O Vale-Tudo Em Vale Seco

História do Tio Patinhas, de 1980.

No universo Disney é comum que os membros mais velhos das famílias contem histórias aos mais jovens, especialmente sobre antepassados ou lembranças de suas aventuras da juventude.

Mas o que aconteceria se os membros de diferentes famílias tivessem a mesma história para contar? Afinal, Patópolis é uma cidade relativamente pequena, todo mundo lá se conhece, e alguns personagens já estão dando seus pulinhos pela região há algumas décadas.

O interessante, e essa é a principal sacada de papai, é que toda história tem pelo menos dois lados, dependendo de quem a conta. Na maioria das vezes a versão que fica é a dos mocinhos, ou a dos vencedores.

Também é verdade que, ao contar uma história sobre si mesma, a maioria das pessoas tenta “adaptar” os fatos para aparecer bem na fita. Ninguém vai se acusar de um crime, por exemplo, nem reconhecer que fez algo de que não deveria se orgulhar. Além disso, se alguém já desconfiava de que o Vovô Metralha vai inventando as histórias sobre os antepassados à medida que as vai contando, agora não vai mais ter dúvidas. E, ao que parece, o Patinhas também também não é lá muito santo, nesse quesito.

Hoje temos o relato de um assalto, no qual um jovem “vovô” Metralha, aqui sob seu antigo nome de “Grande Metralha”, tenta roubar uma valiosa carga de água potável que um jovem Patinhas está transportando pelo meio do deserto.

E esta é a segunda grande sacada de papai para esta história, pois o fato é que, durante a corrida do ouro nos EUA e Canadá, nem sempre eram os mineiros que ficavam ricos. Na realidade, a maior parte do ouro extraído ia mesmo parar nas mãos de comerciantes de todos os tipos.

Muita gente que chegou a essas áreas para minerar logo percebeu que valia mais a pena suprir as necessidades dos outros aventureiros do que se esfalfar de sol a sol por alguns gramas do metal precioso. Esse parece ter sido o caso também do Patinhas. Afinal, os mineiros também eram gente e precisavam comer, beber, se vestir, ter boas ferramentas, descansar e se divertir.

Por último, uma curiosidade: eu sei que os personagens Disney são na verdade eternos, mas os dois personagens principais estão muito bem conservados para os seus mais de 100 anos de idade, não? Vai ver, Patópolis tem um toque de “Terra do Nunca”, também.

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O Preço Das Suíças

História do Tio Patinhas, de 1977.

As suíças são um tipo de corte da barba que começou a ser usado no Século XIX, por volta de 1860, na época que ficou conhecida como a “Era Vitoriana”, quando a monarca da Inglaterra era a Rainha Vitória. Suas principais características eram o queixo barbeado, e a barba deixada crescer nos lados do rosto, como que unindo costeletas e bigodes em um todo contínuo.

Em 1897, quando a cidade de Dawson, no Yukon, Canadá (onde esta história se passa), foi fundada, em plena corrida do ouro, iniciada no ano anterior, esse tipo de barba já estava começando a ficar fora de moda. De qualquer maneira, isso só mostra o quanto Carl Barks foi minucioso em sua pesquisa para criar o personagem (e o quanto papai estava ciente disso).

Aqui, papai faz uma crítica velada ao visual dos personagens Disney, que mudou pouquíssimo ao longo das décadas, e ao mesmo tempo aproveita para criar uma “explicação” para o aparente apego do Tio Patinhas a uma moda que já passou há séculos.

Ele começa por criar uma situação na qual o futuro pato quaquilionário se vê confundido com um perigoso bandido, por sua semelhança fisionômica com ele, e em seguida usa as diferenças entre os dois para solucionar a trama. O fato é que o Tio Patinhas usa óculos, e o outro não, mas óculos são coisas móveis que podem cair do rosto. A única diferença entre os dois que não pode ser descartada facilmente é o gosto do Patinhas pelas suíças.

Patinhas suicas

Depois do episódio, e sentimentalista como o pato é, ele então decide manter a barba para se lembrar, da mesma maneira como faz com sua Moeda Número Um e vários outros objetos.

Os nomes “Jonas Passafogo” (o bandido) e “Pedro Mandabala” (o caçador de recompensas) são referências à violência reinante nos tempos da corrida do ouro, quando todos andavam armados e prontos para atirar a qualquer momento. Nesse ponto, não existe muita diferença entre os dois personagens.

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O Ouro De Serra Peluda

História dos Irmãos Metralha, de 1983.

Se existe (existiu) um garimpo em Serra Pelada, será que não poderia então existir uma “Serra Peluda” com um garimpo semelhante? Quando esta história foi escrita o garimpo de Serra Pelada estava a todo vapor, e o assunto dominava as notícias dos jornais e da TV. Foi uma verdadeira corrida do ouro, e inspirou até mesmo documentários e filmes de TV e cinema. E (por que não?) histórias em quadrinhos, como esta.

A mera noção de um garimpo tão rico mexeu muito com o imaginário de todo mundo, na época. Só se falava disso. Ou muito me engano, e minha memória me falha desastrosamente, mas há lá no fundo de minha mente uma vaga lembrança de meu irmão e eu na frente da TV brincando de trocar o nome “Serra Pelada” por “Serra Peluda”, e rindo a valer com a patacoada. Era um jogo de palavras de um tipo que ele, então com 12 anos de idade, costumava fazer muito. Só não sei se brincávamos de “Serra Peluda” antes ou depois da criação desta história.

O carro dos Metralhas na primeira página, laranja como a roupa dos ladrões e com um boné azul sobre a capota me parece algo inspirado em histórias Italianas. A ordem no estúdio a partir da virada da década, de 1970 para 1980, era “renovar, renovar, renovar”: no figurino dos personagens, em detalhes como este carro, na maneira de organizar os quadrinhos, etc.

Quanto à história em si, a presença do Primo 1313 pode até explicar alguns dos desastres e acontecimentos estranhos iniciais, mas com o passar dos quadrinhos as coisas começam a ficar estranhas demais para serem “obra” da prodigiosa falta de sorte do Azarado.

Metralhas peluda

É aí que entram os duendes peludos dotados de poderes mágicos (que são os verdadeiros donos do lugar) com seu arco íris direcionável usado para tomar todo o ouro escavado dos humanos, considerados invasores pelos seres elementais. Além de servir para sacanear os Metralhas, a teoria dos duendes serve para explicar de um modo romanceado por que é que muito pouca gente dentre aquele mar de formigas humanas que víamos na TV voltou rica do garimpo.

Metralhas peluda1

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O Ouro Da Montanha Sagrada

História do Zorro, de 1973. Muitas das histórias de papai para este personagem foram claramente inspiradas na série de TV de 1957, que todo mundo que assistia TV nessa época (e nas décadas seguintes) certamente conhecia e curtia. Esta história, em especial, parte da mesma premissa que o Capítulo 23 da série de TV, mas com uma trama totalmente diferente. Não se trata de uma “cópia”, mas sim de uma variação sobre o mesmo tema.

Como todos sabem, a história do Zorro se passa durante o domínio espanhol sobre a região da Califórnia, que foi dominada primeiro pelos espanhóis em si, de 1771 a 1821. Depois, com a independência do México da Espanha, a região passou ao domínio mexicano até 1848, quando o governo do México passou definitivamente a posse da Califórnia ao governo dos Estados Unidos depois de uma guerra das grandes.

O irônico é que os espanhóis, sempre ávidos por ouro, nunca conseguiram realmente encontrar o metal precioso nesse território. A Corrida do Ouro da Califórnia começou de verdade em 1849, um mero ano após a anexação da região pelos EUA.

Mas é de se imaginar que sempre houve boatos sobre ouro na região, sempre relacionados às terras indígenas, às quais os brancos quase não tinham acesso. Isso, é claro, as tornava mais misteriosas, o que certamente aguçava a curiosidade e a imaginação dos mais gananciosos. E se, como diz o Giorgio, e se alguém tivesse descoberto ouro na Califórnia apenas alguns anos antes, ainda durante o domínio espanhol?

É nesse exercício de imaginação que tanto o episódio da série de TV quanto a história de papai se baseiam. Mas as semelhanças param por aí. O roteirista do episódio de TV parece ter se inspirado na descoberta de James W. Marshall e John Sutter, em 1848, que mandaram analisar muito secretamente, a princípio, o metal encontrado por eles. Na TV essa cena é protagonizada pelo próprio Dom Diego.

A história de papai se inicia com base na reação bastante histérica do editor de jornais Samuel Brannan, que teria saído às ruas de Los Angeles gritando “Ouro! Ouro!”. Mas enquanto o Zorro da TV parte para as espetaculares cenas de ação e luta para prender o minerador ilegal e salvar a mocinha, o Zorro de papai prefere a diplomacia e o diálogo para tentar evitar ou pelo menos adiar a corrida do ouro que todos, no fundo, sabiam ser inevitável.

Zorro Ouro

Mas o fato é que a ficção não pode mudar a História, e por isso o herói mascarado, de um modo ou de outro, conseguirá finalmente impedir que o segredo se espalhe, evitando que a corrida do ouro aconteça “antes da hora”.

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Patinhas, O Generoso

Naqueles tempos dourados dos quadrinhos Disney, aparentemente, nenhuma edição comemorativa era completa sem uma história épica escrita por papai especialmente para a ocasião. Este é também o caso desta edição que comemorou os 15 anos da Revista Tio Patinhas no Brasil, publicada em 1978, na qual temos mais uma grande aventura que pode ser comparada inclusive às melhores de Carl Barks, não deixando nadinha a desejar.

O velho pato está relembrando o passado enquanto os sobrinhos do Donald brincam na sala. Como é comum com pessoas mais velhas que gostam de relembrar histórias de sua juventude na presença da família e de amigos, a impressão que se tem é que ele já contou todas as histórias que há para contar sobre si mesmo várias vezes, o que acaba gerando um certo tédio nos ouvintes. Mas o Patinhas é teimoso, e acaba lembrando de uma história “inédita”, que ainda não havia contado aos meninos.

Fiel ao mito das origens do Tio Patinhas criado por Carl Barks para a Disney, a ação toda ocorre durante a Corrida do Ouro no território de Yukon, mais exatamente na cidade de Dawson, que fica no Canadá. A trama é baseada em antigos contos de fadas nos quais seres mágicos (como bruxas e fadas) fazem benesses a quem (mesmo sem saber, ou especialmente sem saber) lhes faz o bem, retribuindo, assim, na mesma moeda. É como se fosse um teste, para verificar as verdadeiras inclinações da pessoa e então agir de acordo, ministrando uma recompensa ou castigo, conforme o caso. Esse tipo de história serve também como uma espécie de “alerta moralizante” para exortar as pessoas a sempre serem boas, pois nunca se sabe quando os seus esforços (bons ou maus) darão frutos.

Tudo começa com um ato de desprendimento. Ao salvar a vida de um cachorro de trenó que se perdeu na neve, ele desencadeia uma série de acontecimentos francamente mágicos que o levam, no final, a ser o dono de uma mina de ouro. No meio de uma nevasca, tentando desesperadamente encontrar um abrigo antes que a noite caia totalmente e o congele, seria muito fácil para o pato dar o animal estendido na neve por morto, e “passar batido” sem nem ao menos olhar para ele duas vezes. Essas situações eram comuns nos rigorosos invernos do norte do planeta na época descrita, e ninguém em sã consciência culparia um viajante solitário por continuar em frente. Mas ao invés disso ele resolve justamente parar, perdendo um tempo precioso e arriscando a própria vida, para dar um gole de bebida quente ao bicho.

TP Generoso

Como recompensa pela manutenção da vida do cachorro, um pobre animal indefeso que nunca seria capaz de retribuir o bem que lhe foi feito, um feiticeiro esquimó, que alega ser o dono do animal, concede ao pato a realização de três desejos. Mas a magia não vem de graça: após ter cada um deles atendido, o sovina Patinhas terá a obrigação de ser generoso em retribuição.

TP Generoso1

O velho feiticeiro não diz se haverá um castigo por uma eventual desobediência, nem qual ele poderia ser, mas nem é preciso, na verdade. O Patinhas pode ser sovina, avarento, pão duro, explorador de seus empregados, etc., mas tem o coração no lugar certo, sabe ser grato e, acima de tudo, é honesto. O ditado “promessa é dívida” parece ter um significado especial quando se trata do Tio Patinhas.

(PS: A propósito, só para constar: NÃO dê chocolate quente, ou qualquer outra coisa contendo chocolate, para o seu bichinho de estimação. Nunca. Isso é o mesmo que veneno, para eles)

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