Ih, Deu Bolo!

História da Turma da Fofura, de Ely Barbosa, escrita em maio e publicada na revista da personagem de número 8, em outubro de 1987.

Hoje em dia “dar bolo” significa algo como “faltar a um encontro”, mas, naquele tempo, “bolo” tinha a conotação de “embolado”, de confusão, de “tudo junto e misturado”.

Com ideia da minha mãe, a história é ao mesmo tempo mais uma defesa da tese de que não existe brincadeira “de menino” e “de menina”, e uma hilária aula de como (não) se faz algo.

E a ideia da minha mãe foi inspirada em um bolo que fizemos juntas naquele tempo. Ao ler a receita, eu fiquei imaginando como seria se as instruções fossem levadas ao pé da letra e alguém tentasse fazer “chá de açúcar” e “sopa de manteiga”.

(E é por isso que a página dos créditos, no final das revistas do Ely, citava a nós quatro como colaboradores: chegamos a um ponto no qual tudo o que fazíamos em família servia como ideia para papai transformar em mais um roteiro engraçadíssimo.)

Rimos muito. O bolo ficou delicioso. E o mundo dos quadrinhos ganhou mais uma história engraçadíssima.

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O Menino Lobo

História da Fofura, de Ely Barbosa, publicada na revista Turma da Fofura número 15 em agosto de 1988.

A trama é uma síntese de todo o folclore sobre lobos na literatura, com “toques” de Mogli, Pedro e o Lobo e até mesmo Lobinho e Lobão, da Disney.

A “turba” de coelhos enraivecidos que persegue o menino lobo lembra algo saído de uma história de terror de caça a vampiros ou bruxas, mas é também um elemento do profundo medo desses terríveis animais que está enraizado na cultura européia, principalmente em áreas rurais, de onde vem também a história de Pedro e o Lobo. A saída do menino de casa, não para caçar, porque não caberia na proposta da Turma da Patrícia, mas para desarmar armadilhas de caça também lembra a mesma história.

Já a questão de ele ter se perdido na floresta e ido viver com os lobos é claramente uma referência à história de Mogli, o Menino Lobo, de Rudyard Kipling.

A coisa toda vai sendo trabalhada sempre com uma “pegada” ambiental, de condenação à caça e conservação da floresta e de seus animais, e é aí que entra também a referência a Lobão e Lobinho, já que o caçador malvado é na verdade pai do Menino Lobo (e não avô da criança, como em Pedro e o Lobo). Afinal, sabotar a caça aos Três Porquinhos é um dos “esportes” prediletos do Lobinho.

Por fim, temos a “conversão” do caçador malvado em protetor e veterinário dos bichos da floresta. Isso me lembra bastante uma história de Waldyr Igayara publicada (juntamente com A Tristeza da Cuca, já comentada aqui) na Revista Recreio 154 de 1972 chamada “Nina, a Enfermeira da Floresta”.

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Eh, eh, eh, Fumacê

História da Fofura, de Ely Barbosa, escrita em março de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista Fofura número 2 em julho do mesmo ano.

O tema é ambiental, com um grande enfrentamento entre os bons, eternos defensores da floresta e de seus amigos bichinhos, e os maus, que querem instalar uma fábrica de fazer fumaça no meio da mata. Nem é preciso dizer quais seriam as nefastas consequências de uma coisa dessas, não é mesmo?

O conceito de “fábrica de fazer fumaça” é uma tentativa de mostrar as fábricas em geral pelos olhos de uma criança. Afinal, o “produto” mais visível que sai de muitas dessas instalações é mesmo a fumaça, pelas chaminés. A criança geralmente não vê o que é feito dentro desses prédios.

Como em toda boa história do tipo, a tensão entre os grupos adversários é crescente e os maus parecem invencíveis, mas só até o momento em que são vencidos pela astúcia e trabalho em equipe dos bons.

Já a inspiração para o nome da história vem de uma antiga canção dos Golden Boys, de 1970. A letra parece ingênua o suficiente, mas há quem já a tenha relacionado com tipos menos inocentes, e até mesmo ilegais, de fumaça. Em todo caso, o público alvo da revista é jovem demais para conhecer a música e suas possíveis interpretações, restando a eles somente a interpretação mais literal.

Hoje em dia o termo “fumacê” está mais relacionado com o combate ao mosquito Aedes aegypti, se bem que aquilo não é exatamente fumaça, mas um composto químico bastante controverso.

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Gostosuras e Travessuras

História do Nenê, de Ely Barbosa, escrita no início de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista Turma da Fofura número 2 mais tarde no mesmo ano.

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Todo bebê passa pela fase de brincar com a comida, ou de jogar no chão tudo o que consegue pegar nas mãos (incluindo alimentos) só para ver onde e como cai. Como tudo o mais que pode acontecer durante o desenvolvimento de uma criança, isso também vai passar, mas algumas mães (e pais também) têm dificuldade de lidar, o que pode levar a situações francamente cômicas (ainda que, na hora, pareçam trágicas).

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A história tem influências mais óbvias, como a participação especial da turma das frutas e verduras do próprio Ely Barbosa, combinada com referências ao trabalho anterior de papai, como a história “Uma Tarde em Quidocelá”, ao conto de fadas João e Maria, ao Dia das Bruxas, e ao folclore brasileiro, com a presença do Bicho Papão em horripilante pessoa na forma de um dragão.

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Outra influência talvez menos óbvia vem do gato Garfield, de Jim Davis, na frase “não brinque com sua comida, a não ser que você possa comer os seus brinquedos”. Acho que foi mais ou menos nessa época (ou alguns anos antes) que meu irmão e eu lemos isso nas tirinhas do gato gorducho e rimos muito.

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Papai Noel Existe?

História do Nenê, da turma da Fofura de Ely Barbosa, composta em agosto de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista “Turma da Fofura em Quadrinhos” número 7 em dezembro do mesmo ano.

É uma história bem mais simples do que outras sobre o mesmo tema escritas para outros personagens, mas certamente não é menos charmosa. É o Natal visto pelos olhos de uma criança bem pequena, que ainda não sabe direito se Papai Noel existe, ou se quem dá os presentes é mesmo o pai de todos os dias.

Aqui vemos o carinho pelo ursinho de pelúcia, o amiguinho e presente ganho no Natal do ano anterior. Para uma criança de mais ou menos 2 anos de idade como o Nenê, um ano é uma vida inteira. Essa é a importância do brinquedo para ele.

E além de mostrar a casa no “Polo Norte da Terra da Fantasia” e a “logística de entregas” do Papai Noel, completa com computadores, trenó a jato e uma explicação simplificada sobre fusos horários, para tentar ensinar algo de útil aos leitores, a história também terá um pequeno suspense ao redor do desaparecimento do ursinho, de nome Caquinho.

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O problema é que, em um lugar cheio de brinquedos como a casa do Bom Velhinho na véspera do Natal, é fácil fazer confusão. Mas o sumiço do brinquedo querido terá um efeito bastante forte no Nenê, a ponto de deixá-lo em estado de choque e fazê-lo “regredir” e não conseguir mais falar.

Isso é algo que acontece mais vezes do que pode parecer com crianças dessa idade, e até mesmo um pouco mais velhas: um trauma, por menor que seja, como um susto ou a perda de um brinquedo querido, pode ter consequências bem graves, mas geralmente a criança também se recupera com relativa facilidade.

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O milagre de Natal será, é claro, o reencontro com seu brinquedo de estimação e a volta à normalidade falante do Nenê. Afinal, não se deixa um nenem sem seu amiguinho em uma noite como essa.

(A propósito, esta é a última história de Natal “não Disney” que eu tenho aqui. Segundo a lista de trabalho, papai escreceu também histórias de Natal para o Bionicão e o Scubidu mas, se foram publicadas, as revistas não estão na coleção.)

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No Reino Das Peças de Xadrez

História da Turma da Fofura, de Ely Barbosa, composta em setembro de 1987 e publicada pela Editora Abril na Revista da Fofura número 11 ainda no mesmo ano.

Aqui voltamos mais uma vez ao tema do jogo de Xadrez, o esporte predileto de papai. Como a proposta dos personagens é para crianças bem menores do que os leitores da Disney, a abordagem será também bem mais simplista. Não por acaso, na primeira página nenhum dos personagens sabe jogar, a ponto de interpretarem a palavra “jogar” como “arremessar”, com resultados doloridos para alguns.

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Como sempre, ele faz questão de tentar ensinar alguns rudimentos, como a menção à “oitava casa preta à esquerda”. Essa é a maneira correta, de acordo com as regras, de colocar o tabuleiro sobre a mesa para se iniciar uma partida: a última casa preta da primeira fileira do tabuleiro fica à esquerda do jogador e, consequentemente, a primeira casa branca fica à direita dele.

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E, claro, para deixar as coisas interessantes e evitar passar a impressão de “aula”, papai inventa um desaparecimento dos peões e cavalos brancos com um pequeno mistério para o coelho Escovão resolver. O exercício de imaginação gira em torno da livre associação de ideias com a palavra “peões”. Afinal, no Brasil “peões” são também – e principalmente – os “de boiadeiro”.

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Somente após a resolução do mistério e a volta das peças brancas poderá o jogo de Xadrez começar, para que o Nenê possa finalmente realizar seu desejo de aprender alguma coisa sobre como realmente se joga.

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Histórias do Arco da Velha

História da Turma da Fofura, de Ely Barbosa, composta em setembro de 1987 e publicada pela Editora Abril na Revista da Fofura número 11 ainda no mesmo ano.

Hoje completamos sete anos sem Ivan Saidenberg. Peço a quem estiver lendo estas linhas que dedique alguns momentos de contrição em sua memória, obrigada

A trama é inspirada no filme “O Mágico de Oz”, com personagens como o Homem de Lata e o Espantalho, o Leão Medroso e o Mago, por exemplo. A ação se passa “além do arco-íris”, e para o papel de vilão é escalado o Mago Carranca, personagem da turminha.

Há até mesmo uma pitadinha de “Little Nemo in Slumberland” na primeira página, com a queda do Nenê da cama, acordando de um sonho. Papai não gostava de terminar histórias desta maneira, mas não via nada de errado em começá-las assim. Especialmente se o sonho em seguida se “derramasse” para a realidade, misturando-se com ela.

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Outro detalhe interessante está na última página, que é uma volta ao início da história. Este era o modo predileto dele de terminar histórias, mas aqui temos uma variação inusitada: o último quadrinho, cópia fiel do primeiro, é deixado sem cores e com um convite para que os leitores buscassem seus lápis de cor e soltassem a imaginação.

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