A Descoberta do Brasil

História do Terremoto, da turma da Patrícia de Ely Barbosa, composta em março de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista Patrícia em Quadrinhos número 8 em janeiro de 1988.

Mais uma vez papai usa os personagens da turminha para tentar ensinar um pouco de História do Brasil ou, pelo menos, despertar a curiosidade da criançada para que prestem atenção na aula, quando a professora mencionar o assunto.

O Terremoto de papai tem um pouco de Patinho Biquinho da Disney com algo da personalidade do meu irmão quando era pequeno, mas elevado ao cubo, é claro. Ele era arteiro, mas nem tanto. Em todo caso, isso certamente faz parte da percepção que os adultos têm das crianças, e da tendência que temos de interpretar a exuberância delas como “traquinagem”. A frase abaixo é algo que o meu irmão disse um dia ao ser confrontado por causa de alguma “arte”.

O resto da história é uma brincadeira com a tendência que algumas crianças têm de levar o que os adultos dizem ao pé da letra e com a percepção que a televisão passa sobre como são os índios, sempre ao estilo norte-americano. Assim, quando a professora diz que “Cabral partiu de Lisboa à frente de 13 naus”, é isto que o Terremoto imagina:

É esse jogo de percepções de lado a lado e a representação das falhas de comunicação entre adultos e crianças que tornam a história engraçada. Enquanto as crianças têm seu próprio modo de pensar e ver o mundo e ainda não aprenderam que ele não é o único possível, é preciso que os adultos procurem ter a sensibilidade de entender as crianças e dar a elas o carinho e o apoio dos quais elas necessitam para ter um desenvolvimento saudável.

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O Grito do Ipiranga

História da coelhinha Fofura, de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril na revista da personagem número 5 em outubro de 1987.

Papai deixou anotado na lista de trabalho que a ideia foi de mamãe. O tema é a Independência do Brasil, que será abordada de uma maneira muitíssimo livre. A ideia é brincar com o assunto de modo a despertar o interesse no jovem leitor, tornando-o mais receptivo quando esse capítulo específico da História do Brasil for abordado por sua professora na escola.

É por isso que a história de hoje se inicia com a Fofura brincando de professora e tentando dar uma aula sobre o assunto. O problema é que só o Escovão quer ter a aula. O Nenê quer brincar de teatrinho, e o escovinha quer mais é jogar bola, enquanto o cão Lambão só pensa em dormir.

Em todo caso, o Escovão vai ter a ideia de combinar a aula com o teatrinho, pelo menos. Assim, a Fofura vai ser a Princesa Leopoldina, o Escovão fará o papel de José Bonifácio, o Nenê será o Príncipe Dom Pedro e o Escovinha, pela teimosia e ideia fixa em jogar bola, será o mensageiro da corte de Lisboa.

Só o jogo de futebol vai ficar de fora dos planos, com consequências desastrosas para o bom andamento da brincadeira, mas com resultados hilários para o leitor no final da história.

Esse tipo de história sobre brincadeiras de crianças que papai escrevia é, aliás, uma visão bastante realista sobre a realidade da criançada: as ideias são geralmente muito boas, mas falta liderança e disciplina para que se possa fazer algo que realmente valha a pena. O que geralmente acontece é que a desordem impera e acaba levando a brigas e a um final inconclusivo da brincadeira, para a frustração de quem está participando e a diversão de quem observa de fora.

Qualquer semelhança disso com o estado atual das coisas neste momento na História de nosso país pode não ser uma total coincidência, no final das contas…

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História dos Uniformes do Exército

História dos projetos especiais publicada no Almanaque Disney número 38, de 1974.

Com pesquisa e texto de Ivan Saidenberg e desenhos de Ignácio Justo, esta história infelizmente não está listada no Inducks. Eu sei que hoje é Dia do Exército, e coisa e tal, (é também Dia do Índio e dia de Santo Expedito) mas eu juro que não planejei comentar isto hoje. Simplesmente calhou de ser assim.

A ditadura militar estava completando 10 anos, e os nossos governantes ilegítimos, depois de muito torturar e matar gente inocente cujo único “crime” era não concordar com a existência de um regime político não democrático no Brasil, resolveram fazer uma campanha de “relações públicas”. Assim nasceu a série de histórias sobre as Forças Armadas e a História do Brasil do ponto de vista dos militares.

A parte de papai nesta história toda é simplesmente a de ser o melhor argumentista da Editora Abril na época, e por isso ter sido escolhido para escrever o roteiro para esses trambolhos encomendados. Dada a complexidade da tarefa, realmente, somente um gênio como ele poderia fazer essas histórias “funcionarem” como quadrinhos. Foi uma tarefa difícil, e nem tanto pelos quadrinhos em si, mas simplesmente porque papai não tinha simpatia nenhuma pelos militares, muito perlo contrário. Mas, naqueles tempos, dizer “não” a eles era algo muito perigoso de se fazer.

Assim, não sobrava muita alternativa a não ser fazer o trabalho da maneira mais profissional possível. Afinal, a História do Brasil pertence ao povo brasileiro. As Forças Armadas também pertencem ao povo brasileiro e existem para servi-lo, e papai sabia que os militares não conseguiriam subverter a ordem natural das coisas por muito tempo. A própria História não permitiria. Além do mais, alguns anos mais tarde ele teria a oportunidade de se expressar mais livremente e baixar o malho nos militares e em seu desgoverno pelos jornais com um pouco mais de segurança.

Nesta história papai consegue atenuar um pouco a monotonia do desfile de bonequinhos uniformizados (acompanhados das longas explicações, mapas e diagramas de costume) dando à trama a característica de uma exibição de slides. Isso era uma atividade comum nas casas de famílias de classe média daquele tempo, e familiares e amigos eram rotineiramente convidados (e às vezes praticamente intimados) para sessões mais ou menos longas, constrangedoras e monótonas de projeção de slides da mais recente viagem de férias de alguém, por exemplo. De qualquer maneira, isso era algo com que qualquer criança podia se identificar.

Uniformes

Pelo menos parte da pesquisa para este trabalho foi feita com base em um antigo álbum de figurinhas, o “Álbum de Figurinhas com Soldados e Uniformes”, publicado em 1962 pela Editora Brasil-América e do qual temos uma cópia em nossa biblioteca até hoje.

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

Caramuru, Uh!

História do Terremoto, composta em abril de 1988 e publicada pela Editora Abril na revista Patrícia 24, de setembro de 1988.

Trata-se de mais uma tentativa de papai de ensinar História do Brasil brincando com seus leitores. A ação toda ocorre dentro da sala de aula, enquanto a professora tenta contar a história aos alunos, e dentro da cabeça do Terremoto, que começa a se imaginar “no papel” de Caramuru, um náufrago português que passou parte de sua vida entre os Índios Tupinambás.

Terremoto Caramuru

De imaginação em imaginação, o menino traquinas vai se “enrolando” na trama que ele mesmo inventa com base no que a professora está dizendo, até que mistura a realidade e a imaginação de tal jeito que acaba se encrencando de verdade, não com a professora, mas com a coleguinha Priscila. Esse conflito, então, é usado como desfecho da história.

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A Epopéia Do Jahú

História do Zé Carioca, de 1976.

Exatamente hoje se completam 89 anos do início da travessia do Atlântico pelo hidroavião Jahú, que é um dos maiores e mais emocionantes episódios da aviação brasileira. Mais do que ser apenas mais uma encomenda do Ministério da Aeronáutica no âmbito dos projetos especiais que chegaram a ser bastante comuns naquela época, esta história tinha um significado muito especial para papai.

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Ele acreditava ser parente distante do aviador João Ribeiro de Barros, neto de uma figura histórica da cidade de Jaú, no estado de São Paulo, o capitão José Ribeiro de Camargo Barros. Acontece que minha avó, mãe de papai, pertencia à família Camargo Simões, que era originária de Brotas, outra cidade do Ciclo Cafeeiro de São Paulo que, aliás, não fica muito longe de Jaú. Naqueles tempos do início do Século XX as cidades eram bem menores e todo mundo conhecia todo mundo, e me parece plausível que os Camargo de Jaú e de Brotas fossem mesmo aparentados.

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Este episódio em especial da História do Brasil o enchia de orgulho, e mais ou menos nesta época, enquanto ele estava pesquisando para escrever esta história, papai levou ao meu irmão e a mim para visitar o Museu da Aeronáutica que ficava no Parque do Ibirapuera. Entre outras aeronaves históricas, como uma réplica do 14-Bis, ele fez questão de nos levar até o Jahú e nos contar a sua história, sem esquecer de comentar que seu piloto era parente nosso.

A primeira página, aliás, é bastante autobiográfica de nossa visita ao museu. Eu me lembro vagamente da exclamação de que o museu parecia “um disco voador”, proferida por nós crianças. Papai aproveitou bastante a experiência que nós tivemos da visita para compor os personagens do Zico e Zeca.

De resto, o roteiro segue o mesmo estilo do resto das histórias desta série, bem didático, com um excesso de textos e informações, e completo com os retratos dos aviadores, gráficos, mapas e aeronaves fielmente desenhados por Ignácio Justo.

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O Tesouro Da Vila Xurupita

História do Zé Carioca, de 1978.

Como diz o velho ditado “nem tudo o que reluz é ouro, nem tudo o que balança cai”. É óbvio que não se pode fazer grandes mudanças permanentes nas características dos personagens (como casamentos, enriquecimento de quem é pobre, empobrecimento de quem é rico, etc.) salvo ordem em contrário, como a que transformou a Vila Xurupita de favela em vila de casinhas, então nem é preciso dizer que o tal mapa do tesouro é falso, e tudo não passa de um golpe de um especulador imobiliário ganancioso.

O interessante, na verdade, é ver como a turma do Zé lidará com a situação toda. Para começar, papai “inflaciona” a turma do morro com vários (muitos) personagens figurantes anônimos, cuja única função é estar ali para escavar o morro todo. O único deles que tem nome é o Severino, um bicudo muito xereta. Com sua curiosidade, ele vai começar por aumentar a confusão, mas no final será também parte da solução que vai evitar que os moradores do morro percam suas casas.

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A história serve também como um alerta para quem a lê, descrevendo um tipo de “conto do vigário“, para que o leitor fique esperto e saiba identificar esse tipo de coisa, se alguém no futuro tentar passá-lo para trás. Além disso, é uma pequena aula de História de verdade, já que papai menciona, não por acaso, o corsário francês Jean François Duclerc e as invasões francesas na costa do Brasil no século XVIII. A intenção era que o leitor fosse pesquisar por conta própria, ou pelo menos identificasse o nome, se ouvisse falar dele novamente na escola, ou coisa parecida.

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Mais interessante ainda é que a Vila Xurupita de papai parece se estender desde o alto da pedra mais alta do mais alto morro do Rio de Janeiro, até a beiradinha da água da Baía da Guanabara, completa com cais para barcos e praia. É uma área bem grandinha.

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Esquadrilha Da Fumaça

História encomendada pelo Ministério da Aeronáutica em 1975, com a “participação especial” do Zé Carioca e dos sobrinhos Zico e Zeca. O roteiro e a pesquisa são de papai, e os desenhos de Ignácio Justo e Carlos Herrero.

Tenho a impressão que, com esta, já terei comentado todas as histórias desta série aqui neste blog. Nem há muito mais a dizer. O esquema é o mesmo, com o Zé e os meninos no papel de “legítimos representantes do povo brasileiro” (o que eles sempre foram, aliás, mais até do que os próprios governantes do país na época), sendo convidados a visitar a base aérea que abriga a Esquadrilha da Fumaça, onde aprendem e transmitem ao leitor tudo o que havia para se saber, naquele tempo, sobre a equipe de acrobacias da aeronáutica.

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Temos, assim, as mesmas toneladas de informações, mapas, diagramas e infográficos de sempre, numa narrativa orquestrada de perto pelos clientes do departamento de projetos especiais da Editora Abril.

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A ingênua intenção dos militares, com ela, é a mesma das outras: ensinar um pouco sobre as instituições militares que na época governavam o Brasil, ao mesmo tempo tentando fazer um gesto simpático, melhorar sua imagem de ditadores, se aproximar mais da população, e fornecer a preço baixo um material que pudesse ser usado até mesmo pelos mais pobres como fonte de informações num trabalho escolar, por exemplo.

Mas é claro que ações cosméticas como esta nunca poderiam realmente ser uma “compensação” pela tomada violenta do poder, as prisões arbitrárias e os 21 anos de desmandos. Nada do que os militares no governo fizeram melhorou o país em absoluto (muito pelo contrário) nem afastou a possibilidade da tal “ditadura comunista”, que era a justificativa que eles nos deram para o golpe. E pior: todos esses anos depois, a direita continua nos perseguindo com esse fantasma, como se ele fosse possível numa democracia, mesmo com o governo “de esquerda” que aí está.

Se eles quisessem realmente dar um golpe semelhante, em 12 anos de governo já teriam tido tempo suficiente. A “ideologia” aqui no Brasil é outra: para quê “revolução”, se os políticos de todos os partidos e funcionários públicos em geral podem se locupletar do dinheiro público à vontade? Um improvável novo governo autoritário poderia “fechar as torneiras da mamata” e nenhum deles quer isso.

Mesmo com todos os problemas, com toda a discussão, com tudo o que pode nem sempre ir na direção que desejamos, papai preferia mil vezes viver numa democracia, onde o povo pode pelo menos escolher livremente os próprios governantes, promovendo o progresso do país mesmo que com alguns tropeços, por tentativa e erro (e eu concordo com ele).