O Pequeno Grande Ladrão

História do Morcego Vermelho, de 1975.

Esta é mais uma daquelas histórias onde nada é o que parece ser. O objetivo de papai aqui é confundir o leitor ao máximo para depois arrancar dele belas gargalhadas.

A inspiração para o nome da história vem de alusões que se costuma fazer a crianças ou a pessoas que são baixinhas: “fulana pode ser pequena, mas (já) é uma grande pessoa”.

Já o Pequeno ladrão e o Grande ladrão são inspirados naqueles espelhos de parques de diversão que distorcem a imagem da gente. Se bem que o herói (e o leitor) não vai ter certeza se são dois ou só um até o final da história.

A trama é caracterizada por repetidas reviravoltas, e até de calúnias o Morcego vai ser vítima.

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Mas o ponto alto da história, em minha humilde opinião, é a participação especial da Bruxa Vanda, que aparece somente em dois quadrinhos e não tem mais nenhuma participação na trama, no que talvez seja uma das situações mais insólitas já inventadas nos quadrinhos. Afinal, espera-se tudo de uma bruxa de histórias em quadrinhos. Pelo menos, espera-se que ela esteja por trás da coisa toda, manipulando tudo por magia para algum propósito maligno. Hoje, decididamente, não é o caso.

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Essa cena é inspirada em uma antiga piada de espionagem que papai costumava contar: era uma vez um espião italiano que precisava fazer contato com outro espião por meio de uma senha especial, para manter segredo, porque ninguém podia saber de nada. Então ele foi até o endereço que ele achava que era do contato dele, bateu na porta, e quando a pessoa abriu, declamou: “i campi sono pieni di fiore” (os campos estão cheios de flores).

A princípio o cidadão não entende do que se trata, para desespero do espião, e após uma conversa que pode ser tão breve ou tão longa e atrapalhada quanto a pessoa que está contando a piada quiser, ele entende e diz: “Ah! Você está procurando pelo meu vizinho! (e gritando para a porta do apartamento ao lado) Josepe espione! Visita para você!”

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A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

A Eleição De Miss Bruxa

História das bruxas, de 1974.

A Madame Min não se dá com espelhos mágicos, decididamente, especialmente aqueles do tipo “espelho, espelho meu, quem é mais bela”, etc., etc. O espelho ou cai na gargalhada e é quebrado de raiva, ou já vai se quebrando sozinho logo de uma vez, de susto.

Já a Maga Patalójica, isso todo mundo também sabe, não prima pela simpatia, e muito menos pela generosidade. Assim, quando ela aparece toda simpática no castelo da Min, se dizendo jurada de um concurso e convidando a colega para participar, com regulamento em mãos e tudo, é de se desconfiar que ela não esteja planejando nada de bom.

Miss bruxa

Nesta trama papai brinca com as percepções e com as ideias preconcebidas do leitor: quando se fala em “miss” (senhorita, em Inglês), todo mundo logo pensa em “concurso de beleza”. A própria Min pensa assim, e é com isso que a Maga está contando. Mas se o leitor for realmente atento, verá que em nenhum lugar se diz explicitamente que este é um concurso de beleza. Uma “miss” é mesmo só uma mulher solteira, nada mais. O resto é fruto de nossos anseios, desejos e ilusões.

Já os “familiares” da Min, o gato Mefistófeles e o corvo que, assim como os espelhos mágicos, não conseguem segurar o riso sempre que a bruxa tenta se achar bonita, passam a história toda sendo transformados, a cada vez que ela se enfurece.

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Realmente… quem tem amigos assim, não precisa de inimigos. Mas não fique triste não, Minzinha. Com 18, 800 ou 1000 anos de idade, ninguém precisa realmente de espelhos e concursos, ou de qualquer aprovação externa, para se sentir bem consigo mesma e com a própria aparência.

E essa é uma coisa que acontece muito na vida real, não é mesmo? Até mesmo as mulheres mais poderosas do mundo acabam caindo na armadilha dos “padrões de beleza”, e principalmente os do tipo mais inatingível. É claro que ninguém precisa andar por aí com cara de bruxa, mas também não devemos exigir de nós mesmas uma beleza que não temos.

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Na Terra Dos Espelhos

História do Morcego Vermelho, publicada em 1976.

A inspiração de papai para esta história foi o livro Alice Através do Espelho (e O Que Ela Encontrou Por Lá), de Lewis Carroll, o mesmo autor de Alice no País das Maravilhas. Também chamado de “Alice No País Dos Espelhos”, a história do livro gira em torno de um (infestado de absurdos) jogo de xadrez, que não por acaso era o esporte praticado por papai (e seu predileto), depois que ele deixou as piscinas para trás.

Como na história de Carroll, esta de papai já se inicia de um jeito meio surreal. Perseguindo um ladrão e indo parar na Casa dos Espelhos de um parque de diversões, o nosso herói atravessa um deles e vai parar na Terra dos Espelhos, sempre correndo atrás do vilão. Uma vez lá ele encontra vários dos personagens do livro, como o cavaleiro e o rei brancos, as flores falantes, o Humpty Dumpty (o ovo sobre o muro) e a Morsa e o Carpinteiro.

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Por causa de sua capa vermelha o Morcego é logo confundido pelas peças brancas com um integrante do “exército” adversário do jogo de xadrez. O que acontece é que, pelas regras do esporte, um dos conjuntos de peças precisa ser branco, e o outro tem de ser mais escuro. Geralmente se usa o branco e o preto, mas por tradição, a cor das adversárias das brancas também pode ser o vermelho.

Lewis Carroll usou o branco e o vermelho também em seu outro livro, nas rosas da Rainha de Copas. As rosas são uma clara referência à “Guerra das Rosas“, uma importante guerra civil pelo trono britânico, e o xadrez sendo uma “simulação de guerra”, é provável que seu sentido seja o mesmo também no segundo livro. O Leão e o Unicórnio também são outra referência clara aos símbolos da realeza britânica.

Vistos principalmente como literatura infantil, os livros de Carroll podem ser interpretados também como uma grande crítica à realidade sociopolítica da Inglaterra na época em que foram escritos, uma tentativa de ridicularizar a monarquia, os membros da nobreza britânica e até mesmo os fatos históricos que os levaram ao poder.

Já na história de papai a coisa toda é apenas o pretexto para um “passeio” pelo livro, uma homenagem a um clássico e uma tentativa de incentivar seus leitores à leitura de um pouco mais do que apenas quadrinhos.