A Verdurite Aguda

História do Lobão, de 1973.

Este personagem mau e seu filho bonzinho estão sempre em um conflito velado que se expressa em seus hábitos e preferências. Mas mesmo tendo personalidades opostas, os dois não podem realmente brigar e se desentender de forma definitiva, por causa do código de ética Disney que protege sua condição de “família” até às últimas consequências.

Enquanto o Lobinho prefere uma dieta vegetariana, coisa incomum para um lobo, o Lobão não se conforma com a situação e deseja comer costeletas de porco. Para tentar conseguir o que quer ele até mesmo fingirá uma doença e recrutará um velho amigo dos temos de escola, este tão mau quanto ele, para ajudá-lo.

“Verdurite”, no entender do Lobão, seria um mal súbito que acomete seres carnívoros que se alimentam somente de verduras, e em especial de sopa de lentilhas com cenoura, que parece ser tudo o que o Lobinho sabe cozinhar. O sufixo “ite”, em medicina, é uma referência a doenças agudas e passageiras, como uma inflamação, por exemplo. Portanto, o uso que pepei faz dele para sua doença inventada está correto.

O “colega” do Lobão, de nome Lobório, é invenção de papai. Ele não aparece em nenhuma outra história, nem anterior nem posterior. Mas, apesar de tudo, é óbvio que o plano não pode dar certo. Isso o leitor já sabe. O interessante, como sempre, será ver exatamente como.

lobao-verdurite

As histórias destes dois personagens são uma reflexão sobre os laços que unem pais e filhos, e uma exortação à tolerância e à coexistência entre as pessoas, por mais diferentes que elas possam ser umas das outras. No conceito Disney de ser, o ser humano ideal é aquele que controla seus impulsos e vive uma vida regrada e harmoniosa, evitando a violência a qualquer custo, mesmo que isso signifique ir contra sua própria natureza de “predador”.

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Um Lobinho Quase Feroz

História do Lobão, de 1974.

Desde o ano anterior, na história “Mal Me Quer, Bem Me Quer” e até 1984, dez anos depois, em “O Feitiço Da Vila”, ambas já comentadas aqui, papai brincou com a ideia do “feitiço da inversão de personalidades”, a cada vez de uma maneira um pouco diferente.

O leitor atento vai saber que alguma coisa está muito errada logo de cara, quando uma mão a princípio desconhecida aparece na janela logo no primeiro quadrinho, e em seguida coisas estranhas começam a acontecer sem motivo aparente.

Lobinho feroz

A história é curta e a solução é bastante simples, mas o importante na trama é mesmo essa inversão de papéis, que é outra coisa que papai gostava de fazer em suas histórias para o Lobinho, aliás. Em “Papéis Trocados”, outra história já comentada aqui, ele explora bastante esse tema do “Lobinho mau”.

No final das contas, a coisa toda era para ele quase um exercício em psicologia: era colocar diferentes personagens mais ou menos na mesma situação para ver, quase como se eles tivessem vida própria, como eles reagiriam, sempre respeitando as personalidades atribuídas a eles nas descrições que vinham da editora, anotadas em folhas impressas para que os argumentistas pudessem consultar e não se desviassem demais do estilo predefinido.

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Um Professor Do Peru

História do Lobinho, criada em 1974 e publicada pela primeira vez em 1978.

O Filhote do Lobão está participando de um “curso de férias”, e ao ver que o professor é um peru, e que os outros alunos além de seu filho são três peruzinhos e dois dos três porquinhos, o vilão resolve tentar transformar a classe em um belo guisado de peru com porco.

Ele até se disfarça para evitar chamar a atenção, mas o Lobinho conhece o pai que tem. Além disso, o Lobão se esqueceu de perguntar que curso é esse, e essa será a falha em seu plano maligno e a sua ruína.

lobao peru

No título da história papai faz um jogo de palavras que flerta com o perigo, já que a expressão “do peru” em Português tem conotações nada inocentes, além de ser também um tipo de elogio, mais ou menos na mesma linha pouco inocente.

Décadas mais tarde o desenho animado Os Simpsons usaria um expediente parecido, onde um cachorro é chamado de “son of a bitch” sem que a cena pudesse sofrer censura (o famoso Bip no áudio), porque não há como negar que um cão é mesmo, sem sombra de dúvida, o filho de uma cadela. Chamar a uma pessoa disso é uma ofensa, mas chamar a um cão da mesma coisa não é.

Ao retratar o personagem do professor como o pássaro peru, papai “esvazia” a expressão para o leitor mais ingênuo, ao mesmo tempo confiando na inteligência do leitor mais malicioso. Cada um entenderá o título da história como quiser. Ou, como se diz por aí, a malícia está nos olhos de quem a vê. Desse modo, papai ia inserindo em suas histórias pequenas “transgressões” ao estilo Disney, que ele achava um pouco “puritano” demais às vezes.

Digna de nota é também a cidade de origem do professor, Perusópolis. Um possível mapa das cidades vizinhas a Patópolis mostraria nomes como Gansópolis, Cisnópolis, Patetópolis, e agora também Perusópolis. Patópolis já está parecendo menos com uma “cidade estado”, e mais como a principal cidade de uma região metropolitana, mais ou menos como era (ainda é) a cidade de Campinas, onde morávamos e onde papai criava.