O Expresso Do Fim-Do-Mundo

História do Pena Kid, de 1984.

Depois do advento do “Torniquete”, o cavalo de brinquedo “Alazão de Pau” feito cavalo de verdade, papai se animou a escrever apenas quatro histórias para o personagem. A ideia decididamente não foi dele, mas foi imposta a ele por uma decisão da chefia da redação, e ele se ressentia disso.

O nome do personagem é uma brincadeira com Tornado, o cavalo do Zorro, mas eu acredito que isso também não foi ideia de meu pai. A transformação do cavalo de madeira em de verdade, além disso, parece (pelo menos para mim) algo inspirado na história de Pinóquio (o que também não é nada lá muito original, para se dizer o mínimo).

Esta é, para todos os efeitos, a última história do Pena Kid escrita por papai. Depois disto, ele não voltou mais ao seu Vingador do Oeste. Ele faz questão de levar o personagem literalmente até o fim do mundo para uma aventura tão inglória que o fará até mesmo desistir de ser um vaqueiro errante. (E de quem foi a ideia de desligar o Pena Kid da turma de Pacífica City, afinal???)

Acho que a cena abaixo define muito bem o resumo dos sentimentos que ele nutria pela descaracterização imposta ao seu personagem mais querido:

Realmente, se a ideia era fazer papai desistir do personagem, já que a proibição anterior não funcionou (o personagem era criativo e divertido, mas as vendas não eram lá essas coisas e a direção da redação não gostava de “gastar papel” com ele por esse motivo), então desta vez conseguiram.

O que papai fez, aqui, foi “matar”, ao menos simbolicamente, os dois personagens. RIP, Pena Kid e Alazão de Pau.

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No Território Dos Pés-Chatos

História do Pena Kid, de 1975.

Esta história, na verdade, é menos sobre o que acontece entre o Vingador do Oeste e os índios Pés Chatos (ênfase em “chatos”) do que sobre o “processo criativo” do Peninha na redação de A Patada e como os palpites do Tio Patinhas influenciam na coisa toda.

É também uma crítica aos clichês dos filmes de faroeste “macarrônicos“, produções italianas e espanholas de baixo custo e muitas improvisações que tomaram as telas dos cinemas nos anos 1960, na onda dos grandes Westerns Norte Americanos dos anos 1950.

Assim, além dos panos de fundo mal disfarçados e cidades construídas somente de fachadas, outros elementos que não podiam faltar eram o conflito com os índios, as cenas de luta corpo a corpo das quais o herói sempre começava perdendo mas no final saía vencedor (mesmo que para isso fosse preciso dar uma forçada no roteiro), a presença e o salvamento de uma mocinha em apuros (idem), a ocasional cena melodramática (ibidem) e outras coisas do gênero.

E tudo isso, é claro, era feito na intenção de manter feliz ao público que assistia esses filmes. Os produtores temiam que, se os espectadores saíssem descontentes dos cinemas, eles fossem acabar perdendo dinheiro. Era algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje em dia com as novelas de televisão, que vão avançando às vezes de maneira meio errática, mas sempre de acordo com os gostos dos telespectadores.

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Pena Kid Ataca Novamente

História do Pena Kid, de 1974.

Depois das três histórias de apresentação, a saber: “Quadrinhos e Adivinhos”, “Uma Missão Espinhosa” e “Pena Kid e Xaxam”, esta pode ser considerada a primeira aventura propriamente dita do Vingador do Oeste como personagem do Peninha.

Aqui papai começa a trabalhar todos os clichês dos velhos filmes de faroeste, como a cidade cenográfica feita só de fachadas de madeira apoiadas em varas, o forasteiro que chega à cidade (chamada Buracodebala City) e é confundido com um bandido, e acima de tudo os tiroteios intermináveis nos quais ninguém fere ninguém, só os bandidos ficam sem balas no final (as da arma do mocinho não acabam nunca) e o herói sempre vence, apesar de ser só um contra um bando de foras-da-lei.

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O detalhe interessante é que nesta história o Alazão de Pau não apenas pensa as suas falas (como na maioria das histórias seguintes), mas realmente as pronuncia em voz alta, para o espanto de todos. Já que ele é um objeto mágico, feito de um tronco dado ao herói por um velho índio, ele realmente deveria poder fazer muitas coisas.

É uma pena que, ao longo do tempo (e frequentemente por sugestão de chefes e colegas), o Alazão tenha gradativamente perdido suas capacidades mágicas até se tornar um mero cavalo de verdade. Um final melancólico para o que começou como a exaltação mágica de um brinquedo querido, uma ode à felicidade das brincadeiras de infância.

Aqui também vemos a continuação da tradição dos palpites do Tio Patinhas, que seria um elo de ligação entre as várias histórias até o personagem ser “desligado” da redação de A Patada na história chamada “A Conquista do Oeste”, e o começo das “indiretas” e piadas internas dirigidas aos colegas e chefes na redação da Editora Abril que papai distribuiria pelas páginas de muitas de suas histórias, especialmente as do Pena Kid e as do Morcego Vermelho ao longo dos anos.

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E hoje pela primeira vez, o mocinho vem cantando uma versão mais tradicional de “Oh, Suzana”, no quadrinho de abertura da história. Se, como eu calculei em meu comentário sobre “O Norte Contra o Sul”, Pacífica City fica no Arizona, e se (como diz a música) o Pena Kid vem do Alabama (a quase um continente inteiro de distância, olhem no mapa), então Buracodebala City provavelmente ficaria em algum ponto entre esses dois estados, no sul dos EUA.

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Pena Kid E Xaxam

Segunda história de criação do Pena Kid, escrita em 1972 e publicada em 1974.

Se, em “Quadrinhos e Adivinhos”, primeira história do personagem, o Pena Kid ainda aparecia apenas como uma ideia na cabeça do Pato Donald, aqui ele começa a se tornar realmente um personagem no que viria a ser a série de quadrinhos na redação de A Patada. Em 1991, papai deixou esta anotação no topo da primeira página:

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Se na história anterior de papai nesta revista, comentada ontem, o Peninha foi visitar o Professor Pardal em busca de uma ocupação que não exija prática nem habilidade, nesta ele finalmente encontra seu verdadeiro propósito na vida, maior ainda do que ser o Morcego Vermelho: ele é… um quadrinista!

Ironia das ironias, o Pato Donald (que é muito criativo mas não sabe desenhar) é o verdadeiro criador e primeiro argumentista do personagem, enquanto o Peninha é o “todo poderoso” (e talentoso) desenhista e argumentista que com o tempo acaba “assumindo” a criação e a produção das histórias, deixando o primo em segundo plano. Para quem achava que não tinha habilidade nenhuma, o Peninha até que está bem.

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O detalhe do espelho já é uma referência ao trabalho numa redação de quadrinhos de verdade, e alguns desenhistas Disney famosos diziam que estudavam as expressões faciais de seus personagens exatamente assim, fazendo caretas na frente do espelho.

A história, além de um raro (até então) vislumbre de como uma redação de quadrinhos funcionava, é também um elogio ao talento e à genialidade do artista solitário, já que, na “guerra de quadrinhos” que se inicia entre A Patada e A Patranha, Donald e Peninha, sozinhos e mal pagos, conseguem ser melhores e mais criativos do que duas ou três equipes de quadrinistas contratados especialmente pelo Patacôncio.

O detalhe é que essas equipes são compostas por caricaturas de todos os membros da redação das revistas infantis da Editora Abril, papai incluso. O pensamento do Patacôncio, no quadrinho, é típico de quem não dá o devido valor aos artistas e o pior é que, infelizmente, esse tipo de comportamento não é monopólio de quem não entende nada dessa arte.

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O Inducks identifica alguns dos retratados: Jorge Kato, Waldyr Igayara, Carlos Herrero, Izomar Guilherme, Ivan Saidenberg, Basilio da Gama, Eduardo Octaviano, e Cristina ‘Kitti’. (Só assim mesmo para papai, que trabalhava em Campinas enquanto os outros ficavam na redação em São Paulo, ser retratado junto com os colegas. Pelo que entendo, várias fotos em grupo foram tiradas na redação em épocas diferentes, mas aparentemente ninguém lembrava de levar uma máquina fotográfica para o trabalho quando meu pai estava presente. Nem ele mesmo, o que é pior).

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Mas há também um elemento de franca rivalidade entre os primos, com direito a ataques de ciumeira de lado a lado. O Donald não esconde os ciúmes, e demonstra até uma pontinha de inveja, pelo tratamento dado ao “seu” personagem pelo primo. O Peninha, então, aproveita para “se vingar” usando o próprio desenho como “arma”. E no final o personagem teoricamente criado pelo Peninha, de nome “Xaxam”, acabou não vingando como personagem independente de papai por causa do aparecimento do italiano Superpato pouco tempo depois.

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Além de Pena Kid e Xaxam, papai também apresenta outros personagens nesta história, no âmbito da “guerra de quadrinhos”. Alguns são paródias de nomes de personagens conhecidos dos quadrinhos clássicos, e outros também poderiam facilmente ter sido desenvolvidos em histórias independentes: Kid Zaforo (jogo de palavras e cópia do Pena Kid), Superpicolé (cópia do Xaxam), Príncipe Super Marinho (Namor), Rei Submarino (a cópia da cópia), Capitão Marinho, Coronel Goiaba, Brasa Humana, Foguete Humano, Kid Maçaneta, Durango Rila, Billy Musine, Bronco Roca, Bat Deira, e por aí vai.

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Forte Apache

História do Pena Kid, de 1975.

A história, hilária e recheada de piadas do começo ao fim, é uma coleção de respostas irreverentes para aquelas perguntas que as crianças fazem a seus pais como, por exemplo, por quê os fortes do Exército dos EUA no tempo da Conquista do Oeste ficaram conhecidos como “Forte Apache“, se não havia índios da etnia Apache dentro deles? Ou será que havia?

Outra dessas perguntas diz respeito a expressões populares, como “na calada da noite”. Quem já passou uma noite de verão em uma área rural, ou de modo geral mais afastada de uma cidade, sabe do que eu estou falando. São grilos, aves noturnas, gatos, cachorros… Nos desertos são os lobos, coiotes, cascavéis, corujas… de “calada” a noite não tem nada!

PK apache

A segunda sacada diz respeito ao processo de criação das histórias em quadrinhos, já que geralmente é fácil colocar o herói em apuros. O difícil é achar uma saída convincente da situação complicada. É aí que entra, muitas vezes, a parceria entre argumentista e desenhista (desde que os dois estejam, é claro, na mesma sintonia):

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Alguns clichês dos filmes de Faroeste também são usados para adicionar à graça da coisa toda, incluindo uma participação especial de Jerônimo, o mais famoso dos guerreiros Apaches.

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No final uma solução é realmente encontrada, afinal, já estava na cabeça de papai (ao contrário do que ele faz parecer na história) desde antes de ele começar a rascunhar, e ela é tão engenhosa quanto simples e inteligente. Mas se eu contar, perde a graça.

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O Fabuloso Dr. Von Xato

História do Pena Kid, publicada pela primeira vez em 1984.

Aparentemente, o “preço” que papai precisou pagar pela volta do personagem, que ficou algum tempo na geladeira por vender menos que os outros, foi a transformação do seu querido Alazão de Pau em cavalo de verdade, como o que vemos nesta história.

O cavalinho de madeira era uma parte essencial da concepção de papai para o personagem, e ele recebeu a decisão do pessoal do estúdio de modificar o alazão como se fosse um tapa na cara. Não gostou nem um pouco, mas foi obrigado a fazer as mudanças exigidas, mesmo que a contragosto.

É uma nova fase do personagem, na qual os meta quadrinhos produzidos na redação d’A Patada já não existem mais e o Pena Kid não é mais o Xerife de Pacífica City, transformando-se em vaqueiro errante (outras mudanças impostas a papai pela redação, que ele também detestou).

Chateações à parte, o tema desta história é algo que também vem do universo dos filmes antigos de caubói: a figura do vendedor itinerante de unguentos e tônicos de todos os tipos, que prometiam muita coisa, mas na maioria das vezes não passavam de charlatães. Dizem, aliás, que a própria Coca Cola era no início um desses tônicos, até que alguém teve a ideia de adicionar água gasosa ao xarope e vender como refresco.

O nosso herói encontra a carroça abandonada de um desses vendedores na entrada de uma cidadezinha e resolve, ingenuamente, devolver. A comédia de erros começa quando ele é confundido com o charlatão, e continua com ele sendo preso e levado ao tribunal para ser conde… ah, quer dizer, julgado pelo crime de levar uma cidade inteira no bico.

Uma curiosidade está no nome da cidade, Catafalco City. Eis que “catafalco” é nada mais e nada menos do que um estrado, ou estrutura semelhante, frequentemente feita de madeira, sobre a qual se coloca o caixão de um defunto durante o velório.

Pena Kid Catafalco

As cidades de velho oeste que papai inventava sempre tinham nomes desse tipo, que remetiam ao ambiente violento dos filmes de de bangue bangue. O catafalco é o que espera o Pena Kid, se o povo da cidade conseguir levar a cabo a sua vingança contra o charlatão, mesmo que equivocadamente.

Mas é claro que um herói não pode terminar assim, e o verdadeiro “Dr. Von Xato” (preciso mesmo explicar o trocadilho?) aparece para desfazer o mal entendido, libertar o Pena Kid… e criar mais uma grande confusão.

Pena Kid Xato

E o pobre Alazão, agora não mais de pau, se vê reduzido à nada nobre condição de explorado puxador de carroções alheios, um mero coadjuvante, onde em tempos de glória havia sido um ser mágico, personagem que dividia o papel principal com seu cavaleiro.

Pena Kid Alazao