O Rei Dos Disfarces

História do Zé Carioca, de 1982.

Diz o ditado que “na guerra e no amor vale tudo”.  Essa frase parece ser a máxima do Zé na hora de enfrentar a ANACOZECA (Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca) já que, na hora de fugir dos cobradores, nosso amigo sempre usa toda a sua criatividade.

E hoje ele vai se superar, com disfarces perfeitos que vão enganar aos quatro anacozecos direitinho. Mas o interessante é que o Nestor reconhece o amigo em qualquer situação, até mesmo muito bem disfarçado. É como diz aquele outro velho ditado: “é possível enganar parte das pessoas parte do tempo, mas não todas as pessoas o tempo todo”.

O Zé se disfarça de bruxo, e até de Nestor, e os anacozecos caem na armação todas as vezes, mas o golpe de mestre papai deixa para o leitor atento perceber. Ele tinha por regra nunca subestimar a inteligência do leitor, muito pelo contrário:

Por fim, é claro, o Zé vai ser finalmente desmascarado e cobrado. Mas isso não quer dizer que o Zé vá se dar assim tão mal, nem que os anacozecos vão se dar assim tão bem: nem a derrota do papagaio verde, e nem a vitória dos tucanos cobradores durará muito tempo.

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Nem Vendo Se Acredita

História do Zé Carioca, de 1981.

Quando lê revistas demais do Morcego Vermelho, o Zé se transforma no Morcego Verde e sai dando os seus pulinhos pela Vila Xurupita. Se ele resolve um caso ou prende um bandido, é por mera coincidência, e hoje não vai ser diferente. “Diferente”, sim, e surpreendente, será o final da história.

Curiosamente, depois de criar o personagem, foram poucas as histórias de papai para ele. Em compensação, vários outros autores não hesitaram em adotá-lo, com resultados variados. Já o charmoso cachorrinho Soneca será mais uma vez um misto de narrador da história, assistente de super herói e cão de guarda.

A trama colocará o Zé “entre a cruz e a espada”, por assim dizer: de um lado, ele se vestiu de herói em uma tentativa de despistar a Anacozeca, que está atrás dele para tentar cobrá-lo. De outro, se vê às voltas com o vilão Tião Medonho, um enorme pássaro bicudo de dois metros de altura e máscara ao estilo Irmãos Metralha que detesta heróis.

A cada vez que ele consegue fugir de um, é (quase) capturado pelos outros, e vice-versa. E é nesse acidentado “pingue-pongue de herói” que a história vai caminhando para o seu desfecho.

Interessante é a menção ao Brejo da Tijuca, para onde o Zé foge de seus perseguidores. Mais uma vez, papai demonstra seus conhecimentos sobre o Rio de Janeiro e tenta ensinar alguma coisa ao leitor. Quando se pensa nessa região da Cidade Maravilhosa, o mais comum é lembrar da Floresta da Tijuca, ou da Barra da Tijuca. Mas a verdade é que o nome do local, de origem indígena (“TY YUC”), significa “água podre, charco ou brejo”, e se refere às lagoas da atual Barra.

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Iau! Que Susto!

História do Zé Carioca, de 1975.

Em mais um “cross-over” entre personagens de universos diferentes, hoje a Madame Min está tentando assustar dois incautos aleatórios como tarefa em algum tipo de competição, como um concurso ou gincana.

É obvio que, para manter o suspense, a presença da bruxa vai sendo revelada aos poucos. Mas quem realmente conhece a Min vai perceber que ela está lá desde o primeiro quadrinho, na forma de um siri roxo como seus cabelos, e de enormes olhos verdes. Esta é também uma variação do “duelo de magia” contra o Mago Merlin, da história do Rei Artur na versão da Disney.

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A pergunta que parece ser o ponto de partida da trama é: o que realmente apavoraria dois folgados preguiçosos como o Zé e o Nestor a ponto de eles saírem correndo desembestados da praia? Obviamente, a resposta não está relacionada com coisas sobrenaturais. Aliás, há coisas bem reais no mundo que despertam mais medo em algumas pessoas do que qualquer assombração.

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Interessante é o que parece ser uma colaboração entre dois desenhistas na confecção da história que iria para a gráfica, de acordo com os registros no Inducks. O Canini, para a história em si, e o Sérgio Lima nas cenas onde aparece a bruxa propriamente dita. Papai realmente dava um trabalhão aos desenhistas de suas histórias, com sua fértil criatividade.

Em compensação, este sistema dos Estúdios Disney da época representa uma vantagem sobre os autores de quadrinhos independentes que costumam produzir uma história inteira sozinhos, do roteiro à arte final. Raros são os que convidam outro desenhista (um especialista em outro estilo de desenho) para colaborar com suas criações e torná-las visualmente mais ricas, preferindo tentar assumir o papel de “artista completo” ou “gênio solitário” com taxas variadas de sucesso.

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O Caçador De Caloteiros

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1983, e republicada recentemente.

O papagaio verde pode não ser o melhor pagador da praça, mas isso não quer dizer que ele viva em paz com essa condição. Como todo brasileiro atolado em dívidas, ele gostaria de poder pagá-las, e se atormenta por isso. A esperança de quem sabe um dia conseguir acertar as contas, por outro lado, faz com que ele impulsivamente contraia mais dívidas, mas isso é outra história.

Ele certamente fica muito incomodado quando alguém vem cobrá-lo, especialmente se essa pessoa é um amigo. Aí a coisa toda se torna um real pesadelo: ele não pode pagar, certamente, mas também não pode aborrecer um amigo, ainda mais alguém tão estimado quanto o Panchito. E agora, José? Em todo caso, as efusivas boas vindas ao amigo foram tiradas diretamente do filme “Alô Amigos”.

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A história toda é uma comédia de erros, baseada em “falsos cognatos” em um idioma intermediário entre o Espanhol e o Português (o famoso “Portunhol”), e no pavor que o Zé tem de cobradores. Vai daí que, quando o Panchito chega, armado com pistolas e se dizendo caçador de “caloteros”, o Zé quase tem um faniquito. Seria um “calotero” alguma espécie de “caloteiro”?

A palavra “calota”, tanto quanto eu pude pesquisar, significa mais ou  menos a mesma coisa nos dois idiomas em questão: é algo como uma cúpula, um objeto abaulado. Mas “calotero” não parece existir. A tradução para “caloteiro” enquanto mau pagador parece ser “perezoso”, que significa algo como preguiçoso. Pode ser que o Panchito esteja tentando falar Português, ou usar uma palavra que ele acha que o Zé vai entender, mas a verdade é que ele acaba causando mais confusão ainda com isso.

Outra coisa bastante fantasiosa é a identidade do tal “calotero”. Ele seria um tipo de lagarto peçonhento com uma protuberância óssea no alto do crânio, algo parecido com uma “calota”, daí a denominação. Mas, também de acordo com as minhas pesquisas, esse bicho não existe. Papai representa seu animal inventado (quem disse que todas as coisas que aparecem em uma história em quadrinhos precisam ser rigorosamente reais?) com base na figura de um dinossauro, o Paquicefalossauro. Mas acho que ninguém no mundo pode dizer se esse animal era venenoso ou não.

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Além disso, não existem lagartos peçonhentos no Brasil. Pelo menos, nenhum dos lagartos nativos daqui é venenoso. Na verdade, existem apenas três espécies de lagartos venenosos no mundo: uma na Ásia e duas na América do Norte, ocorrendo dos EUA ao México, justamente o país de onde vem o galo de sombreiro. Assim, o “calotero” do Panchito poderia ser na realidade um Monstro de Gila, mas este, apesar de venenoso, não tem a tal calota na cabeça.

Mas apesar de tudo isso, e até que o mal entendido se desfaça, o leitor já vai ter se divertido bastante com as tentativas do Zé de distrair o amigo e, assim, evitar ser cobrado por ele.

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Amor, A Contas Me Obriga…

História do Zé Carioca, escrita em 1977 e publicada em 1980.

Por amor à Rosinha o Zé faz qualquer coisa, até trabalhar. Especialmente quando ela ameaça não falar mais com ele enquanto ele não arrumar uma ocupação.

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A graça toda da história está na ironia, no inusitado e no insólito da situação: o único emprego que o Zé consegue arrumar na Vila Xurupita é de… cobrador! Justo ele, que sempre teve problemas com contas atrasadas, e que tem até mesmo uma associação de cobradores especializada em cobrar somente a ele.

E pior, ele é bom nisso. Sem dó nem piedade, vai cobrando até os amigos, um a um. Nem o medo de perder as amizades o faz parar, e isso mostra a importância que a periquita tem na vida do papagaio. Se alguém ainda duvidasse do amor do Zé, agora não duvidaria mais.

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A história também mostra bem a evolução da Vila Xurupita, de favela encarapitada no alto do morro mais alto do Rio de Janeiro a bairro de casas de alvenaria, completo até com a sede de uma Associação Comercial. Se fosse em São Paulo, o lugar já seria praticamente uma subprefeitura.

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Minha biografia de papai está à espera de vocês nas melhores livrarias, não percam. E não percam também a tarde de autógrafos na Livraria Monkix em São paulo no próximo sábado, dia 27 de junho:

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Marinheiro Só

História do Zé Carioca, de 1973.

Há um antigo ditado que diz que não se deve subir num navio sem antes saber para onde ele está indo, e esta parece ser a base da trama. O nome desta história vem de uma canção tradicional de Capoeira, que pode ser ouvida aqui.

As coisas acontecem mais ou menos como consequência umas das outras, uma situação vai levando a outra, até que, por um belo acaso, tudo no final se ajeita.

O Zé está fugindo de um cobrador, que o persegue até o cais do porto. Lá, o papagaio entra num navio e é tomado por marujo, numa situação que nos lembra as clássicas aventuras de piratas que papai costumava ler quando criança, como por exemplo “A Ilha do Tesouro”.

ZC Cap Arara

Ele até pensa em pular e voltar nadando, mas até aí o navio já está longe do cais e o tal cobrador está lá à espera. O jeito é ficar, e dar um duro danado como marujo, se bem que meio contra a vontade. É só aí que o Zé lembra que está mesmo sem dinheiro, que não faria diferença se o cobrador o alcançasse, e começa a imaginar se precisava mesmo estar ali. O problema é que o Zé descobre um pouco tarde demais que o navio está levando uma perigosa carga de nitroglicerina que pode explodir a qualquer momento.

ZC Nitroglicerina

Marinheiro de primeira viagem, primeiro se amotina contra o trabalho e é mandado descascar batatas, só para ter uma crise de enjoo e ser preso no porão juntamente com a carga explosiva. É só quando a tripulação abandona o navio por causa de uma tempestade que pode mandar tudo pelos ares que o Zé consegue se soltar e chegar ao convés.

É neste momento que os acontecimentos convergem para algo tão aleatório que se assemelha a alguma forma de providência divina: O Zé fica preso no timão, e seu corpo serve de contrapeso para a oscilação causada pela tempestade, controlando o navio e impedindo a explosão.

O Capitão Arara pode até ser “uma arara” (no sentido de ser muito bravo), mas também sabe ser grato, e leva o Zé de volta ao porto no Rio. Surpresa maior vai ter o cobrador, que ficou lá esperando, Mas é surpresa…