Paz E Amor, Bichos

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

A primeira página (e primeira sacada genial) desta história é quase idêntica à primeira página de “Paz e Amor, Metralhas”, de 1977, já comentada aqui. O splash panel é o mesmo: o 617 lê quadrinhos roubados, enquanto o 671 joga dardos contra um poster com a cara do Coronel Cintra, e outro Metralha caça ratos com um mata-moscas.

A diferença aqui é a chegada do “Terceiro Milênio”, anunciada pelo 761 (não, não o ano de 2001, mas o primo hippie dos bandidos), com sua mensagem de paz, amor e não violência. Com suas gírias e palavreado complicado, o Primo 3000 sugere que eles gastem suas energias em algo menos violento.

Metralhas 3000

“Gastar energia”, aliás, é algo que o dorminhoco primo hippie não gosta nem um pouco de fazer. É aí que o 761 tem a ideia de usar o primo, que depois que adormece não acorda nem com um tiro de canhão a 30 centímetros de distância, em um assalto ao carro forte da Companhia Patinhas de Transporte de Valores, que é super blindado e não para por nada nesse mundo. Quer dizer, por quase nada.

Metralhas 3000 1

Num primeiro momento, até que o golpe é bem sucedido, mas ainda não é desta vez que os bandidos vão conseguir cometer o crime perfeito.

Com mais esta, podemos dizer que papai escreveu uma “série paz e amor” de histórias com temática hippie, composta de quatro delas: desde 1972, com “Paz, Amor e Glória”, a primeira história da Glória, namorada do Peninha, passando por “Paz, Amor e Disco Voador” do Zé Carioca em 1973 e “Paz e Amor Metralhas”, de 1977 e até esta, de 1979.

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Paz E Amor, Metralhas!

Da série “Paz e Amor”, esta história dos Irmãos Metralha publicada em 1977 é uma das 4 que papai escreveu satirizando a cultura hippie, de 1972 a 1979.

Após fugir da prisão mais uma vez, e tendo dividido a cela com o Primo 3000, vulgo “Terceiro Milênio”, o Metralha 761 volta para o covil dos irmãos com um plano que parece bem bolado: se passarem por artesãos de uma “feira hippie” para ganhar acesso ao gramado na frente da Caixa Forte e capturar o Tio Patinhas para poder assaltar o local.

A “feira hippie” é ainda hoje uma famosa feira de artesanato em Campinas, que papai frequentava assiduamente nos anos 1970 e 1980 para conversar com as pessoas e colher ideias para suas histórias.

O plano parece bom, mas é claro que não vai dar certo. O Patinhas é esperto demais para cair numa dessas. Mas a tentativa de assalto não é mais importante para a história do que na verdade uma série de detalhes interessantes que são toda a graça de mais um plano maligno falido.

O disfarce de hippie fica tão bom, que nem os Metralhas reconhecem mais uns aos outros. Na verdade, sem ver os números nas próprias camisas, nem eles mesmos sabem quem são.

E todas as falas dos 5 “hippies” incluem alguma combinação das palavras “amizade”, “bicho”, “tamos” (estamos), e frases como “paz e amor, bicho”, “é isso aí”, e “falou”. É um vocabulário composto pelas frases feitas que certamente se ouvia um bocado ao escutar a conversa numa rodinha de Hippies nos anos 1970.

paz amor metralhas

Outro detalhe interessante desta história, e que estranhamente no dia de hoje ganha mais um significado, são as cenas de abertura onde um dos metralhas se diverte a valer lendo as revistas em quadrinhos que ele *roubou* de algum lugar.

metralha quadrinhos

Aproveito esta sincronicidade para me solidarizar com o colecionador de quadrinhos Antonio José da Silva, o Tom Zé, pelo roubo de parte de sua coleção. O trabalho desses aficionados por quadrinhos é de um amor extremo pela nona arte, o que torna o roubo ainda mais grave.

É uma parte da história da arte mundial que nos foi roubada, comparável ao roubo dos mais famosos quadros dos maiores museus do mundo. E esta arte, como toda arte, não tem preço. Qualquer valor monetário que se possa afixar a ela é apenas uma referência, e nunca a descreverá a contento. O lugar dessa arte, como diria Indiana Jones, é no museu, num acervo que possa ser consultado por todos, e não nas mãos de especuladores ou colecionadores que não têm a intenção de compartilhar essa arte com todos.

Eu peço a quem estiver com a coleção, que ponha a mão na consciência e a devolva.