A Arca Do Zé Noé

História do Zé Carioca, de 1974.

Esta história foge um pouco ao “lugar comum” da Vila Xurupita, enquanto vai dando uma generosa “esticada” nos limites do plausível, até praticamente as raias do absurdo. Mas a coisa é feita de um modo tão hábil que o leitor vai na onda, movido talvez pela curiosidade de ver o que mais vai acontecer, à medida que as coisas vão ficando cada vez mais surreais com o passar das páginas.

Papai faz a trama começar simples, com o Zé refugiado no alto do ponto mais alto da Vila Xurupita de uma forte chuva que causou uma enchente, até que uma represa próxima cede e ele é arrastado pela água juntamente com o Nestor. (A primeira coisa insólita desta história é que a Vila Xurupita fica no alto do Morro do Papagaio. Se lá em cima está desse jeito, o que se pode dizer do resto do Rio?)

Um alívio temporário vem na forma de um velho baú que está flutuando, e que o Zé resolve usar como barco. E o que começou simples vai se complicando, já que a cada quadrinho aparece mais alguém em perigo e precisando de uma carona na embarcação improvisada. O mais engraçado é que, mesmo com seis pessoas dentro, o baú não afunda.

ZC Noe

Mas a coisa não para por aí. A exemplo do Noé no título, o Zé ainda enfrentará o “dilúvio” em grande estilo. Quando a enxurrada leva a turma até o mar, eles então encontram um velho barco a vapor à deriva e animais de um zoológico próximo para recolher. Depois de ver meia dúzia de personagens navegando um baú sem afundar, o leitor já nem estranha mais este novo desenvolvimento na direção do insólito

ZC Noe1

E para quem começou a história preparado para esperar a chuva passar deitado sob um guarda chuva, o Zé terá de se esforçar bastante para não desapontar a Rosinha, o que explica o “splash panel”. É a clássica expressão do ditado “amor, a quanto me obrigas”.

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O Dono Da Bola

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1975 e republicada recentemente.

A inspiração aqui são as clássicas peladas jogadas por crianças nos campinhos de bairro nos tempos de infância de papai. O menino que era o dono da bola costumava mandar na brincadeira. Sem bola não há jogo, e quanto mais “chique” fosse a redondinha, melhor para o seu dono, que passava a poder fazer todo tipo de exigência: desde ser escalado até, em casos extremos mas nada raros, tentar acabar com o jogo se o resultado não o agradasse.

ZC bola

Tanto, que a expressão “dono da bola” é usada até hoje para designar o “chefe”, ou “mandão”, de uma determinada situação, e virou até mesmo o nome de um programa de TV da Band.

Em nossa história a bola é presente da Rosinha pelo aniversário do Zé após um “misterioso bilhete”, o que dá a ela o direito de assistir ao jogo contra o time de Nanicópolis de camarote. Um camarote algo criativo demais, mas pelo menos a vista do campo é boa.

ZC bola1

Já o time adversário composto por nanicos só reforça a “impressão” de jogo de futebol de moleques, aqueles no estilo “5 vira e 10 acaba”.

ZC bola2

O resto da graça da história fica por conta do juiz incompetente e ladrão, que não pode faltar neste tipo de história, e dos tropeços (literalmente) dos dois times dentro de campo, até o surpreendente desfecho.

“Os Urubusservadores”

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1973.

Dizem que a sorte é igual para todos, mas nada como ter uma ajudinha. As pessoas sempre tiveram os mais variados métodos para “ajudar a sorte” e tentar adivinhar o resultado da loteria. E para ganhar na loteria, vale tudo, até confiar em sonhos. Esse método, aliás, era muito usado no passado para apostas no jogo do bicho, por exemplo. Talvez até ainda seja.

O interessante aqui é o “sonho profético” do Zé. Papai dizia que os tinha, mas pelo menos nunca com esse efeito.

ZC sonho urubus

No caso desta história, o Zé, além de sonhar, é capaz de interpretar o sonho. E com base no que viu, ele desenvolve um “método” para fazer suas apostas. De acordo com o urubu que pousasse num certo telhado do Morro do Urubu, vizinho ao Morro do Papagaio (cujo nome foi inspirado no Morro do Pavão, no Rio), o Zé foi marcando, ao longo de quatro dias, os 13 palpites da loteria esportiva.

O palpite do Zé se revela correto, no final, mas quem finalmente recebe o prêmio não é ele, e sim um primo pobre o Tio Patinhas. A ambição de ganhar na loteria ameaça o relacionamento com os amigos, e ele acaba jogando o bilhete preenchido fora. Fica a pergunta: o que vale mais, dinheiro, ou amizade/amor sinceros?

ZC amigos urubus

Aviso aos navegantes: estou em semana de férias, com família em casa, e pode ser que não consiga atualizar o blog todos os dias.

Zé Mandraque

História do Zé Carioca, de 1974.

Nosso papagaio malandro, desta vez, começa a desconfiar que tem um sério problema: ele sempre acaba metendo a si mesmo em encrencas, por causa de sua mania de contar vantagens.

ZC mania

O Zé vai assistir a apresentação de um mágico de palco com a turma, e na saída começa a se gabar que é melhor mágico do que aquele, que já foi inclusive conhecido como “Zé Mandraque” (nome inspirado no Mandrake, personagem dos quadrinhos criado em 1934), e que é só ele treinar um pouquinho…

A Rosinha, então, resolve não deixar barato e convida o namorado para fazer uma apresentação beneficente dali três dias no clube que ela frequenta. E lá vai o Zé, que recruta o Nestor como ajudante, tentar treinar alguns truques de mágica de palco usando uma velha casaca, cartola e bengala que teriam pertencido a um avô seu.

ZC cartola

Logo na primeira tentativa o Amadeu aparece, saindo da cartola como que por mágica. De repente, tudo o que o Zé tem a fazer é sacudir a bengala feita varinha, e várias coisas começam a aparecer e desaparecer inexplicavelmente, incluindo o próprio Zé.

Estariam a cartola e a varinha enfeitiçadas? De onde vem essa magia toda? É nesta hora que o leitor percebe que algo está muito errado: provavelmente temos mais uma visita de alguém do universo das bruxas, ou coisa parecida.

É “coisa parecida”. Logo vemos revelado o vilão da história: ninguém menos que Rudini, o Mágico do Mal, criado por papai no ano anterior para ser um dos inimigos do Morcego Vermelho, e usado pela última vez no final do ano de 1974, também contra o Morcego. São apenas três histórias para este vilão, cujo nome é inspirado no do legendário mágico Harry Houdini, e que tem os poderes do Mandrake, especialmente a hipnose instantânea.

ZC rudini

Usando o Zé, ele ganha acesso ao clube chique das amigas da Rosinha para tentar roubar as jóias das ricaças como se fosse um truque de desaparecimento. Parece o crime perfeito, e o Zé ainda levaria a culpa. Mas é claro que ele não está sozinho nessa, e seus amigos acabam impedindo o vilão de escapar.

Uma vez inocentado, o Zé termina a história em boa situação… ou quase isso.

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