Correio A Cavalo

Para fechar com chave de ouro as comemorações dos 30 anos da Revista Mickey, a última história desta edição de 1982 faz parte da então inédita História de Patópolis.

Protagonizada pelo Mickey e pelo Pateta, esta é a terceira história das cinco da série original, anos depois acrescida de mais duas de autoria de um outro argumentista. Passada nos tempos do Velho Oeste, ela descreve um tema comum nas histórias deste gênero, que é a implantação da malha ferroviária nos EUA do século XIX, e a consequente chegada dos trilhos e dos trens às cidades, trazendo pessoas, progresso e também conflitos “de reboque”.

O interessante é que esta história foi aprovada, mas uma outra, que retratava Patópolis no tempo do conflito pela independência dos EUA, inclusive com a presença dos “casacas vermelhas” e do famoso alarme de Paul Revere: “os casacas vermelhas estão chegando!” foi vetada porque era intenção do pessoal dos estúdios Disney daqui ambientar Patópolis no Brasil. E o Brasil teve “velho oeste”, por acaso? 😉

Mas tudo bem, segue a história. Um dos conflitos causados pela chegada do trem ao Velho Oeste foi a obsolescência causada por ele em certos ramos de trabalho e profissões, causando descontentamento e desemprego, pelo menos num primeiro momento. Uma das profissões mais afetadas foi a dos carteiros a cavalo, já que o trem podia transportar malotes de cartas e outras mercadorias em maiores quantidades, e com muito mais rapidez e segurança do que os homens montados. Outro duro golpe ao Correio a Cavalo foi a disseminação do serviço de telégrafo, que de modo geral acompanhava as linhas férreas.

Nesta história vemos o trilho do trem chegando a Patópolis, mas por uma ação criminosa de bandidos na vizinha Corvópolis que sabotou a linha férrea e os fios do telégrafo, o Correio a Cavalo precisará entrar em ação por uma última vez. É a despedida sentimental de uma era, e ao mesmo tempo as boas vindas a um novo tempo, coisa muito característica da cultura do EUA referente a essa época, aliás.

Algumas piadas da história são inspiradas em piadas antigas, como o “ningún de los dos”, sobre o brasileiro que vai para o Paraguai logo depois da guerra (a do Paraguai, qual outra haveria de ser? Eu avisei que a piada era velha) e pergunta em português ao primeiro camponês que vê: “Ei, amigo, aquela é a igreja de Bom Jesus?” Ao que o paraguaio responde: “Ningún de los dos!”, usada também, aliás, em 1980 na história “Confusão em Los Tamales”, já comentada neste blog.

MK hist pat

Outra “piada interna” é a própria mensagem que os antepassados do Mickey e do Pateta trazem, uma folha de papel onde está escrito “6P”, acompanhada de uma passagem de trem. A piada original que papai usou se refere a uma suposta (inventada mesmo) proposta de negócios do Presidente e do Ministro de Minas e Energia brasileiros durante o regime militar, que teriam proposto à Arábia Saudita trocar petróleo (que eles têm em abundância) por quantidades iguais de água (que nós temos, ou tínhamos, em abundância também). Troca justa, não? Né? A resposta é um enigmático telegrama: “BB62”. A tradução, obtida após algum esforço: “Buda Bariu Cês Dois” (numa alusão ao suposto sotaque dos árabes que, acredita-se, tocam o “P” pelo “B” em início de palavra).

MK hist pat1