No Tempo Dos Piratas

História do Professor Pardal, de 1980.

Muito antes de “De Volta Para o Futuro”, papai já brincava com a noção de paradoxos nas viagens no tempo. A pergunta que se faz é: se esse tipo de viagem fosse possível, quais seriam realmente as chances de que um visitante de um tempo com tecnologia mais avançada entrasse e saísse de uma época sem influenciá-la de alguma maneira?

Será que essa pessoa conseguiria resistir à tentação de adaptar seus conhecimentos para poder viver melhor, ou até mesmo enfrentar alguma situação de perigo, como a que vemos nesta história? E como isso afetaria a vida dos habitantes originais daquele tempo? (É, aliás, nessa mesma premissa que se baseia Erich Von Däniken em sua teoria dos “antigos astronautas”: seriam os “deuses” na verdade astronautas – ou até mesmo viajantes do tempo – que ensinaram os rudimentos da alta tecnologia aos nossos antepassados mais primitivos?)

A máquina do tempo do Pardal é sempre a mesma, em todas as histórias que papai escreveu com esse tema: trata-se de um aparelho parecido com um enorme despertador analógico, daqueles antigões. A curiosidade é que a máquina tem uma aparência bastante humanoide, com o sino no topo por chapéu, os ponteiros parecendo bigodes, pés com sapatos, e uma projeção frontal que lembra uma língua, e que serve de assento para o viajante. Ela é quase um personagem por si só.

O interessante é que algumas coisas nunca mudam, apesar de tudo. Hoje veremos que ambos os laboratórios, o do Pardal do presente e o do Pardal do passado, têm caixas reservadas para “inventos inúteis”. Se prestarmos atenção, veremos que a do Pardal do presente contém nada menos do que a Máquina Talvez, que seria no futuro a estrela da História do Computador.

Hoje temos a primeira aparição de Thomás “El Borrón”, o pirata antepassado do Mancha Negra. Ele seria usado novamente dois anos depois no episódio da História de Patópolis que trata do ataque dos piratas à antiga Vila de Patópolis.

A ilha de nome Barataria que o Borrón cita, de onde viriam reforços de piratas, existe de verdade. Fica na costa dos EUA, no estado da Louisiana. No ano citado nesta história, 1738, os Estados Unidos ainda eram colônia britânica e os piratas a usavam para desembarcar mercadorias contrabandeadas fora das vistas dos fiscais do Rei, já que ela ficava longe das bases navais oficiais. Já no final do século XVIII e início do XIX, a ilha ficou famosa como base do Pirata Lafitte.

Curiosamente, a ilha é citada também na história de Dom Quixote: seu escudeiro, Sancho Pança, se torna governador do lugar.

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O Planeta Dos Autômatos

História do Professor Pardal, de 1975.

Esta história é um resumo de todos os anseios de papai no que diz respeito à existência de vida em outros planetas, à possibilidade de que nossa civilização se encontre com civilizações alienígenas no futuro e às consequências desse encontro.

Ao contrário das visões apocalípticas de muitos, que temem que esses seres sejam hostis e que possam querer nos aniquilar para tomar nosso lugar sobre a Terra, ele acreditava que esse contato poderia ser amigável e trazer grandes avanços tecnológicos a todos os envolvidos.

Para que isso acontecesse, ainda segundo suas teorias, bastaria que a humanidade alcançasse um nível suficiente de capacidade tecnológica que viesse a nos permitir encontrar com eles já no espaço, ou descobri-los antes que eles nos descubram. Essa teoria, aliás, é a base que rege séries de TV de ficção científica como Star Trek, por exemplo.

Isso, mais aliás ainda, difere bastante da tecnofobia exibida em outras histórias de ficção científica criadas por ele, nas quais não há alienígenas envolvidos. O porquê de haver essa confiança tão grande na suposta tecnologia alienígena e tão pequena na tecnologia humana é um paradoxo que eu não sei explicar. Muito provavelmente, é algo que tem mais a ver com os clichês dos quadrinhos do que realmente com as ideias pessoais de meu pai.

Representando a humanidade como um todo, ao fazer o “test drive” de uma nova e revolucionária tecnologia para foguetes, o Professor Pardal acaba encontrando uma civilização de pequenos robôs muito parecidos com o lampadinha. Eles a princípio são hostis, e têm a intenção de invadir o nosso planeta.

Já que, para evitar essa catástrofe, uma guerra está fora de questão, somente a cooperação tecnológica poderá resolver o problema. A grande sacada de papai é a de que, se os seres são artificiais, criados por um inventor alienígena (e nesse ponto temos também um “aceno” às teorias de “Eram os Deuses Astronautas” de Erich Von Daniken), por quê o planeta deles também não pode ser?

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Perigo No Pólo Norte

A história que fecha esta trilogia de 1983 não poderia ser mais espetacular.

Novamente, a aventura em si começa após uma breve introdução, para lembrar aos leitores dos capítulos anteriores, e para dar o contexto a quem os perdeu e só começou a ler agora. E novamente, temos a caçada a um metal valioso, a presença disfarçada do Patacôncio na equipe do Patinhas, e o encontro com os alienígenas, desta vez em condições um pouco diferentes.

Mais uma vez tirando inspiração das teorias que existiam na época sobre a presença de seres de outros planetas na terra, no passado e na atualidade, papai usa a teoria da Terra Oca cuja entrada estaria no pólo norte, de acordo com livros como “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich Von Daniken, que ele tinha em sua estante e certamente leu.

Terra Oca

As cenas que mostram a cidade futurista do povo da Terra Oca também lembram muito os quadrinhos clássicos de ficção científica, como por exemplo “Flash Gordon no Planeta Mongo”, de Alex Raymond.

FlashGordonArchivesV2

Chegando à Terra Oca, os patos encontram, além dos alienígenas, um povo altamente desenvolvido do ponto de vista tecnológico. Desta vez não é possível simplesmente mandar tudo pelos ares no final da história, sem prejudicar seriamente um povo que não tem nada a ver com esta briga. Uma solução mais elaborada terá de ser encontrada.

E a solução que papai encontrou foi criar uma batalha entre patos e alienígenas, que termina com uma espetacular revoada de discos voadores sobre Patópolis, acompanhada dos clássicos comentários do povo no chão, do tipo “será um pássaro, será um avião?”.

discos voadores

O mais interessante é que o final da história tira a existência de seres de outros planetas do campo da mera especulação, prova sua existência para as câmeras de TV, e a transfere para o campo da ciência, proporcionando grandes avanços à humanidade. Isso é o que ele teria gostado de ver acontecer na vida real, também.

Isso, entre outras coisas, é claro. Quem ler (quem sabe um dia) verá.