No Território Dos Pés-Chatos

História do Pena Kid, de 1975.

Esta história, na verdade, é menos sobre o que acontece entre o Vingador do Oeste e os índios Pés Chatos (ênfase em “chatos”) do que sobre o “processo criativo” do Peninha na redação de A Patada e como os palpites do Tio Patinhas influenciam na coisa toda.

É também uma crítica aos clichês dos filmes de faroeste “macarrônicos“, produções italianas e espanholas de baixo custo e muitas improvisações que tomaram as telas dos cinemas nos anos 1960, na onda dos grandes Westerns Norte Americanos dos anos 1950.

Assim, além dos panos de fundo mal disfarçados e cidades construídas somente de fachadas, outros elementos que não podiam faltar eram o conflito com os índios, as cenas de luta corpo a corpo das quais o herói sempre começava perdendo mas no final saía vencedor (mesmo que para isso fosse preciso dar uma forçada no roteiro), a presença e o salvamento de uma mocinha em apuros (idem), a ocasional cena melodramática (ibidem) e outras coisas do gênero.

E tudo isso, é claro, era feito na intenção de manter feliz ao público que assistia esses filmes. Os produtores temiam que, se os espectadores saíssem descontentes dos cinemas, eles fossem acabar perdendo dinheiro. Era algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje em dia com as novelas de televisão, que vão avançando às vezes de maneira meio errática, mas sempre de acordo com os gostos dos telespectadores.

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O Vale Dos Desaparecidos

História do Pena Kid, de 1975.

As histórias do Pena Kid buscam divertir não apenas pelo humor da comédia do absurdo, mas também pela sátira dos clichês dos filmes de faroeste. Me parece, inclusive, que os quadrinhos e o cinema, que surgiram mais ou menos na mesma época, eram uma inspiração um para o outro, “emprestando” clichês de lado a lado.

O título da história vem de um seriado com temática de faroeste dos EUA dos anos 1940. Ele é tão antigo, na verdade, que naquele tempo era exibido nos cinemas.

Um exemplo de clichê dos filmes e quadrinhos clássicos que tem sido usado até hoje, com poucas variações, é o do medalhão. Em tempos muito anteriores aos exames de DNA, uma joia de família ou outro objeto pessoal passado de uma geração a outra poderia ser uma das poucas evidências que se poderia usar para tentar identificar um suposto parente, com todas as desvantagens que isso acarretava. O problema é que isso foi tão explorado nos melodramas como solução rápida e fácil, que rapidamente ficou cansativo.

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Quanto à interpretação por papai do nome do vale em questão a situação começa bem prosaica, como apenas mais uma desculpa do Peninha para cochilar durante o expediente, e vai ficando cada vez mais elaborada à medida que a insatisfação do Tio Patinhas com a condução do roteiro vai aumentando. Mas isso não quer dizer que as sucessivas soluções encontradas pelo Peninha para os desaparecimentos não vão ser menos clichê (e absurdas) do que o resto.

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As sucessivas reviravoltas ilógicas introduzidas por papai vão deixando a história cada vez mais caótica. A mensagem que ele tenta passar é a de que se, por um lado, um pouco de confusão é algo bom, uma situação absurda demais pode transformar até o mais sério dos filmes de faroeste em uma comédia. Um delicado equilíbrio é necessário para fazer a história “funcionar”, mesmo em situações declaradamente satíricas. Já o uso do “Peninha Quadrinista” dava a ele uma liberdade de brincar com os elementos das histórias em quadrinhos que ele não tinha com outros personagens mais tradicionais.

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O Roubo Da Diligência

História do Pena Kid, de 1975.

A proposta é fazer uma grande sátira dos antigos filmes de faroeste, apontando de maneira bem humorada todos os clichês do gênero.

São aquelas cenas que “não podem faltar” em um filme de bangue-bangue, por mais batidas que sejam, desde a cena da emboscada dos bandidos, na primeira página, passando pelos mal disfarçados panos de fundo que imitam paisagens do “oeste selvagem”, o mocinho amarrado em uma estaca pelos índios que dançam à sua volta e até os truques baratos de câmera e de edição que foram os precursores dos atuais efeitos especiais.

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Como sempre o Peninha escreve e desenha e o Tio Patinhas dá palpites, que o quadrinista de A Patada vai tentando adaptar à história para satisfazer o tio e chefe, desde que isso não o obrigue a redesenhar a história toda, para poupar trabalho (primeira lição ao quadrinista iniciante: nunca tenha medo de rasgar tudo e começar novamente desde que, é claro, o resultado inicial esteja realmente ruim. Pois é, criar dá trabalho).

Isso, aliás, se relaciona com a história que comentei ontem, do Zé Carioca, que foi originalmente publicada na mesma revista que esta: tem a ver com a presença dos personagens principais na trama desde o início, para evitar que personagens “caiam de paraquedas” no meio da ação e confundam o leitor (e esta é a segunda lição de hoje ao quadrinista iniciante, além, é claro, de fugir dos clichês como o Diabo foge da Cruz 😉 ).

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Se a Min estava na história desde o primeiro quadrinho, mesmo que na forma de um siri ou caranguejo (mas ainda reconhecível para o leitor atento), onde é que está o Pena Kid na diligência do Banqueiro Patatinhas no primeiro quadrinho? E será que o leitor, atento ou não, terá alguma chance de identificar o personagem desde o início? E essa solução é mesmo válida, ou só vale para uma sátira?

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O Cavalo-de-Ferro

História do Pena Kid, de 1976.

A estrela de hoje é o trem, e tudo gira em torno dele. A estrada de ferro está chegando a Pacífica City, no legendário faroeste, trazendo consigo o progresso e o desenvolvimento. Até mesmo o assalto cometido pelos Metraltons tem menos importância na história do que o trem, e o ataque dos índios também não passa de “cena de filme”.

E por falar em filmes, é neles que papai foi buscar a inspiração: “The Iron Horse” (O Cavalo de Ferro) é um filme mudo dos EUA que foi lançado em 1924, dirigido por John Ford e produzido pela Fox Film. Ele conta a história, iniciada em 1825, dos fatos, intrigas, disputas políticas e conflitos (incluindo a clássica cena do ataque dos índios) que levaram à abertura da primeira linha férrea nos EUA. Ele pode, aliás, ser assistido aqui, com as vinhetas (meio mal) legendadas em Português, mas está valendo.

Em 1966 uma série para TV, também ambientada no velho oeste e chamada de Iron Horse/Cavalo de Ferro, foi lançada com 47 episódios divididos em duas temporadas. A abertura dessa série pode ser vista aqui.

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O resto são os geniais meta-quadrinhos de sempre, primeiro com uma pequena demonstração de como se fazia o rafe, e depois com os costumeiros palpites do Tio Patinhas e as soluções mirabolantes do Peninha.

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Zorro Contra Dom Del Oro

História do Zorro, de 1974.

O tema de hoje é uma crítica sutil ao racismo do qual eram vítimas os nativos norte americanos por parte dos conquistadores brancos europeus. Antes o único povo a habitar essas terras, eles acabaram tratados como verdadeiros intrusos em seu próprio território, que ia encolhendo ano a ano como resultado da colonização branca.

Até mesmo guerras aconteceram por causa disso (um povo guerreiro como os “peles vermelhas” não seria conquistado sem luta), e nos filmes de faroeste até a década de 1950 eles eram sempre os vilões, que atacavam cruelmente os acampamentos e vilarejos dos brancos, sempre retratados cheios de inocentes mulheres e crianças.

Antes das histórias do Zorro ganharem popularidade na TV, nos anos 1960, era a história de Davy Crockett, herói nacional, matador e pacificador de índios e “Rei das Fronteiras” (título de um filme – baseado em uma série de TV – de 1955) que tinha maior visibilidade, e com ela, o racismo contra os índios.

Considerados “ladrões, vagabundos e imprestáveis” pelos brancos, e muitas vezes confinados às suas reservas, desempregados, segregados e abandonados a vícios adquiridos dos próprios conquistadores, como o alcoolismo, eles rapidamente se tornaram uma população vulnerável, em situação de risco, e presa fácil de todo tipo de golpe e exploração. Afinal, a quem eles poderiam recorrer, se fossem chantageados ou extorquidos? (Qualquer semelhança, aliás, com a situação dos indígenas brasileiros, desde aqueles tempos do Regime Militar e até os dias de hoje, não terá sido mera coincidência).

São presas fáceis, em suma, para qualquer bandido covarde que apareça. É neste ponto que entra o personagem “Dom Del Oro” (em espanhol “senhor do ouro”, em tradução livre), um pretenso ser sobrenatural que faz aos índios exigências que ele sabe que eles não poderão cumprir, sob pena de terríveis consequências, supondo que eles não poderão se defender, não terão a quem recorrer.

Ou será que terão? Ao ver a injustiça acontecendo bem debaixo de sua janela, Dom Diego, o Zorro, eterno defensor dos fracos e oprimidos, logo se lança escadaria abaixo em defesa de seus amigos.

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A inspiração vem de mais um seriado cinematográfico, “Zorro’s Fighting Legion”, (ou “A Legião do Zorro” no Brasil), uma produção da Republic Pictures de 1939, na qual Dom Diego luta contra Dom Del Oro no México (se passa quatro anos após a história original, quando a Califórnia estava nas mãos do México). Nesse seriado o Zorro tem, curiosamente, um cavalo branco.

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Forte Apache

História do Pena Kid, de 1975.

A história, hilária e recheada de piadas do começo ao fim, é uma coleção de respostas irreverentes para aquelas perguntas que as crianças fazem a seus pais como, por exemplo, por quê os fortes do Exército dos EUA no tempo da Conquista do Oeste ficaram conhecidos como “Forte Apache“, se não havia índios da etnia Apache dentro deles? Ou será que havia?

Outra dessas perguntas diz respeito a expressões populares, como “na calada da noite”. Quem já passou uma noite de verão em uma área rural, ou de modo geral mais afastada de uma cidade, sabe do que eu estou falando. São grilos, aves noturnas, gatos, cachorros… Nos desertos são os lobos, coiotes, cascavéis, corujas… de “calada” a noite não tem nada!

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A segunda sacada diz respeito ao processo de criação das histórias em quadrinhos, já que geralmente é fácil colocar o herói em apuros. O difícil é achar uma saída convincente da situação complicada. É aí que entra, muitas vezes, a parceria entre argumentista e desenhista (desde que os dois estejam, é claro, na mesma sintonia):

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Alguns clichês dos filmes de Faroeste também são usados para adicionar à graça da coisa toda, incluindo uma participação especial de Jerônimo, o mais famoso dos guerreiros Apaches.

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No final uma solução é realmente encontrada, afinal, já estava na cabeça de papai (ao contrário do que ele faz parecer na história) desde antes de ele começar a rascunhar, e ela é tão engenhosa quanto simples e inteligente. Mas se eu contar, perde a graça.

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Sempre Cabe Mais Um…

História do Pena Kid, de 1976.

Quando não estava parodiando velhos filmes de faroeste, ou explorando algum aspecto ou clichê do tema, papai usava as atividades do Peninha na redação de A Patada como uma metáfora e uma aula sobre como (não) se faz quadrinhos, a cada vez examinando um aspecto da produção das histórias.

Já vimos, por exemplo, como um desenho/rafe pode ser facilmente alterado para se modificar a ambientação de uma história, em “A Legião dos Renegados”, ou mais recentemente uma reflexão sobre a importância do nome de uma história, em “Uma Missão Espinhosa”. O título desta aqui, aliás, é inspirado em uma antiga campanha publicitária da marca Rexona.

Aqui vamos ver qual é a importância do número de personagens em uma trama. Se um personagem só “não faz história” (assim como “uma andorinha só não faz verão”), um roteiro com personagens demais também pode se tornar impraticável. Mas nesta história em especial, o que temos é o Peninha tentando tirar uma soneca na hora do trabalho, e como sempre “trollando” o Tio Patinhas quando seus planos são frustrados pelo velho muquirana, que exige que uma história seja feita, e já!

PK Mais um

E pior, com muitos personagens, e consequentemente muita ação, porque é isso que (na opinião do editor) vende uma história em quadrinhos de faroeste, e jornais, principalmente.

PK Mais um1

O Peninha, então, para se vingar, resolve atender o pedido do tio ao pé da letra, juntando em um só quadrinho todos os personagens dos quais se lembra, e de quebra algumas caricaturas dos artistas da redação da Editora Abril da época, em primeiro plano:

PK Mais um2

Só que a história de faroeste, em si, acaba não “acontecendo”. Tudo o que o leitor vê é a discussão entre o Tio Patinhas e o Peninha, e as soluções arrevesadas que o “autor da história” encontra para cumprir as ordens do outro, de má vontade e de modo a “fazer sem fazer”, para se desincumbir o mais rápido possível e poder ir tirar a sua sonequinha. E esta é, na verdade, a história.

E no final das contas é muito interessante que o Peninha seja um “quadrinista” assim tão relutante. Afinal, sem ter muita vontade de colocar uma história no papel, e sem muito amor pela arte, quadrinista nenhum faz muita coisa. Na prática, o Peninha quadrinista é o exato oposto de papai, que acordava cedinho todo dia, todo animado para trabalhar com aquilo de que mais gostava, e dava o melhor de si em cada história que escrevia.

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Mais detalhes sobre o processo criativo dele estão em minha biografia de papai. Ela está à espera de vocês nas melhores livrarias:

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