O Rei Dos Ladrões

História dos Irmãos Metralha, de 1976.

A inspiração vem de uma parte menos conhecida do livro “O Corcunda de Notre-Dame”, escrito por Victor Hugo nos anos 1830. Na passagem em questão a escória de Paris, seus cidadãos mais excluídos, aqueles que vivem de todo tipo de tramoia, de pequenos furtos e mendicância a grandes roubos e até assassinatos, se reúne no chamado “Pátio dos Milagres”.

Lá, vivem como uma sociedade à parte e inclusive “usurpam” os títulos da nobreza parisiense em um misto de complexo de inferioridade, desafio, sátira e desdém pela sociedade “de bem”. Há um “rei” de nome Clopin Trouillefou, e toda uma “corte” de ladrões, prostitutas e escroques.

Papai aqui retrata os conflitos entre esses bandidos, já que não existe mesmo honra entre ladrões e o trono é do mais forte, e não derivado de um “direito divino”, como reza a tradição das famílias reais legítimas da Europa.

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Como sempre a história é contada pelo Vovô Metralha, com o Azarado como personagem principal, e o 1313 da atualidade sempre torcendo por seu “antepassado”. Além disso, papai faz um “afrancesamento” de todos os nomes dos vilões: o Mancha Negra vira “Manchá”, o João Bafo de Onça vira “Jean Bafô-D’onçá” e o Gavião é o “Gavion”, para citar uns poucos.

O personagem do “Rei dos Ladrões” é interpretado pelo Metralha Intelectual, sob o nome de “Clopin Metralhá”, e o Pátio dos Milagres é agora o “Pátio dos Pilantras”.

Dessa parte menos lembrada do livro, a passagem que mais marcou papai foi o “treinamento” para batedores de carteiras: um boneco de pano ficava pendurado em uma armação, e a roupa dele era cheia de guizos e pequenos sinos. No bolso, uma sacolinha com moedas. Para ser aceito no bando o candidato a ladrão precisava provar sua habilidade tirando a sacolinha do bolso do boneco sem deixar tocar nenhum guizo. Se não conseguisse, seria espancado e expulso.

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A história corre mais ou menos fiel ao livro até mais ou menos a metade, quando papai chega à conclusão de que já é o suficiente. Em seguida, ele dá uma dramática reviravolta na trama e termina a desventura do antepassado do Azarado à sua hilária maneira, com direito até mesmo a uma participação especial dos Três Mosqueteiros (que eram quatro, nunca se esqueçam disso).

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A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

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A Volta Do Fantasma De Notre Dame

História do Tio Patinhas contra Maga Patalójika, de 1981.

Esta história é uma espécie de continuação de outra do mesmo tema, uma história do Carl Barks de 1965, que foi traduzida e publicada no Brasil em 1966. Que me conste nessa época (entre o início e meados dos anos 1960), papai já fazia trabalhos esporádicos para os Estúdios Disney da Editora Abril, inclusive traduções. Mas não tenho como dizer com certeza se esta tradução é mesmo dele.

Em todo caso, uma pista poderia ser a adaptação da melodia tocada na flauta usada na história original, “My Bonnie Lies Over The Ocean”, uma canção folclórica dos EUA que foi gravada por Tony Sheridan com os Beatles como banda de apoio em Hamburgo, Alemanha, em 1961.

Aqui no Brasil, a melodia passou a ser uma marchinha de carnaval de 1959, de nome “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí”. Nada mais apropriado, em se tratando do Tio Patinhas e da intenção da “senha musical” que era abrir a porta do cofre da caixa forte. É, também, bem o gosto e o senso de humor de papai. Eu não me surpreenderia se a tradução da história do Barks fosse mesmo dele.

Na história de papai estão presentes vários elementos do original, mas apresentados de uma maneira diferente. Para começar, a catedral é a “Notre Dame de Patópolis”, que parece ser uma cópia da original, que fica em Paris.

A vilã não é mais o “maluco” da primeira história, mas sim a terrível Maga Patalójika, em busca – como sempre – da Moedinha Número Um. Ela usa a flauta primeiro para anunciar sua presença e provocar os patos, tocando a marchinha de carnaval que eles já conhecem como o “tema” da aventura anterior, e depois outra, para hipnotizar o Tio Patinhas, para que ele vá buscar a Moedinha no cofre e trazê-la a ela.

Notre Dame Maga

A “melodia hipnótica” também é brasileira, com a letra também relacionada a dinheiro: “Dinheiro vem, Dinheiro vai” de 1975.

A ação principal da história é uma grande perseguição pelos vários espaços no interior e no entorno da Catedral, incluindo escadarias, fontes, cordas dos sinos, torres e passagens secretas, e culminando com uma espetacular queda do Patinhas e da Maga, em luta corporal pela posse da moedinha, do parapeito de uma das torres.

Notre Dame Maga TP

Ainda bem que, em se tratando de história em quadrinhos, sempre há alguma água ou outra coisa para amortecer a queda.

O livro de papai, A História dos Quadrinhos no Brasil, ainda está esperando por vocês, bem aqui.