Dia dos Namorados

História do Gordo, de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril na revista do personagem número 22 em junho de 1988.

Houve um tempo em que “namoro” era algo mais ou menos como ter um “amigo predileto”, ou uma “amiga querida” com quem se podia ensaiar os primeiros passos dos relacionamentos mais sérios que viriam naturalmente em idades mais adultas. Assim, não era nada de mais ver crianças “namorando” entre si, desde que tudo acontecesse de uma maneira inocente o suficiente.

Esses “primeiros passos” de relacionamentos mais românticos geralmente tomavam a forma de “paixonites” infantis nas quais as crianças iam expressando livremente seus interesses e não viam motivos para retribuir as atenções de quem não lhes atraía, nem mesmo por educação.

Situações como a da história, na qual o Gordo gosta da Lena, que não sente nada de mais por ele, mas ignora a Fofa, que não faz segredo de que gosta dele, eram comuns entre a criançada.

E o Dia dos Namorados certamente ajuda, ao permitir que as pessoas expressem o seu afeto por meio da troca de presentes, mas também introduz um elemento de competição, onde quem tem dinheiro para dar um presente maior ou mais luxuoso tem melhores chances de “marcar pontos” e causar uma boa impressão.

Este será o conflito e o dilema do Gordo ao tentar impressionar a Lena somente com o conteúdo de um cofrinho de porquinho, ou seja, um punhado de moedinhas. É aí que entra o Tio Bembém, o maluco-beleza, que ensinará ao Gordo sobre a importância dos presentes com “valor sentimental”.

O problema é que o que tem valor sentimental para uma pessoa pode não ser tão valioso assim para outra, o que fará com que esta história termine de maneira tão desastrada para o personagem quanto engraçada para o leitor.

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Problemas Do Coração

História do Zé Carioca, composta no início de 1977 com o nome de “O Dia Dos Namorados” e publicada pela primeira vez em junho de 1978

O Zé está sempre sem dinheiro, mas só parece sentir falta dele quando precisa agradar a Rosinha por ocasião de datas especiais, como o Natal e o Dia dos Namorados.

Como se sabe, quando papai foi chamado para fazer as histórias do papagaio verde, o personagem ainda não estava bem desenvolvido. Nem “turma” ele tinha direito. Papai foi adicionando personagens coadjuvantes aos poucos mas, depois de algum tempo, certamente percebeu que o único ali que tinha uma namorada era o Zé.

Isso fazia com que os amigos Nestor e Pedrão não fossem nem um pouco compreensivos com os problemas amorosos do Zé. Além disso, essa é uma situação que não parece nada natural. Afinal, todo mundo, ou quase todo mundo, tem alguém por quem tem um interesse romântico.

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Desse modo, hoje vemos que a Gilda foi criada por papai especialmente para ser a namorada do Nestor, em algo como um eco não intencional de Gênesis 2:18. O fato é que formar pares é uma necessidade humana que acaba se refletindo também na literatura em todas as suas formas. Alguns anos depois, ele faria a mesma coisa para outro “solteirão” da Vila, o Pedrão.

O interessante é a maneira como a história tem uma reviravolta de 180 graus. O Nestor começa sugerindo que o Zé desista da Rosinha, somente para acabar ele mesmo se apaixonando no final. Não existe, aliás, coisa mais canalha e deselegante do que terminar um relacionamento às vésperas de datas importantes somente para não ter que dar presente. Crianças, não façam isso em casa!

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A Paixão Do Pedrão

História do Zé Carioca, publicada uma única vez em 1984.

O tema, aqui, é “dia dos namorados”. Todo mundo na vila está namorando. O Zé com a Rosinha, o Nestor com a Gilda, e até o Afonsinho, com uma moça de aparência bastante desengonçada, como ele próprio. Todos, quer dizer, menos o Pedrão. Esse é o “do contra”. Não tem namorada, e acha que não precisa, que é “perda de tempo”, e que é melhor ir cuidar de sua granja em vez de ficar de namoricos.

A “granja” é a área em volta da casa do Pedrão, que é um pouco mais afastada das demais casas da Vila Xurupita. Lá ele plantou um pomar, completo com jaqueira e bananeira, além de goiabas e outras frutas comuns em plantações desse tipo nas casas do interior (e até das cidades) dos tempos de infância de papai, frutas essas que o Zé adora “pegar emprestado” de vez em quando. Esse pomar já foi mostrado com mais detalhes em histórias como “O Caso das Frutas Furtadas”, já comentado aqui. Para a área merecer a denominação de granja, o Pedrão provavelmente está criando galinhas no quintal, também.

O caso é que é dia dos namorados e o Zé precisa retribuir o presente da Rosinha, mas como sempre – está sem dinheiro. Por isso ele tem a ideia de fazer uma aposta com o Pedrão, que se acha “imune” às coisas do amor, e até arma um truque para fazer o amigo se apaixonar ainda naquele mesmo dia e pagar o presente que ele quer dar à namorada. Mas a verdade é que nem vai ser preciso planejar tanto, e nem mesmo passar a perna no proprietário da granja de quintal. Ninguém é realmente imune à magia do amor, especialmente no dia dos namorados.

A chegada de uma parente do Nestor criada por papai em 1982, a bela Prima Vera (um jogo de palavras com a estação do ano “Primavera”) vem a calhar para o plano. O duplo “V” no nome da viação no ônibus no qual ela chegou (e como mulher sofre! Lembrem-se, rapazes, respeito não é favor, é obrigação) é uma abreviação de “Viação Vai e Volta”.

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O tanque na área de serviço da casa do Pedrão também é algo que era comum em casas do país inteiro, e que tínhamos, nós também, na nossa casa em Campinas. A diferença é que, em casa, essa área era coberta e fechada. Esses elementos visuais não são coincidência, nem inserção do desenhista. Papai tinha o maior cuidado em dar um ar genuinamente brasileiro, e o mais autêntico possível, às histórias do Zé Carioca. A intenção era mostrar o Brasil como ele realmente é, e não de acordo com a “visão americanizada” das primeiras histórias do personagem, quando de sua criação.

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Ângela

Nada como uma boa história de terror para uma noite de sexta feira, dia 13, e de lua cheia. E como além disso ontem foi dia dos namorados, a história de hoje não poderia ser mais apropriada.

Ela foi publicada  na revista Seleções de Terror apresenta Clássicos de Terror nº 17 da Editora Taika em 1961, com argumento de Ivan Saidenberg e desenhos de Luiz Saidenberg (a assinatura de meu tio está meio escura demais no canto inferior esquerdo da primeira página, mas está lá sim). A capa é assinada por Nico Rosso, outro dos gênios que integravam a equipe.

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A história em si gira em volta de um rapaz apaixonado que namora uma moça de nome Ângela, que mora em um casarão com ares de mal assombrado com sua madrasta e muitas teias de aranha. Louco de amores, o moço não entende por quê ela não quer sair de lá, sempre citando a velha senhora como impedimento, além de sempre insistir em estar de volta ao casarão antes da meia noite.

Até aí, é uma moça de família, e entende-se, mas o rapaz começa a ficar obcecado com a situação, e numa fatídica noite (talvez tenha até sido uma sexta feira 13 de lua cheia) resolve entrar na casa sem se anunciar, numa tentativa desesperada de salvar o seu amor das garras de sua velha madrasta. Mas, uma vez lá dentro, espera por ele uma horripilante surpresa: a moça e a velha são a mesma pessoa, e ele esteve todo esse tempo sob o encanto de uma bruxa e sua poção da juventude!

O estilo da trama é bem dramático, e o mistério paira sobre as cabeças dos personagens como uma lâmina giratória prestes a se abater sobre o nosso incauto mocinho. O desenho sombrio de titio só aumenta a sensação de mistério e suspense, com uma abundância de sombras quase sufocantes.

(Dá para ler a assinatura?)

Luiz Saidenberg

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