Minha Vida Tá No Gibi! – Inédita

História do Zé Carioca, escrita em 26 de maio de 1993, e nunca comprada pela Abril.

Lápis na mão direita, esquadro no papel sob a mão esquerda, a borracha do lado, ao alcance da mão… Eu conheço bem a imagem no “splash pannel”. Era papai em ação.

Esta é a primeira de três “histórias-testamento”, por assim dizer, que ele escreveu nesta série de inéditas, talvez já pressentindo que não teria mais muitas chances de trabalhar com os personagens Disney. A condição de freelancer era bastante incômoda para ele. A ideia de que a qualquer momento as encomendas poderiam cessar o contrariava bastante. Assim, ele acabou colocando nessa última série muitas das coisas que ele sempre quis ver em suas histórias, mas nunca pode fazer antes.

O jogo de palavras “tá no gibi, não tá no gibi”, usado em pelo menos duas das histórias desta série, é uma referência a uma antiga gravação dos Originais do Samba cujo refrão é: “Herói sou eu, irmão / Herói sou eu, aqui / Dou um duro danado / E não saio no gibi”. A canção é uma brincadeira com os heróis dos quadrinhos e também uma ode ao homem comum, que trabalha muito, mas nem sempre recebe o reconhecimento merecido.

Em algumas das margens temos algumas anotações de papai ao desenhista, onde ele pedia que os quadrinhos que representavam as memórias do Zé fossem desenhados “sem cores”, para tornar mais clara a distinção entre “passado” e “presente”.

A história toda é uma homenagem aos amigos e colegas Carlos Herrero, Roberto Fukue e Júlio de Andrade Filho, além de ser uma retrospectiva dos momentos marcantes da “vida” do personagem. Assim, temos referências a histórias anteriores, como “A Infância Do Zé Carioca”, já comentada aqui, à cena na qual o Zé conhece a Rosinha, e até uma menção à Anacozeca.

O final da história é uma maneira que papai encontrou de “castigar a si mesmo” por ter revelado um dia que o próprio Rocha Vaz era o chefão da Anacozeca, coisa da qual ele se arrependeu depois. O problema é que talvez pegue um pouco mal pro Júlio… Peço desculpas desde já.

VG01 VG02 VG03 VG04 VG05 VG06 VG07 VG08

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

***************

Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

A Flauta Mágica

História do Morcego Vermelho, publicada pela primeira vez em 1977.

A trama é levemente inspirada na história do Flautista de Hamelin, mas a semelhança se resume à presença da flauta que faz a todos dançarem, mesmo contra a vontade.

Um ladrão flautista vestido de Robin Hood e acompanhado de um macaco amestrado ataca de surpresa num dia de calor e obriga todos a dançarem de acordo com a sua música enquanto o bicho vai passando pelo meio do povo e retirando as carteiras dos bolsos das pessoas.

Passada a surpresa, o Morcego Vermelho e o Coronel Cintra têm separadamente mais ou menos a mesma ideia para enfrentar o bandido e não ouvir a música que vem da flauta. Basta tapar os ouvidos. A solução que o Morcego achou, aliás, é inspirada no mito de Ulisses da mitologia grega clássica, mais exatamente a parte do encontro com as sereias.

Mas boa parte da graça desta história está nos detalhes e pistas espalhados pelos quadrinhos. Novamente, o leitor precisa estar atento a todos os detalhes para realmente tirar o máximo da aventura. A brincadeira começa logo no painel inicial, o primeiro quadrinho da história.

MOV calor   MOV Herrero

Além da caricatura do desenhista desta história, Carlos Edgard Herrero, esbravejando de calor pela janela na parede ao lado do Morcego, temos vapores saindo do asfalto (só quem já passou um verão inteiro em Campinas sabe o que é isso), um gato e um rato encostados na sarjeta acalorados demais para continuar com a perseguição (isso é grave, rs), e até o proverbial ovo fritando no pavimento da calçada.

E em outro quadrinho, ainda no meio da história, temos uma pista da solução que o Morcego escolherá para enfrentar o bandido.

MOV cera

No final eles são presos, é claro. Naqueles tempos de pouca consciência sobre bem estar animal, os policiais chegam a sugerir que o macaquinho seja “reeducado”… num circo (de todos os lugares). Tenho certeza que hoje em dia papai o enviaria a um santuário para animais, ou algo assim.

Já foram adquirir o meu livro? É só seguir o link:

http://www.amazon.com.br/hist%C3%B3ria-dos-quadrinhos-Brasil-ebook/dp/B00GFQBZRU/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1385079119&sr=1-1&keywords=A+Hist%C3%B3ria+dos+Quadrinhos+no+Brasil

O Diabólico Kid Monius

Voltando à “Maratona Morcego Vermelho”, esta história de 1974 mostra nosso herói às voltas com dois bandidos que faziam parte do mundo do Mickey, até aquele momento.

A justificativa que papai deu para esse encontro é que o Mickey estaria viajando, e portanto o único representante do bem disponível para enfrentá-los é o Morcego.

A trama toda se baseia na estranheza e no desconhecimento, o que gera alguns mal entendidos hilários. O fato é que Ted Tampinha e Kid Monius nunca enfrentaram o Morcego, que começou a agir enquanto eles estavam servindo uma longa pena na cadeia, de onde acabaram de fugir. Eles só o conhecem de ouvir falar.

E tudo o que o Morcego sabe sobre eles é que são bandidos e devem voltar para a cadeia, mas também nunca os enfrentou, e não sabe realmente do que eles são capazes (o que, neste caso, não é muito, apesar dos planos mirabolantes dos bandidos).

O tamanho e bravatas do Kid Monius deixam o Morcego com medo dele, e os bandidos não sabem o trapalhão que o Morcego realmente é, e se impressionam com o uso que ele faz dos equipamentos morcego.

Mas seja como for, o nosso herói consegue cair por acaso em cima do Ted Tampinha, levando à sua prisão, para então sair atrapalhadamente à caça do auto denominado (e apavorado) “diabólico” Kid Monius. O bandidão só tem tamanho, e não é nada sem o seu comparsa baixinho, mas o Morcego está tão convencido de que ele é perigoso que mal consegue prendê-lo, de tanto medo, ele também.

MOV Kid Monius

Dignas de nota são as placas sobre o prédio, no primeiro quadrinho, da “Pizzaria Primaggio” (uma referência a Primaggio Mantovi) e da “H. Errero Turismo” (referência a Carlos Edgard Herrero, o desenhista desta história).