A Vingança do Dr. Apolo Issão

História do Morcego Vermelho, publicada originalmente em 1983.

Na verdade ela foi escrita em 1978, logo após a primeira história publicada para este inimigo do Morcego, mas os editores acharam por bem mantê-la na gaveta por algum tempo, talvez porque o próprio texto nos informa que esta história se passa “alguns anos depois” da primeira.

Este deveria ser o dia da soltura do bandido, e o alvará do livramento condicional já está até lavrado e datilografado, mas a simples menção ao nome do herói faz o bandido surtar e fugir pela janela. Ele além disso passa a história toda sem conseguir pronunciar, e nem mesmo escrever, o nome do herói que ele tanto odeia.

MOV Vinganca

Ele então volta ao antigo esconderijo, num ferro-velho abandonado, reativa sua máquina de fazer monstros, e começa a criar máquinas malucas. A primeira delas ainda se parece bastante com as da história anterior, mas com o passar dos quadrinhos, elas vão se sofisticando. Até “fom-fom” elas fazem agora, tão hilárias quanto (quase) amedrontadoras. Já o monstro mecânico criado especialmente para atacar o Morcego, além de também fazer fom-fom, é particularmente sofisticado, e lembra um gladiador romano.

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Papai vai brincando com as palavras, além do já conhecido trocadilho com o nome do vilão e o conceito de poluição. Agora também temos a repetição, em vários momentos, dos adjetivos “horrível, sinistro e pavoroso”, assim, sempre juntos e nesta ordem, às vezes no singular e às vezes no plural, para adicionar graça de um modo geral. Com pequenas variações, essas palavras aparecem em várias outras histórias de sua autoria para descrever os vilões e suas criações do mal, como por exemplo o “terrível, horrível e pavoroso” em A Volta do Monstrengo, já comentada aqui, de 1977.

Ele também aproveita para “fazer uma média” e se retratar com o Lampadinha, que na história anterior contra este vilão teve apenas uma pequena participação e logo foi “estapeado” para fora do quadrinho (e da trama). Desta vez ele terá um papel mais central e importante, surpreendente mesmo, mas só vai saber exatamente o que ele vai fazer quem correr já à banca de revistas mais próxima e sair de lá com o seu exemplar do Zé Carioca 2405.

E há o meu livro, também. Ele está esperando por vocês na Comix, ou no link: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

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Faça Você Mesmo

História do Donald e do Peninha, de 1977.

Sempre que o Peninha vai visitar o Donald, alguma confusão acontece. Desta vez o Donald, que nunca foi lá muito sortudo, está especialmente sem sorte. Foi passar uma roupa nova, o ferro queimou a roupa e depois fundiu, e por causa disso um fusível da caixa de luz queimou também, o que deixou o pato de roupa de marinheiro sem luz.

É aí que, para desespero do Ronrom, chega o Peninha com um livro chamado “Faça Você Mesmo”, que ensina a fazer reparos domésticos, inclusive elétricos.

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O problema é que o tal livro dá uns conselhos muito estranhos sobre como trocar resistências e fusíveis. Mas como está no livro, ou seja, (supostamente) passou por um editor e um revisor, o Donald resolve confiar e seguir as instruções, com resultados previsivelmente desastrosos.

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É a versão em quadrinhos do velho conselho: “crianças, não façam isso em casa”. Para os adultos, é uma lembrança para não irem confiando logo em qualquer dica de gambiarra, mas sempre contratar um profissional para fazer o serviço.

O mais curioso é que o Peninha parece conhecer muito bem o livro. Mais curiosamente ainda, a ordem dos verbetes sobre cada tipo de conserto doméstico segue uma “lógica” típica do “jeito Peninha de pensar”. Será que… (nah, não poderia ser, não é mesmo?) Ou será que esse livro não foi escrito por um especialista, mas sim por um certo pato abilolado que todos nós conhecemos?

No final, fica a mensagem: mais importante do que não fazer gambiarras no conserto da eletricidade em casa, é verificar sempre muito bem se a fonte das informações que vocês recebem é confiável. Não vá acreditando logo de cara em qualquer livro ou site da internet. Pesquise sempre de fontes confiáveis.

Isso, aliás, nos leva ao meu livro que, modéstia às favas, foi muito bem pesquisado, redigido e revisado, e está esperando por vocês na Comix, ou no link: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

A Moda Turbilhão

História do Donald e da Margarida, escrita em 1976 e publicada pela primeira vez em 1978.

A coisa toda gira em torno de uma enorme peruca ruiva que a Margarida comprou como sendo o “último grito da moda”, e do desconforto do Donald (e dos homens em geral, já que o pato representa o “homem comum”) ao ter de lidar com a sensibilidade e os modismos femininos.

O penteado alto em formato de espiral também não ajuda, e agora mais do que atrair olhares por onde vá, a Margarida está também dando sustos por onde passa, com efeito hilário. E de susto em susto, a peruca também acaba sendo útil, mas não exatamente do jeito que a Margarida poderia ter esperado.

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Fica então a pergunta, para reflexão: o que é moda? Quem dita a moda, quem diz o que é ou não uma roupa ou um acessório popular, ou chique, um símbolo de refinamento social e cultural que todos(as) vão querer usar?

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E já temos a data de lançamento do meu livro, juntamente com os outros dois da Série Recordatório: dia 31 de janeiro, a partir das 13:00, no Memorial da América Latina como parte dos eventos que acompanham a cerimônia do Prêmio Ângelo Agostini. Vejo vocês lá!

http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Experiência Anterior

História do Ronrom, publicada pela primeira vez em 1974.

Donald e Peninha são despedidos de A Patada pela enésima vez e, para tentar garantir o “peixinho de cada dia”, o gato Ronrom decide ajudá-los a conseguir um novo emprego, sempre em empresas que interessam a ele: uma peixaria, um frigorífico, e até mesmo no aquário municipal (já no desespero).

Ele só não gosta quando os dois patos vão tentar um emprego de leiteiro. Tudo o que ele não quer é mais leite. O interessante é o pato Peninha declarar que tem experiência com leite “desde nenenzinho”. Pato bebe leite? (Eu sei, eu sei… Eles são gente em forma de pato, não patos em forma de gente.)

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Mas sem experiência nada feito em empresa alguma (e após uma série de recusas e demissões-relâmpago hilárias), só resta aos patos voltarem para A Patada, já que todo mundo conhece o esquema: eles são demitidos frequentemente, dão um “rolê” pela cidade aprontando confusões, e logo são readmitidos. Mais do que em jornalismo, é nisso que eles têm experiência.

Nesta história aprendemos qual é exatamente a função do Donald dentro do jornal do Tio Patinhas. Além de todas as funções que divide com o primo abilolado, como repórter (na maioria das vezes fotográfico), faxineiro e todo o resto, ele é o editor do jornal.

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No final o leitor não fica sabendo qual foi o teor da matéria tão “ofensiva” do Peninha que levou a mais esta demissão dos dois, e na verdade nem vem ao caso, mas esta é mais uma parte importante da graça da história toda. E o que dizer do Peninha, sempre um pato tão da paz, nesse nervoso todo? A coisa deve ter sido realmente grave.

E não se esqueçam de dar uma passadinha lá no site da Editora Marsupial e reservar o seu exemplar do meu livro sobre papai: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

O lançamento oficial está previsto para janeiro, e logo ele estará também numa livraria próxima de você.

Ser Bombeiro É Fogo

Em 1974 papai nos mostrava mais um dia de competição entre Gastão e Donald pela admiração da Margarida.

Donald vira bombeiro voluntário só para impressionar a Margarida, pois acredita que só será chamado em caso de um incêndio de verdade, e assim terá muito tempo para passear pela cidade fanta… quer dizer, uniformizado, para se exibir. Vendo isso, o Gastão resolve fazer o mesmo e se alistar também, só para chatear.

O que nenhum dos dois sabe é que a coisa é mais complicada do que parece. Para começar, o chefe dos bombeiros (outro chato) fica disparando o alarme só para testar a prontidão dos novatos. Por fim, quando a história já está quase tomando o rumo daquela fábula de Esopo na qual um menininho grita “Lobo!”, vem o alarme (e o incêndio) verdadeiro.

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É interessante o uso que papai faz da famosa sorte do Gastão: ela vai certamente ajudá-lo durante o incêndio, mas não exatamente para apagá-lo, e nem será de grande valia para cortejar a Margarida. Nesse ponto o esforço e o valor do Donald, a representação do homem comum que não conta com nenhum “poder especial”, serão mais valiosos.

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A trama não tem grandes surpresas. Nenhum dos dois se dará lá muito bem como bombeiro voluntário, e a Margarida, sendo namorada do Donald, certamente não pode ficar com o Gastão. Quando ela dá atenção ao primo ganso do pato, a intenção é mais alertar o namorado de que ele poderia ser mais romântico, e dar flores de presente de vez em quando, por exemplo. Mas na verdade nem passa pela cabeça dela trocar de namorado. Essa ideia só ganha corpo nas teias da insegurança do Donald, na verdade. É ele que tem tanto medo que isso aconteça, que acaba achando que poderia ser possível.

O Torneio De Aeromodelos

História do Professor Pardal, publicada primeira vez em 1973.

Os três sobrinhos do Donald estão interessados num concurso de aeromodelos que vai acontecer na cidade. Por coincidência, o inventor está experimentando com pequenos aviões. A princípio ele faz um pequeno veículo aéreo para ser tripulado pelo Lampadinha (será que isso faz dele um “piloto de VANT”?), mas a pedido dos meninos passa a trabalhar num aeromodelo para eles.

Enquanto isso, o Professor Gavião está à espreita. Como toda pessoa má, ele projeta sua própria maldade e inveja na vítima do seu preconceito. Humilhado por se sentir inferior, ele se convence de que o Pardal está tentando humilhá-lo conscientemente, demonstrando para todos que ele é “o maior”, o que, é claro, nunca nem passou pela cabeça do inventor do bem.

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Essa é a primeira trama da história. A segunda é o elemento representado pelo Pato Donald, o homem comum sem pretensões, que compra o melhor aeromodelo operado por controle remoto que encontra na loja de brinquedos para os sobrinhos montarem e participarem da competição. Mas, com o acesso a uma tecnologia melhor, os meninos recusam o aparelho do tio, que então resolve participar ele mesmo da competição com o modelo, que recebe o singelo nome “Margarida I”.

O modelo dirigido por ondas mentais do Pardal, apesar de ser muito mais tecnologicamente avançado do que qualquer coisa que os outros participantes possam ter, não configura exatamente uma trapaça, a não ser pela cópia descarada feita pelo Prof. Gavião. O aviãozinho tripulado pelo Lampadinha é meio que uma “esticada nas regras”, mas se está na linha de largada, é porque foi permitido pelos organizadores. Em todo caso, nenhum deles poderá vencer a competição, porque a vantagem que eles têm é um pouco injusta para com os outros participantes, que não têm acesso a essa tecnologia.

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Mas diante de todas essas maravilhas tecnológicas, o humilde Donald e seu modelo convencional passam quase despercebidos, sem sequer serem citados pelos deslumbrados organizadores, pelo menos no início. É só quando ele se classifica para a etapa final que o seu valor como modelista começa a ser reconhecido.

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O inventor do mal tira o aviãozinho do Pardal da competição por meio de trapaça, e o Lampadinha acidenta o seu após vingar seu mestre e abater o aparelho do Gavião. Nenhuma trapaça ou violência sairá impune numa história Disney. Diante disso restam na competição apenas os aeromodelos tradicionais (como aliás deveria ter sido desde o começo), e o talento e dedicação do Donald são finalmente recompensados. Afinal, ele é o amador que fez tudo “de acordo com as regras” e que está enfrentando dois profissionais no que deveria ser um concurso para crianças.

Esta história, na verdade, é algo como um elogio ao “homem comum”. A mensagem que ela passa é um encorajamento para as pessoas, para que façam o que se dispõem a fazer com o máximo empenho e dedicação sem se preocupar se há outros melhores ou mais talentosos que eles fazendo a mesma coisa. Comparar-se aos outros leva a sentimentos de inadequação que acabam causando inveja ou depressão, certamente sabotando quaisquer chances que elas possam ter de conquistar o seu lugar ao sol.

O Boneco Da Sorte

Em 1974 papai já “brincava” com a ideia do boneco sobrenatural que dá azar, ou neste caso sorte, dependendo de quem está de posse dele.

Esta é uma história da Família Pato, mais exatamente do Donald e Sobrinhos contra o Gastão. O pato acha a estatueta na rua (ou melhor, é ela que vem voando de encontro à cabeça dele), e bem onde ela cai há uma nota de 500 cruzeiros. Disso, ele conclui que o objeto dá sorte e o leva para casa. Na parede, no primeiro quadrinho, o calendário marca “sexta feira 13”.

sexta 13

No mesmo dia o Gastão, eterno rival do Donald, ganha uma viagem num concurso e não perde a chance de ir se gabar para a Margarida. Quando o Donald recebe do Tio Patinhas a missão de ir à África e vai avisar a namorada, o Gastão já está na casa dela, aboletado numa poltrona. Daí começa uma competição entre os dois, para ver quem vai e volta mais rápido com o melhor presente para a pata.

Num detalhe curioso, a estante que se vê atrás de um dos sobrinhos enquanto ele consulta o Atlas para ver onde fica o tal lugar para onde eles devem ir contém um livro da enciclopédia “Os Bichos” (que foi traduzida por papai em parceria com mamãe), uma cópia do “Cinquentenário Disney”, e um volumoso exemplar da revista “Disney Especial”. É a nossa velha estante na casa de Campinas, que ficava ao lado da mesa de trabalho dele! Isso não é uma coincidência, nem inserção do desenhista. É coisa de papai.

sobrinho estante

Voltando à história, temos aqui pelo menos três linhas de enredo: o aparecimento do misterioso objeto, que precisa de uma explicação, a missão que o Donald recebe de ir cuidar dos negócios do tio rico na África, e a competição com o Gastão pela atenção da Margarida. E isso tudo, no final, vai ser “costurado” junto, numa só solução.

Chegando lá, enquanto o Gastão compra uma cópia da tal estatueta numa loja de badulaques, o Donald está às voltas com os nativos. Eles querem o seu ídolo de volta, que o Patinhas levou a troco de uns cobres anos antes. Por isso, estão em greve até que ele a traga de volta.

E não é que o ídolo sagrado dos nativos é justamente a estatueta que está em poder do Donald? Nesse momento, tudo se explica: o feiticeiro da tribo havia lançado um sortilégio para dar azar a quem o mantivesse longe da tribo, e sorte a quem o trouxesse de volta. É como se o boneco tivesse escolhido o Donald para devolvê-lo.

Numa última curiosidade, o número 13 também aparece na fuselagem do avião que o Gastão toma para tentar chegar antes do Donald a Patópolis.

gastao aviao