“Bruxo-Padrinho”

História da Maga Patalójika, de 1975.

A Maga é uma bruxa malvada, disso não há dúvida. E o Tantã é um bruxinho bonzinho, disso todo mundo sabe. Assim, quando ele aparece no laboratório dessa que é tia dele para fazer um estágio ao final do curso na Faculdade de Ciências Ocultas e Letras Apagadas, o leitor pode ter certeza de que vem chumbo grosso por aí.

A coisa mais fácil de acontecer em um lugar onde se fazem poções, e que é o que acaba acontecendo, é uma grande bagunça, com líquidos esparramados e frascos quebrados. Nesse sentido, um laboratório de magia de uma bruxa de histórias em quadrinhos não é lá muito diferente de uma grande cozinha daquelas antigas, nas quais a presença de crianças não era bem aceita, justamente por causa do risco de acidentes com grandes panelas e fogões a lenha.

É óbvio que um acidente doméstico em um lugar cheio de feitiços prontos para serem lançados vai acabar causando uma transformação maluca, especialmente se, na bagunça, eles se misturarem todos de algum modo imprevisível.

Fácil, também, seria inverter a personalidade do Tantã, de bonzinho para temporariamente mau. Na verdade, isso seria um pouco fácil demais, e um pouco “manjado” demais. É por isso que papai escolheu um caminho diferente e, por isso mesmo, totalmente hilário. Afinal, até mesmo para um bruxo bom, sair por aí transformado em “fado” (uma espécie de fada do sexo masculino) é um pouquinho de humilhação demais.

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História Pra Boi Não Dormir

História do Biquinho, de 1986.

O título se refere a uma velha expressão popular: “história”, ou melhor, “conversa (mole) para boi dormir” é o mesmo que inventar mentiras em sequência para tentar enganar alguém.

Hoje papai associa o conceito com as histórias noturnas contadas às crianças pequenas pelos pais ou tios com a característica do Biquinho de ser difícil de colocar para dormir e com um antigo conto de fadas chamado “Os Três Cabelos de Ouro do Diabo”, dos Irmãos Grimm.

Há toda uma arte e uma ciência por trás dessa coisa toda de se contar histórias para dormir, na verdade. Mais do que o teor da história em si, especialmente para crianças bem pequenas, o que realmente vale é manter um tom de voz calmo e pausado, para que a pessoinha ali na cama se acalme e durma. Daí a associação com a conversa para boi dormir.

Para crianças mais velhas um pouco, a repetição de uma mesma história, noite após noite (ou várias vezes em seguida em uma mesma noite) também tem um efeito calmante por causa justamente da previsibilidade. Saber a história de memória, poder prever o que vai acontecer e até declamar os diálogos, dá à criança uma sensação de segurança. (Mas, até que a história se torne realmente familiar, alguns “acidentes de percurso” podem acontecer.)

Mas é claro que para toda regra existe uma exceção, e hoje ela se chama Biquinho. E papai “empresta” ao patinho toda a criatividade que ele mesmo tinha quando criança, nos tempos em que inventava finais alternativos (e frequentemente muito mais engraçados) para as histórias que ouvia.

Só que, para o Biquinho (e para a diversão do leitor), isso nem sempre é uma coisa boa.

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A Fada-Madrinha

História do Zé Carioca, publicada em 1974.

Em mais uma mistura de personagens de “universos” diferentes, a bruxinha Magali está em viagem de férias ao Rio de Janeiro, onde ela encontra por acaso um Zé Carioca que não acredita em histórias de fadas, e ainda ri delas. É aí que ela tem a ideia de se fazer passar por fada, só para atazanar a vida dos dois preguiçosos descrentes.

ZC fada

Usando as palavras mágicas e também os truques de transformação da fada madrinha da Cinderela, a bruxinha começa a sua brincadeira transformando uma abóbora numa carruagem. Até aí, essa é só a introdução da história.

O caldo começa a engrossar quando os dois amigos primeiro brigam pela “propriedade” da fada, e depois têm ambos a mesma ideia sobre o que pedir, ao mesmo tempo. Mas como no fim eles ganham apenas um de cada, o jeito é fazer as pazes e tentar lucrar o máximo com a situação.

ZC fada pedidos

Até aí, entre a ida ao banco na cidade no carrão para trocar o saco de moedas, nenhuma maior que 50 centavos, e arranjar um comprador para o iate e o resto das confusões, o leitor já até esqueceu que tipo de magia a bruxinha está usando para criar tudo aquilo. O efeito cômico é criado quando o efeito dos feitiços passa, e os objetos de luxo voltam ao seu estado original, incluindo as moedas, que não passavam de sementes de abóbora.

ZC abobora

Já a Magali certamente se divertiu à beça com a palhaçada, mas não vai ficar impune por ter enganado os nossos heróis. No fim, bem o fim, o feitiço vira contra a feiticeira, mas o Zé e o Nestor nem se dão conta disso. Isso é algo que só o leitor vê.