No Reino Das Peças de Xadrez

História da Turma da Fofura, de Ely Barbosa, composta em setembro de 1987 e publicada pela Editora Abril na Revista da Fofura número 11 ainda no mesmo ano.

Aqui voltamos mais uma vez ao tema do jogo de Xadrez, o esporte predileto de papai. Como a proposta dos personagens é para crianças bem menores do que os leitores da Disney, a abordagem será também bem mais simplista. Não por acaso, na primeira página nenhum dos personagens sabe jogar, a ponto de interpretarem a palavra “jogar” como “arremessar”, com resultados doloridos para alguns.

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Como sempre, ele faz questão de tentar ensinar alguns rudimentos, como a menção à “oitava casa preta à esquerda”. Essa é a maneira correta, de acordo com as regras, de colocar o tabuleiro sobre a mesa para se iniciar uma partida: a última casa preta da primeira fileira do tabuleiro fica à esquerda do jogador e, consequentemente, a primeira casa branca fica à direita dele.

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E, claro, para deixar as coisas interessantes e evitar passar a impressão de “aula”, papai inventa um desaparecimento dos peões e cavalos brancos com um pequeno mistério para o coelho Escovão resolver. O exercício de imaginação gira em torno da livre associação de ideias com a palavra “peões”. Afinal, no Brasil “peões” são também – e principalmente – os “de boiadeiro”.

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Somente após a resolução do mistério e a volta das peças brancas poderá o jogo de Xadrez começar, para que o Nenê possa finalmente realizar seu desejo de aprender alguma coisa sobre como realmente se joga.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

 

Na Terra Dos Espelhos

História do Morcego Vermelho, publicada em 1976.

A inspiração de papai para esta história foi o livro Alice Através do Espelho (e O Que Ela Encontrou Por Lá), de Lewis Carroll, o mesmo autor de Alice no País das Maravilhas. Também chamado de “Alice No País Dos Espelhos”, a história do livro gira em torno de um (infestado de absurdos) jogo de xadrez, que não por acaso era o esporte praticado por papai (e seu predileto), depois que ele deixou as piscinas para trás.

Como na história de Carroll, esta de papai já se inicia de um jeito meio surreal. Perseguindo um ladrão e indo parar na Casa dos Espelhos de um parque de diversões, o nosso herói atravessa um deles e vai parar na Terra dos Espelhos, sempre correndo atrás do vilão. Uma vez lá ele encontra vários dos personagens do livro, como o cavaleiro e o rei brancos, as flores falantes, o Humpty Dumpty (o ovo sobre o muro) e a Morsa e o Carpinteiro.

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Por causa de sua capa vermelha o Morcego é logo confundido pelas peças brancas com um integrante do “exército” adversário do jogo de xadrez. O que acontece é que, pelas regras do esporte, um dos conjuntos de peças precisa ser branco, e o outro tem de ser mais escuro. Geralmente se usa o branco e o preto, mas por tradição, a cor das adversárias das brancas também pode ser o vermelho.

Lewis Carroll usou o branco e o vermelho também em seu outro livro, nas rosas da Rainha de Copas. As rosas são uma clara referência à “Guerra das Rosas“, uma importante guerra civil pelo trono britânico, e o xadrez sendo uma “simulação de guerra”, é provável que seu sentido seja o mesmo também no segundo livro. O Leão e o Unicórnio também são outra referência clara aos símbolos da realeza britânica.

Vistos principalmente como literatura infantil, os livros de Carroll podem ser interpretados também como uma grande crítica à realidade sociopolítica da Inglaterra na época em que foram escritos, uma tentativa de ridicularizar a monarquia, os membros da nobreza britânica e até mesmo os fatos históricos que os levaram ao poder.

Já na história de papai a coisa toda é apenas o pretexto para um “passeio” pelo livro, uma homenagem a um clássico e uma tentativa de incentivar seus leitores à leitura de um pouco mais do que apenas quadrinhos.