Duelo Na Cidade-Fantasma

História do Zorro, de 1973.

Parte da graça em ser escritor de histórias em quadrinhos é poder colocar o herói em apuros aparentemente insuperáveis, só para depois inventar uma maneira de fazer com que ele escape espetacularmente.

(Eu sei que dia é hoje e que tipo de história eu me propus a comentar às sextas-feiras, mas é também meu aniversário e eu gosto do Zorro. Pronto.) 😉

Ao libertar o que parece ser um prisioneiro político e depois tentar fugir (lembrando novamente que, em 1973, em plena ditadura militar, qualquer alusão a presos políticos era uma afronta ao sistema), o Zorro comete um erro de julgamento e vai parar em uma cidade fantasma. Se fosse qualquer outro lugar, especialmente se ele fosse bem povoado, seria mais fácil se misturar aos simpatizantes e sumir na multidão. Mas em um lugar perfeitamente vazio há anos, qualquer presença humana pode ser notada facilmente.

Depois de propor o problema, papai começa então a trabalhar a solução. A premissa, aqui, é que os soldados são tão burros e supersticiosos quanto o herói é astuto e inteligente. Apesar do maior número e do poder das armas, eles não serão páreo para o Zorro, que consegue enganar até mesmo o rastreador indígena que está a serviço dos soldados.

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Certos povos, como os indígenas no continente americano e os nômades do Oriente Médio, especialmente os beduínos em Israel, foram e são parte valiosa de qualquer exército (e também de equipes de arqueólogos e pesquisadores em geral). Eles conhecem com absoluto domínio o terreno, cada pedra, cada árvore, o clima, sabem se guiar pelas estrelas, e sabem notar qualquer distúrbio que possa indicar que alguém tenha passado ou esteja se escondendo por ali.

Mas esta é a única vantagem dos soldados. De resto, para atrapalhar ainda mais, papai trabalha firmemente a noção de que o lugar pode ser assombrado, de que o lugar é realmente assombrado, e de que um fantasma pode aparecer a qualquer momento.

Esse “pânico” todo que ele vai imprimindo aos personagens tem a finalidade de envolver o leitor para que, quando um nada simpático novo personagem for apresentado, até mesmo este último ficará na dúvida sobre o que está vendo. Será que o fantasma apareceu mesmo?

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

 

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A Cidade-Fantasma

História do Pena Kid, de 1975.

Todo “Velho Oeste” que se preza tem uma cidade fantasma no meio do caminho, abandonada por este ou aquele motivo, deixada para trás por seus habitantes para assombrar quem seja que tenha o infortúnio de passar por ela.

Esta é mais uma história do Peninha na redação de A Patada, e mais uma vez a trama vai se desenvolvendo de acordo com os palpites do Tio Patinhas. Depois de uma primeira página pouco promissora, o chefe pede “ação, mistério e movimento”, porque é isso que ele acha que os leitores do Pena Kid querem ver. Se é isto o que ele quer, o Peninha se esforçará para dar a ele exatamente o que foi pedido, mas como sempre do jeito dele, inclusive forçando um pouco a barra, se preciso.

Isso fica evidente nos comentários pensados do Alazão de Pau, por exemplo. O autor está fazendo o que pode para mostrar ao tio e patrão que está fazendo o que ele pediu.

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Após um apavorante encontro com fantasmas, o Tio Patinhas reclama que o Pena Kid está medroso demais. Por isso de repente o personagem muda completamente de personalidade, de um quadrinho para outro, e o Peninha não perde a chance de deixar isso claro para o tio:

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No final nada é o que parecia ser, o velho da cidade fantasma não é tão inocente, e os fantasmas são falsos. O problema é explicar como os falsos fantasmas eram produzidos, e desta vez a desculpa esfarrapada do Peninha não convence o velho pato.

Além do tema da cidade fantasma, outros clichês dos velhos filmes de Bangue Bangue usados aqui são a arma do mocinho, que (apesar de ser um revólver comum) atira como uma metralhadora, nunca precisa ser carregada e é capaz de derrubar paredes a tiros, e a arma do vilão, que sempre falha no momento em que ele vai atirar no mocinho.

A cena abaixo é mais uma genial “tirada” de papai. A página de quadrinhos “ganha vida” nas mãos de quem a lê:

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