um bando de privilegiado…
Oxente, eu disse, oiando pro Delfim,
É siná de que o mundo tá no fim!
Se o fim do mundo é causo verdadeiro,
Tem político que já tá inté conformado,
Que se acabe em barranco, bem ligeiro,
Que é pra mode deles morrê encostado…
Oxente, eu falei aqui pra mim,
É siná de que tá mermo no fim!

OBS: Em terra de vidente, quem não tem olhos enxerga mais do que outros.

05/06/1980 – Cantinho do Sucesso

Hoje, com a música

Mais uma Vez

Quando eu votei pela primeira vez
Tudo era poesia…
A juventude andava em nossos corpos,
Tinha democracia.
E eu votei como um menino pode votar,
E me perdi em sonhos…
Quando a democracia foi embora, eu chorei
Como um menino sabe chorar
Quando eu votei pela segunda vez,
Já era um homem feito…
E no meu voto elegi alguém,
Com todos os defeitos.
E eu avistei,
Como um adulto sabe enxergar,
A dura realidade…
Quando o Al-5 chegou, eu chorei
Como um homem não deve chorar.
Quando a “Abertura”, revivendo as lembranças,
Me fez sentir um resto de esperança,
João passou pela rua,
E o passado voltou
A lembrar os meus votos…
Mais uma vez eu sonhei
E lembrei de uma urna,
Linda e aberta aos meus braços.
Quase que eu acreditei, veja você.
Mas… olhei pros jornais
E parei os meus passos.
E, de tanta tristeza, percebi
Que este ano ninguém vai votar..

07/06/1980 – Há 16 Anos

“Atenção jovens que estão completando 18 anos: se lhes disserem que isto é uma urna, não acreditem!”

O velho Casimiro de Abreu que me desculpe, mas resolvi parodiar descaradamente, a poesia dele:

Oh, que saudades que tenho
Do tempo em que se comia,
Em que havia democracia,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naqueles tempos fagueiros,
Em que todos os brasileiros
Eram felizes demais!
Como eram belos os dias
Da minha adolescência:
Acreditava, com inocência,
Que meu País era o melhor;
O povo – um povo sereno,
O voto – um direito sagrado,
O político – um homem honrado,
O Brasil – um hino de amor!
Que sambas, que gols, que vida,
Que noites de melodia,
Que linda a democracia,
Como era belo votar!
Como eu achava belas
As urnas, de votos cheias,
Em vez dessa coisa feia
De mandatos a prorrogar!
Oh, dias da adolescência:
Oh, como havia decência!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Onde só vejo malícias,
E promessas fictícias
De que se vota amanhã!
Livre eleitor, nas campanhas,
Eu via, bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito
– Pés descalços, mesmo assim –
O povo aqui de Campinas
Às voltas com o voto livre,
Em vez de correr, ligeiro,
Para apupar o Salim!
Naqueles tempos ditosos
Em vez de chorar as pitangas,
O governo arregaçava as mangas
E a gente podia votar;
Sem Delfim, Ave-Maria,
Como o Brasil era lindo!
Eu escolhia, sorrindo,
Quem ia nos governar!
Oh, que saudades que tenho
Do tempo em que se comia,
Em que havia democracia,
Que os anos não trazem mais:
Que amor, que sonhos, que flores,
Naqueles tempos fagueiros.
Em que todos os brasileiros
Eram felizes demais!

17/06/1980 – Hora da saudade

“BLOCO NA RUA” (OU, VOTO NA URNA)

Há quem diga
Que vai ser uma briga…
Quem dormiu de touca,
Quem marcou bobeira.
Quem falou besteira
Vai se estrepar!
Há quem diga
Que não é de nada…
Quem é da oposição.
Ou contra o governo,
E que este ano
Não vai ter eleição!
Eu quero é botar
Meu voto na urna,
Votar, votar pra valer…
Eu quero é botar
Meu voto na urna.
Mostrar quem deve vencer!
Há quem diga
Que não é nada disso…
Que o homem tá um ouriço.
Que um pouco menos disso
E um pouco mais daquilo
Vai matar de medo
A oposição!
Há quem diga
Que o troço tá ruço…
Que, a cada discurso,
Vai sair cadeia;
Que a coisa tá feia,
E o pleito vai virar
Pura intervenção!
Eu quero é botar
Meu voto na urna.
Votar, votar pra valer…
Eu quero é botar
Meu voto na urna.
Mostrar, do povo, o poder!

18/06/1980 – O Barrigudinho

Alice atravessou o espelho de sua casa e foi parar na Casa do Espelho. Como foi que isso aconteceu, perguntem ao Lewis Carroll, se ele baixar em algum centro por aí. O fato é que, lá chegando, ela encontrou um ovo sentado num muro, fazendo cálculos.

O ovo era o ministro da Falta de Planejamento da Casa do Espelho e se chamava professor Antoninho, mas era mais conhecido como “O Barrigudinho”, graças a sua obesidade, resultado de muita comilança ás custas do povo.

Ao ver a menina, o Barrigudinho disse: “Estúpida criança da plebe, quanto é 365 mais 1?” Ao que Atice respondeu, prontamente: “366, é óbvio!” O Barrigudinho abriu um largo sorriso (cínico) e falou: “Errado, garotinha tola! 365 mais 1 é igual a 364!”

Aquilo era a maior tolice que a jovem Alice já escutara na vida (e olhem que ela estava acostumada a escutar baboseiras na TV, todo dia…). “Que espécie de cálculo é esse que o senhor está fazendo, seu ovo maluco?” – perguntou a menina, já queimada. Impávido, o Barrigudinho redarguiu: “Estou apenas calculando o Índice de inflação deste ano, na Casa do Espelho!”

– “Pelo que vejo, a inflação deve estar muito alta” – disse Alice – “pois 365% ao ano é inflação de derrubar qualquer um!” Mas o Barrigudinho soltou uma gargalhada e acrescentou: “Já percebi que você não entende nada de números e nem do que ocorre na Casa do Espelho! Aqui é tudo ao contrário, posto que o espelho reflete uma imagem invertida da realidade!”

Até que tinha lógica essa tolice, foi o que pensou a menina, uma vez que as tolices ditas pelos ministros (em geral) costumam soar como verdades, por algum tempo. Mas o Barrigudinho cortou o raciocínio da garota, dizendo: “Como pode perceber, obscura criança, nossa inflação atinge o índice de 1% ao dia… reduzindo-se essa cifra do total do dia anterior, chegaremos ao fim do ano com uma inflação de, precisamente, zero por cento!”

Alice já estava maravilhada com a sabedoria do ministro (o negócio dele era números), quando um grande estrondo sacudiu a Casa do Espelho… Era o povo, que estava promovendo uma passeata-monstro contra o custo de vida, e contra a falta de vergonha dos governantes daquele país!

Ao ver o povo, que surgia de todos os lados, com faixas e cartazes, e gritando palavras de ordem, exigindo democracia plena e total direito de escolha de seus governantes, o Barrigudinho levou um tremendo susto e… CATAPRUM! – caiu do muro! E foi assim que surgiu a famosa poesia popular, que diz:

“O Barrigudinho sentou-se no muro,
O Barrigudinho caiu no chão duro.
E nem todos os homens do rei, e talvez
Todos os seus cavalos, poderão
Colocá-lo ali outra vez!”

21/06/1980 – É a glória! É a glória!

Durante os últimos 23 anos tenho escrito histórias em quadrinhos para adultos e crianças, sendo que, nos últimos nove, trabalhei com exclusividade para os estúdios Disney no Brasil, na Editora Abril. Nesse período, criei mais de 2000 argumentos para histórias em quadrinhos, a maioria dos quais foram distribuídos para o mundo todo, exceto alguns países socialistas, e traduzidos para quase todas as línguas que existem.

Todavia, somente de seis meses para cá, colaborando com o Jornal de Hoje, é que tive a oportunidade de desenhar e redigir uma coluna assinando meu próprio nome, o que foi motivo, para mim, de imensa satisfação. Foi assim que, com o aparecimento da coluna “PALAVRA E TRAÇO”, passei a tomar um contato pessoal maior com o público leitor, especialmente com o maravilhoso público de Campinas, terra onde só não nasci por acaso e que me viu crescer; onde frequentei a primeira sala de aula (no G.E. Orozimbo Maia) e fiz o curso secundário (no CE. Culto à Ciência).

A partir de hoje, com imensa alegria, passo a ter minha coluna publicada na página dois do JH, a página nobre, ao lado de jornalistas de gabarito internacional como José Hamilton Ribeiro, Roberto Godoy e Zaiman de Brito Franco, o que, por si só, já é uma imensa honra. Entretanto, a data de hoje tem, para mim, mais um significado especial: foi exatamente há 8 anos, em junho de 1972, que criei para os estúdios Disney aquele que considero o meu personagem favorito: o Morcego Vermelho, que teve suas primeiras aventuras publicadas no ano seguinte, numa edição especial que bateu todos os recordes de vendagem até então, tendo sido lida por (segundo estimativas) mais de dois milhões de amantes das histórias em quadrinhos, tanto crianças como adultos e adolescentes.

Isso, só no Brasil. Posteriormente, com a distribuição para outros países do mundo, impossível seria dizer quantas crianças (de todas as idades) já riram das bobagens que escrevo. Assim, escolhi a figura original da capa da 1ª edição para ilustrar esta coluna de hoje. Sinto-me profundamente feliz. Como diria o Morcego Vermelho: – “É a glória! É a glória!”.

29/06/1980 – O Povão Misterioso

Quem não se lembra da música Pavão Mysteriozo, de Ednardo? Só que agora ela está sendo cantada de um modo um pouco diferente:

Povão misterioso
Triste e andrajoso,
Tudo é mistério Nesse teu penar…
Ai, se eu vivesse assim.
Aturando o Salim,
Muita b… eu tinha
Pra atirar!
Povão misterioso,
Antes que o poço seque,
Te livres do moleque
Que quer te estrepar…
Não deixes que o gordinho
Te leve no biquinho,
E as taxas de inflação
Queira alterar!
Povão misterioso
Que vives de teimoso,
No escuro dessa noite
Tens é de lutar…
Exige os teus direitos,
De votar na eleição,
Desmancha isso tudo
Que não é certo não!
Povão misterioso,
Não fiques temeroso,
Se um xeque raivoso
Tentar te intimidar…
Não temas ver tua terra
Esmagada nesta guerra,
Eles são muitos
Mas não podem te calar!

30/06/1980 – O Xá está na miséria!

Quem diria? O ex-xá do Irã, Rheza Pahlevi, que roubou bilhões de dólares do povo daquele país, e cuja extradição vem sido pedida (juntamente com o ouro e jóias roubadas) pelo Aiatolá Raoulah Komeini, esta na miséria.

Pelo menos, foi o que atestou o delegado de policia de Timon (MA), José Maria Barbosa de Andrade, que ficou famoso (ou famigerado?) quando obrigou o jornalista Carlos Dias, de Teresina (PI), a engolir sem água um exemplar de jornal, onde o delegado era duramente criticado pelo jornalista.

Carlos Dias, redator de “O Estado”, de Teresina, diante de tamanho desrespeito aos seus direitos humanos, à liberdade de imprensa e à lei em geral, devolveu na mesma moeda: solicitou um “atestado de pobreza” ao delegado timonense (ou timoneiro?), em nome do ex-xá do Irã, para provar que a nossa policia esta muito mal-servida de elementos capacitados e que o delegado era semi-analfabeta. Eis o teor do atestado:

“Atesto, para fins eleitorais, que o ex-chá do Ira, Reza Parleve, filho de Nordino Rá Parleve e de Naghir Parleve, residente nesta cidade, a Rua Odilio Costa, n° 154, é pessoa reconhecidamente pobre” (sic). Segue-se a assinatura do delegado José Maria Barbosa de Andrade, com timbre da policia de Timon e tudo o mais que a lei exige nesses casos.

O delegado timonense (ou timoneano?) não pode negar a assinatura no documento, e nem pediu a algum juiz que se lhe negasse a validade. Ele disse a repórteres, que o entrevistaram, que assim o fez “porque a lei me dá esse direito”. Ao ser informado, pelos repórteres, de que o suposto “miserável” se tratava de um homens mais ricos do mundo, exclamou: – “Eu pensei que fosse mais um miserável que precisasse de documento para se alistar, e como não quero brigar com políticos, nessa época de abertura, dei logo”.

Estão vendo só? Antes da “abertura”, político não valia nada. Agora, até delegado está com medo de político, dando logo tudo o que for pedido. Será que isso representa, de fato, um aumento de poder do Legislativo, antes disso ser aprovado no Senado e na Câmara? Estarão as prerrogativas parlamentares realmente sendo restabelecidas? O poder civil começa a ser respeitado, outra vez, até pela polícia? Essas respostas só virão no seu devido tempo…

Pois é, doutor delegado, aprenda que não se deve desrespeitar a lei e os direitos humanos, e nem abusar da autoridade. Acima de tudo, aprenda a respeitar os jornalistas. Como diria a Rainha de Copas, do “País das Maravilhas”: – Quem confere ferro, conferido será ferrado!

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Palavra e Traço – Maio de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/05/1980 – Trabalhadores do Brasil!

Estava eu sentado à minha escrivaninha, pronto para rascunhar mais uma “Palavra e Traço”, quando meu braço tremeu, minha vista se turvou e comecei a redigir uma mensagem psicográfica, que ora transcrevo;

“Trabalhadores do Brasil!

Na oportunidade em que se comemora o Dia do Trabalho, dirijo-me à Nação para cumprimentar o operariado brasileiro, pela sua capacidade de luta e de organização, mesmo diante das funestas provações que lhes têm sido impostas nos últimos anos.

Direitos trabalhistas, leis de proteção ao trabalhador e a própria Consolidação das Leis do Trabalho, tão duramente conquistados através de muitos anos de luta, têm sido desrespeitados por aqueles a quem deveria caber o ônus de zelar por essas mesmas leis e direitos! A estabilidade por tempo de serviço, conquista maior do trabalhador brasileiro, já não mais existe.

O direito de greve, claramente expresso no conjunto de leis de proteção ao trabalhador, não mais é respeitado. A liberdade de reunião deixou de existir na plenitude, já que as praças públicas e os estádios de futebol foram vedados para a realização das assembléias trabalhistas. A ilegalidade das greves tem sido decretada, a todo custo, mesmo ao alto preço do achincalhe dos mais elementares conceitos de Justiça e do aviltamento do nome de juristas brasileiros!

Equivocaram-se aqueles que me atribuíram afirmações de que fui escravo do povo e que este povo não mais seria escravo de ninguém! O povo só pode ser livre na medida em que a sua capacidade de organização e de união se torne maior do que as forças contrárias, geradas pelo poder da concentração do capital, pelo anseio do lucro e pela cupidez daqueles que se locupletam com os desvios da Lei, gerados pelo abuso do poder!

Unidos no mesmo espírito de coesão, lograrão os trabalhadores brasileiros atingir seus objetivos, a despeito do uso da força, da intimidação e da prisão arbitrária. Não há de ser a intervenção nos sindicatos dos operários, nem as bombas e nem os cassetetes das forças da repressão, que irão deter a marcha do operariado brasileiro rumo aos horizontes do seu grande destino!

Trabalhadores do Brasil! Antevejo, com olhos marejados de lágrimas, o grande dia de glória em que a democracia plena será atingida e o povo brasileiro verá, altivamente, conquistadas as suas mais legítimas aspirações!

  1. A) Um espírito amigo”.

Um espírito amigo… Faz lembrar alguém, não faz?

03/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Inflação, poluição, desmatamento, falta de moradia, fome, falta de assistência médica, de dinheiro para comprar remédios etc. São estes alguns dos pequenos probleminhas do povo brasileiro, pra não falar na dívida externa. Desconsolado, o povo, pra espantaras mágoas, canta assim:

MINHA RUA

Nesta rua, nesta rua tinha um bosque,
Onde agora só existe um espigão…
Desse jeito, desse jeito minha rua
Vai chamar, vai chamar desolação!
Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava replantar,
Com mudinhas, com mudinhas de jaqueira,
De mangueira e até de jequitibá!

Ou então, assim:

EU QUERIA

Eu tenho andado tão faminto, ultimamente,
E nem vejo em minha frente
Nada, nada pra comer…
Às vezes fico a caminhar pela cidade,
Relembrando, com saudade,
De uma bóia pra valer…
Eu queria ter na vida, simplesmente,
Um salário mais decente,
Pra comer e pra beber…
Uma casinha sem financiamento,
Correção e nem aumento,
Pra de noite adormecer!

05/05/1980 – Cantinho do Sucesso – II

Aumento do pedágio, gasolina a Cr$ 28,00, leite marronzinho e carinho, falta de vergonha na cara de uns e outros… Tudo isto faz com que o povo, sem outras opções, cante para desabafar, assim:

UM LENCINHO

Aquele aumentinho,
Que você negou,
E só um pedacinho
Do muito que malufou!
Um lencinho
Não dá pra enxugar
O rio de lágrimas,
Que o povo vai chorar,
Que nasce da vontade
Que você tem de malufar
Que nasce da vontade
Que você tem de malufar!

Ou até músicas juninas, antes do tempo:

SEU JOÃO

A inflação vai subindo,
Vai caindo o salário.
Meu nível de vida
Está muito precário…
Seu João, Seu João
Avise ao Delfim
Que assim não dá não!
Seu João, Seu João
Avise ao Delfim
Que assim não dá não!

06/05/1980 – O Povo é de Paz

O povo brasileiro é pacífico e ordeiro, como ficou provado no dia 1° de maio, o “Dia do Trabalhador” que, em nossa terra, chama-se “Dia do Trabalho”, o que é um absurdo, pois nesse dia ninguém trabalha.

No ABC, (após alguns incidentes onde a Polícia Militar baixou o cacete, arrancou faixas das mãos dos operários, atirou bombas de gás lacrimogêneo e agrediu um senador da República, Franco Montoro, a socos e pontapés, além de outras amenidades costumeiras) houve uma passeata-monstro, onde 120 mil pessoas, na mais absoluta ordem, protestaram contra as prisões ilegais dos líderes sindicais e apoiaram os metalúrgicos em greve.

E sabem por que a passeata foi feita em ordem e na mais perfeita paz? Porque o comando da PM resolveu, num rasgo de bom senso, retirar o policiamento e permitir a realização da manifestação pública, liberando inclusive o estádio da Vila Euclides para o uso da assembléia de trabalhadores em greve.

Assim, fica demonstrado que o povo é de paz.

Quem provoca os choques, ferimentos, agressões, etc., é a própria polícia, que deveria ter, como primeira obrigação, o dever de manter a ordem e paz. Basta se recordar outro incidente, ocorrido há poucos dias, em que outro senador da República, Orestes Quércia, do pMDB tal como Franco Montoro, e de Campinas, foi estupidamente agredido com uma bomba de gás lacrimogêneo, quando transportava, em carro oficial, o líder metalúrgico conhecido como “Alemão”. Uma vez mais, a agressão partiu da polícia, não se sabendo se de agentes do Deops ou do Doi-Codi.

Sob pressão popular, o comando policial cedeu no dia 1° de maio… Mais uma vitória do operariado brasileiro, que demonstrou ser ordeiro e pacífico.

O trabalhador só deseja melhores salários e condições mais dignas de vida (ou menos indignas).

E é isso aí, minha gente: como dizia o poeta, “a praça é do povo, a praça é do povo, a praça é do povo, como o céu é do condor”! Só que, no ABC, o céu é dos helicópteros do exército.

07/05/1980 – Modinha do Cego Cantadô

Rua de terra, vila do Nordeste, porta da igreja. Foi lá que ouvi um cego “cantadô” dedilhar a viola e cantar assim:

“Oxente, eu vou falá
Da greve do ABC.
O que tá cuntecendo lá,
Só quem é cego num vê.
No papé de trovadô,
Num posso sê a favô
E contra num posso sê.
Eu sei que aqui no Brasí
Tem ministro, sim sinhô.
Tem ministro do trabaio,
Num tem do trabaiadô.
E se acauso alguém se atrave
A arresorvê fazê greve,
Vai pro xadreiz, sim sinhô.
Sei que num é novidade
As puliça, com vontade,
Baixa o pau pra valê,
Batê nos trabaiadô…
Só que lá no ABC
Apanha inté deputado,
Apanha inté senadô.
Em veiz de aribu, no céu,
Tem uns treco com motô,
Recheado de sordado,
Coisa da gota serena!
O povo aqui do nordeste
Chama de coisa da peste
Esses aribu sem pena.
Tem uns líder sindicá,
Que tá tudo no xadreiz.
E o governado de lá
Já mandou prender mais seis…
Sô cego e num vejo a luiz,
Mas eu juro por Jesuis,
Que pobre lá num tem veiz.
É mió eu me calá,
Se eu continuá a canta,
Os homi pode pensa
Que eu quero subivertê.
No papé de trovadô,
Num posso sê a favô
E contra num posso sê.

08/05/1980 – E o Circo Chegou!

O Grande Circo Brasil chegou! Venham todos ver os palhaços, as bailarinas, os equilibristas, os mágicos, os animais amestrados! Não percam! Vejam as principais atrações:

Na corda bamba – Incrível número estrelado por César, o inimitável! O homem está na corda bamba há meses e não caiu até hoje! Nem mesmo o caso das mordomias e nem os constantes aumentos dos derivados de petróleo o derrubaram. Mas há quem ainda garanta que ele vai cair.

A gorda bailarina – Com cento e vinte quilos, essa artista incrível vai na valsa com a maior tranquilidade. Já bailou em Paris, onde recebeu (segundo se diz) polpudos cachês. Não deixem de ver Delfina – corram comprar seus ingressos, pois, do jeito que as coisas vão, ela vai dançar!

O incrível mágico – Mário, o magnífico, já tirou da cartola uma ponte imensa e uma estrada sem fim! Agora anda tirando casas pré-fabricadas para os flagelados das enchentes, ao preço de Cr$ 4 mil o metro quadrado, quando poderia tirar casas da metade do preço. Sua maior mágica, entretanto, é conseguir permanecer no posto, apesar disso.

O domador de feras – Número estrelado por Ernane, com muita ação (mas muita ação mesmo!). Esse domador extraordinário soltou as feras no vale e, quando o povo se apavorou, acalmou a todos gritando: Senta que o leão é manso!

O homem invisível – Só este circo tem este número! Couto, o homem invisível, está em toda parte e ninguém o vê. Por trás dos bastidores, ele rouba o espetáculo, há anos. Há quem afirme que o circo é dele, mas ninguém tem certeza. Couto, o invisível, atua nas sombras!

O mestre da equitação – João é um cavaleiro incrível, que consegue manter-se na sela, apesar de todos os contratempos pelos quais passa o Circo Brasil. Em seu número, cavalga com a mão estendida, enquanto que puxa as rédeas e o bridão com a outra. Todavia, há quem afirme que ele ainda vai cair do cavalo…

O rei dos palhaços – Rindo e fazendo rir, Paulo é, sem dúvida, o rei dos palhaços! Suas tiradas provocam as maiores gargalhadas, mas há quem diga que seus atos, fora do picadeiro, são de fazer chorar. Paulo também é mágico e promete tirar petróleo até de pedra! Seu maior número é dar pirueta e cair sentado sobre uma redoma de cristal. O povo não sabe se ri ou se chora, mas Paulo gargalha, pois alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo!

Sessões diárias, a preços altos, mas vale à pena ouvir o arauto do circo, Said. gritar: – Hoje tem marmelada? E o povo responder: – Tem, sim senhor! – Hoje tem goiabada? – Tem, sim senhor! – E o palhaço, o que é? E o povo, em peso: – É ladrão! É ladrão! É ladrão!!!

10/05/1980 – The Blind Singer Rides Again!

O cego “cantadô” ataca novamente! Ele veio pra “Sumpaulo” e anda cantando pelas quebradas de São Miguel Paulista, subúrbio onde predominam os nordestinos. Fui encontrá-lo na porta duma igreja, cantando assim:

“No dia que o sertão fô virá mar,
No dia que o mar virá sertão,
O povo nesta terra vai mandá,
Por enquanto só quem manda é os tubarão!
Eu sei que eu num posso enxerga,
Mas enxergo mió que os patrão…
E sei que esse dia vai chega,
E que vai terminá nossa aflição!
É mió se vivê pedindo esmola,
Do que sê trabaiadô no ABC.
É mió cantá moda de viola,
Do que nas indústria padecê!
Oxente, é honesto trabaiá,
Mas quem trabaia deve recebê…
O povo só merece melhorá,
Em veiz de cacetada pra valê!
Diz que é um direito fazê greve,
Pará, cruza os braço, sim sinhô
Mas se os pobre faiz isso, a coisa freve,
E é pau no lombo dos trabaiadô!
Eu queria vê a paz no meu país,
E a orde e o pogresso imperá,
Eu queria vê o povo sê feliz,
Mas sô cego e num posso enxergá…
Já dizia o veio Antonho Conseiero,
Que o povo tem direito ao seu quinhão,
Mas, enquanto só manda quem tem dinhero,
Esta terra num vai pra frente, não!
No dia que o sertão fô virá mar,
No dia que o mar virá sertão,
O povo nesta terra vai mandá.
Por enquanto só quem manda é os tubarão!

12/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Nem o “rei” escapa! O povo, angustiado com a inflação, com as greves, com o custo de vida e com a falta de vergonha na cara de uns e outros pela aí, está cantando paródias das músicas do Bebeto:

Força Estranha
(ou, Pega que é Trombadinha!)

Eu vi o menino correndo,
Não tive tempo
De barrar o caminho daquele menino…
Eu pus minhas mãos no diacho,
Mas acho que não segurei,
Só sei que, ali na estrada,
Sem minha carteira fiquei!

Café da Manhã
(ou, Tamos em Greve!)

Amanhã de manhã,
Vai haver confusão no ABC,
Camburão no caminho e depois
Pelotão da PM…
Vou escapar
Da desordem da praça e esperar,
Lentamente, a coisa acalmar,
Pra sair amanhã…
Pensando bem,
Amanhã eu nem vou trabalhar…
E, além do mais,
Da polícia eu
Não quero apanhar!
Amanhã de manhã,
Eu não quero nenhum compromisso,
Meu salário tá baixo,
E por isso,
Vou cruzar os meus braços
Quando, mais tarde,
Derem aumento,
A gente se anima,
Dá um jeito e a
Greve termina,
Vou poder trabalhar!
(Na praça apinhada,
Os PMS dão
Muita cacetada,
Muito pescoção…
Bombas que estouram,
Tiras que trituram
O trabalhador,
Quando o seguram…)

13/05/1980 – Cantinho do sucesso – III

Mesmo chorando, com bombas de gás na cara, a poluição ambiental e a inflação galopante (pra não falar da falta de vergonha de alguns políticos no poder), o povo ainda acha tempo para cantar:

Está faltando

Está faltando uma coisa em mim,
E é dinheiro, amor
A culpa é do Delfim!
Novos aumentos já foram demais,
Por isso é que eu
Não tenho paz!

Buchinho vazio

Buchinho vazio,
Um frio que provoca arrepio,
Feijão nem pintou no pedaço,
E eu já tou indo pro espaço…
Meu feijão,
Quero comer-te,
Ao menos, ver-te…
Buchinho vazio,
Feijão, meu feijão que sumiu,
Eu peço pra Deus
Devolver-te!

Porque senão, ela estoura!

É preciso muita grana,
Para suportar essa inflação!
Tudo que eu ganho a danada quer levar,
Tudo que o Delfim tem de fazer é congelar,
Porque senão
Ela estoura,
E a grana vai-se embora, o,
A grana vai-se embora! (Bis)

14/05/1980 – Futebol, Ópio do Povo

“Minha maior preocupação é com o time do Fluminense, que não anda bem!” – Quem teria feito esta declaração? Algum torcedor, no Maracanã, ou algum dirigente de clube desportivo? Nada disso: ninguém mais e nem menos do que o general Figueiredo, Presidente de plantão da República Federativa do Brasil!

Temos uma dívida externa de quase 70 bilhões de dólares, impossível de ser paga, pois os juros, os novos empréstimos e o déficit na balança comercial só tendem a aumentar essa quantia inacreditável. Mas, o Presidente está preocupado com o Fluminense…

A fome ronda 40 milhões de brasileiros, que vivem em condições precaríssimas, desempregados ou subempregados, ganhando menos do que o necessário para comer o arroz com feijão. Mas, o Presidente está muito preocupado com a má fase de seu clube…

Greves espocam por todo o País, líderes sindicais são presos, professores fazem greve de fome no xadrez, policiais da PM, do Deops e do Doi-Codi baixam a lenha nos trabalhadores grevistas, no ABC. Mas, o Sr. Presidente está mesmo é preocupado com onze marmanjos de calção..

As favelas se multiplicam, não há moradia digna para todos; o custo de vida está insuportável, os aluguéis caríssimos, o povo não tem como alimentar seus filhos e cerca de 60 crianças morrem de fome, no Brasil, por hora! Mas, S. Exa. está mesmo é preocupado com um time de futebol.

A corrupção come solta, há denúncias quase diárias contra ministros, fala-se de mordomias e de falcatruas, negociatas e mamatas entre os homens que estão no poder. Mas, o general só pensa no Flu…

O esquadrão da morte mata diariamente, a sangue frio, dezenas de pessoas, supostamente envolvidas com roubos ou tráficos de entorpecentes. Isso é um grave desrespeito á lei e à ordem, mas o D.D. Presidente está é preocupado com a falta de gols de seu time…

Ao conversar com crianças ou com operários, a primeira coisa que o general João Baptista faz é perguntar qual o time de preferência dos entrevistados: Flamengo? Corinthians? Palmeiras? Náutico? Internacional?

Será que o nosso maior governante é mesmo tão interessado em futebol, ou alguém da Secom está querendo transformar o nosso principal esporte em ópio do povo?

15/05/1980 – Moda de Viola

Eta, ceguinho cabra duma peste! Quando o pessoal lá de cima pensa que ele já parou de cantar, depara com ele na porta duma igreja, de viola em punho e cantando assim:

“Moda de viola
De um cego infeliz, ai, ai!
Moda de viola
Vai falá agora
Dum pobre país, ai, ai!
Acabou-se a greve,
Mas a coisa freve, ai, ai!
Lula na prisão,
Enquanto nas rua
Tem muito ladrão, ai, ai!
Um ministro ri,
Mas o povo chora, ai, ai!
A humiação
Que impusero ao povo
Num fica ansim não, ai, ai!
Moda de viola
Fala do João, ai, ai!
Que só pensa em bola,
Enquanto que o povo
Tá pedindo esmola, ai, ai!
Moda de viola
Num canta, só chora, ai, ai!
Isso eu num nego,
Moda de viola
Num dá luiz a cego, ai, ai!
Moda de viola
De um cego infeliz, ai, ai!
Moda de viola
Vai calá agora,
Pobre do país, ai, ai!”

19/05/1980 – Cotação

 

Hoje quem vai fazer a cotação dos filmes da semana serei eu. Mas o colega Laerte Ziggiatti não precisa ficar preocupado, uma vez que os filmes em questão não estão passando em Campinas e sim em outras localidades.

Eis os principais filmes em exibição:

Convite a Depor – Nacional. Direção de R. Turma. Em exibição em São Paulo, Santo André, São Bernardo, São Caetano etc. Com a participação de operários, professores e outros infelizes. Um delegado emprega seu tempo convidando os demais participantes para depor na sua delegacia.

Uma desagradável surpresa.

 

Os Sete Porquinhos – Nacional. Sem direção, ao que tudo indica. Em exibição em Brasília, com a participação de Merlin Netto, Emane Gavião, Mário Andaasa, Waldir Arcovarde, Lambary C. Silva, Amaury Instável e Murilo Maiscedo, além de outros. Tragicomédia baseada em novela policial de Ágata Triste, focalizando a desintegração de um governo.

Muito artificial. Não justifica a permanência desses caras nos respectivos cargos

Inflação, A Verdadeira – Nacional. Direção de Merlin Netto, César Caos, Camelo Pena e outros. Com a participação de atravessadores, agiotas, especuladores e muitos tubarões. Um elenco multinacional! Antes já tivemos umas inflações falsas, além de índices manipulados para diminuí-las, desde 1973. Agora sim, temos uma inflação verdadeira, de arrebentar a caixa de qualquer um. Em exibição em todo o território nacional.

Banditismo gratuito. Pura roubalheira.

A Classe Operária Vai Pro Quinto dos Infernos – Nacional. Direção de Luís Inácio, com a participação de boa parte da classe operária. Em exibição em São Bernardo do Campo e em todo o ABC. Trata-se da triste história do operariado. Filme pesado e amargo, sem faltar alguns toques de humor negro, sobre os problemas vividos pelos operários de indústrias metalúrgicas, derivados do trabalho profundamente aviltante a que eles são submetidos, além de salários humilhantes.

Excelente para o povo, péssimo para o governo.

20/05/1980 – Merlim Netto

A terrível e poderosa bruxa INFLAÇÃO assolava o país. O velho mago Merlin Netto, o feiticeiro dos números, jurou que acabava com ela e partiu para a luta, munido de sua varinha mágica que, em 1973, transformara uma inflação de 25% em apenas 12% (segundo os cálculos dele, pois o negócio do Merlin Netto é números)…

A velha bruxa, que já andava solta há muito, não se atemorizou e o desafiou para um duelo de magia! Nesse estranho duelo, cada um poderia se transformar no que quisesse, para enfrentar o outro.

– Lembre-se das regras! – disse a bruxa – Minerais e vegetais não valem: só animais! E também não vale desaparecer!

Merlin Netto topou, pois não queria desaparecer de jeito nenhum, e sabia que a Inflação não iria desaparecer jamais. Na verdade, o que o Merlin Netto gostava, mesmo, era de aparecer!

Assim, começou o terrível duelo: a bruxa se transformou num cavalo e virou a inflação galopante. Merlin Netto virou onça e atacou pra valer! Mas a bruxa se inflou tanto, ficou tão imensa, que a onça, perto dela, parecia um gatinho gordo e inofensivo…

Aí surgiu Emane, amigo e assistente do mago dos números, um corujão esperto e metido a sábio, que entrou também no duelo. Ernane, o amigo da onça, atacou a bruxa, gritando: – VALE TUDO! E aí foi uma luta com muita, mas muita ação! Tanta ação, mas tanta

foi só pena voando pra todo lado… Para Ernane, a luta virou um vale de lágrimas.

Depenado e muito sem graça, o Ernane saiu-se mal no caso do vale tudo. Há quem diga que, depois, ele recebeu um polpudo cachê pela sua participação na luta, mas isso já é outra história… Vendo que ser onça não adiantava, Merlin Netto transformou-se num porco selvagem!

Mas a Inflação transformou-se num dragão verde e imenso, gritando: – Oba! Hoje vai ter porco com farofa! – E partiu para cima do porcão, que fugiu correndo e gritando que não queria virar presunto das “Casas da Banha”!

Um pobre operário que passava por ali, chamado Salário, tentou ajudar o mago dos números na luta contra a Inflação, mas esta estava tão grande e poderosa que gritou: – E eu lá vou ter medo de um Salário mínimo? – E devorou o operário, sem dó nem piedade!

Merlin Netto foi se refugiar no palácio do rei João, “o sem medo”, também conhecido como João Valentão. Quando o rei viu o feiticeiro dos números transformado em porco e verde de medo, quis saber por que ele tinha sido derrotado vergonhosamente pela Inflação.

Tremendo de medo de perder o seu posto de “ministro feiticeiro” do rei, o porcão, digo, o feiticeiro explicou: – A Inflação engoliu o Salário e ficou gorda e forte, Majestade! Nada po-posso f-fazer… é tudo culpa do Salário!

E o rei, bocejando enquanto assistia a um jogo do Fluminense na TV, aceitou a desculpa, dizendo: – Ah, bom! Então está tudo bem… Minha única preocupação é o danado do Flu!

21/05/1980 – O Nostradamus do Planalto

Há pouco tempo atrás, um fanático meio maluco, chamado Roldão Mangueira, afirmou que o mundo ia se acabar num novo dilúvio. Talvez impressionado pelo próprio nome, ele afirmou que Deus ia abrir as mangueiras do céu e levar o mundo de roldão…

As profecias desse fanático, chefe da seita “Barboletas Azuis”, só assustaram umas poucas pessoas, na maioria semi (ou totalmente) analfabetas, que se recolheram a um templo e ficaram rezando, acreditando nessa conversa mole e pensando que o mundo ia se acabar…

Mas, eis que surge outro profeta no pedaço: Ibrahim, o Nostradamus do planalto! E suas tétricas profecias estão assustando muito mais gente, visto que elas têm grande chance de se concretizarem.

Por alta noite, em visionária luz, o profeta se concentrou, recebeu o santo e mandou ver esta obra prima de profecia:

“Se quem é da oposição,
Obstinado, continuar na posição
Que tomou, em recesso entrarão
As câmaras das municipalidades, os alcaides mores sairão
E os interventores, então,
Tornar-se-ão duras realidades.”

Como os leitores podem notar, trata-se de profecia em verso, de significado obscuro e sujeito a diversas interpretações. Como sou dado a decifrar sonhos e profecias, lendo os versos do novo Nostradamus cheguei á seguinte conclusão: se as oposições continuarem obstinadas na posição que tomaram, lamentavelmente as Câmaras municipais entrarão em recesso e os atuais prefeitos cederão lugar a interventores.

É de arrepiar! É o fim do mundo! Já pensaram, mais de 4.000 interventores municipais sendo designados pelos governadores estaduais de uma penada? Prefiro ver Campinas destruída por um novo dilúvio, a ver o Sr. P. Maluf designar um amigo dele, tirado do bolso do colete, para reger os destinos da nossa amada cidade!

E como, recentemente, o Sr. P. Maluf recebeu, a portas fechadas o Sr. Lauro P. Gonçalves, ex-prefeito de Campinas, que já responde a nada menos de 6 processos por abuso de poder e malversação de dinheiro público, só se pode sentir um calafrio na espinha…

Entre as profecias do Roldão Mangueira e as do Ibrahim Nostradamus, sinceramente, prefiro que o mundo se acabe.

26/05/1980 – O ministro maravilhoso

Ah, o País das Maravilhas tem um ministro maravilhoso! Eram precisamente cinco da tarde (são sempre cinco da tarde no País das Maravilhas), quando o ministro da Falta de Planejamento, Merlin (Coelho Branco) Netto chegou para o chá, pois todo mundo sabe que cinco da tarde é hora de chá

Nem bem ele tinha começado a degustar uma garrafa de “Chateneuf de Quelquechose”, importado da França, além do tradicional “filet de escargot au bouilabasse” (idem), acompanhado de um “fromage de suisse flambée”, importado da Suíça, chegou um jornalista…

Jornalista, pra quem não sabe, é um daqueles chatos que só pergunta coisas que a gente não quer ou não gosta de responder (segundo definição do próprio Coelho Branco). Vai daí, o jornalista chegou e perguntou: – É verdade que a Rainha de Copas vai determinar um corte nas importações do reino, Sr. Ministro?

– Trata-se de uma informação que não tem fundamento! – declarou o Coelho Branco, enquanto tomava um gole de champanhe “Veuve Clicot”, safra 1952, recém-chegada de Paris, acompanhada de “pomes de terre” deliciosas, desembarcadas do mesmo avião em que veio o champanhe.

– Todas as restrições já foram feitas, inclusive no setor público! – complementou o coelho, enquanto devorava uma revista em quadrinhos com o “Incrível Hulk”, o “Surfista Prateado”, o “Capitão América” e outras superfluidades ostentatórias, recentemente chegadas dos Estados Unidos.

– Aceita um pedaço de bolo?

– indagou o Coelho Branco para o jornalista – Acabou de chegar da Itália, é todo recoberto de passas e tem recheio de tâmaras da Arábia Saudita!

– E, enquanto falava, repartia o bolo.

– B-bem, eu… – retrucou o jornalista – não sei se…

– Ótimo! – redarguiu o coelho. – Se você não quer, como eu! – E engoliu o Dolo todo, de uma garfada só. O garfo e a faca, aliás, eram de prata mexicana, e tinham acabado de chegar de navio, junto com os pratos de ouro, vindos do Peru.

– Então, não haverá corte?

Indagou novamente o jornalista, engolindo seco, já morrendo de fome (como a maioria da classe, aliás)…

– Um novo corte implica em admitir que, a esta altura, ainda estamos realizando importações supérfluas, o que ê um absurdo! – declarou o ministro, tomando um gole de “Chivas Regal 12 years old”, recém chegado da Escócia, enquanto ouvia, no FM vindo do Japão, a canção “The Beatles Are Still Alive”, ou qualquer coisa parecida, vinda da Inglaterra.

– Estamos importando o estritamente necessário! – Arrematou o ministro Merlin Netto, engolindo maravilhosos figos ao licor, chegados naquele momentinho da Síria. Que ministro maravilhoso, no País das Maravilhas!

28/05/1980 – Este é um país pobre

País das Maravilhas, cinco da tarde: a Rainha de Copas manda chamar seu ministro da Falta de Comunicação, para lhe dar importantes instruções. Correndo feito o Coelho Branco, esbaforido, o ministro atendeu prontamente ao chamado, antes que a rainha mandasse cortar a sua cabeça.

Saidessa Vida, o ministro em questão, chegou às cinco em ponto (pois é sempre cinco da tarde no País das Maravilhas) e disse: – Puf… puf… puf! – Pois era a única coisa que poderia dizer, depois de correr tanto.

– Puf puf puf pra você também – respondeu a Rainha de Copas – ainda bem que atendeu prontamente ao meu chamado! Vejo que preza manter sua cabeça sobre os ombros! – E deu um trago em seu “Parliament” importado dos EUA.

– Por que me chamaste. Majestade? – Indagou Saidessa Vida, limpando o suor com um lenço de seda finíssima, importado de Hong Kong.

Os jornais do reino andaram noticiando que mais de cem autoridades governamentais estão depositando dinheiro em bancos SUÍÇOS! – Explicou a Rainha, comendo um queijo dessa mesma nacionalidade.

– Jóia! – replicou o ministro – Pode me pôr nessa boca, Majestade!

– Estúpido! – berrou a Rainha, dando-lhe um catiripapo nas orelhas – Não é nada disso! Quero que você desminta essa notícia e ainda ameace os jornais com uma nova lei de responsabilidade.

– M-mas, Majestade – redarguiu o ministro – nós já temos uma lei de imprensa, uma lei de segurança nacional, uma lei de censura… pra que mais?

– Cretino! – urrou a Rainha, atirando-lhe um rico prato de ouro na cara – Fique sabendo que lei nunca é demais!

E continuou degustando o queijo suíço, enquanto bebia champanhe francesa.

– É isso daí! – complementou Lambary, o chefe da Casa Civil da Rainha, que curiosamente era um militar – Nem sempre os donos de jornais concordam com o que é publicado nos mesmos! – E tomou um gole de vinho Chatô de Nunseiquê, recentemente importado de Paris.

Enquanto isso, o ministro da Falta de Trabalho virava uma cartola cheia de vinho branco (alemão, é claro) na cabeça, ao passo que o ministro de Falta de Planejamento repartia o bolo (de cerejas e nozes) e depois o comia sozinho.

– M-mas afinal Majestade… – disse, trêmulo, o ministro da Falta de Comunicação – o que devo dizer ao povo?

– Ora – respondeu a Rainha de Copas, enquanto degustava deliciosos bombons recém-chegados da Inglaterra – diga ao povo que isso de ter contas em bancos estrangeiros é uma calúnia!

E, complementando, enquanto deglutia legítimos marrons glacês, a Rainha saiu-se com esta: Este é um país pobre!

– Arroste! – Arrotou o chefe da Casa Civil.

29/05/1980 – Cantinho do Sucesso

Quem não conhece “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque de Hollanda? O povo vive cantando essa música, só que numa versão um pouco diferente:

“De tudo que é nego torto,
Do mangue e do cais do porto,
Ele já foi aliado;
É amigo dos tratantes,
Dos falsos, dos meliantes,
Dos que muito têm roubado…
É assim desde menino,
Já roubava em pequenino,
E escondia no mato.
Ele nunca foi detento,
Escapou, o lazarento,
Até mesmo do internato.
Hoje rouba, amiúde,
As velhinhas sem saúde
E as mestras sem porvir…
Ele é um poço de vaidade,
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
Joga pedra no Salim,
Joga b* no Salim,
Ele só sabe roubar,
Ele vai nos destruir,
Ele rouba qualquer um…
Maldito Salim!”

OS: Não viso a nenhum Salim em particular. Quem achar que a carapuça lhe serve…

31/05/1980 – O Chapeleiro Louco endoidou!

Eram exatamente cinco da tarde no relógio do Chapeleiro Louco(l), ministro da Falta de Trabalho do País das Maravilhas. Foi então que a Lebre Maluca, chefe da Casa Civil da Rainha de Copas se aprochegou(2) e disse:

– Os ferreiros reais estão em greve! Cansaram de malhar em ferro frio! O líder deles, o Polvo, já foi afastado, preso e enquadrado na LSPM(3)!

– Estou sabendo! – redarguiu o Chapeleiro – Aceita não tomar chá?

– Você não deveria dizer: “não aceita tomar chá”? – Indagou a Lebre.

– Acontece que isto não é chá, é uísque, – respondeu o Chapeleiro – e não estou tomando, porque o médico me mandou só beber antes das cinco, ou depois, o que não faz diferença alguma!(4).

– O Polvo já está solto! – gritou o Rato do Campo, ministro da Falta de Justiça, que dormitava(5) dentro do bule cheio de uísque… – Hic! – arrematou – E vai voltar à presidência do sindicato!

– Não, enquanto eu for ministro da Falta de Trabalho! – berrou o Chapeleiro – O Polvo está completamente impedido! Impedido!

– Mas como, se ele não é jogador de futebol? – Argumentou a Lebre Maluca, inutilmente, pois ninguém lhe deu atenção…

– Ele não poderá se candidatar nem mesmo para o próximo mandato! – Urrou o Chapeleiro – O Polvo não será mais nada na área sindical!

– Hic! Eu não sabia que você era profeta! – disse o Rato do Campo, pondo a cabeça para fora do bule, mais uma vez, ato de que se arrependeu em seguida, pois levou um catiripapo no quengo.

– Ele não poderá recorrer â Justiça para voltar à presidência do sindicato? – Indagou a Lebre Maluca, virando uma terrina cheia de geléia na cabeça.

– Ele pode fazer o que quiser, mas enquanto eu for ministro, ele não volta! – Vociferou o Chapeleiro Louco, derramando uma cartola cheia de champanhe na goela.(6)

– Ora, você está louco! – Sentenciou a Lebre Maluca, comendo pastéis de vento e bebendo água com sabão.

– Bah, somos todos loucos!(7) Hic! – Declarou o Rato do Campo, ousando sair do bule, uma vez mais.

– Cortem-lhe a cabeça! – Berrou a Rainha de Copas, que chegava à mesa do “chá doido” naquele momento…

Como ninguém sabia á qual cabeça ela se referia, todos os ministros saíram correndo, apavorados, pois muitas cabeças já haviam rolado naquele ministério. Comendo e bebendo sozinha tudo que havia na mesa, a Rainha de Copas sorriu e, de barriga cheia, sentenciou:

– Quem confere ferro, conferido será ferrado!(8)

 

(1) – E daí, se o relógio dele está sempre parado?

(2) -Ai!

(3) – Lei de Segurança do País das Maravilhas, é claro.

(4) – São sempre cinco da tarde no País das Maravilhas.

(5) – Dormitava, já não mais dorme, posto que acordou.

(6) – De quem?

(7) – Inclusive eu, que penso ter sido Lewis Carrol na outra encarnação.

(8) – Ou qualquer coisa semelhante, bolas. Afinal, ela bebeu tudo, não?

 

Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Abril de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/04/1980 – 1° de Abril

Na republiqueta latino americana de La Bananera tudo era paz… “El Presidente” dormitava placidamente numa rede, em sua residência de verão (é sempre verão em La Bananera), depois de cumpridas “las obrigaciones del dia”, ou seja, meia dúzia de discursos demagógicos nos sindicatos operários, uma manifestação em “plaza pública” pela legalização do “Partido Comunista Bananero” e “outras cositas más”…

Enquanto isso, as “plantaciones” de banana de “la hacienda del señor presidente” produziam milhões de cachos para “las exportaciones”, uma produção que supria todas as necessidades do país, visto que “la hacienda” ocupava todo o território nacional.

Foi então que se ouviu um estrondo! “El señor presidente” ergueu-se da rede, de um salto, exclamando: – “Carajo! Quien és el idiota que está a soltar hoguetes, en la hora de la siesta?!” – Mas não eram foguetes e sim disparos de canhão de tanques militares…

Tendo levado a sério os discursos “d’el señor presidente”, “algunos oficiales” de “La Guardia Nacional de La Bananera”, tomaram um porre e resolveram pregar-lhe um susto, dando uns tiros para o ar. Foi o suficiente para “el gran presidente” sair correndo de sua residência de verão (é sempre verão em La Bananera), gritando: – “Jo renuncio! Jo renuncio!”

“El señor presidente” saiu “volando” para o aeroporto, pegou o primeiro avião que encontrou e gritou: – “Toca pra Cuba!” – e o piloto, que nem conhecia “el señor presidente”, pensou que era um sequestro e tocou.

Foi então que “los oficiales” de “La Guardia Nacional” assumiram o poder em “La Bananera”, decretando “el estado de sítio”, o que não foi nenhuma mudança no esquema de vida de “los bananeros”, já que todos viviam en el “estado de hacienda”.

“Los oficiales” prometeram moralizar “la republiqueta”, acabar com a corrupção, banir para sempre “el comunismo internacional”, deter “la inflación galopante”, melhorar o nível de vida de “los labregos”, ou seja camponeses, e de “los trabajadores en general” (general, em espanhol, quer dizer geral, tá?)…

“Muchos y muchos” anos depois, “el señor presidente de planton”, um oficial que havia sucedido a outro oficial, que tinha sucedido a um outro oficial e assim por diante, tomou do microfone de “La Rádio Nacional Bananera”, no aniversário de “La Revolución” e declarou: – “Presados cidadanos de La República Federativa Bananera… jo quiero decir a todos que tiene ocorrido um pequenito engafio, en todos estes años… (aham!) – pigarrou e conclui – “Preciso decir a ustedes que todo non se passo de un grande 1° de Abril! Quiá, quiá, quiá. quiá!”

02/04/1980 – Vocês Sabin disso?

Albert Sabin, prêmio Nobel de medicina, descobridor da vacina contra a poliomielite (paralisia infantil) abandonou o trabalho que vinha fazendo, em cooperação com o governo brasileiro, de erradicação dessa terrível moléstia no nosso País.

E sabem por quê? Segundo carta que ele próprio enviou ao general Figueiredo, ele afirma que “problemas burocráticos, de diversas naturezas, impediram que esse trabalho fosse convenientemente desenvolvido. Devo ressaltar a V.Exa. que esta mesma burocracia determinou fracassos no combate à poliomielite, no passado e, no presente, tenho fortes razões para duvidar do sucesso das próximas iniciativas”.

Vocês sabem a que “burocracia” ele se refere? O negócio é o seguinte: o ministro da Saúde, Waldyr Arcoverde, está criando barreiras para a revelação do verdadeiro número de crianças atingidas pela moléstia em nossa terra. Por outro lado, é igualmente “tabu” a revelação do número de crianças (e adultos) atingidas pela doença quando ela estava no auge, durante o governo Médici, de triste memória.

Os deputados Israel Dias Novaes (PMDB-SP) e Carlos Santana (PP-BA) denunciaram na Câmara Federal a falência do Ministério da Saúde e a incompetência do ministro Waldyr Arcoverde na condução do assunto, que, segundo eles, só poderia mesmo levar Albert Sabin a desistir de colaborar com as autoridades brasileiras na erradicação da poliomielite.

Novaes observou que o episódio, envolvendo um técnico de renome mundial e o governo brasileiro, “nada mais é que o reflexo de uma época (no caso, o governo Médici) em que nem a Saúde escapou da mistificação, pra que não fosse revelado ao mundo a enormidade da impostura do milagre brasileiro”.

Santana, por sua vez, afirmou que “o Ministério da Saúde deveria fechar para balanço, pois hoje não passa de um apêndice da Previdência Social, com os melhores médicos e sanitaristas marginalizados, e sem que exista ao menos, uma política nacional de saúde e o correto emprego da medicina preventiva”.

Ele lamentou também que “quando Sabin tenta corrigir esta situação no setor da poliomielite, atuando em favor da infância brasileira, a insensibilidade de um ministro de Estado e de seus burocratas põe tudo a perder”.

03/04/1980 – PLANTE, QUE O JOÃO GARANTE!

Quando o João (como prefere ser chamado o general Figueiredo) assumiu as rédeas do País (desculpem o tordilho, digo, o trocadilho), ele prometeu dar ênfase à agricultura, para estimular o plantio de gêneros alimentícios.

“Plante, que o João garante!” – berrava o Dr. Sardinha, caricatura mal-feita do Dr. Delfim, interpretada por Jo Soares no “Planeta dos Homens”. Ninguém me tira da cabeça que quem faz os textos desse programa, pseudo-crítico e bajulatório, é o pessoal da SECOM…

E os coitados dos agricultores acreditaram na campanha e plantaram pra burro, dando especial ênfase ao cultivo de soja. Enfim, era a política implantada pelo Dr. Delfim, então ministro da Agricultura, pra “encher-a panela do povo”.

Agora, os agricultores da região centro-sul do País saem às ruas, com seus tratores, protestando contra os preços aviltantes oferecidos para seus produtos, resultado do plantio garantido do governo.

Já o povo, que desejava fazer a passeata da “panela vazia”, foi proibido de fazê-la pela polícia do Rio Grande do Sul. Neste País, produtor pode protestar e consumidor não pode…

O Dr. Delfim já não é mais ministro da Agricultura, agora ele tudo vê e tudo planeja. Já não pretende mais encher a panela do povo e só conseguiu encher o saco de todo mundo, com a maxi-desvalorização do Cruzeiro e outras medidinhas tais. E os agricultores, que acreditaram nele, estão também de saco cheio, enquanto que o povo, que está de panela vazia, não pode nem protestar.

Isso me faz lembrar uma velha marchinha de carnaval, dos tempos do Getúlio, que dizia assim:

“O Brasil tem muito doutor, muito funcionário, muita professora; se eu fosse o Getúlio, eu mandava metade dessa gente pra lavoura! Mandava muita loura ir plantar cenoura, e muito bonitão plantar feijão… E essa turma da mamata, eu mandava plantar batata!”

04/04/1980 – VALE TUDO!

Galveas, não o imperador do Acre e sim o ministro da Fazenda, cargo onde foi colocado pelo Sr. Delfim Neto, que tudo vê e tudo planeja, é o novo ministro “Skylab” do governo… Todos sabem que ele vai cair; só não se sabe quando.

O caso da venda das ações da Cia. Vale do Rio Doce, companhia estatal, despertou uma onda de revolta contra o ministro, em todo o País. Até a semana passada, 40 deputados estaduais, de todos os partidos (até do PDS, vulgo “Arenão”!) já tinham subscrito moção pedindo o afastamento de Emane Gáveas de seu cargo.

Francisco Dias, do PMDB, lembrou que o Sr. Galveas é um dos chamados “Delfin’s boys” e, recordando o chamado “Relatório Saraiva”, que acusou o ex-embaixador em Paris e diversos assessores seus de receberem subornos, afirmou: – “Não é só Galveas, mas também o senhor Delfim Neto não deveria estar mais no País. Há ainda o ministro das Minas e Energia, César Cals, alvo de várias acusações até hoje não esclarecidas”.

O caso da Vale, pra quem não sabe, é um escândalo no mercado de ações. O ministro Galveas determinou a venda súbita de um imenso bloco de papéis daquela empresa, provocando alarme e pânico entre os investidores e comprometendo a imagem desse tipo de investimento.

Geraldo Menezes, do PDS, disse que o governo deveria demitir logo o ministro Galveas, “que nos vendeu para uma corretora do Rio de Janeiro e não tem jeito de explicar. Foi uma negociata suja, pútrida, fétida, inexplicável. Sou do governo, mas não sou avalista de quem fere o Erário!”

Alberto Goldman (PMDB) liderou a moção contra o ministro, pedindo o seu imediato afastamento – “O Ministro da Fazenda – afirmou ele – cometeu crime de responsabilidade contra a guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos, ao negligenciar o patrimônio da União, quando da desastrada, ilegal e criminosa venda de ações da Vale do Rio Doce”.

Pois é, ou o governo toma providências no caso da Vale, ou a briga vai se transformar num autêntico VALE TUDO!

07/04/1980 – César Caos no País das Maravilhas

Era uma vez um menino chamado César Caos que, certo dia, quando dormitava (gostaram?) placidamente na relva verdinha de um jardim público de Quixaramobin da Serra, acordou ouvindo uma vozinha que dizia: – Como é tarde! É tarde, é tarde, é tarde!

Menino, nem te conto! Era um coelho branco, gordinho, rechonchudo e vestido com uma roupa engraçada, que corria na direção do oco de uma árvore oca (é claro)… César Caos correu atrás do coelho branco e tentou apanhá-lo (para comer, naturalmente, pois em Quixaramobin da Serra os meninos vivem morrendo de fome) e, para sua surpresa, caiu num buraco escuro.

César Caos foi caindo bem devagarzinho (dizem que, em matéria de cair devagar, ele é mestre até hoje), até chegar a uma sala onde havia uma portinha, tão pequena que não dava para ele passar por ela. Com certeza o coelho branco fugiu por ali! – pensou ele. Foi quando viu uma mesinha, onde havia um vidro cheio de um líquido estranho, escrito “beba-me” e um prato com doces esquisitos escrito “coma-me”…

Como estava morrendo de fome, César Caos comeu um doce mais que depressa e, para seu espanto, diminuiu de tamanho! Agora dava para ele passar pela porta, mas só então ele percebeu que a chave estava sobre a mesinha. Aí ele escalou a mesa, trabalho que lhe deu uma sede danada. E então – Vupt! – mandou o conteúdo do vidro pra goela. Para novo espanto, cresceu muito! Pra compensar, ele comeu mais um doce e diminuiu, bebeu mais um gole de líquido e cresceu, uma bagunça! Só sei que no fim ele conseguiu passar pela porta e ficou do tamanho normal, só que com as orelhas enormes…

E foi então que ele se viu no “País das Maravilhas”, governado pela Rainha de Copas, uma mulher meio esquisita, muito nervosa, que vivia dando sopapos em estudantes, coisinhas assim. A Rainha de Copas gostou muito do César Caos e lhe deu, para morar, uma casa que mais parecia um palácio! Menino, só para empregados domésticos, havia uma verba anual de 1 milhão, 425 mil e lá vai pedrada de pilas! (ah, sim… “pila” é o dinheiro do País das Maravilhas) – Uma coisa horrorosa!

César Caos ficou muito feliz e foi morar na casa, vizinha à do coelho branco e de muitos outros bichos, inclusive a Lebre Maluca e o Chapeleiro Doido, todos ministros da Rainha de Copas. César Caos também desejou ser um ministro, no que foi prontamente atendido pela rainha…

O fim dá história eu não sei bem, só sei que eles todos ficavam sentados em volta de uma mesa, tomando chá e dizendo baboseiras sem fim. A maior de todas foi a Rainha de Copas quem disse, pois, em meio àquela mordomia e àquele luxo, ela declarou: Este é um país pobre! Paaalmas para a Rainha de Copas, que ela merece!

08/04/1980 – O Dia em que o Maluf Comprou o Papa

“Só se São Paulo virou o Estado do absurdo!” – Assim se manifestou o cardeal dom Ivo Lorscheiter, com irritação, ao saber da existência de um inacreditável contrato comercial, assinado sigilosamente há três semanas e só recentemente divulgado, que dá exclusividade de transmissão e cobertura jornalística da visita do papa João Paulo II a Aparecida do Norte.

Ao dizer que a CNBB não admitirá qualquer tipo de contrato de exclusividade com empresas de comunicações, para a cobertura da vinda do papa ao Brasil, dom Ivo (que é presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), acrescentou que será extremamente negativa a utilização da visita de João Paulo II para fins políticos.

Dom Ivo lembrou ainda que a Rede Capital, beneficiária do contrato de exclusividade concedido pelos padres de Aparecida do Norte, pertence a um amigo do governador Maluf. “Não queremos – disse dom Ivo – que esta visita seja aproveitada para fins políticos, e deixamos claro, para aqueles que pretendem tirar proveito da situação, que o nosso grupo de coroinhas já está completo!”

A Rede Capital pertence a um certo Sr. Edevaldo Alves da Silva, até há pouco tempo um ilustre desconhecido, que agora anda por Paris com a sua digníssima cara-metade. Em 1977, o Sr. Edevaldo comprou a Rádio Novo Mundo, uma emissora inexpressiva. Em menos de três anos, o Sr. Edevaldo já integrou à sua rede mais seis estações de rádio AM e duas FM, além de contar com licença para instalar emissoras em diversas capitais do País.

Edevaldo não está sozinho, pois é íntimo amigo do Sr. Maluf, que, por acaso, é governador indireto de São Paulo. Maluf é cliente dele, pois Edevaldo é também advogado nas horas vagas, tendo defendido o governador das acusações que pesavam contra ele no escândalo Maluf-Lutfalia. Muita gente boa, ligada ao setor de comunicações, tem a mais absoluta certeza de que a Rede Capital pertence, na realidade, a Maluf; sendo o Sr. Edevaldo um mero “testa-de-ferro”.

Se nada for feito de concreto para impedir essa pouca vergonha que é o contrato exclusivo entre os pobres de Aparecida e a Rede Capital, logo, logo o Sr. Maluf acabará comprando até o papa, que fará uma espantosa declaração, quando da sua visita, apoiando o PDS. Não se espantem, pois São Paulo já é o Estado do absurdo…

09/04/1980 – Uma Greve Surrealista

O ministro do Trabalho, Murilo Macedo, classificou a greve dos metalúrgicos, que paralisa milhares deles (300 mil só no Estado de São Paulo), de surrealista!

O Sr. Macedo declarou-se “perplexo” com as lideranças sindicais, por não terem chegado a um acordo, quando a diferença entre a proposta da Fiesp e a última reivindicação dos trabalhadores era pequena.

E ainda acrescentou: – “Essa greve não me parecia com finalidade reivindicatória. Se fosse, ontem mesmo (segunda-feira da semana passada), eles teriam chegado a um acordo, pois a diferença era de apenas 0.88%!”

E mais: – “Me parece uma aventura cara demais. Será necessário novo carne para pagar os dias parados, numa hora em que as diferenças são tão pequenas? Não faz o menor sentido”.

Para mim, faz muito sentido. Ainda há poucos dias, quando da greve dos portuários de Santos (ver “Tão Cedo, Macedo?” – 22/3/80), eu afirmava que o Decreto-Lei n° 1.632, de 4/11/78, que proíbe greves nos setores considerados de Segurança Nacional, ou que sejam de atividades essenciais, poderia ser ampliado de forma a atingir todas as atividades nacionais. Afinal, o que é que pode ser definido como “atividade essencial?” Ora, tudo! Qual é a atividade que não é essencial ao País?

A fala do “perplexo” Sr. Macedo, na minha modesta opinião, visa tão somente alegar que a greve dos metalúrgicos não é reivindicatória e sim de natureza política, para depois declará-la ilegal.

Uma vez declarada ilegal, a greve terá que terminar, nem que seja a custa de borrachadas, tiros e bombas de gás, de parte da Polícia Militar e de “demissões por justa causa” de parte dos empregadores, quase todos eles representantes de empresas multinacionais que assolam o país.

Sabe, Sr. Macedo, eu não acho que só essa greve é que é surrealista. Acho que temos também um ministro surrealista, num governo surrealista e num país surrealista. Como disse o imortal Charles De Gaulle, referindo-se ao Brasil: – N’est pas un paix serieux!

Sim, não somos um país sério… Somos um País surrealista!

11/04/1980 – Ex-índio, ex-vivo!

O novo presidente da FUNAI, coronel João Carlos Nobre da Veiga, “tem um curriculum pavoroso: dedicou grande parte de sua vida aos serviços de informação na área oficial, militar e das multinacionais”.

Essa afirmativa é do jornal mensal Porantim editado em Manaus (AM), que faz graves acusações à FUNAI e a seu novo dirigente, defendendo os índios brasileiros (ou o que resta deles). Ainda segundo o jornal, o coronel recebeu, de braços abertos, os cumprimentos de declarados inimigos dos povos indígenas, “aqueles que se apressam em fornecer certidões negativas, os que autorizam prospecções e exploração de minérios, os que permitem a construção de barragens – tudo em área indígena”.

O fato é que o Cel. Veiga deseja efetuar a integração definitiva dos índios brasileiros, obrigando-os até a usar carteira de identidade, o que os tornaria cidadãos comuns e faria com que perdessem a condição de índios. Acredito que o coronel seja bem intencionado, em verdade, querendo apenas integrar o indígena à nossa cultura e civilização, para melhor protegê-lo…

Mas, na minha opinião, isso é um erro. O índio, passando à categoria de cidadão comum, numa sociedade para a qual não está preparado, numa cultura que lhe é estranha, num sistema de capitalismo selvagem do tipo que, infelizmente, assola o nosso País, é um elemento fadado à extinção!

Como índio, ele hão pode ser preso nem processado, pois, pela lei atual, é considerado como um “menor de idade”. Como índio, ele deve ter direito de viver nas terras onde nasceu e se criou, nu, em contato íntimo com a natureza e com suas crenças, com seus deuses que se assemelham aos orixás africanos.

Aculturar o índio é um erro, tentar integrá-lo, à força, na nossa sociedade é um crime! Passando da condição de índio, guerreiro altivo, à condição de mísero caboclo devidamente identificado, o índio será um ex-índio… E, em pouco tempo, também, um ex-vivo.

12/04/1980 – Mulheres de Todo o Mundo, Uni-vos!

Muita gente não entendeu minha matéria do dia 31/03/80, sob o título “Aborto, sim ou não?”, onde eu não me definia nem contra nem a favor do aborto. Talvez porque, na ocasião, fiz apenas uma abordagem política sobre o assunto, considerando a polêmica a respeito do aborto como mera fórmula para distrair a opinião pública dos seus verdadeiros problemas.

Para quem quer saber, eu sou a favor do aborto, se bem que isto é apenas uma opinião pessoal. Como homem, jamais vou conceber e jamais terei a oportunidade de decidir entre o aborto e o nascimento duma criança.

Acredito, como democrata convicto, que toda mulher que desejar abortar, antes do 3º mês de gravidez, deverá ter o direito de fazê-lo. Com lei ou sem lei, o aborto existe e é praticado em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Sou um espiritualista, mas creio que, acima de divagações sobre os direitos de um hipotético ser humano, que ainda não nasceu, estão os direitos da mulher que já nasceu, cresceu e reproduziu. Ter ou não ter filhos deve ser uma decisão de cada mulher, dependendo das circunstâncias, do condicionamento social, das possibilidades econômicas de criar filhos e de inúmeros outros problemas, que podem envolver a família, a mãe-solteira, a mentalidade retrógrada de certos pais e mães, questões de saúde e tantas outras coisas, que não vem ao caso discutir.

Todavia, após esta definição, volto a ser a favor de outros direitos da mulher, que não devem ser relegados ao esquecimento pelo problema do aborto ser ou não legal em nosso País…

Refiro-me à condição da mulher brasileira, que dificilmente consegue empregos sem levar “cantadas”, que sofre todo tipo de discriminação no serviço, que é despedida ao engravidar ou ao se casar, que recebe salários inferiores ao do homem (que já costumam ser baixíssimos), que é despedida se não quiser ir para a cama com o chefe ou com o patrão e que, depois de marginalizada e vilipendiada, é chamada de puta pela sociedade.

A questão do aborto não é essencial. Essencial, sim, é todas as mulheres do mundo se unirem para lutar pelos seus direitos e conseguirem um lugar ao sol, no mesmo nível dos homens. Creches e escolas para seus filhos gerados são problemas maiores do que a legalização do aborto.

Mulheres de todo o mundo, uni-vos!

14/04/1980 – Filmes da Semana

Depois da Semana Santa, quando a programação dos cinemas costuma ser meio fraca, temos um excelente filme em cartaz, ao lado de outros muito ruins. Para alegria dos leitores cinemaníacos, anotamos os seguintes:

COMO ERA DOCE O MEU VALE – Com E. Galveas e grande elenco.

O filme tem muita ação (muita mesmo), mas o público sai do cinema decepcionado, sentindo que esvaziaram o seu bolso (ou sua bolsa). Cotação: baixíssima.

O MEDICO E O MONSTRO – Com A. Sabin (no papel de médico) e W. Arco-verde (no outro papel). O médico deseja curar milhões de crianças de uma terrível moléstia, mas o monstro não permite, atrapalhando o seu trabalho. Cotação: abaixo da crítica.

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM – Com L. Inácio, o “Lula” e 300 mil coadjuvantes. As máquinas param no duro, apesar dos esforços de M. Macedo (que faz o papel de um ministro), de P. Maluf (que faz de governador) e de milhares de atores que fingem de policiais. Cotação: ótimo para o povo.

O CRUZEIRO FURADO – Bangue bangue nacional, cópia mal-feita do “Dólar Furado”. Com D. Neto no papel principal, lutando para que o Cruzeiro fique cada vez mais furado e desvalorizado. D. Neto é auxiliado por E. Galveas, que trabalha muito mal. Cotação: 0,45 centavos de dólar… E baixando.

ALICE NO PAÍS DAS MORDOMIAS – Com C. Cals no papel de Alice. As mordomias são tantas, que a Alice tem mais de cem empregados e gasta uma verba superior a Cr$ 1.425.427,00 só com o pagamento deles. Alice precisa de vinte serviçais só para lhe servir chá e mais de cinquenta só para lhe limpar as orelhas. Cotação: péssimo para o País.

O PREÇO DA AMBIÇÃO – Com P. Maluf no papel de um homem poderoso, que compra todo mundo. Ele sabe que cada um tem seu preço, mas desconhece o desfecho que terá sua ambição desmedida. O filme atinge o auge quando P. Maluf tenta comprar até o papa! Cotação: caríssima para o erário público.

A VOLTA DE DRACULA – Com L. Péricles no papel do vampiro que quer sair de seu sarcófago para voltar a sugar o sangue do povo, como fez há alguns anos atrás. Mas ele sugou tanto da outra vez, que parece que não vai conseguir sair da tumba. Cotação: esperamos que fique por lá.

15/04/1980 – Democracia à Paraguaia

Em recente visita ao Paraguai, país vizinho e amigo, o general Figueiredo entregou a seu colega, o general Stroessner, “presidente vitalício e perpétuo” daquela nação, vários objetos pertencentes ao marechal Solano Lopez e sua família, capturados quando da derrota deste, no final da trágica “Guerra do Paraguai”, no século passado. Emocionado, o general Stroessner chorou…

Curioso, as prisões paraguaias estão cheias de prisioneiros políticos, e o general não se emociona com isso; milhares de paraguaios estão “desaparecidos”, desde que Stroessner tomou o poder (e isso faz tempo paca), eufemismo que designa pessoas assassinadas por motivos políticos, quer seja sob torturas terríveis, quer por fuzilamento puro e simples… E o general Stroessner não chora por isso.

O Paraguai tem eleições de tempos em tempos e o general Stroessner, candidato único, é sempre eleito (ó surpresa!) e re eleito para dirigir os piais altos destinos da nação. É estranho que tenha se emocionado e chorado por receber uma espada e outros pertences, pois ele é tido como o mais duro e mais insensível ditador latino-americano, tão cruel como Videla, da Argentina, Pinnochet do Chile, Aparício Mendez, do Uruguai e outros coleguinhas que dirigem o “Cone Sul’ da América.

“Paz, trabajo, bienestar: STROESSNER”, apregoam dezenas de anúncios pisca-pisca, no centro de Assunção, capital daquele país. No poder desde 1954, o choroso ditador dirige uma nação muito pobre, onde a imensa maioria da população é de miseráveis e analfabetos absolutos. Os paraguaios não são mais de 3 milhões, mas há cerca de 1 milhão deles vivendo no exílio, principalmente na Argentina e no Brasil.

Nos cárceres políticos, não há nenhuma preocupação com formalidades; só na prisão de La Emboscada (nome bem sugestivo, não), havia 175 prisioneiros políticos, sendo que 98 deles não tinham, contra si, qualquer tipo de processo (dados de 1977). As funções de perseguição e prisão de dissidentes são cumpridas por uma complexa rede de informações, dividida em, pelo menos, quatro ramos. De cada três paraguaios, um é pyragiie (dedo-duro)…

O contrabando é uma atividade normal no país, além da produção e tráfico de entorpecentes. Os carros roubados no Brasil são levados para o Paraguai e lá vendidos a membros das forças armadas. Mas, o general Figueiredo, quando em visita ao Paraguai, afirmou que lá existe democracia plena! Isso dá até um arrepio na espinha… Será que ele não entende nada de democracia?!

16/04/1980 – As casinhas do Vovô

Neste País acontece cada uma… O deputado Domingos Leonelli (pMDB-BA) classificou, dia 10, em Salvador, de “escandaloso favorecimento” e de “fato que já configura uma negociata” a decisão do ministro do Interior, Mário Andreazza, de adquirir 800 casas pré fabricadas de uma empresa gaúcha. Isso tudo só porque a empresa em questão foi fundada peio avó do ministro e pertence à sua família até hoje… E a compra foi efetuada sem concorrência pública.

Exageros do parlamentar, visto que o ministro nega que a firma ainda pertença à sua família (e o ministro é um homem honrado!). O diretor-presidente da firma. Cia. Industrial Madeireira, Luiz Jair de Zorzi, confirmou a compra e a inexistência da concorrência, mas negou-se a admitir qualquer ligação entre a firma e o ministro. Ela foi apenas fundada pelo avô dele, é tudo mera coincidência, é claro…

Quanto à falta de concorrência publica, o Sr, Zorzi afirmou que “há um decreto que permite tal procedimento”. Estão vendo só? O ministro apoiou-se em um ponto de vista perfeitamente legal. O fato de ninguém saber que decreto é esse (nem o ministro), não tem nenhuma importância. Nada prova que o ilustre e digníssimo construtor da Transamazônica e da Ponte Rio-Niterói, tenha comprado as casinhas do vovô…

Aliás, por falar na ponte e na famosa estrada, dizem as más línguas que o ministro usou muitas vezes desse tal decreto, naquela ocasião, durante o governo Médici, comprando materiais produzidos não pelo vovô, mas sim pela vovó, pelo titio, pelo priminho, etc. Mas, e claro que isso não passa de maledicências. Essa turma tem uma língua preta só!

E verdade que a Assembléia Legislativa da Bahia condenou a aplicação de recursos, da ordem de Cr$ 80 milhões na aquisição das casas pré-fabricadas, sem aplicar um só tostão na região de Bom Jesus da Lapa, onde as casas serão construídas, para abrigar vitimas das recentes inundações… É verdade, também, que o ministro autorizou a compra, pagando o preço de Cr$ 4 mil o metro quadrado, quando o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Bahia já desenvolveu técnica de construção de casa popular ao custo de apenas Cr$ 2 mil o metro quadrado…

Que que é isso, gente! Pegando no pé do Andreazza só porque ele gastou o dobro do que deveria, comprando sem concorrência as casinhas que (dizem as más línguas) são do vovô! Bobagem… O ministro só quer abrigar as vítimas das enchentes! Ele provará que tudo não passa de um MAR DE LAMA!

18/04/1980 – As bodas de prata de Mustafá-Al-Salim

Era uma vez, no país das mil e uma noites, um riquíssimo Xeque chamado Mustafá-Al-Salim, que completou 20 anos de casado. Para comemorar, ele mandou fazer a maior festa já vista, convidando amigos e parentes, xeques e califas, rajás e marajás de todos os cantos do país.

Engraçado que ele mandou fazer convites aos milhões, usando a imprensa oficial do estado que ele chefiava. A festa magnífica, igualmente, foi feita com o dinheiro do erário público e no palácio de jade e cristal que também pertencia ao povo e não ao xeque. Mas, isso são apenas detalhes…

Ele aproveitou o ensejo para convidar a todos os presentes, para ingressarem no seu partido político, o Partido Do Salim. Como muitos estavam vacilando, o xeque Mustafa-Ai-Salim não teve dúvidas: presenteou aos indecisos com as mais raras opalas. com os rubis mais finos, com os diamantes mais brilhantes, com as esmeraldas mais ricas, como se atirasse pérolas aos porcos, tudo isso tirado também do erário publico, é evidente, mas não vem ao caso.

E assim, muitos dos que pertenciam a outros partidos se passaram para o Partido Do Salim, batendo palmas e gritando vivas ao magnífico xeque. Para mostrar o quanto era generoso, ele mandou, então, servir o banquete mais lauto que o pais já tinha visto, em suas mil e uma noites… Faisões e cabritos, frutas de todas as espécies, codornas à omental, tâmaras e pêssegos do deserto, peixes e camarões, comes e bebes dos mais requintados. As bebidas eram todas importadas, desde os mais finos Whiskys até as mais deliciosas champanhes… Tudo era pouco pura agradar aos marajás!

Quando alguém lembrou a Salim que Maomé dissera: – “Uma gota de vinho não beberás!”, o astucioso xeque não teve dúvidas… Jogou uma gota de vinho fora e bebeu o resto. Assim, resolveu dois problemas de uma só vez, o da gota de vinho e o do “gole pro santo”. Como se vê, Mustafa-Al-Salim não era um maometano dos mais ortodoxos.

Mas, parece que o espírito do Profeta não gostou da brincadeira. Quando ia se curvar para beijar a mão dum marajá, Mustafa-Al-Salim levou um tremendo escorregão e caiu sobre uma rica taça de cristal, cortando a bun… Digo, a região glútea.

O povo, que tinha ficado do lado de fora do palácio, morrendo de fome e se babando de ver a festança, não perdoou e caiu na gargalhada!

MORAL DA HISTÓRIA: quem se abaixa aos poderosos mostra a região glútea ao povo.

19/04/1980 – A Falência de uma Campanha

“Plante que João garante!” – gritava um personagem inspirado então no ministro da Agricultura, Delfim Neto, interpretado por Jô Soares na TV. E acrescentava: – “O milharal não está milharando? Vai ter que milharar! Eu não sou de capinar sentado!” – e outras coisinhas assim.

Um ano depois, já podemos avaliar os resultados da campanha do governo Figueiredo, também chamada de “ênfase à Agricultura”… A Apassem – Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Paraná, lançou um ultimato ao governo, no último dia 6: ou se estabelece um maior índice de financiamento de valor básico de custeio, ou os produtores irão paralisar a produção de sementes de trigo para a próxima safra, optando por girassol e soja. Exigem ainda, os produtores, que o Banco do Brasil retire as sementes estocadas das unidades de beneficiamento, para dar lugar à soja.

Já o empresário e diretor do Sindicato dos Produtores de Açúcar de Pernambuco, Gustavo Queirós, afirmou: – “Nós vamos dar um prazo para que o governo se conscientize de que não estamos brincando, que nossa situação é muito grave e que precisamos de uma solução definitiva para o problema da indústria açucareira”. Ele disse, ainda, que todos os usineiros estão unidos e cansados de tantas promessas, esperando que o Governo Federal resolva a questão até o dia 25. Eles pedem um aumento de 100% em seus produtos, a cana, o açúcar e o álcool, para poderem continuar produzindo.

No Rio Grande do Sul, a demissão dos ministros Delfim Neto (Planejamento) e Amaury Stabile (Agricultura) será solicitada pelos agricultores, “a bem da agropecuária brasileira”, conforme decisão tomada dia 6, na sede da Federação dos Trabalhadores na Agricultura. A partir de agora, anunciaram que lançarão uma campanha pela queda do atual modelo agrícola, que chamaram de “nocivo aos interesses nacionais”.

Já o deputado Joaquim Guerra – PDS (PE) – afirmou no mesmo dia, na tribuna da Câmara, que o ministro Delfim Neto, ao ser procurado pelo governador de Alagoas, acompanhado de vários deputados federais, pleiteando medidas em favor da indústria canavieira, respondeu: – “Não suporto pressões. Voltem e toquem fogo nos canaviais”…

Pois é, o milharal não está milharando, o trigal não está trigando, o canavial não está canaviando. É o fim do “milagre brasileiro”… o MILAGRAL não está MILAGRANDO!

21/04/1980 – Carta a Flávia Schilling

Ela é brasileira! Está de volta depois de 16 anos de exílio e 7 anos e meio de prisão nos cárceres uruguaios

Querida Flávia:

Espero que tenha feito boa viagem e que esteja gozando de boa saúde, junto dos seus entes queridos. Aqui na terra, como diria o poeta, “a gente vai levando…” Em primeiro lugar, eu queria lhe dar boas vindas, esperando, sinceramente, que sua estada aqui seja mais agradável que os anos que você passou no Uruguai.

Desculpe se o Brasil que você veio reencontrar ainda não é o ideal, desculpe se ainda não vivemos em plena democracia e em total estado de direito. Sabe, apesar de toda a luta desenvolvida durante esses 16 anos pelo povo brasileiro, ainda não chegamos á normalidade democrática tão sonhada.

Verdade que conseguimos extinguir o AI-5, de tão triste memória. Verdade que não há mais torturas por motivos políticos em nosso País, verdade que, cedendo a inúmeras pressões populares, os cárceres da repressão se esvaziaram. Verdade que houve uma anistia, embora incompleta e restrita, verdade que os direitos humanos já começam a ser respeitados e as classes populares já começam a reivindicar seus direitos, fazendo greves, apesar dos esforços contrários daqueles que vivem a soldo das multinacionais, e apesar da lei anti-greve, que declara todas as greves ilegais…

Sei que você vai estranhar o preço de tudo, o custo de vida, a pobreza do povo, o incrível aumento de tamanho das favelas e do número de favelados. Sei que você vai achar o nosso Brasil mais triste do que quando você o deixou, com apenas 11 anos de idade, mas, o que fazer?

Aqueles que promoveram os golpes militares de 1964 e de 1968 tiveram muitos anos para consertar o Brasil, conter a corrupção, acabar com a miséria e com a inflação e colocar o País no caminho do seu grande destino. Mas, sabe como é, parece que a coisa não saiu bem como foi prometido e, sei lá por que, a miséria aumentou, a inflação estourou, a corrupção comeu solta e o País desandou…

Mas, eu confio no esforço e na capacidade de luta do povo brasileiro; eu ainda acredito que chegaremos à democracia plena e à liberdade, sei que ainda votaremos a eleger o próximo presidente da República e que vamos conseguir, nós, o povo e não os governantes, conduzir o Brasil ao seu destino de grande Nação! Apesar de tudo, seja bem-vinda ao lar, Flávia!

Atenciosamente, Ivan Saidenberg

23/04/1980 – Abertura democrática

Peça em um ato, escrita e dirigida pelo Marquês de Sade e encenada pelos internos do Hospício de Charenton, em mil setecentos e lá vai pedrada.

(Abre-se o pano – os internos estão reunidos numa sala, de camisolão)

JOÃO – Hei de promover a abertura democrática! (Com ar solene)

COUTO – E se alguém for contra? (Cochichando na orelha de lá)

JOÃO – Eu prendo e arrebento! (Dando um soco na mesa)

COUTO – Eu sou a favor! Eu sou a favor! (Cochichando na orelha de cá)

ANTONIO – Vou plantar essa ideia! (Plantando bananeira)

AMAURY – Plante, que o João garante! (Subindo no lustre)

COUTO – Democracia tem cheiro de povo! (Cochichando na orelha de lá)

JOÃO – Prefiro o cheiro de cavalo! (Relinchando)

COUTO – Eu também! Eu também! (Cochichando na orelha de cá e dando coices)

ANTONIO – Antes, se faz necessário conter a inflação! (Pulando amarelinha)_

JOÃO – Tens algum plano a respeito? (Dando um soco num estudante de medicina)

ANTONIO – Ei-lo: contenhamos os salários dos trabalhadores! (Comendo peru)

PAULO – Bravo! Apoiado! E também dos professores! (Fantasiado de Ali Babá)

CÉSAR – Menos os dos criados particulares! Preciso de muitos! (Quase caindo)

JOÃO – Precisas de 50 só pra limpar-te as orelhas! (Rindo muito… de quê?)

IBRAHIM – Não há crise alguma! Terás o que quiseres! (Limpando o nariz)

JOÃO – E quanto à corrupção, o que faremos? (Galopando pelo palco)

PAULO – Há que incrementá-la! (Fantasiado de torre de petróleo)

ERNÂNI – Eu sou muito corrupto! Locupletei-me vendendo ações! (Rindo)

MÁRIO – Eu sou mais! Comprei casas de meu avô, com dinheiros públicos! (Equilibrando-se sobre uma grande ponte)

ANTONIO – Quando eu estive em Paris, recebi umas comissõezinhas por fora… (Comendo caviar e bebendo champanhe francesa)

COUTO – Aposto em ti! (Cochichando na orelha de lá)

CÉSAR – Eu ganho! Basta ver a mordomia de que disponho! (Limpando a orelha)

COUTO – Aposto em ti! (Cochichando no orelhão de cá)

ANTONIO – Promovi a maxi-desvalorização do dinheiro! (Comendo filé mignon)

COUTO – Já ganhaste! Já ganhaste! (Cochichando na orelha errada)

WALDIR – Eu tenho mais mordomias do que todos! (Vacinando todo mundo contra raiva) Sou acusado de corrupção até no exterior!

COUTO – Ai! (Levando vacina ao tentar cochichar na orelha de alguém)

PAULO – Bem, por falar em corrupção, (Fantasiado de odalisca) eu roubei…

JOÃO – Minha carteira! (Espumando de raiva) Bateram a minha carteira! (pano rápido)

26/04/1980 – 1984 já Chegou

“The Big Brother is watching you!” – Sim, irmãos, o Grande Irmão está de olho em vocês, como previa George Orwell, em seu genial livro denominado “1984”… Orwell previu que, nesse ano, haveria um local no mundo onde tudo seria dominado pelo Grande Irmão, ser que tudo via e que tudo sabia, e que falava ao povo por milhões de aparelhos de TV, instalados nas casas, nas ruas, nas praças, nos bares e clubes, em todos os lugares.

No país do Grande Irmão, o Ministério da Paz cuidava da guerra, o Ministério do Amor promovia o ódio e assim por diante. Até a vida particular dos cidadãos era controlada, toda e qualquer tentativa de insurreição contra a ordem instituída (mesmo que fosse uma simples opinião) era violentamente reprimida.

Curiosamente, hoje vemos, em um certo país, uma situação bem semelhante à prevista por George Orwell… É um local onde existe democracia, mas não existem eleições diretas para os principais postos executivos, tais como governadores estaduais e presidente da nação; existe um Ministério da Saúde, mas há milhões de doentes e, quando um eminente cientista estrangeiro tenta curar determinada moléstia, é barrado por todos os meios burocráticos possíveis…

Existe um Ministério da Educação, mas há milhões de analfabetos sem educação nenhuma; há o Ministério das Minas e Energia, mas as minas e a energia estão entregues às mãos de empresas estrangeiras; há o Ministério do Planejamento, mas tudo é feito de improviso, sem planejamento algum; existe o Ministério da Previdência Social, mas o que se vê é uma total imprevidência, com o povo morrendo em pé nas filas dos institutos…

Existe uma “Lei de Segurança Nacional”, que só promove a insegurança dos cidadãos que, por qualquer motivo (até mesmo uma opinião) podem ser enquadrados nela. Existe Liberdade de Imprensa, mas os jornais que criticam o governo são apreendidos; há o Ministério da Justiça, mas não existe justiça igual para todos: todas as greves são declaradas ilegais, nem que precise haver dois ou três julgamentos para tanto…

Os militares nacionalistas, que fazem declarações contra as empresas multinacionais que assolam o país, são demitidos de uma penada; diretores de sindicatos, eleitos pelos trabalhadores, são afastados por meio de intervenção federal e presos! E o Grande Irmão é conhecido, nesse país, como o Super Nacionalista Irmão, que tudo vê e tudo ouve…

Que país é este? Mistério… Ninguém sabe. O que se sabe é que George Orwell errou em suas previsões por apenas quatro anos: 1984 já chegou!

28/04/1980 – O Livro dos Porquês

Obedecendo às ordens do general Figueiredo, que mandou os jornalistas (esses caras que têm de fazer perguntas) a lerem “O Livro dos Porquês”, de uma antiga coleção juvenil, “Thesouro da Juventude”, li.

Eis o que encontrei no Volume IX, à página 2695:

“Os meninos governarão o mundo?

Os meninos de hoje serão os homens de amanhã. Toda a gente sabe que os homens e as mulheres, os reis e os mendigos, os nobres e os plebeus começam a sua vida neste mundo por ser creanças invalidas, mas invalidas do que nenhum outro ser vivo, embora muitas vezes nos esqueçamos completamente d’isto.

Os homens são mortaes sem excepção alguma, e o destino do mundo e seu governo em breve estarão nas mãos dos meninos de hoje. Os que actualmente dirigem o mundo eram meninos hontem e serão amanhã pó impalpável. Tal é a lei da vida. Quer isto dizer que a educação dos meninos é a obra mais pura, mais nobre e mais necessária do mundo; obra difficilima porque o ser humano é tudo quanto conhecemos de mais complicado nos seus dois aspectos: physico e moral.

Quando os homens se convencerem de que o verdadeiro patriotismo, o verdadeiro amor ao paiz que nos viu nascer consiste, antes de mais nada, em vigorizar e enobrecer a vida humana, e se compenetrarem de que, desde o momento em que temos que morrer, tudo aquilo só se consegue educando com cuidado, desde a mais tenra infância, as gerações novas, nesse dia não só teremos o mundo organizado com o principal objectivo da educação da infância, como também os meninos, convenientemente preparados para a vida por uma sólida educação do corpo e do espírito, serão dignos dirigentes das sociedades futuras, que elles saberão fazer mais perfeitas”.

Como os leitores podem perceber, pela ortografia desatualizada, o texto acima foi escrito quando o general Figueiredo era criança. Ele era um dos meninos de então, que hoje governa parte do mundo que mede 8.511.965 Km2, sem contar o mar territorial de duzentas milhas…

Peço a ele que releia o “Livro dos Porquês”, ou pelo menos o trecho acima. Ele, que jurou fazer deste País uma democracia, que concedeu uma anistia (ainda que parcial e restrita), que pretende promover uma “abertura política”, deve se conscientizar de que tem, por primeira obrigação, de fazer mais perfeita esta sociedade que dirige.

Ou pelo menos, menos imperfeita…

29/04/1980 – Acabou a Semana do índio

A semana passada foi chamada de “Semana do índio”, por abranger o dia 19 de Abril, que é o “Dia do índio”. Antropólogos, estudiosos, interessados no assunto e governantes se reuniram, falaram sobre o índio, exibiram filmes, fizeram palestras, o escambau.

Agora, a “Semana do índio” passou. Será que houve alguma melhora para o silvícola brasileiro? Será que o governo tomou alguma medida em favor do indígena? Será que a FUNAI – Fundação Nacional do índio – fez alguma coisa para resolver os problemas do nosso aborígene?

O que eu sei é que dois terços dos territórios indígenas ainda não foram demarcados, o que possibilita a invasão dos mesmos pelos posseiros e jagunços, com o consequente extermínio das populações silvícolas. De cerca de 5 milhões que eram, quando o Brasil foi “descoberto” por Cabral, só restam cerca de 120 mil elementos, a maioria aculturados e em fase de extinção, vivendo como caboclos miseráveis.

O que eu sei é que a floresta amazônica, que poderia servir de habitat para os remanescentes (ou sobreviventes) das tribos indígenas, está sendo arrasada. 11 milhões e 200 mil hectares da floresta já foram destruídos, sem que o governo tomasse qualquer providência. E isso é hectare paca!

O que eu sei é que caciques indígenas foram assassinados recentemente, um deles, Ângelo Cretan, num acidente simulado; e o outro, Ângelo Xavier, de tiro mesmo, desferido por um tal de Antonio de Lino, pelas costas. Apesar de devidamente identificado, o assassino deste último não foi preso pela polícia. O que dizer, então, dos assassinos do primeiro, que não são conhecidos?

O dia 1° de abril registrou três séculos da proibição da escravização dos nossos aborígenes, mas isso ficou só no papel. O que eu sei é que milhares de índios continuam escravizados pelos “civilizados”, embora sem a condição oficial de escravos… Trabalham duro e recebem pequenas ferramentas, colares de contas de plástico, óculos escuros e outras quinquilharias como “pagamento”, vivendo como autênticos escravos.

Acabou a “Semana do Índio”… E agora? Quantas semanas desse tipo ainda teremos, antes que acabem também os índios?

30/04/1980 – Feira de Utilidades Domésticas

Nada de política hoje. Vamos falar da UD, feira de utilidades domésticas, que se realiza todos os anos, em São Paulo. Entre as inúmeras utilidades (e algumas inutilidades) apresentadas, destacamos as seguintes:

FECHADURA ABI-ACKEL – Fecha mesmo. Se alguém duvidar, verifique: tranca no duro. É a fechadura mais usada por nove entre dez indústrias metalúrgicas do ABC. Em caso de greve, a fechadura é imediatamente acionada. Luis Inácio da Silva duvidou e ficou trancado. É a fechadura que está contigo e não abre…

CASAS PRÉ FABRICADAS ANDREAZZA – Feitas no Rio Grande do Sul, estão sendo montadas na Bahia, sei lá por quê. Custam o dobro das casas pré-fabricadas comuns, mas são as preferidas pelo ministro do Interior, que as compra sem concorrência pública. Afinal, quem fundou a firma que constrói as casas foi o vovô dele. De pai para filho, desde 1910.

FURADEIRA MALUF – Fura qualquer coisa, desde poço de petróleo até o esquema do governo federal. Não há lei que resista à furadeira Maluf, que sempre encontra uma brecha. Já furou o orçamento das universidades e vai furar o bolso dos funcionários públicos, particularmente dos professores. Bobeou, furadeira Maluf furou!

BATEDEIRA PM – A batedeira que funciona sempre que ocorrem greves. Bate pra valer, não respeita cara, credencial ou batina. Uma batedeira porreta!

CONGELADOR DELFIM – Já foi muito eficiente, há alguns anos, congelando os salários dos trabalhadores. O novo modelo congelou a correção monetária em 45%, haja o que houver. Só não consegue congelar a inflação.

ABRIDOR DE LATAS FIGUEIREDO – Que abre, abre; todavia, anda apresentando alguns defeitos, abrindo de um lado e fechando de outro.

PANELA DE PRESSÃO ABC – Um caldeirão fantástico, que vive sempre fervendo. Mas apresenta o perigo de poder explodir a qualquer momento.

FERRO DE PASSAR POVO – Anda passando mal à beça, nos últimos 16 anos. Acho que o povo anda queimado e fumegando. Cuidado, onde há fumaça há fogo!

VASSOURA JÂNIO – Uma inutilidade completa. Ha quase vinte anos já ficou provado que varre mal e não funciona. Deveria estar no museu.

ASPIRADOR LAURINHO – Aspira demais, muito além do que deveria. O melhor que se tem a fazer é deixá-lo desligado, num canto. Sendo um aspirador de pó, ao pó há de voltar.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Março de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/03/1980 – Maluf, o Futuro Presidente

“O governador Paulo Maluf representa o que de pior o regime autoritário pôde assegurar nos seus 15 anos de obscurantismo: o populismo descarado, a manipulação da máquina do Estado a serviço da corrupção política e a degradação final da moral política”.

Essa declaração não é minha e sim do deputado José Costa, do pMDB de Alagoas. Já outro deputado, Hélio Duque, também do pMDB do Paraná declarou a respeito:

– “Entristece a Nação o espetáculo de degradação política que se monta no Brasil, a partir de São Paulo, com o apoio de Paulo Maluf”.

Ninguém ignora que Maluf deseja ser o sucessor do general Figueiredo na Presidência da República. Como até agora ninguém falou em eleições diretas para a Presidência, em 1984, Maluf conta com a realização de indiretas, por meio de votos dos congressistas. Segundo Hélio Duque, o Legislativo está se desgastando, desde já, com as denúncias de aliciamento de parlamentares, feito pelo governador de São Paulo e que têm sido divulgadas pela imprensa.

Para tanto, Maluf estaria interessado em abrir uma agência do Banco do Estado de São Paulo no Congresso. Para Hélio Duque, “isso é trágico e está a exigir explicações das mesas da Câmara e do Senado, já que proibiram a instalação das sedes dos partidos, alegando falta de espaço para isso”. A manipulação dos dinheiros públicos para fins políticos e eleitoreiros é proibida por lei, bem como o uso de prédios e repartições públicas para essa mesma finalidade. Todavia, todos sabem que os políticos da antiga Arena (hoje PDS ou Arenão) sempre foram useiros e vezeiros nessa prática e jamais houve punição para quem quer que fosse.

Se é verdade que Maluf está agindo assim para se tornar no próximo presidente eleito pela via indireta, tudo que resta às forças vivas da Nação, bem como ao povo brasileiro, é a urgente modificação da Constituição, para que as próximas eleições para o posto máximo do Governo sejam realizadas pelo voto direto e secreto. Só assim teremos um legítimo representante do povo no Palácio do Planalto.

Desde 1960 que eu não voto para Presidente da República. A grande maioria dos eleitores brasileiros, então, nunca votou, pois tem menos de 30 anos de idade… Acredito que a realização dessas eleições, pela via direta seja a máxima aspiração da nossa gente.

Quanto a Maluf, nada tenho contra ele, pessoalmente. E apenas mais um fruto do regime em que ainda vivemos, onde o povo não escolhe seus governantes. Eu mesmo já sugeri a candidatura de Maluf para presidente há cerca de um mês… Para presidente da Arábia Saudita, é claro!

04/03/1980 – A Emenda Tampão

Para fazer frente à “Emenda Lobão”, proposta pelo deputado Édison Lobão, do PDS do Maranhão, que propõe o retorno das eleições diretas para governadores, em 1982, o governo, num golpe de mestre, acaba de apresentar uma outra emenda, já chamada de “emendão”, ou de “emenda tampão”.

Proposta pelo ministro da Justiça, Abi-Ackel, esta “emenda tampão” propõe não apenas a volta das eleições diretas para governadores, como também o fim da eleição indireta de senadores, acabando assim com os chamados “senadores biônicos”.

À primeira vista, a ideia que se faz da “emenda tampão” é ótima, pois ela faz parte, segundo fontes governamentais, do processo de abertura e re-democratização do general Figueiredo. Todavia, se analisarmos melhor essa emenda, notaremos que ela não passa de uma medida de emergência do governo, para impedir a votação e a aprovação da “Emenda Lobão”.

A “Emenda Abi-Ackel” (outro nome que já lhe deram) só será votada no próximo ano e, como não propõe prazos para sua entrada em vigor, poderá somente ser sancionada pelo general Figueiredo em 1982. Além disso, ela não extingue os atuais mandatos dos “senadores biônicos”, só propõe que não sejam eleitos outros, no futuro… Ao que tudo indica, não é mais do que uma medida para ganhar tempo e impedir uma vitória oposicionista.

Curiosamente, Edison Lobão não é da oposição e sim um ex-arenista, hoje nos quadros do PDS, ou Arenão; mas a aprovação da sua proposta favorece a oposição e não ao governo. O próprio presidente nacional da comissão provisória do pMDB, deputado Ulysses Guimarães, é favorável à aprovação da “Emenda Lobão”, pois ela é mais concreta e abre a corrida sucessória desde já.

É precisamente este o ponto que não interessa ao governo: os candidatos a governador, tendo tempo para se tornarem conhecidos pelos futuros eleitores diretos, ou seja, o povo, estariam com seus programas de governo claramente expostos em 1982. E o que ocorreria então? Uma vitória maciça da oposição! Quem é louco de votar em candidatos do PDS, que nada mais querem fazer do que dar continuidade ao que está aí?!

Assim, desesperado, o governo se finge de bonzinho e sai com essa emenda “Abi-Ackel”, que, por ter sido lançada numa ocasião de emergência e ter a finalidade de funcionar mesmo como um “tampão”, já ganhou um outro apelido do povo brasileiro, cujo humor satírico não perdoa nada.

Se vocês querem que eu conte, eu vou dizer qual foi o novo nome que inventaram para essa emenda governamental:

“Emenda Modess”!

05/03/1980 – As Águas Vão Rolar

1980, de acordo com os babalaôs da Bahia, é um ano regido pela Orixá Oxum, entidade feminina que rege as águas doces e reina sobre as fontes e cachoeiras, rios e lagos. O jogo de búzios apontou também que o ano seria chuvoso, com ocorrência de enchentes calamitosas em todo o Brasil.

Muita gente, que não acredita “nessas coisas”, duvidou quando essas profecias foram feitas, no fim do ano passado… Mas os fatos aí estão, para comprovar que elas tinham fundamento: chuvas torrenciais e enchentes são hoje lugar comum do Amazonas ao Rio Grande do Sul, sendo mais graves ao longo do Rio São Francisco.

E o que é pior: o Governo está se revelando tanto imprevidente quanto incompetente para solucionar o problema. Tudo o que os nossos governantes sabem fazer é decretar “estado de calamidade pública”.

Mesmo sem consultar os búzios, os nossos homens públicos deveriam ter tomado medidas quando, no ano passado, enchentes se verificaram nas mesmas regiões deste ano, ainda que em menores proporções. Não é preciso se ter uma bola de cristal para saber que, com o crescente desmatamento do nosso País, o equilíbrio ecológico, que existe há milhões de anos, fica rompido. Sem as matas, a terra perde o poder de absorção das águas; enquanto rios subterrâneos secam, os da superfície recebem um grande acúmulo de água, o que provoca as enchentes e a destruição das lavouras.

Caem as pontes, alagam-se as estradas, inundam-se as cidades. O povo brasileiro, tão sofrido, está morrendo de fome e de sede, ao longo dos nossos principais rios. De sede, porque a água barrenta dos rios não serve para beber… E as enchentes inundam os reservatórios de água limpa, além de inundar os locais onde a água potável é bombeada para as cidades ribeirinhas.

O transporte está parando em quase todo o Brasil. Como se sabe, quase tudo é transportado por caminhões (o que é outro absurdo) que estão atolados, aos milhares, nas estradas de terra do nosso interior. Os produtos perecíveis transportados por esse meio caríssimo, tendo em vista o custo do petróleo, estão perecendo, como não poderia deixar de ser.

Com isso, somando-se a perda de safras inteiras, morte de gado, doenças e outros flagelos que acompanham as enchentes, deveríamos declarar estado de calamidade pública no Governo brasileiro. Quem sabe, se o Mário Andreazza, nosso ministro do Interior, tivesse ido num candomblé, alguma providência prévia teria sido tomada. Pelo menos, ele poderia ter tomado um banho de cheiro, ou de descarrego com sal grosso; quem sabe uma defumação ou coisa semelhante…

Se isso não ajudasse a combater as enchentes, talvez resolvesse o problema de imprevidência, aclarando as ideias do ministro que só soube, em época anterior, fazer obras faraônicas do tipo Transamazônica e Ponte Rio Niterói. Seria bom também Delfim Neto (e talvez o Governo todo) ir se benzer nos terreiros, porque, do jeito que a coisa vai, o “Modelo Econômico Brasileiro” irá por água a baixo.

06/03/1980 – Que bobagem!

Ao comentar um relatório feito pelo Chase Manhattan Bank sobre a economia brasileira, o prof. Antoninho (como a esposa chama carinhosamente o prof. Delfim Neto) declarou à imprensa: BOBAGEM!

O Chase é um dos maiores e mais conceituados bancos do mundo. O que o professor-ministro não gostou, é que o relatório afirma que o Brasil vai aumentar em muito o seu endividamento externo, apresentando um enorme déficit na sua balança comercial, neste ano.

Para o prof. Delfim, isso é bobagem… Ele deve achar que o endividamento externo do Brasil também não passa de bobagem, não é? E o interno, então? E a divida que o governo tem para com o povo brasileiro? Também será bobagem?

Nos quase 16 anos da “Redentora”, a divida externa do País aumentou milhares de vezes… E a interna mais ainda. O povo deve cobrar do governo essa divida imensa: ele lhe deve melhores condições de vida, escola para o primeiro e segundo graus, alimentação digna, moradia, direito pleno de voto, melhor distribuição de terras, melhor distribuição de renda, salários condizentes com o custo de vida, emprego para todos, creches para as mães que trabalham, orfanatos para os menores abandonados, asilos para os velhos também abandonados, assistência médica efetiva etc., etc., etc. e tal!

Aos estudantes que terminam o segundo grau, o Governo deve vagas para todos, nas faculdades; aos que terminam os estudos superiores, ele deve empregos dignos e salários condizentes com um diploma universitário.

Aos empresários nacionais, o Governo deve indenizações pelo abuso cometido pelas multinacionais em nosso País, que não deixam lugar para a pequena e média empresa, levando milhares de firmas idôneas à falência.

Ao povo nordestino, ele deve bilhões, pelos prejuízos causados pelas secas e enchentes, pois nada fez para resolver esses dois angustiantes problemas. Aos agricultores, deve assistência, financiamento de máquinas, aumento do crédito rural, estabilidade para os trabalhadores do campo e seguro sobre as safras.

Aos índios, o governo deve tudo, pois nada fez senão permitir a espoliação desses deserdados da sorte. Aos negros e mulatos, descendentes de antigos escravos africanos, deve muito mais, pois a Lei Afonso Arinos não é cumprida e os “homens de cor” são marginalizados, não conseguindo bons empregos e nem um lugar digno na sociedade, com raríssimas exceções.

Mas o professor-ministro só sabe rir, achando tudo isso uma grande bobagem. Ao povo só resta uma pequena vingança: apelidar esse risonho e gordo professor, que de tudo zomba com ar de superioridade. Um jornalista amigo meu sugeriu um apelido engraçado: BOBO DA CORTE!

08/03/1980 – Os índios em pé de guerra!

Rufam os trocanos(l), soam os maracás(2), no tujupá(3) os guerreiros dançam, pintados com urucu(4), a cor da guerra. Os pajés(5) são consultados sobre o destino da luta, o murubixaba(6), erguendo a sua borduna(7) lança o grito tão temido: jucá-jucá(8)!

Tudo isto aconteceria se os nossos índios já não estivessem tão aculturados como estão… Mas, não. Hoje, já não há mais rituais preparatórios para a guerra, no município amazonenses de Boca do Acre. Em vez disso, quatro índios Apurinas embarcaram para Brasília, a fim de exigir da Funai a retirada imediata de várias famílias de colonos e do fazendeiro João Sorbile de suas terras, situadas no km 45 da BR-317, naquele município.

“Se a Funai não der jeito, vai ter briga”, limitou-se a declarar um dos índios, José Apurina. Ele explicou que pretendem retornar de Brasília dentro de quatro dias, com uma comissão do órgão, para fazer um levantamento da situação. No inicio de fevereiro, cerca de 500 índios Apurinas se reuniram em conselho e decidiram que esta é a última vez que vão recorrer à Funai e que, se a situação não for resolvida, eles irão à guerra.

Segundo José Apurina e seus três companheiros, o fazendeiro João Sorbile está fornecendo armas aos colonos e instigando-os a matar os índios, se eles não quiserem deixar suas terras. Os índios já estão sendo impedidos de nadar, pescar e colher castanhas nas margens do Rio Acre, numa região que fica dentro da reserva indígena Apurina. Devido a uma falha de demarcação da Funai, em 1976, os colonos estão se aproveitando para a invasão.

Ainda segundo José Apurina, até um agente da Polícia Federal e um funcionário da Funai no Acre fizeram ameaças aos índios, para que eles não reivindicassem o restante da área que lhes pertence.

Enquanto isso, no Paraná, onde o cacique Angelo Kretã morreu ao tentar reivindicar a posse de terras que lhe foram tomadas pelo ex-governador Moisés Lupion (de triste memória), também se fala de guerra, de luta armada contra os “civilizados”, se os colonos não se retirarem das terras indígenas.

A luta prossegue, esperemos que de forma pacífica. Vamos rezar, se preciso, a Tupã(9), para que a Funai termine brevemente a demarcação das terras indígenas, tomando ainda medidas efetivas para impedir a invasão das mesmas e a consequente matança dos indígenas, a tiros, facadas, ou por meio da transmissão de moléstias e difusão de bebidas alcoólicas e até tóxicos.

Anauê (l0)

(l) tambor de guerra – (2) chocalhos rituais – (3) terreiro para danças rituais e litúrgicas – (4) fruto que produz tinta vermelha – (5) sacerdote – (6) cacique – (7) clava de guerra – (8) morte – (9) divindade máxima dos índios – (l0) Saudação tupi-guarani, da qual os integralistas se apropriam indevidamente.

11/03/1980 – Uma Emenda Ampla, Geral e Restrita

Supresa! Com essa o governo não contava… Uma emenda ampla, geral e irrestrita, apresentada muito antes da “Emenda Lobão” e da “Emenda Tampão Abi-Ackel” (ou Emenda Modess) está ainda por tramitar no Congresso Nacional. E quem é o autor dessa emenda total? Orestes Quércia!

O mais curioso é que o próprio senador já nem se lembrava de ter apresentado essa emenda, tanto tempo faz que ele a elaborou. O mais curioso é que ele prevê não só a eleição direta para governadores estaduais (como a “Lobão”), como também a extinção dos senadores biônicos (como a “Abi-Ackel”) e ainda por cima, a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte e… ELEIÇÕES DIRETAS PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA! Tcham-tcham-tcham-tcham!

Cheia de dedos, e liderança do PDS (vulgo “Arenão”) já começou a procurar um meio de sabotar essa super emenda, pois todos sabem que o general Figueiredo é contra as eleições diretas para a Presidência, de acordo com suas próprias declarações à imprensa, rádio e televisão. – “Eleições diretas? – disse ele – Se depender de mim, nunca ocorrerão!”

Os “pedessistas” já pensam em anexar as três emendas, “Lobão”, “Abi-Ackel” e “Quércia”, para desse modo votar duma vez só as diversas proposições, já que elas tratam de um só assunto: eleições diretas. Porém, atrás dessa ideia da turma do Arenão, existe uma intenção muito clara e muito má…

A intenção é só aprovar os itens com os quais o general-presidente concorda: eleições diretas para governadores em 1982 e extinção dos senadores de proveta, mas só quando acabarem os mandatos dos atuais biônicos.

Mais uma vez, os lideres da ex-Arena, hoje “Arenão” ou PDS, vêm a público para demonstrar que são anti povo brasileiro, anti democracia plena e anti tudo que não seja favorável a seus próprios interesses, que são nada mais, nada menos, do que os interesses do grupo que está no governo.

Ainda que, através das muitas artimanhas, o PDS seja hoje maioria na Câmara e no Senado, podendo assim boicotar emendas, votar leis a seu bel prazer etc., etc., resta-nos um consolo: com a emenda ampla, total e irrestrita do senador Orestes Quércia (que é sempre bom lembrar, e ao PMDB), os alicerces da grande encenação que já estava preparada para boicotar a emenda ‘Lobão’ e aprovar a emenda “Abi-Ackel” só no ano que vem, estão seriamente abalados.

Se os nosso políticos, que hoje fazem parte do PDS, tivessem um pingo de vergonha na cara, aprovariam de vez essa emenda total, acabando de vez com o arbítrio e com a exceção, restabelecendo eleições diretas em todos os níveis e instituindo uma Assembléia Nacional Constituinte, o que é a máxima aspiração do povo brasileiro. Eu disse “se tivesse um pingo de vergonha na cara”, mas, para que sonhar? Se tivessem isso, minha gente, não fariam parte do PDS.

12/03/1980 – E o morto falou!

— “Enquanto eu for vivo, nenhum ladrão será eleito em São Paulo!” — esta inusitada declaração foi feita pelo Sr. Jânio da Silva Quadros, ex-prefeito, ex-governador de São Paulo, ex-presidente da República e ex- uma porção de coisa, que deixou órfãos milhões de brasileiros, ao renunciar à essa Presidência, em 1961.

Isso foi dito no momento em que o Sr. Quadros embarcava para uma “tournée” pelas aí, num navio de alto luxo, que deverá, se não me engano, fazer a volta ao mundo e trazer o “homem da vassoura” de volta ao Brasil, brevemente, o que é uma pena.

Eu acho que o Sr. Quadros está meio por fora da situação de São Paulo, e mesmo da situação nacional. Cassado em 1964 (dizem que por uma vingança pessoal do marechal Costa e Silva, que teria colocado o nome do ex-presidente encabeçando a primeira lista de cassações, o que lhe deu a honra de ser o cassado número um do golpe militar), ele deve ter ficado muito alheio aos acontecimentos políticos, nesses quase 16 anos.

Jânio jura que não é candidato a coisa alguma, entre um Whisky e outro, mesclado com uma cervejinha e uma boa caipira, daquela que derrubou o guarda… Mas há quem jure que elementos do PDS, ex-membros da extinta Arena e ex-membros da ainda mais extinta UDN (já morta e enterrada), estejam dispostos a lançar o Sr. Quadros a candidato a governador de São Paulo, no próximo pleito de 1982, que será o primeiro a ser realizado pelo voto direto, desde o golpe militar.

Se o Sr. Quadros não é candidato, por que está fazendo declarações políticas desse tipo? E o que ele quer dizer com “nenhum ladrão será eleito”? A quem ele se refere? Talvez ainda esteja pensando no seu velho inimigo político, o Sr. A. de Barros (como o “Estadão” sempre chamou esse político), esquecendo-se de que esse ilustre senhor já não faz mais parte do mundo dos vivos…

Agora, se o Sr. Quadros está se referindo a uma certa eleição indireta que houve em São Paulo, recentemente, aí então é que ele está por fora de tudo, mesmo. Há quem diga que o tal do ladrão já está eleito e vai continuar no posto, doa a quem doer.

Bem, o Sr. Quadros afirmou que nenhum ladrão seria eleito enquanto ele estivesse vivo… Vai ver, mesmo, que ele já morreu e esqueceu de cair. A família enlutada pede que não sejam enviadas flores e nem vassouras, (aham!) perdão, nem coroas!

13/03/1980 – Bye Bye, Brasil!

Não, infelizmente eu não vou falar do filme genial de Cacá Diegues, onde se vê o confronto de um Brasil primitivo, porém rico em cultura e tradição, minérios e matas, com um outro Brasil (será Brazil?) aculturado e dominado pelos estrangeiros… Pobre e desgraçado Brazil.

Vou falar, sim, do nosso Brasil atual, da nossa realidade, que nenhum filme, por mais genial que seja, consegue retratar. De um Brasil espoliado, retalhado e vendido, que cada vez fica menor.

Depois do precedente do projeto Jari, que foi cedida a um milionário americano, Daniel Keith Ludwig, uma área maior do que a Bélgica, na Amazônia, virou moda vender o Brasil aos pedacinhos a firmas multinacionais, totalmente alheias aos interesses do nosso País e totalmente voltadas para o lucro puro e simples, para a exploração da nossa terra e da nossa pobre gente, cada vez mais pobre.

Sim, o Brasil ficou menor, na semana que passou… O deputado Hélio Duque (pMDB-PR) acusou frontal e diretamente o ministro da Agricultura, Arhaury Stabile, de estar favorecendo uma multinacional, a Sharp, na aquisição de um milhão de hectares de terras no Mato Grosso. Depois do Jari, essa será a maior área agrícola do Brasil, que, pra falar a verdade, não mais será do Brasil…

O Deputado denunciou que o atual ministro é diretor licenciado da Sharp, e que familiares do próprio Presidente da República, “na pessoa de um de seus filhos” é um alto funcionário do grupo multinacional.

Por que a Sharp, que fabrica equipamentos eletrônicos, está investindo na área agropecuária? O mesmo deputado esclareceu que “sem dúvida decorre da vantagem logística obtida pela empresa que, solidamente enquistada no poder estatal, parte para, usufruindo das vantagens da legislação de incentivos fiscais, ocupar a terra, com segurança, amparo e privilégios do próprio sistema oficial!”

Traduzindo em miúdos, o governo está dando vantagens paca às multinacionais, enquanto tudo nega aos brasileiros menos afortunados, que cometeram o crime de nascerem pobres, num País subdesenvolvido economicamente, hoje alvo de lucro para o capital estrangeiro.

Pobre Brasil (ou Brazil?) que está sendo retalhado e vendido a preço de banana. Já que ninguém toma nenhuma atitude em defesa da nossa Pátria, só nos resta dizer: Bye Bye, Brasil! Adiós! Au Revoir! Adio, caro! Arrivederci! Sayonará! Auf Der Sien! Good Bye! Aloha! Ciao! Asta luego! Adeus, minha terra amada, meu Brasil brasileiro, meu caboclo inzoneiro! Ary Barroso está morto e já não pode mais cantar-te nos seus versos…

14/03/1980 – Os Últimos dos Yanomamis

São pouco mais de 16 mil silvícolas, que vivem parte no Brasil e parte na Venezuela, dividindo-se em grupos familiares, cada um variando de 40 a 100 indivíduos. Vivem em plena liberdade e ainda conservam seus valores naturais e culturais, seus usos e costumes. Os Yanomamis ainda são numerosos, mas eles estão morrendo aos milhares, depois de contato com os “civilizados”.

Há pouco tempo, grandes epidemias contraídas nesse contato dizimaram as aldeias, até mesmo as mais longínquas, matando milhares de velhos, mulheres, crianças e até mesmo guerreiros adultos e fortes. Em 1975 foi inaugurado um trecho da estrada Perimetral Norte, durante o governo do general Geisel, que teria um total de 245 km, dos quais hoje só são utilizados 45 km, e apenas por veículos da Funai.

Todavia, na época da construção dessa estrada de duvidosa utilidade, iniciada no governo do general Médici, só no primeiro trecho de 65 km, desapareceram 13 aldeias dos Yanomamis. No trecho seguinte, os peões passaram e desmaiaram uma vasta região, mas a estrada nem chegou a ser feita. Assim mesmo, mais oito aldeias desapareceram do mapa.

Dessas mais de vinte aldeias, só sobreviveram 40 indígenas, que hoje vivem à beira dessa estrada, em condições miseráveis, misturados com os colonos e quase todos doentes, com tuberculose, doenças venéreas etc., além de serem transformados em alcoólatras. O que salvou, ainda, o resto dos Yanomamis da destruição total, foi a crise do petróleo, que parou a estrada da morte.

Porém, outra ameaça paira sobre esses indígenas: a descoberta de cassiterita, um mineral importante, numa área de um raio de 80 km, junto à Serra dos Surucucus, onde, segundo a mitologia Yanomami, surgiu a humanidade. Ali vivem cerca de 3.800 índios, só no lado brasileiro.

O paraíso terrestre, onde ainda vivem os Yanomamis, está ameaçado. Eles não conheciam as doenças, nem mesmo a malária, que foi trazida da Europa ou da África, nos porões dos navios negreiros. Outra doença que agora os aflige é a onchocercose, que produz a cegueira e foi trazida por missionários que antes trabalhavam na África.

Existe um projeto de defesa dos Yanomamis: a criação de um parque nacional que, além de dar condições de vida a esses aborígenes, ainda consolidaria a fronteira do Brasil com a Venezuela. Essa ideia nasceu em 1968 e até agora não foi concretizada, pois o governo de Roraima tem projetos de mineração, de estradas e de colonização, que afetariam a área proposta para o parque. A Sociedade Anti-escravista da ONU, em Londres, já solicitou a criação urgente desse parque ao Governo Brasileiro.

Em fins de 79, a Associação Americana de Antropologia também assinou uma moção às nossas autoridades, pedindo a efetivação dessa medida. E segundo se diz, o governador de Roraima, Brigadeiro Ottomar de Souza Pinto, que era um dos maiores oponentes a esse projeto, mudou de ideia.

Nem por isso o vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional, deputado Hélio Campos ex-Arena-RO), deixou de ameaçar de encaminhar à Câmara Federal uma modificação da Lei 6.001, cri. 26, alterando o Estado do índio, com um projeto de lei proibindo a criação de parques indígenas na fronteira, numa faixa de 150 km de extensão. Se esse projeto for aprovado pelos membros da ex-Arena (hoje PDS), que são maioria no Congresso, estaremos vendo, muito em breve, o fim dos últimos dos Yanomamis.

15/03/1980 – Gióia, Bicho!

Para evitar tragédias do tipo que culminaram com a morte do estudante Carlos Alberto de Souza, em Mogi, o deputado Gióia Júnior (PDS-SP) apresentou na câmara um projeto de lei que proíbe a prática do trote estudantil em todo o território nacional, ou qualquer tipo de constrangimento físico ou moral impingido aos estudantes que ingressarem nas faculdades, após os exames vestibulares.

Está de parabéns o deputado do PDS, principalmente porque é raro ver-se alguém desse partido apresentar um projeto que beneficia as camadas médias da população, que hoje já estão chegando às faculdades. Todavia, é triste constatar que, neste País, só se fecha a porta depois que o ladrão já passou por ela… Antes da morte do rapaz, ninguém tinha pensado em abolir essa estúpida violência sem sentido, que é o trote estudantil.

Há mais de quarenta anos, um calouro matou um veterano, em Piracicaba, (SP) pelo mesmo motivo: trote. Violentamente espancado parque não queria se submeter a vexames, o calouro correu até a “república” em que residia, apanhou uma arma e disparou contra os veteranos, matando um deles.

Naquela época, talvez pela menor repercussão do fato, nada foi feito para acabar com o trote. Talvez agora essa prática abominável termine, mas, se não for possível acabar com ela, pode-se pensar em modificá-la.

Em vez de submeter os calouros (ou “bichos”, como são chamados) a vexames morais e físicos, os veteranos poderiam fazer com que os novatos ajudassem a moralizar as nossas faculdades, por exemplo, distribuindo folhetos à população e à imprensa, onde as falhas do nosso sistema de ensino fossem postas a nu…

Dessa forma, o povo ficaria sabendo não só das irregularidades acontecidas no interior das nossas universidades (do tipo Puc de Campinas, onde constatou-se a existência de super-alunos privilegiados, entre inúmeras outras falhas, a ponto dos estudantes apelidarem a instituição de AraPucc, como também seriam denunciadas outras falhas do próprio sistema de ensino.

Assim, o povo ficaria sabendo que, nas universidades brasileiras, pobre é raridade e negro é minoria absoluta. O sistema elistista procura impedir que as camadas da classe média para baixo cheguem aos cursos ou candidatos á faculdade de cursar os malfadados pré-vestibulares, os abomináveis “cursinhos”, que são caríssimos. E ainda querem acabar com a faculdade grátis!

O próprio sistema de vestibulares já é, em si, uma abominação. Todo estudante que tira seu diploma secundário (de 2º grau) deveria ter o direito imediato à faculdade, como ocorre nos países desenvolvidos. Diploma universitário não deveria ser privilégio de ninguém!

Outro expediente para afugentar os pobres das universidades é o chamado período integral onde o aluno tem de passar o dia todo assistindo a aulas práticas e teóricas. Assim, quem trabalha não pode cursar faculdade, deixando as poucas vagas existentes para os filhos dos ricos, que dispõem de tempo livre só para estudar. Os livros, então, são só para os milionários.

Seria necessário criar mais faculdades, mais vagas, mais classes, contratar mais professores universitários etc., urgente. Mas, é claro que o governo não tem verbas para isso… Dinheiro grosso, só existe para projetos mirabolantes, do tipo “Usina Atômica”, “Mudança de Capital”, etcetera e tal.

Para Gióia Júnior, nota dez. Para o governo, zero!

19/03/1980 – Parabéns a Você:

O governo do general Figueiredo completou um ano! Um ano de ABERTURA, de LIBERDADE e de DAMOCRACIA… Como é mesmo que se escreve esta palavra? DAMOCRACIA não… Ah, sim: DEMACRACIA! (Tinha me esquecido.)

Comemorando seu primeiro aniversário, o governo mandou apreender o semanário “O PASQUIM”, já famoso alternativo da imprensa carioca, também chamado de “O RATO QUE RUGE”. O motivo da apreensão do número 559 desse jornal, que é o rei da imprensa nanica, foi (ao que parece) a capa da edição, onde se via mulher gorda, com faixa de campeã, fotografada de costas e com as nádegas á mostra (segundo as agências noticiosas).

Deve ter sido só por isso, pois, na contra-capa, havia uma homenagem ao General Figueiredo, onde ele aparecia sobre um bolo de aniversário, rodeado pelos ministros Murilo Macedo, César Cals, Hélio Beltrão e Delfim Neto. Eu não pude ver essa homenagem, já que o jornal foi apreendido. Mas é uma pena, pois deveria estar muito bonita…

O “Pasquim”, provavelmente, será incurso na Lei da Imprensa, o que não é novidade para aquele hebdomadário, pois sua diretoria já foi processada quatro vezes, sendo três pela Lei de Segurança Nacional e uma pela Lei de Imprensa. O último processo, segundo ainda as agências noticiosas, corre na 2ª Auditoria Militar, sob a acusação de ofender o ministério do general em exercício anterior, com uma reportagem sob o titulo “Mar de Lama”. Deve ser engano das agências, pois houve uma ANISTIA, como todos sabemos, tão ampla quanto possível (segundo o próprio governo). Assim, esse processo tem de estar arquivado, não é?

Com essa apreensão de “O PASQUIM”, está provado que a DECRAMACIA é uma realidade, pois o governo não titubeou em apreender um jornal que homenageava o seu primeiro aniversário, com bolo, velinhas e tudo o mais! Não se podem permitir nádegas à mostra na capa de jornais ou revistas, não é mesmo? Quem olhar para qualquer banca de jornal em nosso País poderá constatar como o governo é zeloso nesse ponto: não há nenhuma bun… Digo, nádega à mostra, nenhum seio, nenhuma mulher pelada nas capas das revistas!

Eu, pelo menos, nunca vi indecências desse tipo. A propósito, preciso trocar de óculos, pois o médico me disse que, com meus 25 graus de miopia, posso perder a visão… Mas, isto não tem nada a ver com o que estou escrevendo agora.

O governo está de parabéns! Outras agências noticiosas, provavelmente tendenciosas e controladas pelos Comunistas, disseram ainda que foram apreendidos, anteriormente, durante o atual governo aniversariante, outros jornais como “A Tribuna de Imprensa”, também do Rio de Janeiro, e o “Coojornal”, de Porto Alegre, mas é claro que isso são inverdades!

Não posso crer que os diretores do “Coojornal” estejam respondendo a inquérito policial-militar e nem sujeitos a serem incursos na Lei de Segurança Nacional… Estamos numa época de ABERTURA! De ANISTIA! De LIBERDADE e de DECROMACIA, digo, DEMACROCIA, não… DOMACRA… Ah, deixem pra lá, esqueci mesmo como é que se escreve essa palavra.

21/03/1980 – Pedras no Salim

Um dia antes de seu governo completar um ano, o Sr. Paulo Salim Maluf se viu envolvido num lamentável incidente, na cidade de São Carlos, onde quase dois mil estudantes, protestando contra o ensino pago nos colégios e universidades do estado, que o governador indireto quer instituir, chegaram a atirar pedras contra sua caravana, além de sapatos, garrafas e outros objetos.

Não podemos aprovar esta atitude dos exaltados estudantes, que ainda retardaram a saída do Sr. Maluf daquela cidade, por quase duas horas, até que chegaram reforços da Polícia Militar, gritando “slogans”, agitando faixas e cantando paródias de músicas com letras alusivas ao governador indireto em exercício…

Achamos que os jovens se excederam um pouco, ao cantar uma paródia da música “UM LENCINHO”, onde afirmavam que o Sr. Maluf tem muita vontade de roubar. Além disso, ainda gritaram coisas do tipo: – “O povo paga imposto, Maluf põe no bolso!” – além do já famoso refrão: – “Um, dois, três, Maluf no xadrez!”

Exageros da juventude, pois, como se sabe, o Sr. Paulo Salim Maluf é a honestidade e a retidão em pessoa, pois não conta com nenhuma passagem pela polícia e nunca foi preso ou processado por crime algum…

E bem verdade que ele esteve envolvido num rumoroso processo de falência fraudulenta e corrupção, que atingiu a firma de seu sogro e da qual a sua digníssima esposa era acionista. Mas o Sr. Maluf se saiu muito bem desse processo, afirmando: – “Não sou e nunca fui diretor da Lutfalla!”

Foi mesmo uma injustiça com o governador, tudo o que ocorreu. Ao saber que, em virtude de sua presença em São Carlos, havia se esgotado todo o estoque de ovos e tomates da cidade, o Sr. Maluf declarou: – “Isso prova que vivemos numa época de fartura, pois os alimentos podem até ser utilizados para outras finalidades!” – Uma pérola do pensamento filosófico, que deveria ser incluída nos livros de ensino do estado e divulgada entre os alunos de 1° e 2° graus!

Os estudantes também se excederam um pouco, ao decidir, em assembléia, que o Sr. Maluf teria de passar a pé, pelo meio deles, para sair da cidade. Formaram até o famoso “corredor polonês”, no qual quem entra dificilmente sai do outro lado. Esses meninos são mesmo uns abusados, não?

Mas, a cidade de São Carlos não deve sentir-se diminuída por isso, pois, como o Sr. Maluf declarou, cercado por dezenas de membros de sua comitiva e do PDS que o aplaudiam até antes mesmo dele abrir a boca, na única cena que permitiu que fosse televisionada, após a chegada das tropas de reforço da PM: – “Sei que o povo ordeiro de São Carlos nada tem a ver com o que ocorreu! Estou certo de que os estudantes que fizeram tal manifestação são forasteiros e não pertencem a esta pacífica cidade!

Quem diria, heim! São Carlos tem mais de dois mil estudantes forasteiros! Vai ver que nem brasileiros eles são… Provavelmente são elementos cubanos, infiltrados em nosso País e disfarçados de cearenses, baianos, gaúchos, mineiros e até paulistas!

Esses comunistas não tomam jeito, mesmo!

22/03/1980 – Tão Cedo, Macedo?

Adivinhe quem é: d) O Coringa
a) Dr. Silvana e) Dr. Stigma
b) Pinguim f) Gavião
c) Cabeça de Ovo g) Murilo Macedo

O ministro Murilo Macedo, do Trabalho, reconheceu “a ocorrência de greve” no Porto de Santos. Segundo as agências noticiosas, isso é o mesmo que fazer uma declaração de ilegalidade da greve dos portuários. O Decreto-Lei n° 1.632, de 4 de novembro de 1978 proíbe greves nos setores considerados de Segurança Nacional, ou que sejam de atividades essenciais.

Uma dedução óbvia das agências noticiosas… Como diria Sherlock Holmes a seu fiel companheiro: – “Elementar, meu caro Watson!” – esse decreto também è chamado de “Lei anti greve” e pode ser acionado a qualquer momento contra qualquer tipo de movimento paredista dos trabalhadores brasileiros, pois, se assim o governo desejar, poderá ampliar o conceito de “atividades essenciais” a todas as atividades nacionais.

Ora, o próprio nome do ministério brasileiro já diz: “Ministério do Trabalho” e não, como seria de se desejar, “Ministério dos Trabalhadores”, assim como o dia 1° de Maio, em nosso País, se chama “Dia do Trabalho.”, quando deveria ser Dia do Trabalhador!

O sistema elitista introduzido no País, a partir de 1964, com reforço em 1968, não visa amparar, de modo algum, o trabalhador brasileiro. Todo o sistema está voltado para o amparo ao Capital, para a segurança das empresas privadas e para os investimentos das multinacionais.

Assim, o que esperar do Sr. Macedo, que tem a obrigação de cumprir as funções no Ministério do Trabalho, que podem ser resumidas do seguinte modo: botar a turma pra trabalhar.

“Trabalha, trabalha, nego!” – já dizia a letra de antiga música sobre os tempos da escravidão. E isso ai, trabalhadores do Brasil; depois que Getúlio Vargas se suicidou (?) em 1954, ninguém mais iniciou um discurso, nesta terra, dirigindo-se a vocês. O que o atual governo espera é que vocês trabalhem bastante, quietinhos, de boca fechada, aceitando sempre os salários determinados pelos números estipulados previamente pelo Dr. Delfim.

Os grevistas de Santos podem ser punidos com afastamento, suspensão ou demissão de suas atividades. Tropas federais já estão na cidade, impedindo qualquer reação passional da parte dos trabalhadores e o negócio, mesmo, é voltar ao trabalho, se não quiserem ficar na rua da amargura…

Ao pressentir o fim inevitável do AI-5 (de triste memória), o governo do general Geisel criou essa lei n° 1.632 que, enquanto existir, vai acabar mesmo com qualquer tentativa reivindicatória do operariado brasileiro. Já que os tempos são de “abertura” (segundo o governo atual), que tal abolir essa lei e criar outra, mais democrática, que permita aos trabalhadores brasileiros reivindicar reajustes de salários (aumento, nem pensar!) de acordo com os reais índices inflacionários?

Eu sabia que o ministro Macedo iria declarar ilegal a greve de Santos, muito antes de abrir qualquer jornal. Eu só esperava que ele desse um tempo aos trabalhadores portuários para, ao menos, conseguir reajustes que permitissem a sua sobrevivência… Mas, não: o ministro não dormiu de touca e mandou ver. Tão cedo, Macedo?

24/03/1980 – Soltem a Flávia, Canalhas!

Ela é brasileira. Está presa nos cárceres uruguaios desde 1972! O governo brasileiro e cada um de nós é responsável…

Ela é Flávia Schilling, 26 anos de idade, há sete anos e meio confinada em prisões uruguaias. Seu único “crime” foi amar um tupamaro, um guerrilheiro que combatia a terrível ditadura do Uruguai, que mantém 1/1000 cidadãos do seu próprio país na prisão, por motivos políticos.

É como se, no Brasil, tivéssemos 120.000 prisioneiros políticos, considerada a mesma proporção! E o Brasil, com sua “abertura” pela metade, com sua “anistia” mal feita, só tem um prisioneiro: José Salles, cearense, cuja libertação deverá ocorrer dentro de um mês e meio.

Flávia Schilling não cometeu nenhum ato de violência, não assaltou nenhum banco, não matou nenhum civil ou militar uruguaio. Ela foi condenada a dez anos de confinamento porque, em novembro de 1972, caminhando ao lado de um tupamaro a quem amava, recebeu voz de prisão de parte da polícia política do Uruguai. Numa reação natural, atirou sua bolsa contra o rosto do policial e correu, sendo atingida, pelas costas, por um tiro no pescoço. Gravemente ferida, ficou muito tempo entre a vida e a morte num hospital uruguaio. Sobrevivendo, foi “interrogada” pela polícia do país, eufemismo para designar as mais torpes torturas…

Depois, foi condenada a trabalhos forçados, sendo que ainda teria de pagar uma taxa carcerária, pelo tempo que foi sustentada pelo regime do Uruguai. Essa taxa foi arrecadada, há mais de dois anos, no Brasil e, assim mesmo, Flávia não foi libertada.

Agora, num ato até certo ponto surpreendente, o General Figueiredo, Presidente de plantão da República Federativa do Brasil, pediu a seu colega, Aparício Mendez, ditador do Uruguai, a libertação de Flávia Schilling!

No momento em que escrevo esta coluna, nada de concreto foi feito ainda para a libertação de nossa conterrânea, mas acredito que o Uruguai não terá como negar a atenção ao pedido de Figueiredo. Afinal, embora tenha nos derrotado no futebol, em 1950, o pequeno país ao sul do Rio Grande depende do Brasil até para respirar.

Assim sendo, acredito que Flávia será libertada, brevemente… Todavia, se ainda assim, a republiqueta oriental tentar retardar a libertação da nossa patrícia por mais algum tempo, será mister lançarmos mais uma campanha nacional pela libertação de Flávia Schilling.

Na falta de um “slogan” melhor, sugiro este, que me ocorre no momento: – SOLTEM A FLÁVIA, CANALHAS!

25/03/1980 – Maluf e os Malufiosos

Aqui vemos o Sr. Maluf, tal como sairá no próximo carnaval: fantasiado de barril de petróleo.

O Sr. Salim Maluf, que, por acaso, é também governador indireto do Estado, declarou que não vai dar aumentos semestrais aos servidores estaduais. Embora o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, tenha dito que isso ocorrerá na área federal, Salim Maluf diz que isso não ocorrerá na área estadual, visto que São Paulo é terreno dele e ninguém tem nada que ver com isso.

Os Malufiosos (partidários do Maluf) garantem que o Sr. Salim Maluf está certo. O Sr. Maluf é um homem honrado! Ele está cuidando do Estado, pois, diminuindo as despesas, ele vai, automaticamente, aumentar a receita estadual…

Os estudantes andaram dizendo, em São Carlos (SP), que “o povo paga imposto e Maluf põe no bolso!” – Grande inverdade, segundo os Malufiosos. Eles devem estar certos, pois o Sr. Maluf é um homem honrado!

O Sr. Paulo Salim Maluf é um zeloso servidor público, que só deseja ver os cofres estaduais abarrotados de dinheiro. Tanto que ele se sentiu “muito feliz”, segundo suas próprias palavras, com a proposta apresentada pelo professores em âmbito nacional, que reivindicam, no mínimo, o pagamento de três vezes o maior salário mínimo regional…

O governador indireto disse estar de acordo com o ponto de vista dos professores, “porque vamos ter que diminuir o salário de todos, já que eles ganham muito mais do que isso!” – de acordo com suas próprias palavras. E devemos acreditar nas palavras do Sr. Salim Maluf, de acordo com os Malufiosos, pois o Sr. Maluf é um homem honrado!

Ele só visa aumentar os recursos dos cofres estaduais, para fazer a tão propalada mudança da Capital, obra prioritária de seu governo. Como afirmam os Malufiosos, essa obra transcende a qualquer outra iniciativa e até mesmo ao problema do pagamento do funcionalismo, pois deve ser executada com a máxima urgência. E devemos acreditar nos Malufiosos, pois o Sr. Maluf é um homem honrado!

Alguns elementos (provavelmente os que sobraram dos comunistas, já que o DOI-CODI não conseguiu acabar com todos, apesar dos esforços), andam dizendo que o Sr. Salim Maluf quer construir a Capital (NOVACAP-SP) em terras de sua propriedade, previamente adquiridas em determinado ponto do interior do Estado, na certeza da aprovação do projeto de mudança…

“Intrigas da oposição!” – como diria, se estivesse vivo, o Sr. A. de Barros, mestre inconteste do Sr. Salim Maluf; não podemos acreditar numa vírgula dessas afirmações, pois, segundo os Malufiosos, o Sr. Maluf é um homem honrado!

Já que o interesse prioritário do Estado é diminuir as despesas e aumentar a receita; já que o negócio é economizar para construir a nova Capital (que deverá, segundo os Malufiosos, se chamar “Malufópolis”, em homenagem ao grande homem público que vai construí-la), no intuito de colaborar graciosamente com a atual administração do Sr. Maluf (que, como todos sabem, é um homem honrado), apresentamos as seguintes sugestões:

  1. a) Reduzir não só o salário dos professores estaduais, como também os salários de S. Excel. o DD. Governador do Estado.
  2. b) Reduzir os salários, bem como verbas de representação, de todos os Malufiosos, ou seja, de todos os membros estaduais do PDS.
  3. c) Cancelar todas as despesas extras da administração estadual, inclusive vendendo todos os carros oficiais e suas respectivas chapas brancas; colocar à venda a residência de verão de S. Excel. o DD. Governador e alugar o Palácio dos Bandeirantes para uma faculdade, já que foi para isso que ele foi construído.
  4. d) Cortar todas as verbas para viagens e também para a prospecção de petróleo no Estado de São Paulo. Acabar com a chamada “Caravana da Alegria” e com todas as mordomias decorrentes da mesma.

Certos de que S. Excel., o DD. Governador do Estado concordará conosco e ficará “muito feliz” com estas medidas, agradecemos de antemão as providências que, com certeza, serão tomadas, pois, como todos sabem, o Sr. Maluf é um homem honrado!

27/03/1980 – Legalidade para o PCB

José Salles, dirigente comunista, afirmou que o PCB – Partido Comunista Brasileiro – reúne condições para registrar-se como partido político, não existindo, nem na Constituição e nem na Lei Orgânica dos partidos, restrições à sua formação.

“A Constituição diz que não é possível o registro de partido político subordinado a Organização ou potências estrangeiras. Não é o nosso caso. Somos autônomos, independentes, brasileiros, e não estamos enquadrados aí” – Complementou José Salles.

Ele está certo. Numa verdadeira democracia, como a que desejamos profundamente implantar em nosso País, há liberdade para o registro de todos os partidos e facções, desde os comunistas e até os fascistas.

Não sou e nunca fui comunista, mas acredito que quem é deve se registrar como tal, para evitar confusões e, principalmente, para acabar com a velha mania dos governantes brasileiros, de acusar de “comunistas” todos aqueles que não são da mesma opinião deles.

Devemos legalizar o PCB e também o PC do B, facção divergente da orientação do Sr. Luis Carlos Prestes, comandante do PCB. Bem, perguntarão alguns leitores, qual é a diferença entre o PCB e o PC do B? A resposta mais inteligente que já ouvi, para essa pergunta, foi dada por uma jovem estudante, durante um julgamento num tribunal militar… quando o juiz lhe perguntou qual era a diferença entre o PCB e o PC do B (talvez querendo, assim, incriminá-la, pois quem sabe a diferença entende de comunismo), a jovem respondeu na bucha: “é o do, meritíssimo!”

Uma vez legalizados os partidos comunistas brasileiros (não sei se são apenas duas facções ou mais), pessoas como o Sr. Maluf, por exemplo, ficarão muito sem jeito e sem saber de que acusar os seus adversários políticos, ou os estudantes em geral que, como se sabe, não amam muito essa digníssima “flor que nasceu das estrumeiras da revolução”, de acordo com um genial deputado.

Essa flor de pessoa deseja, no momento, indiciar do DEOPS todos os estudantes que o enfrentaram na cidade de São Carlos (SP), por “agressão moral”. E é evidente que, além disso, virá a eterna acusação de “comunistas” para todos os que forem devidamente identificados.

Estou certo de que tais estudantes não são comunistas, bem como a imensa maioria do povo brasileiro também não o é. São apenas gente como a gente, revoltada como nós, com os demandas dos governantes que, eleitos indiretamente, sem o voto popular, querem falar em nome do povo.

E disso que precisamos: democracia ampla e total, legalidade para todos os partidos e direito de voto amplo e secreto para o povo brasileiro!

28/03/1980 – O que é isso, Golbery?

Golbery está completando dez longos anos nas alturas do governo federal e dezesseis anos de influência nas decisões governamentais, desde 1964. Sobre ele, disse uma vez Carlos Lacerda, o ex-governador da Guanabara: – “Tudo que o Golbery faz dá errado!”

Errado estava o falecido Sr. Carlos Lacerda, pois queiram ou não, Golbery fez algo que deu certo: manteve-se no poder através dos mais conturbados anos de política brasileira, desde Castello Branco até agora, passando incólume pelos tempos difíceis de Costa e Silva, Médici e Geisel, chegando ao posto de chefe do Gabinete Civil do general Figueiredo.

Este poderoso general que, segundo a revista Veja, “sempre foi, é e será temido e detestado por ser misterioso”, é também chamado de “eminência parda” dos governos pós-64, pela sua atuação sempre junto dos presidentes militares.

Fundador do SNI (Serviço Nacional de Informações), prendeu, cassou e exilou seus inimigos políticos, no governo do marechal Castello Branco, mas é agora um dos principais responsáveis pela chamada “abertura” do governo do general Figueiredo.

Contradição? Talvez não… Habilidade política é o termo mais adequado. Maquiavélico para uns, magnânimo para outros, Golbery continua sendo uma figura misteriosa no governo. Esse mistério em torno dele só começou a ser disperso agora, com a publicação de Veja a seu respeito…

Segundo a reportagem daquela revista da Abril, ele afirma que nunca foi misterioso e sim discreto. Os livros são a sua mania e sua biblioteca particular conta com o impressionante número de 10.000 volumes, espalhados por todos os cantos de sua residência oficial do Ipê e do seu sitio.

– “Não gosto que vejam meus livros. – Disse ele à Veja – Quem vê a livralhada de uma pessoa, pode ler sua cabeça!” – A reportagem foi lá conferir e anotou alguns títulos dos livros, tais como: “A Doutrina Militar Soviética”, “Obras Completas de Stálin”e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Fernando Gabeira.

Não, isso não significa que Golbery seja comunista ou subversivo; significa, sim, que ele estuda muito bem a estratégia do inimigo, para melhor vencê-la!

E ele próprio, na mesma reportagem, procura definir a sua estratégia particular: – “Vamos tentar uma abertura gradual. Ninguém ainda o conseguiu. Se der certo, bem. Senão, virá um período de violência do Estado e, depois, uma reação. Aí, vamos todos para o poste, menos o papai aqui, que estará velho!”

Ah, acho que eu entendi o porquê da “abertura lenta e gradual!”… Golbery espera que, se houver uma revolução social no Brasil, ele não seja atingido, pois não estará mais entre o número dos vivos.

O que é isso, Golbery?

29/03/1980 – Lilian, Universindo & Mundialito

Aproxima-se o “Mundialito” no Uruguai, torneio comemorativo dos 50 anos da primeira Copa do Mundo, que foi realizada naquele país. O Brasil, na qualidade de tricampeão mundial e participante de todas as copas, foi convidado a disputar esse torneio.

Como agora é moda ligar esporte com política (foi o Jimmy Cárter quem lançou), acredito que o Brasil não deveria disputar o “Mundialito” enquanto não se aclarasse o caso do “Sequestro de Porto Alegre”, onde Lilian Celiberti e Universindo Diaz foram presos em território brasileiro e transportados para o Uruguai, por agentes secretos daquele país, com o auxílio de policiais do Dops gaúcho.

Não existe a menor dúvida de que o sequestro existiu, em virtude dos testemunhos de Cunha e Scalco, repórteres da revista “Veja”, que, alertados por um telefonema anônimo, foram ao departamento onde Lilian e Universindo estavam detidos. Ali, foram dominados pelos agentes policiais, que mais tarde os repórteres identificariam como membros do Dops de Porto Alegre. O caso aconteceu em novembro de 1978 e, até agora, não teve solução.

As autoridades brasileiras parecem relatar em admitir o sequestro, preferindo processar Cunha e Scalco por invasão de domicilio, além de Lilian e Universindo por falsa identidade! Apesar dos esforços de Osmar Ferri, advogado que defende o casal sequestrado, nenhuma providência foi tomada no sentido de se aclarar a questão e, se necessário, pedir a devolução do casal, visto que ele foi retirado irregularmente do Brasil

Ferri não crê que haja alguma solução a curto prazo para a questão, pois lembra que “não há estado de direito no Uruguai” e porque “as autoridades brasileiras não se convencem de que o País teve a sua soberania ultrajada”.

“O sequestro comprometeu a dignidade da Nação, além de significar uma violenta infração de ordem pública!” – Argumenta Ferri, considerando que, na sua opinião, foram violados diversos artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, e que esses atos “são graves, que enxovalham a nobreza e a dignidade do povo brasileiro”.

Ele ainda pede o seguinte: “1 – Que as autoridades brasileiras se dêem conta de que dois militares uruguaios penetraram em território brasileiro, para realizar o sequestro; 2 – Que admitam que duas dezenas de policiais do Dops gaúcho participaram da operação; e 3 – Que percebam que tanto a Secretaria da Segurança Pública como a polícia federal tomaram todas as medidas de precaução para encobrir o crime e concluir pela sua inexistência, por falta de provas”.

Não sei não… Eu acho que, apesar de todos os esforços desse competente causídico, as autoridades não tomarão nenhuma providência e tudo ficará como dantes, no quartel de Abrantes. E o Brasil irá ao “Mundialito” no Uruguai, para fazer mais um papelão, como fez em 78 na Argentina. Depois, é só contratar o Cláudio Coutinho de novo, para declarar: “Somos os campeões morais!” Quiá, quiá, quiá!

31/03/1980 – Aborto, sim ou não?

– “Você é contra ou a favor do aborto?” – esta pergunta está cada vez mais sendo repetida nos órgãos de divulgação brasileiros. A Rede Globo (segundo as más línguas, máquina de fazer bobo) explorou o assunto ao máximo em seu programa “Fantástico”, nas noites de domingo.

Autoridades públicas e policiais, médicas e eclesiásticas têm sido seguidamente consultadas a respeito, dando as mais diversas opiniões. Uns são contra, por motivos religiosos, outros a favor, por motivos médico, ou políticos. Alguns alegam que a legalização do aborto é necessária, visto que, com ou sem lei, ele existe. Milhões de abortos são realizados todos os anos, clandestinamente, com riscos maiores para as mulheres grávidas, do que se os abortos fossem feitos por médicos devidamente autorizados, em locais próprios e com todos os recursos da medicina.

Outros são contra, afirmando que as classes proletárias não têm corno pagar os serviços médicos e, se fossem recorrer ao INAMPS para abortar, quando chegasse a hora da operação a criança já teria nascido e comemorado o seu 1° aniversário, o que não deixa de ser verdade…

Mas o mais curioso, é que a imensa maioria dos entrevistados é composta de homens: médicos, padres, juristas etc. E as mulheres, como é que ficam? Afinal, se alguém tiver de abortar, serão elas e não os homens!

A maioria das mulheres (poucas) que foram entrevistadas é a favor do aborto, talvez porque já sofreu o problema na carne. As feministas, é evidente, desejam que a mulher tenha todo o direito de decidir pelo sim ou pelo não, já que o corpo é delas e não dos homens.

A grande verdade, porém, é que essa história de legalização ou não do aborto parece ser um meio (mais um!) inventado por algum gênio do governo, para distrair a atenção do povo de seus verdadeiros problemas, que são: o desemprego, o sub-emprego, a falta de moradia, falta de assistência médica eficiente, falta de ensino gratuito para todos e em todos os níveis, falta de plena liberdade de voto para escolher seus governantes, falta de comida e, principalmente, falta de vergonha na cara de certos governantes indiretos, que andam por aí!

O genial semanário “O Pasquim” (o rato que ruge), em seu n° 560, o seguinte à arbitrária apreensão que sofreu, estampa uma história em quadrinhos sobre o aborto, em sua última página, que resume toda a questão: enquanto os demais personagens discutem o problema, um elemento de óculos e chapéu, refestelado em uma cadeira de gabinete diz, ao telefone: – “Alô? E do serviço de criação de polêmicas populares? Quero encomendar mais uma dúzia de besteiras pra desviar a atenção de uma crise econômica que estamos passando!”

E, como não podia deixar de ser, o não menos genial Henfil, em recente edição da revista “Isto É”, dá o arremate final à questão, mostrando o seu personagem “Ubaldo” sendo entrevistado… Perguntado se era contra ou a favor do “topless”, da “abertura” e do aborto, ele responde, categórico: – “Sou contra a ditadura!” – E, voltando-se para o leitor, declara: – “Você não me engana, Golbery!”

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Fevereiro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

07/02/1980 – Estão brincando com a gente?

As fábricas de brinquedo já estão lançando novos e sensacionais modelos de jogos, brincadeiras, quebra-cabeças, etc., no mercado brasileiro. Entre as novidades apresentadas, destacamos as seguintes:

– Jogo do “Cals não Cai” – Divertida brincadeira que consiste em saber se o Cals cai ou não cai. Na verdade, todos sabem que cai, mas não se sabe é quando cai e como cai.

– “João Teimoso” – Um boneco muito engraçado que teima em se manter de pé, apesar de muitas forças contrárias quererem derrubá-lo. A brincadeira consiste em saber se o João Teimoso ficará firme ou acabará sendo derrubado por golpes vindos de todos os lados, principalmente do lado direito.

– Balão Gigante Zédelfim – Um enorme balão inflável, que fica cada vez maior e mais imponente. Mas o zédelfim gigante, tal como a rã da fábula, não pode se inflar indefinidamente. A graça da brincadeira é saber até onde ele pode se expandir antes de estourar.

– Jogo do Xadrez – Também chamado de “jogo da prisão cautelar”. Bobeou, o parceiro perdedor vai em cana por 10 dias, sem direito a nenhuma defesa. Este jogo ainda está em estudos, mas todos afirmam que será lançado na praça brevemente. Criação de um inventor maligno chamado Erasmo Dias,

– Boliche Político – Jogo preferido por um ministro muito conhecido, que adora praticá-lo nas horas vagas. O jogo consiste em derrubar pinos com uma bola, sendo que cada pino tem a cara de um adversário político dele. O ministro já derrubou vários pinos… Resta saber quantos ele ainda derrubará nos próximos dias.

– Trem da alegria – Trenzinho a corda, preferido por um certo governador por aí. Chama-se o “trem da Alegria”, mas o único que está alegre é o próprio governador, que, aliás, está com a corda toda. O povo, por outro lado, esta torcendo para esse trem entrar no desvio.

– Maleta SNI – Dez entre dez agentes secretos usam essa maleta. Ela contém aparelhos para escuta telefônica, microfones para serem ocultos nos lugares mais incríveis, binóculos possantes, aparelhos de escuta direcional, etc.

– Guerra nas Estrelas – Jogo que exige muita habilidade e destreza. Muito praticado quando há sucessão presidencial, não pode ser, no entanto, jogado por quem não usa farda. Onde já se viu?

– Democracia Plena – Um jogo que ainda não está sendo praticado, mas que todos prometem que será levado a efeito ainda este ano. Será?

– Reforma Partidária – O quebra cabeças mais difícil que já foi inventado. Por mais que se tente, ninguém consegue montá-lo.

– Jogo de Malha – Muito praticado pela PM, que malha sem dó nem piedade, principalmente quando há greves e comícios políticos.

– Jogo da Paciência – É preciso muita paciência para aturar este brinquedo. Vai haver eleições em 1980? Em 1982 elas serão diretas? A capital será mesma mudada? Teremos um civil na presidência, em 1984? Mistério…

08/02/1980 – Ano Olímpico

Embora se fale muito em boicote, 1980 é um ano olímpico e as Olimpíadas de Moscou certamente serão realizadas. O Brasil, que nada tem a ver com a invasão da Rússia pelo Afeganistão (ou o contrário, sei lá), vai mandar uma equipe sensacional, que nos trará, certamente, muitas medalhas de ouro. Vejam só que atletas nós temos:

  1. Maluf – Especialista em corridas de longa distância e de obstáculos. Maluf já passou por cima de muito obstáculo e já deixou muita gente para trás. Corre tanto que até some de vista, vez por outra. Recentemente, andou pelas arábias, passando muitos árabes pra trás e dizendo que ganhou muitas medalhas. Anda pulando por cima de muita lei por aí.
  2. Delfim – Um pouco acima do peso ideal, este atleta, todavia, tem tudo para chegar na frente. Ele mesmo diz que “já está chegando lá”. Ele é bom na prova de revezamento, mas não costuma passar o bastão. Agora, tomar o bastão da mão dos outros é com ele mesmo. Delfim também é bom na prova de obstáculos, pois derruba todos e passa por cima.
  3. Cals – Ginasta excelente, é campeão de equilíbrio. Todos dizem que ele cai e, vai se ver, o Cals não cai. Outros mais cotados já levaram o maior tombo e o Cais continua firme, segurando nas barras paralelas. Dizem que tem as mãos oleosas e que precisa usar muito talco, caso contrário o problema do óleo poderá derrubá-lo quando menos se espera.
  4. Couto e Silva – Nadador de primeira, é especialista em nadar por baixo d’água. O homem nada o tempo inteiro e ninguém vê; enquanto o Couto nada, os outros ficam boiando. Dizem que ele está organizando um time próprio, para competir nas Olimpíadas, sem que ninguém perceba.
  5. Brizola – Grande corredor, fundista de primeira! Há mais de 15 anos, correu tanto que ninguém o alcançou. Afastado das competições olímpicas, agora está de volta. Muitos dizem que ele já não tem mais fôlego, mas quem é que sabe?
  6. Quadros – Campeão de levantamento de peso, foi o maior alterocopista que já tivemos, em todos os tempos. Pena que perdeu há muitos anos uma prova, justo quando pensava que ia ganhar a medalha de ouro. Também já está meio fora de forma, mas promete varrer os adversários da sua frente.

João do Pulo – Atleta completo! Na corrida, passou na frente de muitos adversários; no boxe, nocauteou um estudante de Florianópolis; no hipismo, nunca caiu do cavalo; no levantamento de peso, deu um duro danado; na queda de braço dizem que ninguém pode com ele. Mas o João é bom mesmo no salto tríplice… Dizem que ele conhece o pulo do gato. Se ele vai ganhar medalhas, não sei; mas não há dúvida que está fazendo uma força danada. O técnico, Sr. Farhat, diz que ele vai chegar lá…

09/02/1980 – Vem aí o “Mundialito”

Para comemorar os 50 anos da realização da primeira Copa do Mundo, o Uruguai, que sediou essa competição, em 1930, vai realizar um campeonato chamado “Mundialito”, convidando para tanto as equipes que participaram da primeira taça mundial e outros times que estiverem interessados.

Já que os Estados Unidos, misturando política com esporte, estão ameaçando não participar das Olimpíadas de Moscou, eu acho que o Brasil deveria fazer coisa parecida, boicotando o “Mundialito” no Uruguai, por diversas razões, a saber:

O governo uruguaio é uma das ditaduras mais ferrenhas e sanguinárias do mundo. Um em Cada dez uruguaios já esteve ou está preso, por motivos políticos: Como o Brasil é um País que caminha para a democracia plena, em fase de abertura e anistia, deveria repudiar esse estado de coisas.

A política do Uruguai é useira e vezeira em sequestrar cidadãos uruguaios “foragidos” (segundo ela) no Brasil. Na realidade, são cidadãos refugiados, que gozam dos direitos internacionais de asilo. Em novembro de 1978 sequestraram Lilian Celiberti e Universindo Diaz, além de duas crianças, caso que só ficou conhecido graças a dois jornalistas brasileiros. Até o presente momento ninguém foi punido por isso, nem no Uruguai e nem no Brasil, pois alguns policiais daqui foram coniventes.

Flávia Schilling, uma brasileira, está presa num cárcere político uruguaio.

Seu crime foi namorar um jovem daquele país, que era “Tupamaro”, ou seja, um guerrilheiro. Que o rapaz tenha sido preso, isso é um assunto interno do Uruguai, a bem da verdade… Mas a moça não tinha praticado nenhum crime e ainda foi baleada ao tentar fugir, no momento da captura do casal. Torturada selvagemente, deve ter confessado tudo o que inventaram para justificar o tiro que lhe deram, pois era preciso dizer que a polícia política só atiraria numa guerrilheira perigosa.

Flávia, em virtude dos “maus tratos” que sofreu (eufemismo para designar torturas), ficou muito doente e teve de ser operada de um tumor. E nem assim as autoridades (?) uruguaias se dignaram a liberá-la. Ela está mofando numa prisão de mulheres, por crimes que jamais cometeu.

Campanhas já foram feitas pela libertação de Flávia, inclusive com arrecadação de verba para pagar a taxa de carceragem (imaginem, a pessoa é presa no Uruguai, torturada e tratada como animal e, se sobrevive, ainda tem de pagar!) e nem assim soltaram a moça.

Vamos boicotar o “Mundialito” do Uruguai, se até lá não soltarem a nossa compatriota. Vamos lutar para que Flávia Schilling possa voltar ao Brasil. Liberdade é uma coisa muito perigosa, especialmente para quem ainda é jovem. Liberdade para Flávia Schilling!

15/02/1980 – Nossos Índios, Nossos Mortos

A terra de Pindorama lhes pertencia… Coberta de palmeiras e matas, onde a caça era abundante e onde plantando tudo dava. Nus, eles viviam num paraíso sem pecado, em contato com a natureza e em harmonia com a fauna e a flora. Espiritualizados, acreditavam na vida após a morte, na comunicação com os espíritos, nos deuses da natureza, da chuva, da mata, da água e do vento. O trovão, a quem chamavam Tupã, era sua maior divindade; mas também acreditavam em Tupãci, Jaci, Guaraci, Jurupari, Anhangá, Caapora, Curupira, Saci, Ruda e tantas outras divindades, às quais adoravam sem temor, pois faziam parte do mundo harmonioso em que viviam.

Guerras? Vez por outra havia desentendimentos entre tribos, os Tupis afugentavam os Tapuias para o interior, os Tupinambás tinham escaramuças com os Tupiniquins, mas tudo não passava de lutas sem maior dimensão, disputas por campos de caça ou pesca. Os nossos aborígenes eram felizes por milhares de anos, até que o homem “civilizado” chegou…

O “civilizado” mudou o nome da terra, tomou posse da mesma, afugentou, escravizou e exterminou milhões de índios, na época colonial e no tempo do império. E, até hoje, isso continua ocorrendo… Os poucos indígenas que ainda sobrevivem estão ameaçados de extinção. É uma guerra de genocídio, que prossegue sem que nenhuma providência seja tomada!

Quantos eles eram? Quatro, cinco milhões? Hoje, menos de 500 anos depois do “descobrimento” do Brasil, são poucos milhares, na maioria aculturados, transformados em caboclos miseráveis e analfabetos, vestidos com andrajos e viciados em bebida e, segundo se diz, até em maconha!

Um deputado de Roraima, da antiga Arena, hoje PDS, Hélio Campos, entrou na câmara com um projeto de lei para retirar os índios das fronteiras, por motivos de “Segurança Nacional”… O cacique Pankararé Ângelo Xavier, na Bahia, foi assassinado numa emboscada, por motivo de disputas de terras, por posseiros “civilizados”. No Paraná, um estranho e suspeito acidente matou outro cacique, Ângelo Kretã, dos Kaiguangues…

Dois Ângelos mortos, nenhuma providencia concreta da polícia, nenhuma medida efetiva da Funai. Mário Juruna, da tribo Xavante, também foi vítima de atentado em Goiás, enquanto outro cacique, José Sizenanda, no Espírito Santo, está sendo ameaçado de morte… E tudo vai ficar por isso mesmo. Espoliados, trucidados, enganados com promessas vãs (apesar do gravador do Mário Juruna), ainda assim os nossos índios têm muito a nos ensinar.

A televisão mostrou, há poucos dias, a eleição do substituto de Ângelo Kretã… A eleição foi livre e pelo voto direto e secreto. Como a maioria dos índios é analfabeta, a votação foi feita por meio de fotos dos candidatos a cacique, as quais foram colocadas em urnas lacradas!

Nossos índios, a quem muitos julgam serem selvagens ignorantes e bárbaros, estão nos ensinando uma lição que parece que já esquecemos: como votar para eleger nossos governantes! É disso que precisamos: democracia plena e total no Brasil, direito de voto para todos, inclusive os analfabetos, liberdade para escolher os que devem reger os destinos da Pátria!

Obrigado por mais essa lição, índios do Brasil!

16/02/1980 – O Brasil foi invadido!

Estive no Rio Grande do Sul e constatei: o Brasil foi invadido! Os argentinos (e também alguns uruguaios) tomaram o nosso País de assalto, numa operação que burlou a Segurança Nacional.

No hotel em que me hospedei, minha família e eu compúnhamos, talvez, os únicos hóspedes brasileiros; o resto era o resto: a classe média baixa e o operariado portenho que, de carro ou de ônibus de excursão, tomava conta de todos os apartamentos, chegava a qualquer hora da madrugada, fazendo a maior algazarra, batendo os pés, gritando em castelhano, perturbando qualquer cristão que desejasse dormir.

Os restaurantes também foram invadidos por essa cambada, para felicidade dos comerciantes e infelicidade geral da Nação; os preços subiram a tal ponto, que alguns locais do litoral sulriograndense chegaram a cobrar Cr$ 50,00 por um chope! As churrascarias sulinas deixaram de fazer o tradicional (e farto) serviço de rodízio, para trabalhar “a la carte”, cobrando o triplo do habitual. E os portenhos pagando tudo, muitas vezes em dólares, comprando todo o estoque das lojas, esvaziando as prateleiras e enchendo o nosso saco.

Os eletrodomésticos, em especial os aparelhos de televisão, eram a principal mercadoria adquirida pelos Argentinos (ou boludos, como o povo prefere chamá-los), uma vez que um aparelho em branco e preto custa aqui a bagatela de Cr$ 5.000,00, podendo ser revendido por quatro vezes mais, na argentina, com lucro para o comprador. O aparelho em cores, que custa cerca de Cr$ 20.000,00, pode ser revendido por aquelas plagas pelo equivalente a Cr$ 100.000,00! Quantia essa que paga todas as despesas eventuais de viagem, estadia e refeições dos boludos, em nosso País.

Quando era o contrário que ocorria, quando os brasileiros invadiam a Argentina fazendo compras e passeando, os portenhos apelidaram a nossa gente de “los macaquitos”, fazendo uma alusão pejorativa à cor morena da pele dos nossos patrícios. Em compensação, agora, os brasileiros apelidaram os portenhos de “las cucarachas” (as baratas), pela sua cor que lembra uma barata descascada. Muitos, se sentido prejudicados pela arrogância desses novos turistas (e novos ricos, pelas circunstâncias), foram mais além, apelidando-os de “los perros” (os cachorros), porque vivem querendo se impor aos berros e brigando por pequenas diferenças nas contas apresentadas, nos hotéis e restaurantes.

Não sou xenófobo e não concordo com muitas dessas atitudes; acho que o povo e a classe média argentina e uruguaia, antes sem opções, tem todo o direito de vir aqui para passear e se divertir… Todavia, não posso concordar com esse estado de coisas, gerado não por culpa dos portenhos e sim do nosso governo que, na pessoa de super-hiper-primeiro-ministro Delfim Neto desvalorizou o nosso dinheiro a tal ponto, que ele vale menos do que as pobres moedas da Argentina e do Uruguai.

Se o Brasil foi invadido, a culpa é do governo, que, com suas medidas arbitrárias e surpreendentes, está empobrecendo o País de tal maneira que, além de quintal dos norte americanos, estamos virando parque de diversões de todos os outros latino americanos, por mais pobres que sejam.

E necessário por um basta nisso, re-valorizando o nosso cruzeiro e tomando medidas que protejam a nossa economia. O Brasil deve ser um País para uso e usufruto dos brasileiros. Falei!

21/02/1980 – Sucessos do Carnaval-80

Num carnaval dos mais animados dos últimos anos, o povo se esqueceu da miséria e se esbaldou nas ruas e nos salões, cantando alguns dos mais famosos sucessos atuais e de antigos carnavais. Para que todos possam cantar esses sucessos, damos aqui a letra de alguns deles:

Marchinha do Delfim:

Se você fosse sincero, o, o, o, o, Delfim,

Não mentia tanto assim, o, o, o, o, Delfim!

Chiquito Banana:

Chiquito Banana, lá da prefeitura,

Entrou para o PP com a maior caradura!

Marcha da Petrobrás:

Você pensa que petróleo é água?

Petróleo não é água, não!

A água sai lá da torneira,

Petróleo custa um dinheirão!

Sambinha do Cals

Cai Cals, cai Cals,

Quem mandou escorregar?

Cai Cals, cai Cals,

Eu não vou te segurar!

Sambão da desvalorização do cruzeiro

Tem mamata, pessoal,

No pacote de natal! (BIS)

Marchinha do Maluf

Alá lá o, o o o, o o o,

Faça um favor, o o o, o o o,

Mande o homem pra Arábia.

Mande o cara ficar lá,

Alá, meu bom Alá!

Cabeleira do Portela

Olha a cabeleira do Portela,

Será que é preta, será que é amarela?

Samba do João

Isso é papel, João? Papel que se faça?

Brigando na rua, brigando na praça

João, eu quero

João, eu quero, João eu quero,

João, eu quero votar!

Dá um jeito, dá um jeito,

Dá um jeito pra democratizar!

Marcha do Ueki

O teu sorriso não nega, Ueki,

Que já acabou o monopólio.

O resto a turma entrega, Ueki,

Brasil não vai mais ter petróleo

Marchinha do índio

Chega de apito, índio agora quer viver! (BIS)

Co-co-co-co-co-co-ró

Co-co-co-co-co-c’o-ró, co-co-co-co-co-co-ré

A gente tem saudade de comer um bom filé!

22/02/1980 – Outras marchinhas de Carnaval

No carnaval, para afugentar as mágoas (que não são poucas) o povo cantou assim:

MARCHA DO DELFIM

Oh, Delfim Neto, por que estás contente?

Mas o que foi que aconteceu?

– Foi Rischbieter que caiu do galho,

Deu dois suspiros… E se escafedeu!

MARCHINHA DO CONTRATO DE RISCO

Eu mato, eu mato,

Quem mandou o seu Ueki

Assinar o tal contrato!

MARCHA DO PDS

(vulgo Arenão)

Ei, voce aí

Me dá um emprego aí,

Me dá um emprego aí!

MARCHA DO JEITINHO

Me dá um jeitinho aí,

Que eu tava a cem por hora…

Aceite isto aqui por favor, o o o

E jogue a multa fora! (TRIS)

MIL PALHAÇOS (Marcha rancho)

Quanto riso, oh, quanta alegria,

Mais de mil palhaços no poder

E o povo está chorando sem confete e serpentina

Não tendo o que comer!

DESABAFO DO SETÚBAL

Vem cá seu guarda,

Bota pra fora esse moço,

Está lá no palácio,

Metendo dinheiro no bolso

(Estribilho)

Foi ele, foi ele sim,

Foi ele que passou a perna em mim (BIS)

CABEÇAS VÃO ROLAR

Cabeças vão rolar

No ministério eu não sei se vai sobrar

Um só ministro da economia

Se a inflação continuar!

(Breque)

Deixa ela estourar!

MARCHA DA MAMATA

Chiquito eu quero,

Chiquito eu quero,

Chiquito, eu quero mamar!

Me dá um cargo, na prefeitura,

Me dá um cargo para eu prosperar!

26/02/1980 – Enterrem Meu Coração na Curva do Rio São Francisco

O “Velho Chico” enfrenta uma das maiores enchentes de sua história, deixando milhares de desabrigados e centenas de mortos junto às suas margens. O Rio São Francisco, chamado de “rio da unidade nacional”, já foi uma das principais artérias de comunicação do nosso País, ligando o sudoeste ao nordeste e integrando os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.

As razões dessas enchentes são inúmeras e complexas. Os estudiosos atribuem as cheias à grande intensidade de chuvas (é evidente), ao desmatamento das áreas onde ficam as nascentes do rio e ao despreparo dos governos estaduais, municipais e até do governo federal, para enfrentar algo tão elementar como um sobrecarga de chuvas.

Mas, os místicos estão atribuindo essas cheias a algo mais… Há quem fale em castigo do céu, em fim do mundo (vide a seita “Borboletas Azuis”) e em outras hipóteses. Alguns falam em castigo divino, por motivo do extermínio das populações indígenas que viviam ao longo do Rio São Francisco.

Que viviam, porque quase não há mais índios e nem seus descendentes ao longo do “Velho Chico”… E eles eram milhares, há pouco mais de uma centena de anos. Foi ao longo desse grande rio que se observou uma política genocida sistemática, contra os nossos índios.

Talvez o fato seja pouco conhecido, porque nosso cinema e nossa televisão nunca deram destaque a essa política de extermínio. O povo brasileiro, por influência dos filmes de “faroeste” e dos abomináveis “bangue bangues” da televisão, conhece melhor a história da destruição dos “sioux” e de outros índios norte-americanos do que a história da matança dos nossos aborígenes.

Nossos índios, mais pacíficos do que os da América do Norte, pouca ou nenhuma resistência ofereceram aos invasores ditos “civilizados”. Assim quase sem lutas, quase sem tiros, os índios foram sendo exterminados… A princípio a “fio de espada”, como relatou o Padre José de Anchieta; depois, a tiros e facadas desferidos pelos chamados “bugreiros”, indivíduos recrutados entre os piores bandoleiros, incumbidos unicamente de exterminar os silvícolas e suas famílias, para lhes tomar suas terras.

Por fim e mais recentemente, as doenças e o alcoolismo, aliados à prostituição e à miséria, acabaram por dizimar os últimos indígenas ainda existentes nessa fértil região. O São Francisco já foi chamado de “Nilo Brasileiro” e já teve a importante missão de fertilizar as terras adjacentes.

Hoje, “graças” à falta de previsão dos governos municipais, estaduais e do governo federal, “graças” ao desmatamento e à imbecilidade, o Rio São Francisco se torna uma verdadeira tragédia nacional…

Não sei se os místicos têm razão, ao atribuir os atuais acontecimentos a castigos do céu ou a expiação das maldades feitas contra os índios. Tenho certeza, porém, que se um chefe índio pudesse ainda manter sua cultura e tradição em meio a tanta aculturação e “civilização”, ele certamente pediria, como sua última vontade à morte:

“Enterrem meu coração na curva do Rio São Francisco!”

27/02/1980 – Ao mestre, com carinho

Nem me lembro que idade eu tinha, quando meu pai leu para mim o “Pif-Paf”, pela primeira vez… Para quem não conheceu, explico que o “Pif-Paf” era uma seção publicada no antigo “O Cruzeiro” e assinada por um certo Emanuel Vão Gogo. E isso ocorreu no início da década de 40.

Meu pai leu, porque eu ainda não sabia ler*, não devia ter mais de três ou quatro anos, e eu já ria com o humor fino, inteligente e sutil desse mestre das letras e das tintas. E como eu ria, ao ouvir seus pensamentos satíricos, sua filosofia diferente, seu estilo próprio e inconfundível… Seu traço não era bonito, era até feio**, para falar a verdade, aos meus olhos de criança; mas como era engraçado! As figuras de Vão Gogo, em si, já traziam aquele sabor original, aquela graça única que fariam dele, poucos anos mais tarde, um dos artistas mais conceituados do mundo.

Foi só alguns anos depois que fiquei sabendo o verdadeiro nome de Emanuel Vão Gogo… E que nome mais estranho: Millôr! Eu não conhecia (e não conheço até hoje) ninguém com um nome assim. Millôr Fernandes era original até no nome; era não… É, porque ele está vivo e, talvez, mais vivo e mais lúcido do que nunca!

Mais tarde, fiquei sabendo através do JH que ele deveria se chamar Milton, mas, por uma ironia do destino, o escrivão esqueceu-se de cortar o “t”, ao fazer o seu registro de nascimento; além disso, fez um “n” tão mal feito, no final do nome, que mais parecia um “r”. E, ao entrar para a escola primária, necessitando de uma certidão de nascimento, Milton descobriu que se chamava Millôr! Até ao nascer o homem fez graça, sem querer.

Ás vezes eu não entendia as piadas do Millôr, aliás, Vão Gogo… Eu era criança e seu humor sempre foi adulto e destinado a pessoas inteligentes e bem informadas. E assim fui crescendo e aprendendo a fazer graça, só de ler sua seção no “O Cruzeiro”. Um dia, para minha (e de todos) surpresa, após publicar uma genial sátira de Adão e Eva no Paraíso, vi o Millôr ser despedido daquela revista.

“O Cruzeiro” nunca mais deve ter sido o mesmo. Nem sei, porque nunca mais li essa publicação, após a saída do Millôr. Fiquei revoltado ao saber que o motivo de sua dispensa foi justamente a sátira da criação do mundo. Acho que foi ali que fiquei sabendo que havia uma coisa muito feia, chamada censura (no caso posterior, pois algum imbecil julgou que a sátira era uma ofensa às crenças religiosas de alguém).

Por sorte, isso não bloqueou a carreira desse genial humorista, muito pelo contrário. Ele prosseguiu na luta, lançou uma revista chamada “Pif-Paf”, trabalhou numa outra, chamada “Urubu”, depois no “O Pasquim” e na “Veja”… E agora está conosco no JH.

Imaginem, Millôr no JH! E, o que é melhor para mim, ao meu lado, na mesma página! Meus olhos ficaram cheios de lágrimas (de alegria), quando abri a edição do dia 15 de fevereiro e vi o Millôr junto comigo e com os “Cronistas de Campinas”… Só tive a felicidade de conhecer esse gênio incomparável na casa dos amigos comuns, Laís e Julião, em 1976. Depois, fui revê-lo em agosto de 1979, no Salão de Humor de Piracicaba, onde ele era convidado de honra. Mal tive oportunidade de trocar algumas palavras com ele, nessas ocasiões e, por isso, quero agora lhe dizer, por escrito, o que não pude fazer de viva voz: muito obrigado pelo muito que tem feito pelo humor brasileiro! Muito obrigado por ter me ensinado, através de suas obras a fazer os outros rirem… Muito obrigado, mil vezes obrigado, Mestre!

* Millôr não e velho, eu é que sou de outra geração; ele escreve profissionalmente desde a juventude.

** Millôr faz traços rudimentares de propósito; seus desenhos e quadros são magníficos.

28/02/1980 – Os três porquinhos

Era uma vez três porquinhos: Prático, Cícero e Heitor, que morriam de medo da Emenda Lobão. Para eles, isso representava uma tremenda ameaça, pois o Lobão queria, com essa Emenda, restabelecer as eleições diretas no País das Fadas, onde moravam os três porquinhos.

E, se essas eleições diretas acontecessem realmente, os três porquinhos e muitos dos seus amigos poderiam perder uma série de regalias, mordomias e outras “ias”, que eles haviam acumulado através de mais de 15 anos de lutas. O povo daquele país não iria votar nos três porquinhos e nem nos seus amigos do Partido Defensor dos Suínos, do qual eles faziam parte.

Foi então que os três porquinhos resolveram tomar medidas efetivas contra o Lobão e sua Emenda. Prático, o mais velho e mais inteligente dos três, foi o primeiro a se manifestar contra a emenda. “Eleições diretas? – disse ele – Se depender de mim, nunca acontecerão!”

Cícero, hábil planejador, sempre apoiava as opiniões do chefe e, a partir desse momento, começou a planejar um meio de destruir a Emenda Lobão. Heitor, “o justo” começou a manipular os meios legais para impedir que essa emenda fosse aprovada no congresso do País das Fadas.

Prático havia construído uma verdadeira fortaleza no planalto onde ele morava; ali ele pretendia resistir à Emenda Lobão, até o fim. Cícero e Heitor, menos hábeis, nem por isso deixavam de estar com o chefe em todas as situações. Com a ajuda dos outros dois, Prático armou mil armadilhas contra o Lobão, junto à sua fortaleza do planalto. Se o Lobão fizesse qualquer tentativa de aprovar a sua Emenda, cairia fatalmente numa dessas esparrelas…

Todos os dias eles apareciam na televisão semi-oficial do país deles, chamada de “Rede Bobo”, onde desafiavam o Lobão cantando a musiquinha “Who is Afraid of the Big Bad Wolf”? cujo título poderia ser mal traduzido por “Quem tem medo do Lobão Mau”? Com isso, eles procuravam incutir na cabeça do povo do País das Fadas (e, segundo as más línguas, das marmeladas), que o Lobão é que era mau, nessa história toda.

O Lobão não se atemorizou com as medidas tomadas pelos três porquinhos, foi até à fortaleza deles e soprou e bufou, e bufou e soprou. Não sei contar se ele conseguiu ou não derrubar a fortaleza deles, pois a história ainda não terminou.

O que eu sei é que o Lobão, no caso, tem todo o apoio do povo e, se dependesse dele, sua emenda seria aprovada e a democracia plena restabelecida. Pena, mas pena mesmo, é que o povo não manda absolutamente nada no País das Fadas… E das marmeladas.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

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Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – Janeiro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

04/01/1980 – Um País Que Vai pra Frente

Ao abrir um jornal, deparei logo com uma boa noticia: o dólar caiu! Foi desvalorizado! Agora, a moeda norte-americana estava valendo menos! Na segunda página do jornal, nova surpresa: a indústria nacional estava indo às mil maravilhas, no período de trinta dias não ocorreu nenhuma falência ou concordata. As exportações, para meu espanto, cresceram tanto que superaram em muito as importações, equilibrando a balança comercial. Não há mais dívida externa! Tudo pago!

Na página de política, um espanto! Ministros dando entrevistas, em vez do famoso “nada a declarar”… E que entrevistas! Todos eles tratando bem a imprensa, sem fazer comentários irônicos nem deboches. Nenhuma autoridade gritou com os jornalistas e nem mandou botá-los na rua! Nenhuma máquina fotográfica foi quebrada pela policia e nenhum repórter foi preso!

A inflação foi detida, afinal! Os juros estão mais baixos e há dinheiro à vontade nos bancos. Quem quiser empréstimos, poderá consegui-los em menos de 24 horas. Os alimentos, chegando em larga escala aos supermercados e feiras-livres, já podem ser adquiridos a preços justos. Não há mais atravessadores e os comerciantes que escondiam alimentos foram colocados na cadeia.

Nenhuma greve nas últimas 72 horas! Aliás, nenhuma greve nos últimos tempos, pois os trabalhadores estão satisfeitos com a política salarial do Governo. Os reajustes recentemente conseguidos aumentaram o poder aquisitivo da classe trabalhadora e a classe média está ascendendo socialmente. Qualquer família dessa classe para cima já tem, no mínimo, dois automóveis.

Ah, não vai haver aumento de combustíveis. A produção nacional de petróleo, além de suprir todas as necessidades do País, ainda vai trazer milhões de dólares em exportações! É possível até que, a partir de janeiro, a gasolina esteja mais barata nos postos que, aliás, vão abrir todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados.

Quanto a eleições, leio que elas serão diretas em todos os níveis, não haverá adiantamentos nem prorrogações de mandatos. Nenhum biônico será aceito, nem no Senado, nem na Câmara, nem em parte alguma! O povo, feliz com a atuação honesta e eficiente dos governantes, votará em massa no partido do Governo.

As charges políticas são de causar espanto! Nenhum cartunista metendo o pau nos governantes! Na verdade, as charges são até a favor! Acho que os artistas, bem como os jornalistas em geral, estão muito satisfeitos com as novas conquistas da classe.

Ah, finalmente encontro alguma coisa que não vai bem: está faltando água! Os poços – recentemente perfurados só deram petróleo e já há seca em várias regiões do País. O Governo, depois de vários estudos, está pensando em importar água para suprir a falta generalizada. É possível que seja necessário importar água de países onde ela existe em larga escala, tais como o Brasil, por exemplo.

Ah, sim, claro… Ia me esquecendo de dizer: o jornal que eu estava lendo não era daqui não, era do Iraque.

05/01/1980 – Superfluidades Ostentatórias

Gostei do discurso de fim de ano do João; ele foi muito humilde ao afirmar que vai “continuar no esforço quotidiano de resolver problemas e consertar erros”… Até que enfim surge, um governante brasileiro para admitir que existem erros no governo! Sim, porque na gestão dos generais presidentes anteriores, o governo era como o Papa: infalível.

Gostei também daquele pedaço onde ele disse: – “De ninguém exijo renúncias ao direito de divergir ou criticar. A todos, porém, encareço distingui-lo da malícia e da desinformação. Não debitar a eventuais desacertos os efeitos de circunstancias e decisões de além-mar, cujos dados não nos pertencem”. Traduzindo, isso é uma advertência à Imprensa falada e escrita de que, toda vez que ela apontar erros, eles serão imediatamente atribuídos aos árabes, esses danadinhos que fazem questão de cobrar caro pelo seu rico petrolinho. A Imprensa, penhorada, agradece.

Ele disse, ainda: – “A ninguém prometo fins de mês sem dificuldades” – o que quer dizer que, para o povo, as dificuldades continuarão ainda maiores do que em 1979.  Até ai, tudo bem… Eu só queria saber quem é que, no Brasil de hoje, só tem dificuldades nos fins de mês! O nosso povo tem tido dificuldades todos os dias, até mesmo no dia 10, que antes era chamada de “dia de alegria de pobre”, por ser o dia em que a maioria das firmas faz o pagamento a seus assalariados. Todavia, hoje o dinheiro do pobre está tão curto, que acaba no dia 10 do mesmo, que deixou de ser alegre…

Mas eu gostei, no duro, daquele pedaço em que o João faz um pedido e um convite: “A todos, e em especial aos mais abandonados, convido a dar o exemplo de dispensar as superfluidades ostentatórias. E de todos peço sua parte, para a todos assegurarmos parcela mais equânime na distribuição da riqueza nacional.” Jóia! Obra prima da retórica em língua portuguesa!

Eu só queria saber quem é que redige os discursos do João. Seja lá quem for, é um gênio da pena! “Superfluidades ostentatórias” é, sem dúvida, a mais bela frase já redigida até hoje para significar luxo, esbanjamento, ostentação, carrão importado, whisky escocês e viagens pelo mundo. Mas, acima da beleza na forma, está a riqueza no conteúdo da frase. Quer dizer, então, que as mordomias vão acabar! . Maravilha, João, você está de parabéns! É isso aí, nada de ministros terem carrões de chapa fria esperando, com motorista, na porta da boate. Nada de esposas de governadores biônicos irem às compras nas boutiques também nos carrões com motorista e igualmente de chapa fria, como andou acontecendo por ai. Nada de viagens de avião pra todo lado, por conta do governo (ou seja, do povo que paga impostos), para angariar votos para o Arenão, para abraçar velhos correligionários, assistir jogos de futebol e cumprimentar parentes casadoiros! Nada de governadores, que não foram eleitos pelo povo, saírem pelo mundo em visita á terra de seus ancestrais, em licença remunerada e esbanjando seus ricos salários, enquanto a população de seu Estado passa fome.

Falou e disse, João. Agora só falta tomar as medidas necessárias para que o que você disse no discurso de fim de ano não fique apenas no papel. Manda brasa, João, abaixo as “superfluidades ostentatórias”!

08/01/1980 – Maluf das Arábias

Não sei se eu já falei a vocês sobre um vizinho meu, o Seu Maluf, que mora numa mansão que mais parece um palácio, onde ele tem uma piscina (dizem) cheia de petróleo.

Pois não é que o Seu Maluf resolveu fazer uma viagem às Arábias, terra dos seus ancestrais, se eu não me engano? Um belo dia, o Seu Maluf juntou a mulher, a filha, a sogra, 37 cupinchas e 32 empregados, papagaio, cachorro e curió e resolveu se mandar, carregando 17 malas só de bagagem particular! Parece que eram objetos que ele ia tentar vender por lá…

A vizinhança, ao saber que o Seu Maluf ia partir, resolveu fazer a maior festa de despedida, com rojões, bombas, chope, engradados de cerveja, salgadinhos e até bolo com velinhas… Um dos vizinhos, que é professor, foi correndo ao bar da esquina, gritando que ia pagar um gole prá todo mundo!

Aí, o bairro virou um alvoroço… Apareceu nego de tudo que foi lado, a fim de participar da festa de despedida do Seu Maluf. Até mesmo o dito cujo resolveu aparecer, lá pelas tantas, para agradecer à festa que os vizinhos estavam fazendo em sua homenagem.

O Seu Maluf foi entrando pelo bar, com aquele seu jeitão de sempre, dando tapas nas costas de uns, apertões violentos de mão em outros e fazendo a maior zorra.

– Meus prezados correligionários! – foi logo dizendo ele – não sei como agradecer tanta bondade da parte de vocês, promovendo esta festividade em homenagem à minha partida!

Um negão olhou com o rabo dum olho, catou um copo de marafa, deu o gole do santo e depois disse, em alto, claro e bom som: – Qual é, ô meu? A festa ainda num começou!

O Seu Maluf ficou meio desarticulado, mas não perdeu a pose. Deu um sorriso amarelo e retrucou: – E… Tudo bem! Mas é que eu vou partir amanhã logo cedo e, como preciso me recolher, gostaria de fazer já o brinde e depois me despedir de todos!

Foi aí que o professor tomou um gole daquela que derrubou o guarda, cuspiu no chão e disse: – Não repare, não. Seu Maluf… Mas é que a gente resolveu iniciar a festa só depois da sua partida!

Ò Seu Maluf virou as costas e saiu ventando do boteco. No dia seguinte, bem cedinho, ele se mandou do bairro, com toda a sua trupe… Aí, foi aquela festança! O povo cantou e dançou, estourou rojões, encheu a cara de cerveja, chope e cachaça, na maior das comemorações.

Foi então que o professor limpou a garganta e disse – Calma, minha gente! Não se alegre tanto, que o homem pode voltar!

Mas, quem nos brindou com uma frase do mais alto gabarito, foi um criolinho raquítico que, ao ouvir o barulho de um avião passando sobre o bairro, a grande altura, gritou: – Lá vai uma superfluidade ostentatória!

09/01/1980 – Salve o Ano do Macaco!

1980 é o ano do macaco, no calendário chinês.  Confúcio já dizia:

– “O macaco é mais sábio que o homem!” – De fato, os nossos primos símios vivem sem precisar trabalhar, moram em árvores e comem bananas, enquanto que milhões de seres humanos trabalham demais, moram em barracos e não têm o que comer, principalmente em nosso País.

Os chineses acreditam que cada ano é simbolizado por um animal, que sintetiza as influências astrológicas para aquele período. Assim, no ano do tigre as guerras se sucedem, no ano do dragão o mundo passa por convulsões, no ano do coelho impera o medo, etc.

Um amigo meu, muito gaiato, ao saber disso chegou à grande conclusão que, no ano do macaco, muita gente boa cai do galho!

Acho que ele tem razão. O ano já começou com a declaração do ministro Karlos Rischbieter de que, se não houver uma nítida queda na inflação, todos os ministros da área econômica devem entregar seus cargos ao Presidente da República.

Realmente, uma inflação próxima dos 100%, como ocorreu em 1979 e deverá ocorrer em 1980, é de derrubar não só Ministérios como Governos inteiros. Foi uma inflação desse tipo que derrubou o presidente João Goulart, em 1964.

O ministro Delfim Neto, principal coordenador e planejador da área econômica, reagiu às declarações de Karlos Rischbieter como de hábito, ou seja, declarando à imprensa que ele “nada tem a declarar”!

Uma fonte não identificada do Ministério do Planejamento, todavia, declarou que “o cargo de ministro de Estado está sempre à disposição do Presidente da República e a colocação do ministro Karlos Rischbieter pode prestar-se à interpretação de que, antes de julho, o Presidente não poderá alterar sua equipe da área econômica e, mesmo a partir daquele mês, somente poderá fazê-lo se o Governo estiver perdendo a batalha da inflação”.

Traduzindo em miúdos, ou o Ministério acaba com a inflação, ou a inflação acaba com o Ministério. Delfim, precavido como sempre, já deve estar tomando medidas para conter os índices inflacionários. Ele é muito bom em manipular índices, como todos sabem. A exemplo do que já fez com a Correção Monetária, da qual ele, numa penada, retirou os índices de reajustes dos derivados de petróleo, Delfim deverá retirar dos índices da inflação os reajustes do preço da carne, do leite, do pão, do arroz, do feijão, do óleo comestível etc. Desse modo genial, teremos uma inflação muito menor em 1980, beirando o zero absoluto.

1980 é o ano do macaco e, assim sendo, se esse animal sintetiza as influências astrológicas, acredito que deverá ser um ano muito interessante. As macaquices virão por ai, com certeza. O público brasileiro deverá se preparar para assistir a momices e palhaçadas de todo tipo… Quero ser mico de circo se isto não ocorrer.

O pior é que muitos dirão que “o macaco tá certo”, outros darão explicações do tipo “esta é a versão do macaco” e assim por diante.

Pede-se ao público que não traga amendoins.

10/01/1980 – O Playcenter chegou!

O Playcenter chegou à cidade, com novas e inúmeras atrações, para divertir adultos e crianças. Entre os muitos divertimentos apresentados, nós destacamos os seguintes:

Trem Fantasma – Toma-se o Trem da Alegria, dirigido por P. Maluf, e entra-se num negro túnel, cheio de fantasmas. Ali encontramos o Fantasma da Inflação, do AI-5, da seca do Nordeste, da fome, da mortalidade infantil e muitos outros horrores. O único que consegue assustar, no duro, é o fantasma do racionamento, que se ergue da tumba diante de todos.

Roda Gigante – Dirigida por D. Neto, essa roda vai rodando, rodando… E a gente, quando pensa que está subindo, repara que está descendo à toda. D. Neto não sabe dirigir muito bem a roda, pois o negócio dele são os números. Acredita-se que ele será transferido para a tômbola, em breve.

Casa dos Monstros – O lugar mais sinistro do parque. A decoração lembra os porões da repressão e ali encontramos inúmeros monstros, tais como os matadores de Vladimir Herzog, de Manoel Fiel Filho, de Bacuri e muitos outros. Esses monstros usam capuzes, não se sabendo quem são. Saímos da “Casa dos Monstros” com a certeza de que eles ficarão impunes.

Montanha Russa – Dirigida por L. Prestes, recém chegado de Moscou. A Montanha é cheia de altos e baixos e quem se aventura a passear nela fica numa insegurança danada. A gente sente que pode cair a qualquer momento, ou que a Montanha pode ser fechada pelas autoridades, durante a função. A Montanha Russa é um autêntico calafrio na espinha.

Labirinto – E a parte mais confusa do parque. Quem entra ali, acaba se perdendo pelos corredores. Uma placa indica PT e a gente vai ver, está no PDB; vira à esquerda, passa pelo PC, que é um corredor sem saída. Volta, entra no PDS, cai num buraco. Sai dali e se enrosca no PMDB, no PT do Lula etc. Ninguém sabe como sair desse labirinto.

Cine 180 – Uma moderníssima tela onde se projeta um filme em 180°. A programação, todavia, não é das melhores: Apocalipse – Com J. Figueiredo, com muita violência – e Avalanche, com C. Cals, apresentando uma avalanche de aumentos. Todo mundo sai deprimido do Cinema 180. Com a inflação que vem por aí, logo será Cine 360.

E, para encerrar a lista, a maior atração do Playcenter – o famoso King Kong! Trata-se de imenso gorila acorrentado, apelidado pelo povo de “Extrema Direita”. O gorila mexe os braços, abre e fecha a boca, dá rugidos pavorosos, revira os olhos e baba de ódio. O povo sente calafrios só de pensar se, por um acaso, o monstruoso gorila conseguir se soltar… Vai ser um corre-corre generalizado e o pânico tomará conta do parque.

Fazemos os mais sinceros votos de que o gordão continue acorrentado, para todo o sempre!

11/01/1980 – Pedras na Geni

“Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir,/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni!”

De repente, não mais que de repente, esta nova música de Chico Buarque de Hollanda (parte integrante da “Ópera do Malandro”) foi tomando conta do Brasil, sendo tocada a todo momento nas rádios, em AM e FM.

Também não mais que de repente, “Geni e o Zeppelin” sumiram das paradas. Há vários dias que ligo o FM e não escuto mais tocar o curioso refrão que manda jogar pedras e outros objetos escatológicos na Geni…

Vozes puritanas se erguem, também repentinamente, de vários pontos do País, protestando contra a crueza da letra dessa bonita música. Denúncias de que a composição seria obscena levaram o falecido (e já saudoso) ministro Portella a levar o disco para casa, a fim de ouvi-lo e decidir se as denúncias tinham ou não fundamento. Infelizmente, não houve tempo para que ele tomasse qualquer decisão.

Para quem não teve a oportunidade de ouvir, “Geni e o Zeppelin” narra a história de uma mulher desprezada pela população de uma cidade, até que surge nos céus um Zeppelin prateado, um dirigível armado de potentes canhões, que passa de bombardear a cidade. A população, em pânico, não sabe o que fazer, até que o comandante do Zeppelin de apaixona pela Geni…

Descendo da nave, o comandante resolve parar o bombardear a cidade, se a Geni aceitar passar uma noite de amor com ele. Em romaria, a população passa a beijar a mão da ex-mulher desprezada, rogando para que ela aceite a proposta do guerreiro. Até o bispo, “de olhos vermelhos”, o prefeito, “de joelhos” e o banqueiro, “com um milhão’…

Tantos foram os pedidos, que Geni aceita a proposta e a cidade é salva. Todavia, nem bem o Zeppelin prateado some entre as nuvens, na manhã seguinte, todo o povo volta a hostilizar a Geni, de maneira ainda pior do que antes: – “Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir,/ Ela dá pra qualquer um…/ Maldita Geni!”.

Certo, a letra é rude, crua, contém termos chocantes e narra uma história dolorosa, que nos faz pensar muito.

Mas daí a proibir a “Geni e o Zeppelin” de tocar no rádio, vai uma grande distância.

Será que voltamos aos tempos negros do AI-5? Será que um imenso Zeppelin ameaça o Brasil? Ou será que algum censor de gaveta viu na Geni o símbolo de um povo espezinhado, desprezado e explorado?

Afinal, a música foi ou não proibida? Se foi, quem determinou essa proibição? Se não foi, alguma coisa está muita errada, ainda, no Brasil-da-abertura, no Brasil-da-anistia-do-João no Brasil-da-democracia, no Brasil-em-que-todos-sonhamos viver um dia…

Chico Buarque, esse extraordinário compositor deu mais uma vez uma prova de seu talento, não só em fazer músicas de alta categoria, como também em balançar as estruturas reacionárias existentes em nosso País. Aqueles que tentam impedir a execução dessa obra prima em público, tenho certeza, gostariam mesmo é de atirar pedras no Chico.

13/01/1980 – Evoé, Momo!

Com a aproximação do carnaval, os adoradores de Momo Primeiro e Único já iniciaram os grandes bailes pré-carnavalescos, que este ano prometem ser realmente animados.

Baile da Saudade – Animado por J. Quadros e seu conjunto “As Vassouras Usadas”. Entre uma valsa e outra, o Sr. Quadros declama poesias, tais como: – “Ai, que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida…” – um programa regado a caninha 51, whisky, vinho e cerveja. Porre na certa!

Noite das Melindrosas – Sob a direção de T. Neves, A. Peixoto, M. Pinto e outros. Abrilhantada pelo conjunto “Os Adesistas”. Ah, desista de ir quem não tiver compromisso. O baile é só pros compromissados, tá?

Noite das Odaliscas – P. Maluf e seu conjunto “Os Puxa-Sacos”, recém chegados de turnê pelas arábias, garantem o sucesso desta noite pré-carnavalesca. Haverá concurso de fantasias e já se sabe que até o Sr. Ueki, famoso folião, deverá comparecer fantasiado de “Barril de Petróleo”, depois de seu “sucesso” no baile de Majnoon, no Iraque, que foi uma loucura! P. Maluf, porém, vai se apresentar também no concurso, vestido de “Torre de Petróleo”, devendo faturar o prêmio. Esse homem rouba todas as cenas!

Baile do Canecão – Abrilhantado por M. Simonsen, K. Rischbieter e o conjunto “Cai-Cai”. Essa turma vai encher o Canecão! Quem quiser afogar as mágoas aproveite, encha o caneco, já que a panela do pobre ninguém enche.

Noite do Confete e Serpentina – Sob a direção de A. Delfim e do conjunto “Delfin’s boys”, a noite promete ser das mais animadas. Vai haver batalha de confete e dizem que, em matéria de batalha, Delfim ganha todas. Ele deu fim em todos os seus adversários… E está planejando vencer outros!

Uma Noite no Olimpo – O baile dos deuses! J. Figueiredo, G. Couto e Silva e os “Golbery’s boys” prometem botar pra quebrar… Só não sabemos quem eles vão quebrar. O maestro J. Figueiredo prende a atenção de todos e arrebenta com qualquer esquema tradicional. O único problema é que, nesse baile, os donos da festa são os únicos que se divertem.

Noite da Porca e do Parafuso – O famoso Lula e seu conjunto “Trabalho Nego” prometem fazer uma verdadeira festa popular. Só que o povo não tem muito com que se divertir. Lula, por outro lado, diz que não é candidato nas próximas eleições do Clube Operário. O homem tá com um parafuso a menos, minha gente! Vai em frente, Lula, manda ferro nessa turma!

Esperamos que todos se divirtam muito neste carnaval e que, em breve, o povo tenha mesmo algum motivo pra festejar! Evoé, Momo!

15/01/1890 – O Risco é Nosso

Esta eu não entendi: a Petrobrás devolveu os poços de Majnoon e Nahr Umr, onde conseguiu achar petróleo em abundância, ao Iraque! Em troca, vai receber 600 mil barris diários de petróleo, nos três primeiros meses do ano. Além disso, o Iraque se comprometeu a entregar 160 mil barris diários ao Brasil, durante 13 anos, a preços oficiais.

Foi um bom negócio? O ministro Cesar Cals, das Minas e Energia, acha que sim. Eu acho que não. O presidente da Petrobrás, Shugiaki (Shegiaki, Shigiaki, sei lá) Ueki também deve achar que sim, pois fechou o negócio. Eu continuo achando que não.

Nós tínhamos um contrato de risco com o Iraque, para procurar petróleo em dois poços onde os técnicos iraquianos, ingleses e norte-americanos já haviam tentado e falhado, em outras ocasiões. Além disso, esses poços ficam em regiões de litígio entre o Iraque e o Irã, o que torna as coisas ainda mais difíceis e faz do achado da Petrobrás uma verdadeira proeza.

Antigamente falava-se em “negócio da China”, hoje deveríamos chamar uma operação desse tipo de “negócio do Japão”, em homenagem aos ancestrais do Ueki. O “japonezinho do Geisel”, como o Chico Anísio o chama, acaba de trocar dois poços de petróleo no Iraque por apenas 600 mil barris/dia do precioso liquido, durante apenas 3 meses!

Apenas, porque a segunda cláusula do contrato, o fornecimento de 160 mil barris por dia, será feito a preços oficiais e não a troco do petróleo dos dois poços. Cals acha bom negócio, pois diz que “esta última quantidade corresponde àquela que a Petrobrás teria acesso, nos campos iraquianos”. Eu continuo achando péssimo negócio…

Vamos pagar por um petróleo a que fazíamos jus, minha gente! Vamos pagar por um petróleo que já era nosso! Ueki explicou que, “com o aumento do fornecimento de petróleo do Iraque ao Brasil, poderá entrar em operação a refinaria de São José dos Campos”. E que essa refinaria, por ser mais moderna que as demais da Petrobrás, aumentará a eficiência do processamento do petróleo, “reduzindo custos operacionais e com maior rendimento”.

“Não precisa explicar, eu só queria entender”! – Como diria o Sócrates, famoso macaco da televisão – Eu acho que, com o petróleo dos dois poços continuando nosso, daria para colocar em operação a refinaria de São José e mais umas vinte!

Ueki ainda disse que os contratos de risco firmados pela Petrobrás com companhias petrolíferas estrangeiras poderão também sofrer alterações, a exemplo do que ocorreu entre Brasil e Iraque, “se ocorrer a descoberta de algum campo gigante”. Pois sim, seu Ueki! Duvide-o-dó que alguma multinacional do petróleo vá abrir mão de um achado fabuloso, em troca de meros 600 mil barris diários por três meses. Duvido e faço pouco!

O negócio do Iraque deve ter sido bom para alguém, mas certamente não o foi para o Brasil. O tal fornecimento por 13 anos, a preços oficiais, pode cair a qualquer momento, se o Irã invadir o Iraque o coisa semelhante, perfeitamente possível de acontecer no conturbado centro-sul da Ásia.

Quanto aos contratos de risco que temos no Brasil, com as multinacionais, eu não sou profeta, mas tenho absoluta certeza de que, “se ocorrer uma descoberta de algum campo gigante”, ninguém vai abrir mão de coisa alguma. As multinacionais ficarão com o petróleo e nós, com o risco.

É isso aí, minha gente… O RISCO É NOSSO!

16/01/1980 – Maluf para presidente

O Seu Maluf, em sua viagem pelas arábias, não fez por menos: lançou sua candidatura a presidente! Foi durante a visita à Universidade do Petróleo, em Dahram, na Arábia Saudita…

Na verdade, foi o reitor da Universidade quem sugeriu: – “O senhor é um bom político, por que não se candidata a presidente?” – Ao que o Seu Maluf respondeu que, antes de mais nada, precisava achar petróleo em São Paulo. O reitor lhe deu todo apoio, então, afirmando estar disposto a ajudá-lo a realizar seus objetivos políticos.

Eu também acho que o Seu Maluf deveria ser presidente, pois não há dúvidas de que ele tem qualidades mil para tanto. Vejam só que pérola, que jóia rara da autoria dele foi publicada pelo jornal saudita “Al Jazi-rah”, durante a sua visita: – “Não há campo para o comunismo no Brasil, porque o povo é esclarecido e tem fé em Deus!” – Ou esta outra, também lapidar: – “Nossa posição, em relação à causa árabe, é de apoio em todas as áreas!” – E, finalmente, esta: – “Minha missão é estritamente comercial!”

Os sauditas parecem estar mesmo dispostos a levar o Seu Maluf à presidência. O ministro do Planejamento (não o daqui, o de lá), Hijscham Maszer, em conversa informal com o Seu Maluf, chegou a declarar que, se pudesse, votaria nele. O Seu Maluf corou e agradeceu, comovido…

Podem falar o que quiserem, digam o que disserem, mas ninguém pode negar que o Seu Maluf é um político muito hábil. Ele montou um esquema muito forte, pra chegar à presidência, sem que ninguém notasse.

Já que o petróleo está valendo uma fortuna e está nas mãos dos árabes, nada mais lógico do que se aproveitar de uma ascendência árabe, para contar com o apoio daqueles que detém em suas mãos a mais valiosa e bem usada arma de chantagem dos últimos tempos, o petróleo.

Alem do mais, o Seu Maluf já provou que é muito bom cavaleiro, depois que o João pintou na jogada. O Seu Maluf tratou de praticar hipismo, com maestria. Se, para ser presidente, cavalgar é preciso, ele cavalga bem. Por falar em maestria, ele também provou que tem mãos leves para tocar piano, conseguindo aparecer ao lado de pianistas famosos e sob a regência de Isaac Karabichewsky, nada mais nem menos do que o maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira!

O homem é mesmo um artista pois, após usar seu prestígio político para levantar vultosos empréstimos para o sogro, dono de tecelagem, tirou o seu da seringa quando o sogro foi à falência, repetindo: – “Não sou e nunca fui diretor dessa firma!”

Estou com o Seu Maluf e não abro! E desde já lanço a campanha: Maluf para presidente… Da Arábia Saudita!

17/01/1980 – Pinóquio

Era uma vez, há muitos anos, um velhinho chamado João, que vivia fabricando brinquedos. Ele fazia uns brinquedos muito bonitos, mas que não funcionavam.

Certa vez, ele fez um brinquedo chamado “Abertura”, que ficou muito mal feito; depois inventou um outro, denominado “Democracia”, que vivia quebrado; outro, que ele chamou de “Anistia”, ficou pela metade…

O velhinho vivia muito triste, porque não tinha filhos. Um dia, ele criou um boneco de pau, feito com um tronco e pinho, dando-lhe o nome de Pinóquio.

O boneco não ficou muito bonito, pois parecia muito gordo. Entretanto, o velho João gostava dele assim mesmo, fazendo de conta que Pinóquio era seu filho.

Certa noite, uma fada azul que ia passando viu o velho João brincando com o boneco de pau e ficou com muita pena dele. Por meio de suas artes mágicas, transformou a madeira inerte numa coisa viva.

Que surpresa teve o bom velhinho! Pinóquio começou a andar, a pular, a dançar feito gente. Mas, não era gente de verdade… Pinóquio tinha vida, mas continuava feito de madeira.

A alegria de João, ao ver que agora tinha um filho de verdade (ou quase), não durou muito. Pinóquio, nem bem se deu por gente, começou a mentir pra burro! Como mentia o boneco… Ele fazia as maiores artes, comia tudo que tinha na geladeira do João, punha os empregados da oficina de brinquedos na rua, passava todo mundo pra trás, um espanto!

A fada azul mandou que o Grilo Falante, um bichinho muito esperto, cuidasse do Pinóquio. O Grilo bem que tentou, bem que procurou controlar o que o boneco fazia, bem que lhe deu bons conselhos, mas nada adiantou. O Grilo, desesperado, tratou de contar ao João tudo que o Pinóquio fazia. O boneco de pau, porém, gritou e chorou, afirmando que o Grilo é que era mentiroso, que inventava intrigas contra ele e outras coisas assim.

Pinóquio até apelidou Grilo de “imprensa”, porque ele contava tudo. E acusou-o de todos os males que aconteciam na oficina. O pior é que o João acreditou no boneco e fechou as portas da sua casa para o Grilo.

A fada azul, quando soube, ficou brava e disse ao boneco: – Pinóquio, se você se comportar bem e falar a verdade, vai virar gente… Mas, se continuar mentindo desse jeito, seu nariz vai crescer! E você pode até ser transformado num burrico, com grandes orelhas e rabo!

E o boneco jurou que não mentiria mais, que não colocaria mais os empregados do João na rua, para ficar mandando sozinho na oficina. Todavia, nem bem a fada virou as costas, Pinóquio voltou a dizer mentiras.

Ele passou a controlar todas as contas e despesas da oficina do velho João. E, quando o velhinho perguntava a quantas iam as contas e as dividas, Pinóquio mentia sempre, dizendo que tudo ia bem, que tudo estava sob controle e que todas as dividas seriam pagas.

Pinóquio continuou dizendo mentiras e se tornando cada vez mais poderoso. Mentiu ao João, aos empregados da oficina, ao povo da vila e ao país inteiro onde o João morava…

Tantas ele fez, que a boa fada azul perdeu a paciência e o castigou, fazendo seu nariz crescer, além de presenteá-lo com orelhas e cauda de burro. Mas Pinóquio não tomou jeito e continua mentindo até hoje… Em vez de virar gente, preferiu continuar sendo um grandessíssimo cara de pau.

18/01/1980 – O risco é nosso – II

O Brasil está em leilão! Quem quiser descobrir petróleo em nosso País, seja empresa nacional ou estrangeira, pode se habilitar…

Não foi o ministro dos Absurdos quem disse isso, e sim o ministro das Minas e Energia, César Cals! Justamente quem deveria zelar pelas nossas minas e pela nossa energia… Segundo ele, com exceção das áreas que forem delimitadas pela Petrobrás e que estão incluídas nos seus programas de prospecção, todo o resto do território brasileiro será colocado à disposição das empresas nacionais ou multinacionais.

É o fim do monopólio estatal do petróleo, é o fim da Petrobrás como baluarte das nossas riquezas, é o fim da picada! Desde 1964 que os sucessivos governos da Revolução vêm entregando o Brasil aos pouquinhos, ora um pedaço da Amazônia, ora uma parte de Goiás e Mato Grosso, ora o ferro e o xisto, ora as areias monazíticas. César Cals, todavia, acaba de entregar o que ainda restava.

E é evidente que ele não está agindo por conta própria; é claro que se trata de uma política do atual Governo, de facilitar o ingresso das multinacionais em todos os campos, desde a agricultura até o petróleo.

No Rio, o superintendente da área de contratos de risco da Petrobrás, geólogo Lauro Vieira, reafirmou que, em caso de descoberta de um grande poço de petróleo, semelhante aos descobertos pela Braspetro no Iraque (e depois abandonados a troco de uma mixaria de petróleo, por apenas três meses), como Majnoon e Nahr Umr, estará implícita a renegociação de qualquer contrato de risco.

– “Embora não seja cláusula explícita, que permita a renegociação do contrato no caso das grandes descobertas – disse ele – está na cabeça de todos os negociadores que será inevitável que isso aconteça”. Na cabeça, seu Lauro? Pois sim… Cláusula de contrato tem de estar é no papel, e qualquer criança já sabe disso! Multinacional nenhuma vai fazer como fizemos com Majnoon (que quer dizer “loucura”, em árabe), pois ninguém está precisando de favores nossos, tal como nós precisamos dos favores dos iraquianos. Se alguma delas encontrar petróleo em nosso País, vai ficar com tudo e dar ao Brasil somente o que estiver no contrato, ou seja, quase nada.

Os contratos de risco não trazem nenhum beneficio ao Brasil, pois não ficaremos em melhor situação, em termos de petróleo, nem mesmo se uma multinacional encontrar um poço gigante, que tenha reservas recuperáveis em torno de 100 milhões de barris! A nossa parte, nos achados eventuais de petróleo, nesses contratos de risco, é uma bagatela irrisória.

Tal como já afirmei anteriormente, nesta coluna, as multinacionais ficarão com o petróleo brasileiro, e nós com o risco.

E, desta vez, o monopólio estatal será riscado do mapa!

19/01/1980 – Os Meninos do Brasil

Há algum tempo atrás eu li um excelente livro de Ira Levin, “Os Meninos do Brasil”, que contava a história fabulosa de uma experiência neonazista em nosso País… Por meio de um processo de reprodução em laboratório, cientistas criavam centenas de filhos de Hitler, uns Hitlerzinhos de proveta que deveriam dar continuidade à nefanda obra do pai, falecido na Alemanha (segundo crença geral) em 1945.

Felizmente, trata-se de pura ficção que foi transformada em filme, com Gregory Peck no papel principal. Nosso País não conhecerá jamais o infortúnio de ser a nova pátria dos filhos de Hitler. Todavia, uma desgraça real e muito mais ameaçadora paira sobre á Nação: os meninos do Delfim.

Vulgarmente conhecidos como “Delfin’s boys”, eles se espalham como praga pelos ministérios e pelos altos cargos das repartições federais, controlando, em nome do chefe, toda a vida nacional.

São muitas cabeças, que pensam como se fossem apenas uma. Pouco a pouco, essas cabeças vão tomando conta de tudo, das nossas finanças, das nossas dívidas, da nossa inflação, dos nossos salários e dos nossos muitos e cada vez mais pesados impostos.

O chefe, que afirma (segundo os humoristas da televisão): – “Eu vejo e planejo” – ou então – “Eu já estou chegando lá!” – de fato tudo vê e tudo controla, tal como o “Big Brother” de outro livro ainda mais famoso, “1984”, de George Orwell.

Caiu um ministro? Um menino do Delfim está lá… Vagou um cargo na mais alta administração federal? Tome um “Delfin’s boy” no quengo! E o “Big Brother” (grande irmão), dessa forma, está sempre de olho em você…

Delfim tudo sabe e tudo vê, e 1984 está muito, muito perto. E pena, entretanto, que esse superministro todo poderoso, que cada vez mais controla e manipula os dados e os números (é o negócio dele), não veja o que mais salta aos olhos, neste País…

Delfim não vê, ou finge que não vê, a nossa miséria, a nossa verdadeira inflação, que está muito acima dos dados por ele manipulados, a nossa fome crônica, o nosso processo de empobrecimento diário, a nossa divida externa, que é uma das maiores do mundo etc. etc.

Delfim faz de conta que não enxerga o dedo negro das multinacionais ameaçando o Brasil, finge que não percebe a expropriação gradual da Amazônia, das nossas riquezas minerais, das nossas riquezas vegetais, do pouco que ainda nos resta…

Ele vê e planeja, sem dúvida, mas planeja em proveito próprio e em favor do grupo palaciano montado por ele mesmo no Planalto. Delfim e seus meninos estão tomando conta do Brasil, do nosso País tão amado, que deveria ser dos brasileiros e não de grupos econômicos.

No passo em que a coisa vai, logo teremos todo o Ministério nas mãos gordas desse homem ambicioso de poder e, talvez, quem sabe, até mesmo a Presidência da República, se a turma bobear.

Se não for ele próprio o próximo candidato (biônico) à Presidência, será certamente um “Delfin’s boy”… Quem viver verá.

22/01/1980 – Ali Maluf e os 40 ladrões

A Assembléia Legislativa do Estado foi convocada no 21° dia de janeiro, em caráter extraordinário, pelo governador em exercício, José Maria Marin. E sabem pra que? Para apreciar o projeto de reforma da constituição estadual, que autoriza a mudança da capital!

O seu Maluf já deixou tudo acertado, antes de sua viagem ao Oriente Médio e Europa, segundo informante do governo estadual.

Com essa medida, Maluf prestigiará o Governador em exercício. Todavia, ele deverá voltar da viagem no instante em que a mudança da capital começar a ser discutida pela Assembléia.

O seu Maluf esperou o momento propício para enviar a mensagem que sugere a mudança da capital: o momento é confuso, graças à “Reforma Partidária” instituída pelo governo federal, há deputados saindo da antiga Arena para se filiar ao PI ou ao PDS (em formação), enquanto que outros estão saindo do antigo MDB para o pMDB, seu sucedâneo, ou para o PTB, PP ou mesmo (pasmem) para o PSD, partido do governo…

A mudança da capital, no presente momento, é contrária aos interesses do povo paulista, pois representará um ônus incrível, devido aos gastos que serão acarretados com estudos, planejamentos, construções, escolha de local, e com a mudança propriamente dita.

O seu Maluf afirma que não pode dar aumento aos funcionários públicos estaduais em geral, e aos professores da rede estadual, em particular, mas pretende consumir milhões de cruzeiros nesse projeto perfeitamente adiável, que é o da mudança da capital.

Talvez seja verdade a afirmação do seu Maluf, de que São Paulo é uma megalópole que já não comporta uma expansão maior, expansão essa que será continua e inevitável se São Paulo continuar a ser a capital do Estado do mesmo nome… Mas, por que não esperar mais para mudar a capital, dando prioridade a outros projetos de maior interesse público?

A resposta é evidente: o projeto da mudança da capital pode trazer lucros incríveis a empreiteiras e construtores em geral, além de valorizar imensamente os terrenos da cidade do interior que for escolhida para ser a nova capital. Vai daí, as velhas “caixinhas”, as famosas “comissões” e as inevitáveis “propinas” entrarão em ação, desenfreadamente, para lucro e regozijo dos que estão com o poder de decisão nas mãos, ou seja, os próprios governantes! Todavia, o vice governador não convocou a Assembléia.

Quando ela for convocada é possível que os deputados conscientes, do pMDB, consigam evitar a aprovação da mudança, gastando mais de 90 dias nas discussões da matéria que assim seria rejeitada por decurso de prazo.

Talvez seja possível uma aliança entre o pMDB, ou PP e o PTB, que possa resultar na rejeição pura e simples da mudança…

Mas a ameaça da aprovação da medida paira sobre a cabeça dos paulistas, se for mesmo que o Seu Maluf conta com 40 ou mais deputados em seu favor. Não é à toa que o povo está apelidando os interessados na mudança da capital de “Ali Maluf e os 40 ladrões”!

Só podemos esperar que a Assembléia responda aos projetos do Seu Maluf com um sonoro “Fecha-te Sésamo”!

23/01/1980 – Redemptora no País dos Trombadinhas

Em vez de convocar a Assembléia para estudar a mudança da Capital, como o Seu Maluf queria, o governador em exercício a convocou para estudar, em caráter extraordinário, o problema do menor abandonado e da fuga em massa dos menores da FEBEM de Mogi Mirim.

Quando vemos um bando dos chamados “trombadinhas” fugir e colocar em perigo a segurança da região de Campinas, no Estado mais rico da Nação, sentimos um calafrio na espinha, só de pensar que em 1964, quando a “Redemptora” veio ao mundo, a grande maioria deles ainda estava no calcanhar da vó… A maioria dos “trombadinhas” tem menos de 15 anos!

Nos seus dezesseis aninhos de vida, a “Redemptora”, que nasceu numa fria madrugada de um 1° de abril, nada fez para resolver o problema do menor carente e abandonado, muito pelo contrário.

A “Redemptora” veio para combater a corrupção, e hoje vemos a corrupção e a mordomia comendo adoidadas; ela veio para combater a inflação e hoje estamos beirando o índice de 100 por cento ao ano; ela veio para combater o fantasma do comunismo e só fez multiplicarem-se as massas proletárias, os bandos de famintos e miseráveis, que formam a argila preferida pelos “sequazes de Marx”, para a moldagem de uma possível revolução socialista em nosso País…

A bem da verdade, nos países em que a revolução socialista foi feita, como a China, só pra citar um exemplo, em poucos anos desapareceram do mapa a miséria absoluta, o analfabetismo e o menor abandonado.

É claro que não desejamos que ocorra uma revolução desse tipo em nossa terra, pois seria um verdadeiro banho de sangue num povo amante da Liberdade, como é o brasileiro… Mas só podemos lamentar que, em 16 anos, a “Redemptora”, que tinha tudo nas mãos, nada tenha conseguido em termos de melhorar o padrão de vida das camadas populares.

Autoridade é que não faltou, pois tivemos mais de 10 anos de trevas e obscurantismo, sob o tacão do Ai-5; meios é que não faltam até hoje, pois o País arrecada fábulas de impostos, taxas, multas e correções monetárias; boa vontade não está faltando, pois vemos aí o João fazendo de tudo para melhorar um pouco a Nação… Pelo menos, fazendo esforço.

Então, o que é que falta? Ministros capazes? Políticos honestos? Vergonha na cara de uns e outros? Tenho certeza de que um certo ministro que tudo vê e tudo planeja, se perguntado a respeito, responderia que nos falta petróleo… E que é tudo culpa dos árabes e da OPEP!

Enquanto se discute o problema e se convoca a Assembléia, mais e mais menores carentes e abandonados infestam as nossas ruas, hoje vendem chiclete, amanhã furtam, depois de amanhã nos assaltam à mão armada.

E a novela “Redemptora no País dos Trombadinhas” prossegue, inexoravelmente. Logo teremos novos capítulos, com a polícia agarrando os menores nas ruas, graças à prisão cautelar que está sendo votada na Câmara Federal, com novas FEBEMs à prova de fugas… Mas, se nada de positivo for feito, nossos menores continuarão abandonados até completarem 18 anos, quando passarão a ser maiores abandonados, formando a maioria do povo.

E aí, sim, poderemos dizer que o maior abandonado é o povo brasileiro.

24/01/1980 – Sinatra, Go Home!

Era este um dos dizeres das inúmeras faixas que foram suspensas no ar, durante alguns minutos, diante do Hotel Rio Palace, onde se realizou a estréia no Brasil do cantor Frank Sinatra.

O velho cantor, mais conhecido como “The voice” (a voz) ou “old blue eyes” (velhos olhos azuis), está causando uma verdadeira polêmica nacional, com sua chegada a nosso País, depois de mais de 30 anos de espera.

Enquanto verdadeiros tumultos se formam, na chegada do cantor e na sua estréia, um velho músico brasileiro, Edgard de Almeida, mais conhecido como Bob Lester (nome que usou durante os anos em que trabalhou nos EUA, tocando no “Bando da Lua” e acompanhando Carmem Miranda), está morrendo à míngua, no Rio de Janeiro.

Aí notamos um grande contraste existente entre dois músicos igualmente competentes, Sinatra e Edgard de Almeida. Enquanto o primeiro é uma celebridade mundial, e enquanto recebe todas as homenagens possíveis do nosso povo, que chega até o extremo de provocar tumultos em seu ímpeto de ver ou tocar o grande ídolo, o segundo morre de fome e abandono…

Nada ganharemos com faixas e dizeres tais como “Sinatra, Go Home!” – pois o “velhos olhos azuis” irá embora, sim, mas depois de fazer seus “shows” e com os bolsos (e os cofres) ainda mais cheios de dinheiro…

Nada conseguiremos combatendo, pura e simplesmente, o músico estrangeiro que chega ao nosso País para uma temporada. O estrangeiro vem aqui para cumprir um contrato, e ninguém pode negar que, no caso, trata-se de um cantor realmente competente, de renome internacional, que merece ser visto e ouvido pelo povo (e pela elite) da nossa Nação.

O que temos de fazer, na realidade, é impedir a repetição de acontecimento tão lamentável, como a desgraça do velho Edgard de Almeida, dito Bob Lester. Não é admissível que o músico brasileiro continue abandonado e entregue à própria sorte, como aconteceu com o Edgard.

Podem dizer, os que defendem o atual estado de coisas, que o Edgard “Bob Lester” de Almeida está assim porque se viciou em bebida. Podem alegar que ele não foi forte o bastante para aguentar o baque da perda de toda sua família (a mãe, a esposa e duas filhas, de 16 e 21 anos) num desastre de automóvel, há poucos anos…

Mas, a dura realidade é que o músico brasileiro não tem amparo algum, que as leis de proteção existentes (poucas, aliás), não são cumpridas, que a música estrangeira, em fita ou disco, toma o lugar do nosso instrumentista e do nosso cantor, nos bares, boates e outros locais que deveriam ter música ao vivo. Isso, pra não falar nas “discoteques”…

Sinatra pode ir para casa, ou vir de novo ao Brasil, quantas vezes ele quiser. Quem tem uma voz tão maravilhosa é sempre bem vindo. O que é preciso, sim, é que nós valorizemos a música e os músicos brasileiros.

Vamos lutar pelo cumprimento da lei que obriga a apresentação proporcional de música nacional, nas rádios, nas tevês, em toda parte. Vamos combater a invasão da música de má qualidade, barulhenta e imbecil, que infesta o nosso País. Vamos lutar para que Edgard de Almeida possa ter uma velhice digna, juntamente com milhares de outros músicos, que hoje vivem na mais negra miséria.

Vamos lutar para que Edgard de Almeida nunca mais precise bancar o Bob Lester para sobreviver. Edgard de Almeida, “STAY HOME!”

26/01/1980 – Nossos Índios, Nossos Mortos

Os padres salesianos, numa missão bem intencionada no sertão do Brasil, estão vestindo os índios com uniformes coloridos, onde o nome de cada um é gravado. A língua portuguesa, a religião católica e os usos e costumes da civilização ocidental são ensinadas ali.

Em outras regiões, em outras missões igualmente bem intencionadas, missionários protestantes também vestem os nossos índios, ensinam-lhes o evangelho e (pasmem!) a língua inglesa, pois são missionários norte americanos! Isso ocorre principalmente na Amazônia, hoje entregue aos estrangeiros.

Os padres e os missionários, sem saber, estão matando a cultura e a civilização do indígena… Enquanto os posseiros e os grileiros, os jagunços e os seringueiros se encarregam de matar os índios, propriamente ditos, para lhes tomar suas preciosas terras, onde seus antepassados viveram nos últimos doze mil anos, pelo menos.

“Nossos índios, nossos mortos”, escreveu Edilson Martins, o grande sertanista, pesquisador, jornalista e amigo dos silvícolas. Nossos mortos, sim, porque, se nada for feito pelos índios, nos próximos anos, eles não passarão de uma lembrança, de uma página da História do Brasil, de uma foto num museu e de objeto de consumo do cinema e da televisão, que continuarão mostrando o nosso indígena como um retardado mental…

Aliás, há uma terrível má intenção na maneira em que o cinema e (principalmente) a televisão mostram o nosso indígena. Mostrado como um ser a ser amparado, tutelado, protegido, o índio é rebaixado a uma condição de bugre chucro, de homem animal. Nessa condição pode ser explorado, roubado e morto, pois não passa de um selvagem primitivo.

Nada mais errado!

O silvícola (silvícola ou aborígene) e um ser humano igual aos demais e com os mesmos direitos. Nosso indígena nada tem de primitivo, pois possui uma cultura rica, um grande conhecimento da natureza, com a qual convive em harmonia, e um profundo censo de vida comunitária, onde os velhos, as mulheres e as crianças são amados e respeitados.

Selvagens somos nós, os ditos “civilizados ocidentais”, que abandonamos as crianças menos favorecidas, prostituímos as mulheres que “caíram na vida” e desprezamos os velhos depois de usar seus préstimos por anos e anos a fio. Selvagens somos nós, que vivemos sob o “capitalismo selvagem”, onde o único valor é o dinheiro, onde os padrões morais e intelectuais são relegados a um plano secundário.

O índio (que se auto denomina Caá-boco, morador do mato), vive numa sociedade quase perfeita, até que é “civilizado” e “catequizado” pelo ocidental que se autodenomina “branco e cristão”. Aí então, o índio se corrompe, ou melhor, é criminosamente corrompido, através da bebida e da prostituição.

Em contato com o “branco”, o indígena se transforma, de guerreiro altivo e nu, em caboclo analfabeto e miserável! Antes, a oca, a taba, a vida feliz, onde não se conhece o dinheiro, a doença venérea, a gripe e outros males corriqueiros da nossa civilização. Depois, a tapera, a palhoça, a favela, a fome e a doença, a miséria absoluta, a exploração e a morte.

Nem o extinto (em boa hora) SPI, nem a atual FUNAI, conseguiram fazer algo pelos indígenas. Marechal Rondon e irmãos Villas Boas são exceções dentro de um contexto que só explora e destrói o nosso silvícola. Ou bem fazemos algo para defender os nossos índios, ou brevemente só teremos noticias diretas deles nos terreiros de Umbanda.

29/01/1980 – Nossos índios, nossos mortos – II

“Nossos índios, nossos mortos,” escreveu Edilson Martins, o grande jornalista, sertanista, pesquisador e amigo dos indígenas. E, mais do que nunca, eles estão ameaçados de extinção.

O brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira, comandante do 1° Comando Aéreo Regional, ao defender o programa conjunto da Aeronáutica, FUNAI e Universidade Federal do Pará, afirmou que é necessária a integração do índio à comunidade brasileira.

“A Amazônia só será nossa quando ela for povoada por brasileiros convictos e não por índios, que não tem nacionalidade!” – sentenciou o brigadeiro…

Acredito nas boas intenções do militar em questão, creio mesmo que ele julga estar fazendo um benefício aos indígenas, ao querer integrá-los à vida e à civilização nacional, mas tenho algumas considerações a fazer:

  1. a) A Amazônia já era nossa desde que a conquistamos, há séculos, rompendo a vertical de Tordesilhas. Só estamos perdendo essa região riquíssima porque estamos entregando a Amazônia aos estrangeiros e aos Jaris da vida.
  2. b) Os índios tem nacionalidade, sim: eles são índios. Já eram índios muito antes dos portugueses chegarem ao Brasil; já eram índios há pelo menos 12 mil anos, segundo alguns pesquisadores; ou pelo mais, 50 mil anos, segundo outros! E não faz quinhentos anos que Cabral descobriu o Brasil…
  3. c) Há que se respeitar a cultura e a civilização dos índios, que são mais sábios do que os “civilizados”, pois, em estado natural, vivem sem dinheiro, em igualdade de condições dentro da tribo, e respeitando os fracos, doentes, velhos, mulheres e crianças.
  4. d) Temos muito que aprender com os indígenas, que conhecem bem a natureza, as ervas medicinais e as energias cósmicas que regem o universo, com as quais vivem em simbiose.
  5. e) Os índios (nome errado que lhes deu Colombo, por engano) têm o direito de continuarem vivendo na selva em que nasceram. A terra lhes pertence por direito e, tentar catequizá-los e civilizá-los constitui uma violência aos seus direitos humanos. Tentar tomar as suas terras é crime.
  6. f) O grande Marechal Rondon, defensor e amigo dos índios, respeitava todos esses direitos dos silvícolas, sendo uma das maiores figuras das Forças Armadas brasileiras, em todos os tempos. Não é à toa que foi denominado “O Marechal da Paz”!

Se tentarmos tornar o índio “cada vez menos índio”, como disse o brigadeiro, teremos, isso sim, cada vez menos índios, até a sua mais completa extinção. O brigadeiro disse que as Forças Armadas, embora não sejam um órgão educacional ou social, são responsáveis pela Segurança Nacional… Eu acho que a segurança do indígena, do nosso caboclo, do nosso aborígene, faz parte da Segurança Nacional!

O índio já vivia aqui, quando nossos antepassados chegaram, O índio era dono de todo o País e agora só é dono de uma ínfima parte. Vamos respeitar o que lhes resta, que é pouco, se quisermos ter o foro de País civilizado!

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – O Jornalismo de Ivan Saidenberg – 1979

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

27/11/1979 – O Aprendiz de Feiticeiro

Teremos uma ampla vitória da oposição nas próximas eleições, o governador resolveu empreender a chamada “Reforma Partidária”, extinguindo a Arena e o MDB e criando novos partidos e muita confusão no seio do eleitorado. Na verdade, o importante era extinguir o nome “Arena” que já estava tão desgastado que os candidatos dessa agremiação nem mais ousavam colocar essa sigla sob seus retratos, nas propagandas eleitorais. Era importante, igualmente, extinguir o forte MDB para evitar que o povo votasse maciçamente no partido da oposição.

Entretanto, o resultado não foi bem esperado… Isso tudo até me fez lembrar a famosa lenda do “Aprendiz de Feiticeiro”, cantada em versos por Goethe, transformada em música clássica ligeira por Paul Dukas e levada ao cinema por Disney, sob a forma de desenho animado e com o camundongo Mickey no papel principal. A lenda é velha como Roma e conta a história de um jovem aprendiz de mago que, aproveitando-se da ausência de seu amo, um poderoso feiticeiro, resolve usar seu livro de encantamento para mais facilmente desempenhar suas tarefas domésticas. Cumpria ao aprendiz encher de água uma grande banheira para o banho de seu amo, usando um balde e retirando essa água de um poço que ficava fora do laboratório do mágico…

O aprendiz resolve encantar uma vassoura e, dizendo as palavras mágicas que leu no livro, faz o objeto criar braços e pernas. A seguir, ordena a vassoura que apanhe o balde, vá até o poço, carregue-o com água e encha a banheira do mago. A princípio, o encanto dá certo e a vassoura passa a executar suas funções, enquanto o jovem aprendiz descansa. Todavia, ele adormece a um canto e, quando desperta, depara com a banheira já cheia… E com a vassoura prosseguindo na missão de trazer mais e mais água. O jovem tenta deter a vassoura, mas o livro não ensina como desmanchar o encanto. Aí, desesperado, ele apela para a força: apanha um machado e racha a vassoura ao meio! Para sua surpresa, surgem agora duas vassouras, que continuam a trazer mais e mais água. O aprendiz, então, racha as vassouras em muitos e muitos pedaços, mas isso nada adianta, pois cada pedaço se transforma em nova vassoura animada, que traz mais e mais água, até inundar totalmente o laboratório. Não fosse o mago voltar a tempo o infeliz aprendiz de feiticeiro teria perecido afogado.

Foi isso mesmo que aconteceu com a “Reforma Partidária”: o governo cindiu o MDB em vários pedaços, mas eles continuaram unidos e coesos na missão a que se propunha o partido da oposição: fazer oposição. E a velha Arena continuará na mesma, se não perder alguns deputados e senadores para um novo partido independente… De fato, o governo, nesse episódio, mais parece um mero aprendiz de feiticeiro.

30/11/1979 – O Último Tango no Torto

Fui assistir ao famoso filme “O ÚLTIMO TANGO EM PARIS” e, no auge da ação (e quanta ação) entre Marlon Brando e Maria Schneider, bem naquela cena da manteiga, eu comecei a ver, de repente, um outro filme na tela! Não sei se foi uma alucinação ou coisa parecida, mas comecei a ver um filme chamado “O ÚLTIMO TANGO NO TORTO”!

Isso mesmo, no Torto, na famosa Granja do Torto, que fica lá em Brasília, residência do João. E, na visão que eu estava tendo, o João ia dizendo pra turma que ia chegando:” — A ordem aqui é todo mundo sem gravata e sem paletó!” — E o pessoal ia ficando à vontade. Depois disso, começou o tango e o João tocou gaita, dançou e cantou, acompanhado por instrumentistas famosos, como Mauricio da Gaita, Milton França, Valdir Azevedo, Mão de Vaca e outros, durante a festa que só terminou por volta de duas horas da manhã, quando muitos operários e candangos já estavam indo para o trabalho.

E claro que foi tudo uma ilusão. Imaginem só se o João ia fazer isso, ficar cantando e dançando tangos, enquanto nós, o povo, passamos fome, trabalhamos feito condenados, recebemos salários baixíssimos e enfrentamos os mais pesados encargos, tais como impostos muito elevados, TRU de 7% sobre o valor dos veículos, gasolina a Cr$ 22,60 e o escambau!

Foi tudo alucinação minha… Eu estou ficando meio maluco, mesmo, com essa inflação que está beirando os 70% em 1979, segundo os dados oficiais habilmente manipulados por hábeis ministros planejadores, mas que está pra lá de Bagdá, segundo a voz do povo, que é a voz de Deus, como todos estão sabendo. Vê lá se o João ia ficar dançando tangos, enquanto o quilo do contra filé chega aos Cr$ 170,00, com direito a aumentos na próxima entressafra, ou seja, amanhã cedo. Ninguém ia ficar tocando gaita enquanto a energia elétrica sobe 55% num tapa só, num país que tem o maior potencial hidroelétrico do mundo e onde a luz que nos ilumina deveria custar quase de graça, só ter um precinho simbólico para fazer frente às despesas de manutenção das companhias que operam no setor.

Quem é que pode imaginar o João dançando, enquanto as greves espocam por todos os cantos, a policia baixa o cacete e dá tiros nos trabalhadores, as igrejas que abrigam os operários são invadidas e destroçadas por elementos misteriosos que vão ficar para sempre no anonimato, pois o povo disse que eram membros da PM e o governador Maluf negou isso peremptoriamente. E como não podemos duvidar da palavra idônea de um governador de estado, nunca vamos ficar sabendo quem foi que invadiu igrejas e quem atirou e matou o operário Santo, em São Paulo, no mês passado.

É, eu estava delirando diante da tela… O João não ia passar uma noite festejando, enquanto o país imita a vaca e vai pro brejo, enquanto a dívida externa chega perto dos 50 bilhões de dólares, enquanto as nossas reservas de petróleo não dão para mais do que um mês, enquanto a Petrobrás não acha nada, enquanto o litro de álcool para automóveis vai pra mais de Cr$ 11,00 o litro, antes mesmo que o povo possa utilizá-lo como substituto da gasolina. Seria impossível imaginar o João passando as noites na maior seresta, enquanto o Brasil se aproxima do holocausto final.

02/12/1979 – Cheiro de Povo

Na antiga Roma dos césares existiu um homem elegantíssimo, de maneiras gentis e rara cultura, chamado Petronius Arbiter, que só tinha um defeito: detestava cheiro de povo. Dizem que o chiquérrimo Petronius chegava a desmaiar, quando tinha de comparecer ao Circo Máximo, ao lado do imperador Nero, por causa do cheiro que ele tanto detestava e que se desprendia da multidão saída das cloacas romanas e da Suburra, que acorria aos espetáculos gratuitos promovidos pelo governo, onde, além de apreciar divertidíssimos números onde gladiadores se matavam mutuamente e feras se nutriam de alguns cristãos distraídos apanhados por acaso, em alguma catacumba, o povo recebia alimentação grátis, na famosa política de “Panem et Circus” instituída por Nero.

O engraçado é que isso se parece, em alguns pontos, com a nossa situação política atual. Só em alguns pontos, é claro, pois não é um conselheiro do imperador que não gosta de cheiro do povo… E o circo proporcionado ao nosso povo não é exatamente gratuito, custa os olhos da cara. O circo de hoje em dia é patrocinado pela Secom. Numa campanha milionária para tentar tornar popular o nosso homem público número um, que, graças a essa campanha, acabou sendo conhecido apenas por João.

Pois é. A Secom resolveu mandar o João contar piadas, tomar cafezinho nos bares, dizer frases de duplo sentido, do tipo “quem sabe é Papai do Céu”. A Secom resolveu mandar o João fazer ginástica, praticar Cooper, e outras “cositas más”, para se tornar popular. Desde o retrato oficial do João, onde ele parecia estar muito feliz (com o que?), até as suas idas à feira, para saber do preço do tomate na banca duma pobre japonezinha, é tudo bolação da tal Secom. A intenção é clara: fazer o povo sorrir ou se chatear, falar bem ou mal, mas falar do João.

Ah, houve também uma pesquisa de popularidade, para saber se o povo gostava ou não do João… E deu que gostava, e como! Eu não sei a quem foi encomendada a tal pesquisa, nem quanto custou, mas é claro que custou os tubos ao governo e, por conseguinte, ao pobre povo que paga impostos. Plebiscito, que é bom, neca!

Eleição direta, que é bom, não vamos ter nunca mais, se depender do João (foi ele quem disse!)…

Agora, com os tristes acontecimentos de Florianópolis, onde a ação impensada dos guardas de segurança do João resultou numa revolta popular, em que um ministro foi agredido e o João foi insultado, tendo até seu carro apedrejado pela multidão, a Secom deve estar de cabelos em pé. Alguma coisa deve ter saído errada, pois parece que o circo não agradou… Tenho certeza que foi alguma coisa de que a Secom esqueceu, na tentativa de imitar o antigo sistema romano, instituído por Nero.

A Secom pensou em tudo, na imagem do João, na popularidade do João, no sorriso do João, na ginástica do João, nas frases irônicas do João, mas se esqueceu do mais importante: a política de Nero não era apenas a de proporcionar circo ao povo, mas também algo mais importante: pão!

Foi isso que ficou esquecido. Além de divertir o povo brasileiro, seria indispensável se pensar na sua sobrevivência; é claro que ninguém sonha com o pão grátis dos tempos da velha Roma, mas temos o direito de sonhar com alimentos mais baratos, com uma freada na inflação, com o congelamento dos preços da gasolina e outros derivados do petróleo, com uma política mais justa de distribuição de renda em nosso país.

Agora que o cheiro de povo se tornou mais forte, é hora dos Petronius de hoje se esquecerem de tampar os seus delicados narizes e começar a pensar no pão para o povo. Afinal, piadas e frases irônicas não enchem barriga.

05/12/1979 – Guerra é Guerra

Não sei se foi de tanto ouvir falar em “economia de guerra”, ou em “guerra do petróleo”, mas o fato é que tive um sonho na noite passada… Ou melhor, um pesadelo: sonhei que vivia em outro país, um lugar muito estranho, onde havia uma guerra ainda mais estranha.

Era uma guerra incrível: o governo do país em questão estava em guerra, mas não contra algum inimigo externo; estava em guerra contra o povo do próprio país! E o governo desse lugar imaginário usava de todos os recursos para liquidar o povo, até mesmo os mais cruéis. O primeiro recurso era o salário mínimo, que era tão mínimo que não dava para viver e assim o povo mais humilde morria de fome.

A maioria das criancinhas nascidas no seio dessas famílias que recebiam salário mínimo não chegava a um ano de idade! Outro recurso era o aumento inacreditável do custo de vida: todo dia os gêneros de primeira necessidade estavam mais caros, tanto nas feiras como nos supermercados. E, quando o povo pedia reajustes de salário, para fazer frente aos aumentos incríveis, o governo manipulava os índices de inflação, só permitindo aumentos muito abaixo do real custo de vida, nos salários dos trabalhadores. Ah, e no caso do povo recorrer às greves, para forçar um melhor reajuste salarial, o governo botava a tropa na rua e mandava bala no peito dos operários! E declarava todas as greves ilegais, é claro, pois havia uma lei anti greve que proibia qualquer tipo de paralisação de trabalho. Só os donos de supermercados, os feirantes e os atravessadores do comércio de gêneros alimentícios é que podiam fazer greve, pois eles escondiam esses gêneros do povo, até que o governo autorizasse aumentos de preços… Uma coisa horrorosa!

Ah, sim, o governo desse lugar maluco usava recursos ainda mais sujos para liquidar mais rapidamente o povo: dizia que dava assistência médica gratuita, mas isso só existia em teoria, pois a maior parte do povo ficava em filas imensas, à porta dos institutos de previdência, até cair durinho no chão. Os remédios, então, estavam pela hora da morte… E, além disso, o governo permitia a venda de medicamentos que eram proibidos em outros países, por trazerem grande risco de vida a quem os tomasse!

Outra guerra terrível era movida contra os proprietários de automóveis, tanto particulares, como motoristas de táxi, ou de caminhão: os postos de gasolina ficavam fechados nos fins-de-semana e o precioso líquido subia de repente, nas sextas-feiras, sem aviso prévio! Nesse país a gasolina era a mais cara do mundo, em comparação com a renda per capita de outras nações e o preço do combustível. E os aumentos eram punitivos, ou seja, eram decretados pelo governo para castigar os motoristas que, imaginem, não procuravam economizar gasolina. Todavia, o governo permitia a fabricação de mais de cem mil veículos por ano, vendidos, aliás, a preços extorsivos!

E tinha mais: quem quer que se metesse a contestar o governo era imediatamente preso e enquadrado numa tal lei de segurança, ou coisa parecida. Os jornais que publicavam notícias ou matérias de que o governo não gostava eram apreendidos na banca e assim o povo não ficava sabendo de quase nada que ocorria. A televisão era muito censurada e os noticiários não tinham liberdade para dizer a verdade à população… Imaginem que o povo do país em questão nem sabia que o governo estava em guerra conta ele!

E foi aí, no auge da guerra, que eu acordei. Puxa, que alívio eu senti ao descobrir que tudo era só um pesadelo, só! Já pensaram se uma coisa dessas acontecesse por aqui, nesta ilha de paz e tranquilidade onde nós vivemos, graças ao bom Deus, que como todos sabem, é brasileiro… safa! Outro pesadelo desses nunca mais. Juro que não vou mais dormir de barriga cheia, depois de jantar sopa de pedra e comer bife de sola de sapato.

06/12/1979 – Meu Querido Papai Noel,

Espero que esta o encontre com saúde, apesar do frio que faz aí no Pólo Norte. E os anõezinhos fabricantes de brinquedos, como vão? A Mamãe Noel sarou da gripe?

Tomei a liberdade de escrever ao senhor, depois que o nosso amado Presidente fez um pedido, no almoço que lhe ofereceram os deputados da antiga Arena do Estado do Rio, para que o senhor lhe desse de presente o governo daquele Estado, permitindo que o Partido do João vença as próximas eleições, uma vez que o Rio é a única unidade da Federação que tem um governador filiado ao antigo MDB.

Se ele pode pedir, eu também posso, não é? Então, lá vai: mande de presente para mim e para todo o povo brasileiro um Brasil livre e democrático, com eleições diretas em todos os níveis, inclusive para Presidente da República; um País onde exista Justiça para todos, Anistia ampla, total e irrestrita, melhor distribuição de renda, salários mais justos, assistência médica efetiva, escolas gratuitas para nossas crianças e jovens, reforma agrária, habitação popular em larga escala, comida mais barata etc.

Um País onde não haja fome nem miséria, onde as crianças no Nordeste tenham o direito de viver, onde não haja infância nem velhice abandonada, nem projetos Jaris, nem entregação da Amazônia, nem mordomias e nem marmeladas. Uma Nação onde o povo seja soberano e os interesses nacionais estejam acima dos interesses das multinacionais e do capital estrangeiro. Uma Pátria onde todos possam viver felizes e em paz, onde a gente possa pensar no Natal sem a dor de saber que muitos presos políticos estão mofando nas prisões, longe de seus familiares, longe da Anistia…

Será que eu estou pedindo muito? A última vez que eu votei para Presidente foi em 1961 e a grande maioria dos meus colegas e amigos, mais jovens do que eu, nunca votaram. Eu queria um presentinho especial, meu querido Papai Noel: o direito de voltar a escolher aqueles que vão reger os destinos da minha Pátria adorada.

Ah, não se esqueça também de trazer um pacotinho de conciliação para os nossos políticos, um embrulhinho de paz para os nossos mandatários e um pouquinho de tranquilidade para o nosso povo. Traga um pouco de esperança para nossos irmãos menos favorecidos, uma dose de confiança nos destinos do Brasil e muita paciência para todos, pois eu sei que alguns desses presentes podem chegar meio atrasados, não é?

Receba um grande abraço deste seu filho, juntamente com os mais sinceros votos de um Feliz Natal e um 1980 menos ruim do que 1979.

Atenciosamente,
Ivan Saidenberg

07/12/1979 – O Cordão do Seu Maluf

A Paulistur está querendo fazer um super carnaval este ano, em São Paulo; uma festa para durar dez meses! E justo na Capital Paulista, que os cariocas sempre disseram que não era terra nem de samba e nem de carnaval!

Dizem até que um tal de Seu Maluf resolveu aderir ao super carnaval paulista, prometendo sair às ruas fantasiado de “O Petróleo é Meu”, puxando um cordão imenso e cantando. Para quem não conhece, esse tal de Seu Maluf é dono de uma serraria, ou coisa parecida, e esteve envolvido num rumoroso caso de falência de uma firma que havia recebido uns créditos especiais do Governo, uma coisa assim.

Ah, o Seu Maluf também andou metido numa história de transferência de capital… Não sei de quem foi que ele transferiu o capital, mas estou sabendo que o treco deu um bode danado!

Quanto ao fato do Seu Maluf ir à frente, puxando o cordão, não me causa espanto, porque dizem que ele é mestre em passar na frente de todo mundo ou passar os outros prá trás, algo no gênero. A fantasia que será usada pelo Seu Maluf prende-se ao fato de que ele é maníaco por petróleo e parece que andou até furando um pocinho por conta própria, no fundo do quintal da casa dele, que é um verdadeiro palácio. Acho que o Seu Maluf anda mal informado e não sabe que a exploração de petróleo em nosso País é um monopólio da Petrobras. Ouvi dizer que ele vai continuar cavando, até achar o ouro negro. Se não der, vai aproveitar o buraco e fazer uma piscina.

Aliás, a piscina será muito útil para receber os amigos, pois o Seu Maluf costuma receber bem as pessoas importantes que o visitam, chegando até a estender um tapete vermelho para elas passarem, além de jogar chuvas de pétalas de rosas sobre elas e confeccionar centenas de faixas de boas vindas aos visitantes ilustres.

O gozado é que ele faz sempre essas festas com o dinheiro dos outros e não com o dele…

O cordão do Seu Maluf parece que vai abafar no próximo super-carnaval paulista, pois conta com inúmeros elementos e cada vez fica maior. Dizem que o cordão já tem até um hino, que é mais ou menos assim:

“Lá vem o cordão do Seu Maluf.

Dando vivas aos seus maiorais,

Quem está na frente é passado pra trás,

E o cordão do Seu Maluf cada vez aumenta mais!”

Quem quiser aderir ao cordão, é só chegar na mansão (melhor dizendo, no palácio) do Seu Maluf e puxar o cordão da campainha. Se for pessoa influente, ele atende na hora. Se não for, dizem que ele não atende de jeito nenhum. Mas, talvez isso seja maledicência dos inimigos do Seu Maluf, que não são poucos, pra falar a verdade. Ah, tem só uma coisinha: ainda falta batizar o cordão do Seu Maluf. Alguém tem alguma sugestão para o nome desse lindo cordão que vai sair no próximo carnaval?

11/12/1979 – Suíte Quebra-Cara

Em 1892 Petr Ilich Tchaikowsky compôs a famosa Suíte Quebra-Nozes, sobre a história de E.T.A.Hoffmann, “O Quebra-Nozes e o Rei Camundongo “… a opereta, que era acompanhada pelo balé da Ópera Imperial Russa, foi um sucesso total e cinco de seus seis números mereceram pedidos de bis.

Hoje no Brasil, estamos assistindo a uma nova opereta, a Suíte Quebra-Cara, composta e apresentada pelo super artista Delphim Netto, regida pelo Maestro J. Figueiredo e acompanhada ao violino por C. Cals, K. Rischbieter, G. Couto e Silva e outros instrumentistas famosos.

A opereta conta uma história de Natal, onde Brasília, a personagem central, é uma verdadeira heroína: sofre o ano inteiro e, quando o Natal chega perto, vê seu dinheiro desvalorizado em 27% em comparação com o dinheiro do Rei dos Ratos, o Doutor Dólar! E agora, como Brasília vai fazer para comprar suas castanhas? Como vai botar gasolina no seu carrinho? Como vai sobreviver, após o Natal, com tantas dificuldades?

A Suíte Quebra-Cara continua, contando o sofrimento de todo um povo, que não é consultado para escolher seus governantes, que sofre todo tipo de arbitrariedades, que se vê cada dia mais pobre e endividado para com os estrangeiros, os quais vem à terra desse povo, comem, bebem e dormem e depois vão embora carregando com tudo que existe de valor e que conseguem apanhar, ainda por cima.

A Suíte prossegue, narrando a trágica odisseia de um país esmagado por uma carga de cavalaria, a Inflação Galopante. Essa Inflação é um verdadeiro crime contra o povo, que já não tem onde morar, nem o que comer, nem como se vestir! E o Rei dos Ratos gargalha, ao longe, diante de tanta infelicidade; ri, insensível, enquanto as criancinhas clamam por uma gota de leite, os trabalhadores imploram por melhores condições de trabalho, as mães se desesperam e os velhos se sentem desamparados…

E tudo isso depois de quase 16 anos de sofrimento, quando os calabouços estiveram cheios de inocentes e de prisioneiros políticos, onde as torturas eram diárias, onde muitos morriam e depois eram apenas rotulados de suicidas ou de “desaparecidos”… depois de quase 16 anos quando a voz do povo foi calada à força de baionetas, enquanto uma ferrenha censura era exercida sobre todos os meios de comunicação do país, mantendo a maioria do povo na ignorância do que acontecia nos bastidores.

Não sei bem se a Suíte Quebra-Cara é uma comédia ou uma tragédia, pois o público que assiste às vezes ri e às vezes chora, diante de todos os absurdos que presencia. E o super-artista Delphim, além de ser o autor e compositor da Suíte, gosta de aparecer e se apresenta também como astro principal no palco iluminado, todo vestido de dourado, como um palhaço das perdidas ilusões…

Eu não sou crítico de arte, mas acho que a Suíte bolada por esse super-artista tem alguns pontos altos, mas tem também muitas falhas. Os cenários de S. Farhat são fracos e os figurinos de P. Portella deixam muito a desejar. Não sei não, mas acho que a Suíte Quebra-Cara pode se transformar num fracasso total. E ninguém vai pedir bis…

12/12/1979 – Explicando o Inexplicável

Senhor ministro:

O Brasil inteiro não entendeu o aumento do preço da gasolina e de outros derivados de petróleo. Como o senhor não deu nenhuma explicação a respeito, nem ninguém aí do palácio se dignou a dar uma satisfação ao povo, eu, na qualidade de cidadão deste país e contribuinte de impostos (e quantos impostos!), sinto-me na obrigação de explicar a coisa ao nosso povo, pois acho que consegui entender…

O negócio é o seguinte: comprar por dez e vender por cento e vinte, não é? Sim, porque a gasolina, vendida nos postos que só abrem de segunda a sexta, está custando cinco ou seis vezes mais cara do que o litro de petróleo bruto importado. É claro que esse preço irreal, que nada tem a ver com a alta do petróleo, é uma espécie de punição para os maus motoristas brasileiros, que não se dignaram, ainda, a economizar combustível como o governo queria, não é isso mesmo?

Agora, quando a coisa doer no bolso deles, eles vão saber quanto dói uma saudade (dos tempos da gasolina barata) e aprender a gastar menos, os danadinhos. Se isso não der certo, o negócio é apelar prum bom puxão de orelhas, não? Ah, sim, como a gasolina é um derivado de petróleo, se ela sobrar isso não quer dizer que economizaremos, que faremos menos importações, porque precisamos de óleo combustível para as indústrias, de óleo diesel para os caminhões, de gás liquefeito para os fogões, de plásticos e de tantos outros subprodutos do ouro negro. Assim sendo, teremos apenas uma grande sobra de gasolina, que poderemos exportar para os Estados Unidos e outras nações amigas eventualmente atingidas pela política do Aiatolá Khomeini, não é?

O difícil, mesmo, é explicar ao povo brasileiro como é que a gasolina economizada, que seria vendida aqui a Cr$ 22,60 o litro vai ser exportada por menos de Cr$3,00. Se entendi bem, o que importa é exportar e assim tentar reduzir o nosso déficit (eta palavra dificit!) na balança comercial e, desse modo, evitar o crescimento da nossa dívida externa, que já está beirando 50 bilhões de dólares.

Pois é, senhor ministro, agora só falta achar um jeito de conseguirmos taxas mais baixas de juros sobre a nossa divida, porque, se bem entendi, os juros acumulados mensalmente são muito maiores do que todas as nossas importações juntas, inclusive a do petróleo! Mas, se o nosso pobre povo, tão ignorante e semi analfabeto não consegue entender essas coisinhas, o jeito é fazer com que ele entenda a coisa na porrada, não é? O povo é burro e só aprende a economizar quando lhe sangram o bolso…

Acho que todos entenderam bem a coisa, agora. Esta explicação deverá valer para os próximos aumentos da gasolina, que virão em breve, não é? Que tal dar uma punição em regra para os que não entenderam ainda que temos de economizar? Que tal elevar o preço da gasolina, de Cr$ 22,60 para Cr$ 100,00 o litro, logo de uma vez? Assim essa turminha teimosa deixa os carros todos na garagem e compra cavalos, charretes e arados, como aconselhou o nosso amado Presidente. Ou vai andar a pé, o que será ótimo para a nossa pequena burguesia, que assim perderá a barriguinha de prosperidade acumulada durante os anos do milagre brasileiro…

Agora que o milagre acabou e que estou tentando explicar o inexplicável, espero que o senhor me desculpe se eu não fui bem claro, porque está difícil não ficar no escuro, nesta noite que atravessamos.

Atenciosamente, seu criado, obrigado,

Ivan Saidenberg

13/12/1979 – Malufópolis

O Seu Maluf quer mudar a Capital do Estado para algum lugar ainda incerto e não sabido, que fica entre Avaré, Brotas, Botucatu, por aí. O povo ainda não sabe se essa mudança vai sair, mas já apelidou a nova cidade de Malufópolis ou de Maluflandia.

Essa história de mudar cidade de lugar me lembra um argumento que fiz para a Editora Abril, há anos, chamado “Metralhópolis”. Contava a história da mudança feita pelo Vovô Metralha, de uma cidade casa por casa. O velho e incorrigível meliante roubava todas as casas de uma cidadezinha e as transportava para um vale escondido, para servir de sede de operações para ele e toda a quadrilha composta pela sua família.

A cidade de Metralhópolis é um refúgio perfeito e tem de tudo: escola, farmácia, armazém, bar, padaria… Só não tem uma coisa: cadeia.

Onde já se viu colocar cadeia em cidade de ladrão, não é mesmo?

Tudo corria bem em Metralhópolis, até que um dos netos do velho percebe que roubaram a sua carteira! E não foi só a dele, foi a de todos os moradores da cidade… Os estoques de alimentos e remédios também foram roubados! Só podia ser coisa de algum ladrão de fora, pois é claro que os Metralhas não iam ficar roubando uns aos outros.

Preocupados com esse fato, os Metralhas começam a procurar o tal ladrão pela cidade, acabando por pregar sustos nos seus próprios parentes e causando a maior confusão e Metralhópolis, o que faz com que todos os seus moradores abandonem a cidade e resolvam voltar a Patópolis, seu lugar de origem. Acontece que a cidade fica localizada atrás de uma região desértica e todos os Metralhas acabam perdidos por lá, sem água nem comida.

Quando a policia, seguindo uma pista, os encontra afinal, eles estão quase mortos de fome e sede, e até ficam satisfeitos em serem presos! Por fim, desvenda-se o grande mistério do sumiço do dinheiro, alimentos e remédios de Metralhópolis – o próprio Vovô Metralha, já velho e caduco, tinha o hábito de roubar tudo o que alcançava… E depois se esquecia desse fato!

A história em quadrinhos termina com todos eles sendo levados para a prisão, muito chateados, acusados de um roubo até então inédito: roubaram uma cidade inteira! E mudaram essa cidade de lugar, casa por casa!

E claro que não há nenhuma semelhança entre o desonesto Vovô Metralha e o Seu Maluf que, como todos sabem, é a honestidade e a correção em pessoa. Mas, que essa história de mudar cidade de lugar é gozada, isso lá é… E, se não há a menor semelhança entre a futura Malufópolis e a velha Metralhópolis, a verdade é que esses nomes rimam e se parecem um bocado.

E, mais gozado ainda, é imaginar o Seu Maluf como o dono de uma transportadora, mudando a Capital para algum lugar ainda incerto e não sabido do interior, casa por casa…

14/12/1979 – CAUTELA COM A CAUTELAR

Quando a Rede Globo (vulgo máquina de fazer bobo) começou uma grande campanha contra a violência nas ruas, contra os assaltos a mão armada e crimes que tais, mostrando entrevistas com populares que pediam providências que iam desde “botar a tropa na rua” até a pena de morte para os assaltantes, eu pensei lá vem chumbo grosso!

E veio mesmo! Ao ver o Jornal Nacional, deparei com o ministro Petrônio Portella, da Justiça, falando sobre a tão falada “prisão cautelar”, que agora vai entrar em vigor, se depender do Governo Federal. A “prisão cautelar” é um eufemismo usado para designar um tipo de prisão a ser efetuada pela policia, sem ordem judicial!

Traduzindo em miúdos, uma vez aprovada essa tal de “prisão cautelar”, qualquer pessoa poderá ser presa sem motivo algum, dependendo tão somente da vontade de investigadores de polícia ou – delegados! E eu que pensava que o nosso País estava progredindo, prestes a entrar no rol das nações desenvolvidas… E agora, vejo que estamos voltando à Idade Média, em termos de justiça!

Idade Média, sim, porque nesse período, quando a Santa Inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana governava os governos e mandava nos reis, qualquer pessoa podia ser presa à menor acusação, mesmo que esta acusação fosse tão estúpida quanto a de afirmar que essa pessoa era uma feiticeira, uma bruxa ou coisa parecida. Idade Média, sim, porque nessa época qualquer um podia ser submetido às mais torpes torturas, no fim das quais, em caso de sobrevivência, o melhor que podia acontecer à vítima era ser mandada logo para a fogueira…

É verdade que precisamos tomar providencias para reduzir a violência nas ruas, os assaltos, os estupros. Mas espero que isto não tenha de ser feito à custa da destruição dos mais elementares princípios de justiça. É mais certo ainda que, se há tantos assaltos, é porque a situação está tão preta para o povo, que muitos perdem a coragem de serem honestos… Se há linchamentos, é porque o povo brasileiro se cansou de ver a justiça favorecer os Docas Streets da vida e condenar os pobres e os negros, que não tem como pagar advogados de renome, para comover os júris populares até as lágrimas e transformarem as vítimas em criminosas e criminosos em vítimas.

É preciso cautela com esse projeto que visa instituir a “prisão cautelar”, caso contrário iremos sair da noite para cair na escuridão medieval. Nossos presídios estão super lotados e há milhares de mandatos de prisão a cumprir em todo o País. Como, então, entendermos que a policia possa, a seu bel prazer, deter quem quer que seja sem culpa formada ou ordem judicial? E onde colocar esse detido, se as celas andam lançando gente pelo ladrão (ladrão é o termo), se não há verbas para alimentar decentemente os prisioneiros, se muitos já dormem no chão úmido das enxovias, sem ao menos uma esteira para lhes dar uma mera ideia de que são seres humanos e não animais irracionais!?

Eu sei que existem bons policiais, cumpridores dos deveres impostos pelas suas funções, mas existem também, infelizmente, maus policiais que se deixam corromper e que não cumprem a lei e a ordem. E agora, se a tal “prisão cautelar” for aprovada, é que o povo ficará totalmente à mercê desses elementos, que, aliás, não terão mercê alguma.

Se alguém puder fazer algo, ainda, que faça. A “prisão cautelar” um absurdo e não pode ser incorporada às nossas leis, a menos que se crie, conforme sugeriu a própria Rede Globo, um ministério dos absurdos.

15/12/1979 – O Petróleo é Nosso

Foi este o lema mais ouvido na minha adolescência, da década de 50. Como dava gosto escutar os estudantes gritando, ver os muros pichados, ler nos jornais a frase maravilhosa – O PETRÓLEO É NOSSO!

Na doce ingenuidade dos meus 14 anos eu acreditei que o petróleo do Brasil pertencia aos brasileiros e que, se não podíamos explorá-lo naquela época, estaríamos guardando o ouro negro para o futuro, para o porvir, para os nossos filhos e netos, até a terceira e quarta geração…

Getúlio se suicidou, vieram Café Filho, Carlos Luz, Juscelino, Jânio (quanta esperança jogada fora), Jango… E o golpe de 64. Ai, a coisa melou, não de uma vez, mas aos poucos, gradativamente. As multinacionais foram tomando conta do meu País, setor por setor, até chegar ao do petróleo, através dos famigerados “contratos de risco” (risco pra nós, é claro!).., e agora, quando o Seu Maluf acabou de assinar com a Petrobrás mais um desses contratinhos, um calafrio percorreu a minha espinha…

– Com os diabos! – pensei – Por que o Seu Maluf vai gastar milhões de cruzeiros do povo paulista para procurar petróleo na bacia sedimentar do Rio Paraná? O próprio Shugeaki (Shigiaki? Shegiaki? Nunca vou conseguir escrever o nome dele) afirmou que essa região “não é das mais promissoras em petróleo, pois somente 6 por cento do produto descoberto em todo o mundo foi encontrado em bacias paleozóicas do tipo da do Paraná”.

Então, por que investir nessa área? É claro que deve haver algum motivo, pois o Seu Maluf não dá ponto sem nó. Um motivo oculto, é claro, pois o homem não costuma fazer a coisa às claras… Ele declarou, textualmente: – “Estou confiante que encontrarei petróleo na Bacia do Paraná. Em todos os países ao redor do Brasil existe petróleo, por que não haveria de ter aqui, se Deus é brasileiro?”

Ora, Deus não é propriedade de nenhum país e, portanto, Deus é multinacional, Seu Maluf! O tipo de terreno que constitui os países em volta do Brasil é totalmente diverso do velhíssimo solo que compõe a Bacia do Paraná. Portanto, os países em volta não têm nada a ver. Mas, deve ter outros países com muito a ver (ou com haver?) ai com a coisa…

– Ah, achei – em troca da remuneração igual a 37% do petróleo encontrado, o consórcio paulista compromete-se a fazer um investimento mínimo, em três anos, de 65 milhões de cruzeiros por bloco; e o diretor do IPT indicou que á Paulipetro pretende investir entre 60 e 70 milhões de dólares, apenas em 1980!  E revelou, ainda, que o consórcio não tem planos de trabalhar sozinho: “Podemos subcontratar empresas privadas nacionais e estrangeiras, sob regime de prestação de serviços, sem risco e sem participação na produção, para fazer os furos”. Tá tudo explicado… Atrás desses termos técnicos, tem dente de coelho – as multinacionais vão entrar no negócio.

Achar ou não achar o ouro negro não é importante; o que importa é facilitar cada vez mais a entrada de firmas privadas na exploração do nosso petróleo. O que importa é abrir os braços (ou as pernas?) para as multinacionais e tirar o monopólio das mãos da Petrobrás. O que importa é destruir o que foi tão duramente construído durante o governo do Getúlio: o petróleo brasileiro para os brasileiros!

Tal como a velha piada que diz que “a borracha é nossa, mas está na mão do guarda”, eu digo: o Petróleo é nosso, mas por pouco tempo. Logo, logo, estará nas mãos das multinacionais… quem viver, verá.

18/12/1979 – Um pianista no telhado

Há anos eu assisti um filme maravilhoso, passado na Rússia dos tempos do Czar, contando os dramas de uma família judia durante a época dos pogroms, perseguições religiosas promovidas pelo próprio governo, em que os judeus eram massacrados sem piedade. O chefe da família, toda vez que uma grande crise se aproximava, toda vez que grandes ameaças pesavam sobre sua gente, avistava um violinista tocando rabeca em cima do telhado…

É claro que tudo não passava de uma visão, de uma espécie de alucinação dele. Sua mente criava a figura do “Violinista no Telhado” para afastar os problemas reais da sua dura vida. O engraçado é que isso também começou a acontecer comigo, ultimamente… Acho que é por causa desta crise sem fim em que fomos lançados pela má administração, pela falta de previsão e pela incúria dos nossos governantes.

Agora que a gasolina está pela hora da morte, que o custo de vida está insuportável, que a inflação já passou dos 100% na prática (apesar da manipulação de dados do Dr. Delfim) e que não há nenhuma esperança à vista, eu comecei a ver um músico no telhado lá de casa. Não um violinista, como no filme, mas sim um pianista. Eu tenho um pianista no telhado!

A visão começa de repente, meio estranha… Primeiro, eu vejo cinco pianistas famosos, tais como João Carlos Martins, Jacques Klein, Moreira Lima e outros da mesma qualidade. De repente, aparece o sexto, o tal do telhado, que é nada mais nada menos do que o Seu Maluf! Que loucura!

E aí eu vejo bem o piano que o Seu Maluf está tocando: é um piano alemão da marca “VOLK”, a palavra que quer dizer POVO. E o Seu Maluf não tem pena do coitado do povo… Ele malha o Povo sem dó, batendo sempre nas mesmas teclas, usando o Povo como se ele não tivesse valor algum.

Como o Povo sofre nas mãos dele! Acho que, na verdade, isso acontece porque ele toca muito mal, exercendo sua função da pior maneira. O Seu Maluf está precisando de um bom professor, mas acho que ele ainda não arrumou porque, como todos sabem, o Seu Maluf detesta professor… ouvi dizer que ele já teve vários, mas os professores ficaram muito descontentes, pois o Seu Maluf só lhes deu um abono de Cr$ 2.000,00 e, no ano seguinte, um reajuste de 5% sobre o abono, ou seja, de apenas cem cruzeiros!

Ah, se não me engano, antes de ser pianista, o Seu Maluf era dono de uma madeireira, de uma serraria, ou coisa assim. É por isso que ele malha o Povo daquela maneira: falta-lhe leveza no trato com o Povo, pois ele estava acostumado a lidar com serviços mais grosseiros. Mas, tem uma coisa que eu não entendo… Apesar de tudo, tem gente que diz que o homem tem a mão leve! Que estranho!

Mas, do que é que estou falando? É tudo apenas uma visão, não há nenhum pianista no meu telhado. É apenas uma alucinação minha, é claro, esse custo de vida, essa inflação, esse salário que não dá mais para nada, essa falta de perspectiva estão me deixando maluco. Não existe nenhum pianista, ele é fruto da crise, do desgoverno, da incúria, do desleixo, da ganância e da falta de vergonha que imperam nestes tristes dias que vivemos na Terra de Santa Cruz.

19/12/1979 – As Desgraças de Uma Criança

Redemptora veio ao mundo em 1964 e foi saudada com rufos de tambores por muitos que acreditavam que ela tinha vindo para salvá-los. Salvá-los de que, nem eles sabiam. Uns diziam que era uma criança predestinada, que a sua chegada ao mundo significaria o fim do comunismo e da corrupção, fim da carestia e melhores dias para o povo. Houve muitas senhoras de boa família que, quando Redemptora ainda estava em gestação, rezaram terços e mandaram celebrar missas pela sua vinda, chegando até a fazer procissões e marchas da família com Deus, pela liberdade…

Hoje, Redemptora está com mais de 15 anos de idade. Ela, que nasceu numa fria madrugada de um 1° de abril, decepcionou muitos que tanto tinham esperado a sua chegada. Já nasceu feia e subdesenvolvida, apesar de todo o ouro que milhares de pessoas deram para o seu bem… Aos quatro anos e alguns meses, em 1968, foi acometida de um mal súbito provocado pelo vírus do tipo AI-5, ficando enferma por dez anos. Essa doença antes desconhecida provocou-lhe manchas no rosto, manchas que não saem com nenhum tratamento e que só poderiam ser reduzidas com um remédio chamado “Anistia Ampla, Total e Irrestrita”. Todavia, Redemptora só tomou o remédio pela metade e as manchas continuaram a enfeitar o seu semblante.

Redemptora é uma criança infeliz. Durante seus quase 16 anos de vida, não conheceu seus legítimos pais, só teve tutores. E cada tutor tratou a coitada pior do que o outro. Dizem que Redemptora é filha de pai desconhecido com mãe ignorada , dizem até coisas piores da pobrezinha… Ela sofre, atualmente, de várias doenças incontroláveis, tais como a inflação galopante, o capitalismo selvagem, a cólera do povo, etc. Mas, dizem as más línguas, o maior mal dessa menina é falta de vergonha na cara.

A inflação começou como um comichão sem importância e um famoso médico, o Dr. Delfim, diagnosticou, em 1973, que aquilo era coisa passageira e facilmente controlável. Hoje, mais de 6 anos depois, nem o Dr. Delfim nem ninguém consegue deter esse mal. O doutor receitou alguns remédios drásticos que, ao invés de curar a pobrezinha, pioraram a sua doença. O capitalismo selvagem, então, está corroendo suas entranhas e sugando o sangue da infeliz. Há quem diga que o capitalismo é um tipo de câncer que levará Redemptora á morte, se alguma coisa não for feita bem depressa. Muita gente sugere uma cirurgia de emergência, mas o Dr. João, que é o médico chefe do hospital onde trabalha o Dr. Delfim, acha que é melhor por panos quentes em cima da coisa… Ele é quem sabe pois, além de tudo, ele é tutor da criança.

A cólera do povo está difícil de controlar. É uma doença que explode periodicamente, como uma erupção cutânea, mas que pode levar muitos órgãos vitais da Redemptora à paralisação total. O Dr. João resolveu fazer um tratamento de choque, outro dia, para tentar acabar com essa doença, mas por pouco não foi vitimado por ela.

Agora, a falta de vergonha na cara, se é que existe mesmo, não acredito que tenha tratamento. Se a menina vencer as outras doenças, essa última acabará definitivamente com ela! Se nem o Dr. Delfim e nem outros dos muitos médicos que cuidam da Redemptora acharem logo uma cura para a menina, a coisa vai ficar preta!

Dizem que ela não vai muito bem das pernas, que anda ruim da cabeça, que às vezes falta-lhe pulso… O Dr. João tentou operá-la, mas parece que a intervenção não foi muito bem sucedida, houve um problema de abertura mal feita, sei lá. Só acho que, do jeito que vai, a Redemptora está com os dias contados…

20/12/1979 – Moda para o verão 79/80

Grandes novidades estão sendo aguardadas para a próxima temporada de verão 79/80. Os costureiros nacionais já preparam seus lançamentos, pois a temporada promete ser como a nossa política: quente à beça.

Nas praias vai imperar a tanga feminina, do tipo já chamado de Anistia do João, ou seja, pela metade: a tanga só vai ter a metade inferior. Para o réveillon, nada mais indicado do que a saia Figueiredo, a famosa com abertura nas coxas.

Os vestidos serão ousadíssimos, com decotes Cruzeiro, ou seja: lá em baixo e com saias Dólar, ou seja: lá em cima. Já os sutiãs estarão rigorosamente dentro do modelo “Depósito Compulsório para Viagens ao Exterior”, a saber: totalmente extintos.

Para a noite, os costureiros prometem lançar os vestidos transparentes, tipo “Pacote Econômico do Governo”. Isto porque, através do Pacote dá pra ver claramente os interesses das multinacionais. As calcinhas serão dentro do molde Petróleo Brasileiro: insuficientes para cobrir as necessidades básicas.

A maquilagem para a noite deverá ser como a política de aumentos da gasolina, bem pesada e surpreendente. Mas, para o dia, a maquilagem deverá ser como a mão do Maluf: bem leve (para tocar piano, é claro)…

Os calçados femininos serão lançados dentro do modelo “barril de petróleo”, muito caros e sujeitos a reajustes sem prévio aviso.

Já o bico dos sapatos será como o discurso de fim de ano do João: comprido e chato.

As partidárias do Arenão usarão a nova moda tomara que caia, enquanto que as militantes dos partidos de oposição usarão frente única.

Para os homens, teremos o lançamento do calçãozinho salário mínimo, curto e apertado (tipo tanga do Gabeira) que quase não dá pra ver. Os paletós terão um comprimento modelo C. Cals, um pouco limitado. Já as calças serão dentro do padrão D. Neto, muito folgado e largo. Em contrapartida, os cintos deverão ser usados como manda a situação: bem apertados.

As camisas serão de voal 100% (tipo inflação), dentro dos moldes Eduardo Portela, um tanto arejadas, mas ainda presas a modelos tradicionais. A gravata estará praticamente abolida, mas, se usada deverá ser como a situação do País: totalmente negra.

A moda para a temporada de verão 79/80 estará como os filmes “O Último Tango em Paris”, “Black Emanuelle” etc., ou seja, totalmente liberada. Todavia, devido às mais diversas tendências, ela será um tanto ou quanto como a Reforma Partidária: muito confusa e sujeita a alterações imprevistas.

Porém, para os amantes do esporte, não vai dar outra: a moda será de todo o tipo, menos do tipo SECOM, que será abolida por ter se mostrado totalmente ineficiente para mudar a imagem do João…

21/12/1979 – Professor sofre…!

Apaixonado que sou pelas histórias em quadrinhos, jamais poderei me esquecer de uma que li há mais de trinta anos atrás, do Ferdinando. Para quem não conhece, Ferdinando é um famoso personagem criado por Al Capp, autor norte-americano recentemente falecido. Musculoso, bonito e um tanto abobalhado, Ferdinando (Li’l Abner) é raptado, na história em questão, por um disco voador. Lá do alto, os seres alienígenas vão fazendo diversas perguntas sobre o nosso Planeta, chegando à conclusão que nós estamos vivendo numa era pela qual eles haviam passado, no mundo deles, a “Era Idiota”.

Ferdinando contesta os tripulantes do disco, alegando que nós temos escolas aqui na Terra, com professores e tudo o mais. Os seres ficam muito interessados e perguntam se esses tais professores são os profissionais mais bem pagos do Planeta e, ao saberem que são dos mais mal pagos, concluem, peremptoriamente: – “É mesmo a Era Idiota!”

Hoje, lendo as declarações de Luiz Ferreira Martins, secretário da Educação de São Paulo, que voltou a defender a “jornada de trabalho” para o magistério, eu pensei com meus botões: professor sofre…!

Pelo que entendi, com o pretexto de dar segurança ao professor e de disciplinar o funcionamento da Rede Estadual de Ensino, essa tal jornada vai é aumentar o número de horas de trabalho do professor, esse profissional tão importante, tão sofrido e tão mal pago.

O secretário disse que “o número de descontentes é pequeno” e afirmou que, “se for feito um plebiscito entre os professores, mais de 90% deles se manifestarão favoravelmente”.

Sugiro ao secretário F. Martins que faça esse plebiscito e que verifique se isso é verdade, em vez de ficar fazendo conjecturas; o mínimo que pode acontecer é termos uma votação direta, coisa que não acontece com muita frequência neste País…

Ah, o secretário disse também que “além disso, a implantação da jornada não obriga os professores a aceitá-la. Será respeitado, sobretudo, o direito de opção e, desejando, os interessados poderão escolher a jornada comum – que equivale a 18 aulas mais duas horas de atividades – e disputar o número de aulas complementares que desejar”. Parece tudo certo, mas, eu considero que, se a “jornada de trabalho” é para disciplinar o funcionamento da Rede Estadual de Ensino e dar estabilidade aos professores, todo aquele que não optar por ela ficará totalmente instável e inseguro quanto ao período letivo seguinte. Ou seja, quem não optar, não vai ter vaga em 1980!

Sim, porque, para quem não sabe, eu explico que existem dois sistemas distintos de contratação de professores: a CLT e a ACT (caráter temporário), o que causa, todo ano, disputas inclusive judiciais por vagas e aulas. Enfim, a “jornada de trabalho” é mais um artifício para obrigar o já sofrido professor a sofrer um pouco mais, se quiser sobreviver dentro da profissão.

E tudo isso para ganhar salários baixíssimos, abonos de Cr$ 2.000,00 em vez de aumento e depois um reajuste de 5% sobre o abono, ou seja, de apenas cem cruzeiros, dinheiro que, logo, logo, não vai dar pra por um litro de gasolina azul no carro.

Refletindo sobre tudo isso, chegamos à conclusão de que estamos, realmente, na “Era Idiota”. O único professor que eu conheço, que está muito bem de vida, é o prof. Delfim. O que ele leciona eu não sei, mas creio que ele não ensina o que sabe a ninguém, pois ele não é bobo…

22/12/1979 – Loto? Que bicho é esse?

Há muitos anos atrás, Monteiro Lobato, que não escrevia só “O Sítio do Picapau Amarelo”, nos brindou com um conto muito interessante, no qual um indivíduo acompanhava, por mais de dez anos, um processo nas repartições públicas. Aposentado, ele ia de sala em sala e de chefe em chefe, no aguardo de uma solução para o processo, no fim do qual ele deveria receber uma pequena importância do governo.

Um dia, depois de muitos tramites legais e ilegais, o processo foi considerado favoravelmente e o interessado recebeu o dinheiro devido. Sem saber o que fazer com aquela pequena quantia (o acompanhamento do processo era só um modo de preencher o tempo vago), o personagem resolveu investir no jogo do bicho. Fez uma fezinha no milhar e acertou na cabeça, ganhando uma pequena fortuna, para a época.

Ai, ele ficou preocupado… Se para receber uma pequena quantia do governo, ele, levara mais de dez anos, quanto tempo levaria para receber uma vultosa quantia dos bicheiros? Para sua surpresa, o premio foi pago no dia seguinte, em dinheiro, sem qualquer burocracia. Diante dos fatos, o personagem concluiu: – “É por isso que o governo não pode com o jogo do bicho!”

Agora que o Governo resolveu criar o Loto, uma espécie de jogo do bicho oficial, eu fico pensando se isso vai prejudicar ou mesmo acabar com o velho jogo criado pelo Barão de Drumont… Mas, sinceramente, não creio. Não creio, porque o jogo do bicho é o jogo do povo. O povo já está acostumado não em apostar em números, mas sim no tigre, na avestruz, na águia etc.

A não ser que o povo resolva substituir os antigos bichos pelos políticos de maior destaque do momento. Ai sim, a coisa vai ficar engraçada. Já pensaram se, em vez de apostar no elefante, a gente apostasse no Delfim? Ou, se cada vez que um político fizesse declaração à imprensa ou aparecesse na TV, o povo fizesse uma fezinha num bicho?

Por exemplo: o João falava à Nação e a gente já tinha palpite: ou leão, que é o rei dos animais, ou cavalo, (lembrando do Complexo, é claro…). Aparecia o Golbery na tela e a gente jogava na cobra, pois o homem é cobra pra chuchu nas funções dele, não é? Maluf dando entrevista, só podia dar gato na cabeça! Eduardo Portella falava, e o povão jogava no pavão. Petrônio Portella era palpite certo: jacaré do primeiro ao quinto… César Cals, só podia dar macaco, pois o macaco sempre está certo. Francelino Pereira, cabra com certeza, pois ele um cabra danado de sabido, para uns… E um cabra da peste para muitos.

Chagas Freitas, tá na cara: vaca (de presépio, naturalmente). Mas, não é justo que só falemos da situação, vamos falar também da oposição… Luis Carlos Prestes falando, urso, é claro. O homem só entra em fria! Lula propondo o PT, a gente jogava no camelo, pois operário, em nosso País, só camela mesmo. Agora, eu não quero nem saber quem é que ia aparecer para sugerir palpites para os seguintes bichos: cachorro, borboleta, peru, burro, porco e veado… (Cartas para a redação com sugestões, por favor).

Porém, de uma coisa tenho certeza: se voltarem a acontecer as eleições diretas no Brasil, só pode dar ZEBRA.

25/12/1979 – Feliz Natal, Brasil!

O Espírito do Natal, que anda baixando em muito centro por aí, baixou hoje aqui em casa. Tomado por ele, imbuído pela fraternidade universal, incorporado pelo amor ao próximo, envio esta mensagem de Natal a todos os brasileiros…

Feliz Natal, Brasil, que você está precisando! O Ano Internacional da Criança está chegando ao fim e eu constato, pasmado, que morreram 60 crianças por hora neste País, ou seja, uma por minuto, 1.440 por dia, 10.080 por semana, 34.200 por mês e 525.600 só neste ano, de fome, desnutrição e miséria aguda… Mais de meio milhão de crianças para as quais, além de Ano I da criança brasileira, este também foi o ano único.

Não sei se esta estatística está correta, mas foi publicada em diversos jornais. O que eu sei, mesmo, é que a gasolina, que estava custando pouco mais de Cr$ 6,00 no Natal passado, agora está a Cr$22,60. O aumento foi de apenas 350%! E a inflação já passou dos 100%, se contarmos o preço da comida e de outros gêneros de primeira necessidade. É claro que o Governo não vai indicar este índice oficialmente, pois uma inflação semelhante foi um dos pretextos para se derrubar João Goulart em 1964. É claro que haverá nova manipulação de dados, por um certo ministro que já fez coisa semelhante em 1973, quando servia o outro general Presidente.

Feliz Natal, Brasil, porque o povo está precisando de um pouquinho só de felicidade, para conseguir suportar os novos aumentos que estão vindo, após a maxidesvalorização do cruzeiro e que virão após o novo aumento da gasolina, que virá com certeza no começo do novo ano. Por mais que o Governo negue isso, para não alarmar o povo no Natal, o novo aumento que será estipulado pela OPEP, com o barril de petróleo em torno de 30 dólares, vai obrigar os países pobres a reajustarem os preços internos dos derivados do ouro negro. Aliás, OPEP, pra quem não sabe, quer dizer: “Os Pobres Estão Perdidos”!

Além de enviar mensagem de otimismo e tranquilidade ao povo brasileiro, eu queria também aproveitar o ensejo do Natal para escolher o Papai Noel do ano. O meu voto vai para o Super Ministro Professor, que além de gordo o suficiente para representar o Bom Velhinho, ainda nos brindou com magníficos presentes (de grego)… Ele prometeu, quando assumiu a Pasta da Agricultura, em março, encher a panela do povo e criar o Saco Agrícola. Depois, mudou de Pasta e misturou as coisas, acabando por encher o saco de todos com presentes tais como o aumento do Imposto de lenda, o aumento punitivo dos combustíveis, o aumento do dólar etc. Encheu tanto, que acabou por ser apelidado de Ministro do Planeja Aumento.

Palmas para ele! Vai para o trono, ou não vai? Feliz Natal, Brasil!

27/12/1979 – O GURU E O BODE

Tenho um amigo que está a favor do Governo. Juro, está mesmo! Ele me disse, ainda ontem, todo satisfeito: Você viu só? Extinguiram o Depósito Compulsório para Viagens ao Exterior! Agora eu vou poder viajar pelo mundo todo! Êta Governo bom!

De fato, o Depósito vai ser extinto no próximo dia 31 e os brasileiros que desejarem sair do País não vão ter de pagar nenhuma taxa extra para o governo. Só tem que, com a maxidesvalorização do cruzeiro, quem comprar passagens de ida e volta para a Europa ou para os Estados Unidos, só para dar um exemplo, vai pagar cerca de Cr$ 22.000,00 a mais… E sem direito à restituição, é evidente.

Essa atitude do Governo me faz lembrar da velha história passada na índia, onde um homem muito pobre e infeliz foi visitar um guru para tentar conseguir uma orientação, ou alguma coisa que o ajudasse a enfrentar sua triste situação. – O grande guru, – disse ele – moro num barraco, com minha mulher e vinte filhos… Sou pobre e muito infeliz. O que devo fazer? – Junte seus últimos tostões e compre um bode! Respondeu o sábio guru -. E coloque o bode dentro do barraco.

O infeliz pária assim fez. Uma semana depois, lá estava ele, procurando novamente o guru, com mais problemas ainda do que antes, muito triste e sem seus últimos tostões.

– O sábio guru! disse o homem – Eu fiz como vós me aconselhastes… Com as poucas rupias que ainda tinha, comprei um bode velho e malcheiroso e o coloquei dentro do meu barraco! A situação piorou muito, pois meus filhos choram à noite, minha mulher grita comigo, o bode berra, o cheiro é insuportável e, além de tudo, perdi o emprego que tinha, pois não consigo dormir e chego todos os dias atrasado ao serviço! Dizei-me, ó iluminado, o que devo fazer agora ?

O guru meditou, meditou e respondeu: – Tire o bode de dentro do barraco!

Assim é o Governo; primeiro inventa um Depósito absurdo, que não traz benefício algum ao País, que impede milhares de brasileiros de sair do Brasil, mas impede também que milhares de estrangeiros, cheios de dólares, marcos, pesos, libras e outras moedas, venham gastar tudo isso aqui e aumentar as nossas divisas. Sim, porque avião não viaja vazio e as companhias aéreas só marcam vôos para o Brasil se houver passageiros para viajar de volta, no mesmo avião. Como não há brasileiros para sair, os estrangeiros não entram. O turismo vai para o brejo e o Brasil fica mais pobre… Depois, o mesmo Governo cancela o Depósito e muitos respiram aliviados!

E não adianta dizer que foi na administração do general presidente anterior que o Depósito foi instituído, pois a atual administração é um prolongamento da outra, que foi um prolongamento da anterior e assim por diante. O Governo faz questão absoluta de dizer que mudam as administrações, mas a Revolução continua.

Bota o bode no barraco, tira o bode do barraco e quem se estrepa é sempre o povo. Êta Governinho bom!

28/12/1979 – No Reino da Democracia

Era uma vez, há muitos e muitos anos, num reino muito distante, uma linda princesa chamada Democracia. Não se sabia como e nem por que, mas a menina estava dormindo, há mais de quinze anos, na torre mais alta de um castelo erigido num planalto… Uns diziam que foi uma bruxa má quem a enfeitiçou, outros, que ela recebera um violento golpe e que estava em estado de coma. O que se sabia, realmente, é que a linda princesinha estava deitada eternamente em berço esplêndido e que só um cavaleiro audaz poderia tirá-la desse estado, com um beijo de amor.

Muitos foram os cavaleiros que passaram pelo planalto, mas todos temeram despertar a Democracia. Uns, porque acreditavam que, na tentativa, poderiam despertar um dragão vermelho que também dormia no castelo, chamado Comunismo. Outros, porque era muito difícil chegar à Democracia sem cair do cavalo… E assim, a linda princesa foi ficando esquecida, em seu plácido sono.

Com o tempo, cresceu um grande espinheiro em torno do castelo. Era um espinheiro denso, quase intransponível. Assim, a maioria do povo foi se conformando com a situação, acreditando ser impossível despertar a Democracia. Até os mais valorosos nobres do reino foram silenciando pouco a pouco, ou sendo misteriosamente silenciados por alguém que não desejava que a Democracia fosse despertada…

Mas eis que, um dia, surgiu um belo e garboso cavaleiro, o Príncipe João, por muitos chamado de João Sem Medo, por outros chamado de outros nomes não tão bonitos. O Príncipe veio montado em seu cavalo branco, todo ajaezado! A mão direita trazia estendida, num gesto de paz e conciliação, mas carregava uma poderosa espada na mão esquerda, para o caso de alguém não aceitar o fraternal aperto da direita.

Do alto de seu ginete, ele fez um juramento: – “Hei de fazer despertar a Democracia!” – e, incontinenti, partiu para a luta… E que luta! O denso espinheiro barrava seus passos, mas ele foi golpeando à esquerda e à direita, criando, pouco a pouco, uma abertura lenta e gradual.

Ao chegar à porta do castelo, ele ouviu um rugido: tinha despertado o dragão! Só que não era o Comunismo, como se pensava e sim o Dragão da Maldade, posto ali pelos inimigos da Democracia. Todavia, como ele se acreditava o Santo Guerreiro, partiu para cima do dragão e o derrotou.

O castelo estava cheio de prisioneiros e ele, magnânimo, resolveu libertá-los. Só que, não se sabe bem por que, o Príncipe João soltou alguns, deixando outros em suas celas… Mas, isso não vem ao caso. O fato é que, destemido, ele galgou os degraus que levavam à Democracia e, abrindo os véus da escuridão que mantinham a Democracia inerte em seu sono profundo, avistou-a. Como ela era bela, ali, adormecida, à espera de um herói para tirá-la de seu longo sono de quase 16 anos…

João, o Sem Medo, avançou para o leito e sapecou um beijo nos dormentes lábios da Democracia. E, oh, espanto! Alguma coisa saiu errada e ela, ao invés de despertar, transformou-se numa rã…

29/12/1979 – O Petróleo é Nosso

No último dia 15, escrevi uma coluna com o título “O Petróleo é Nosso”, onde eu afirmava: – “Tal como a velha piada que diz que “a borracha é nossa mas está na mão do guarda”, eu digo: o Petróleo é nosso, mas por pouco tempo. Logo, logo, estará nas mãos das multinacionais… Quem viver, verá”. Eu sabia que isso aconteceria, mas não tão depressa…

Hoje, passados poucos dias desde que redigi a nota, abro os jornais e deparo com uma notícia chocante: o ministro César Cals, das Minas e Energia, acaba de declarar que “o Governo vai facilitar ao máximo as condições para que as empresas estrangeiras atuem na busca do petróleo brasileiro”.

Agora, em vez de blocos, o Brasil vai dar bacias geológicas inteiras para as multinacionais, aceitando o pagamento em óleo!

Essa nova “abertura” do Governo fere frontalmente a Lei n° 2.004, de 3 de outubro de 1953, assinada pelo Getúlio, que criou o monopólio estatal de petróleo no Brasil, bem como a Petrobrás! Essa nova posição assumida pelo Ministério das Minas e Energia dói bem no fundo do peito da gente, pior que um enfarte do miocárdio, pior que uma “angina pectoris”… Dói mais do que uma hora de interrogatório nos porões da repressão !

Não é uma dor física, mas sim moral… Que sejamos subdesenvolvidos, ainda passa, mas que nos sintamos os últimos dos infelizes do mundo, já é demais.

E apesar de negar que o monopólio estatal esteja sendo ferido, o Ministro fez questão de acentuar que as facilidades cada vez maiores à penetração de empresas multinacionais na procura de petróleo se devem á orientação do Presidente Figueiredo…

Cals ainda revelou que “o Brasil aceitará parte da remuneração em óleo bruto se deve a sugestões de empresas japonesas, desejosas de participarem dos esforços do Governo em descobrir petróleo”. Eu sabia que tinha o dedinho do Shugeaki (Shegeaki, Sijoaki, sei lá como é o nome dele) na coisa… foi o baixotinho que começou a quebrar o monopólio estatal, quando estava no ministério, no tempo do general presidente anterior.

“Para que a meta de 500 mil barris por dia seja alcançada até 1985 – disse o Ministro – temos de encontrar petróleo a todo custo!” Pelo jeito, até mesmo a custo do comprometimento das nossas jazidas petrolíferas, a custo das nossas mais elementares noções de direito de propriedade sobre o petróleo que era nosso. Que era, porque já não é mais…

Do jeito que as coisas vão, um dia nós ainda contaremos para nossos netos: – “Era uma vez um tempo em que o Brasil ainda tinha petróleo, ainda tinha urânio, ferro e outros minerais, a Amazônia ainda era parte integrante do País e a gente sentia orgulho de ser brasileiro!”

E o netinho, dando uma gargalhada, responderia: – “Tá caducando, ô coroa? Isso daí é conto da carochinha, falou?”

30/12/1979 – A Praça é do Povo

O governo mexicano acaba de inaugurar na Cidade do México uma grande praça pública, com capacidade para cem mil pessoas, destinada à manifestação popular.

E um espaço quase igual ao ocupado pelo Maracanã e vai servir para que os mexicanos possam fazer passeatas e reivindicações, para que o povo possa exercer o livre direito de reunião, fazer assembléias e comícios e até mesmo decretar greves!

O México, uma vez mais, dá a América Latina uma lição de civismo e democracia, de respeito ao povo, aos direitos humanos e à liberdade. E como a nossa pobre América Latina (entenda-se subdesenvolvida) está precisando de lições desse tipo! Os chamados “governos fortes” têm muito a aprender com o México, em termos democráticos e políticos… Ceder espontaneamente uma praça para o povo é, antes de tudo, uma atitude inteligente de um governo aberto ao diálogo e à compreensão mútua.

“A praça é do povo!” – já dizia o grande poeta baiano Antônio de Castro Alves, nascido em 1847 e precocemente falecido em 1871, o poeta da Abolição e da Liberdade… – “A praça é do povo, como o céu e do condor!” Mais de cem anos já se passaram desde a sua morte e a América Latina (inclusive o Brasil), ainda não sabe disso.

Nem vamos pensar em Chile, Argentina e Uruguai, redutos da mais dura repressão e da mais ferrenha ditadura que o nosso continente já conheceu… Vamos falar de Brasil, do nosso Brasil da Abertura, do nosso País quase democrático, do Brasil do João, que jurou fazer dele uma democracia até 1984.

Como seria bom se o João, no ano que vem, criasse uma praça como a do México, para o nosso povo… Uma praça onde a gente pudesse dizer o que pensa, fazer reunião e passeata, falar mal do governo, e até mesmo elogiar o governo, se ele merecesse, sentar no chão, namorar, fazer comício, greve, manifestações em geral e até levar as criançadas para brincar!

Uma praça onde a policia só comparecesse para manter a segurança dos que estão nela, livremente reunidos, e nunca para baixar a borracha nas costas (largas) do nosso povo, nem atirar bombas de gás lacrimogêneo em estudantes ou em operários grevistas.

Um lugar onde todos pudessem expor, livremente, suas ideias políticas e religiosas, onde os crentes pudessem entoar seus hinos, os católicos fazer suas procissões e os umbandistas as suas oferendas aos orixás…

Mas é sonhar demais, como diria o poeta. No Brasil de hoje, apesar de toda a Abertura propalada pelo governo, ainda não há clima para isso. A praça não é do povo e o céu, de acordo com outro poeta mais novo, também baiano, “é do avião”…

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