A Quadrilha Da Ameaça

História do Zé carioca, de 1981.

Este é um bom exemplo de como criar uma história que, no final, volta ao início, como papai gostava de fazer. É também uma clássica história de “terrir”, um gênero do qual ele era muito adepto, e que misturava terror com humor (de preferência negro).

A coisa toda começa com um filme de terror na TV na casa do Pedrão. Sugestionáveis, os amigos ficam com muito medo e resolvem ficar todos para dormir por ali mesmo.

Mas a principal preocupação, que será mencionada frequentemente durante toda a história, é a banda musical que eles criaram para tocar em uma festa mais tarde. Este é o elemento que “costura” a trama, o “fio condutor” que permitirá um desfecho perfeitamente encaixado para a história.

O resto da história mostra como uma brincadeira quase inocente do Zé para acordar os amigos dorminhocos e finalmente conseguir ensaiar a banda sai totalmente do controle, criando uma completa histeria coletiva pelo bairro e quase virando caso de polícia no processo.

Mas, de qualquer maneira, apesar de resolver ficar quieto para não apanhar, o Zé não escapará ao castigo pelo susto que deu nos amigos. É justamente para esse propósito, aliás, que papai devolve a história ao início.

Mas nesse meio tempo o leitor já riu da confusão até ficar com a barriga doendo, e isso é o que realmente importa.

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A Garrafa!

Surpresa! Pesquisando os guardados de papai descobri um envelope enviado a ele pelo meu tio Luiz com as páginas xerocadas de mais uma história de terror de autoria conjunta dos dois irmãos.

Com o título de trabalho “A Garrafa do Diabo” e apenas quatro páginas, ela foi escrita em 1961 para publicação pela Editora Outubro na revista Histórias Macabras. O desenho a lápis é de meu tio, e a arte final do Júlio Shimamoto.

Esta é mais uma daquelas da série “não mexa com o que você não conhece”, e o tema é “centro espírita”. Um cético total é convidado para uma sessão, mas (seja por arrogância, materialismo ou preconceito) não acredita em nada do que está vendo. Quando lhe colocam nas mãos uma garrafa de cachaça “carregada” de maus espíritos com instruções expressas para que ele a jogue em água corrente, o cético resolve beber seu conteúdo, com consequências desastrosas.

Hoje temos uma “piada interna” com a figura de Waldyr Igayara de Souza (12 de maio de 1934 a 7 de junho de 2002) desenhista e editor de quadrinhos que foi colega e chefe de papai em diversos momentos de suas carreiras. Mas eu tenho certeza de que ele não era assim tão cético. É mesmo só uma brincadeira entre amigos, o fato de ele ter sido colocado como o desafortunado protagonista de uma história de terror.

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A Ameaça Dos Monstros

História do Morcego Vermelho, de 1975.

É noite de lua cheia! (Talvez seja até uma sexta 13) Monstros e mais monstros estão brotando do solo! (E desaparecendo misteriosamente logo em seguida) Nada é o que parece ser e vemos personagens mascarados, polícia ineficiente, uma empresa de fachada, um plano maléfico, um chefe misterioso, e um herói completamente confuso.

Poderia ser uma descrição da atual conjuntura política no Brasil (ou mesmo da que víamos 40 anos atrás, não há muita diferença, mesmo), mas é só uma história em quadrinhos.

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Papai estava inspirado quando compôs esta história, e a zoação reina solta: a principal vítima da gozação é mesmo o Morcego, mas o leitor também vai acabar meio zonzo, especialmente se começar a tentar descobrir o que está acontecendo.

Será que é coisa do Bruxinho Peralta e sua maleta de monstrinhos? Mas se é coisa das bruxas, para quê os vilões precisam usar máscaras para se disfarçar? Vai ser somente na quinta página, com o aparecimento dos Irmãos Metralha, que o leitor começará a entender o que está acontecendo.

Mas este plano está bem bolado (e – surpresa! – bem executado) demais para ser coisa só dos Metralhas. Quem é, afinal, o chefe misterioso que está dirigindo o caminhão da suposta empresa de sondagem de terreno (e supervisionando a tudo de muito perto)?

Se o leitor atento conseguir se recuperar do choque inicial, ele poderá finalmente ver uma pista importante sobre a identidade do “chefe”. Afinal, joalherias não são o alvo predileto dos Metralhas.

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A verdade é que este é mais um plano para “sutilmente” convencer o herói a tirar longas férias e assim poder roubar sem grandes impedimentos. Ele é tão bem sucedido que até o Coronel Cintra se convence de que o Morcego está vendo coisas e recomenda que ele vá ao cinema para se distrair. Não que o Morcego/Peninha não esteja realmente precisando de férias, ou pelo menos de pegar um cineminha, mas o tema dos filmes em cartaz realmente não ajuda.

Esta é uma história tão boa, tão engraçada, e com um mistério tão bem bolado, que papai sentiu a necessidade de “assinar” a obra. Assim, em uma época na qual isso não era permitido, pelo menos não oficialmente, ele se saiu com esta: sutil como uma tijolada na orelha.

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O Incorrigível

História de terror, publicada pela Editora Outubro em 1961.

A única indicação que tenho de que esta história é de papai é a anotação na lista de trabalho. Tenho somente as páginas soltas e meio roídas de rato, com o título da revista – Histórias Macabras -impresso no rodapé. Não sei o número da publicação, e tampouco aparece o nome do desenhista.

Os personagens são um pai e seu filho. O velho é um homem honesto, mas o filho é um ladrão incorrigível. O pai tenta várias vezes colocá-lo no caminho do bem, arranjar para ele um emprego, e até jura que corrigirá o rapaz de qualquer maneira, custe o que custar.

Mas o moço não quer saber de trabalho. Em todo caso, já que os assaltos violentos incomodam tanto ao velho e dão tantos problemas, como prisões e julgamentos, o moço resolve virar ladrão de túmulos. Parece ser o crime perfeito. Os mortos, pelo menos, não reagem. Ou será que reagem?

Esta é mais uma daquelas lendas urbanas moralizantes, que tentam manter o leitor no caminho do bem por meio do medo de algo sobrenatural que possa acontecer como “castigo divino”, quando a lei dos homens é falha.

Ela mexe com vários aspectos psicológicos das pessoas, como o respeito devido aos pais, por exemplo. Será que é preciso respeitar pai e mãe somente enquanto eles estão vivos? Muitas pessoas se vêem “livres” para fazer todas as barbaridades que sempre quiseram, mas que nunca tiveram coragem, quando finalmente falta a autoridade do pai.

Outro elemento é a separação da família. Quando a célula familiar se desintegra, quando os filhos perdem o contato com seus pais a ponto de não saberem se eles estão vivos ou mortos, todo tipo de horror pode acontecer. Tem inclusive algo a ver com Édipo: o homem que não sabe de onde vem, a que família pertence, é capaz de tudo, até matar o próprio pai e se casar com sua própria mãe.

Por último, temos o juramento. Promessa é dívida, é algo que reverbera pelo universo, chegando inclusive a ser uma dívida com Deus, ou pior, com o Diabo. As pessoas fazem juramentos por sua própria conta e risco, e por isso é melhor que prometam somente o que conseguirão cumprir, sob pena de virarem almas penadas após a morte.

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Os Olhos do Tigre!

História de terror escrita em 1961 e publicada pela editora Taika em “Histórias Sinistras – Seleções de Terror”.

Tenho aqui apenas as páginas da história recortadas da revista original, e por isso não sei o número da edição. Além disso, também não há sinal dos nomes dos artistas. Em nenhum lugar das páginas consta o nome do autor, desenhista ou letrista, como era costumeiro. Estou portanto me guiando pelas anotações de papai na velha lista de trabalho.

Já o estilo da história é dele, sem dúvida. Esta é mais uma variação sobre o tema “olho da deusa”, Diamante Hope, e lendas urbanas semelhantes. De acordo com essas lendas, certas pedras preciosas trazidas para o ocidente da ásia (e especialmente da Índia) pelos britânicos teriam sido na verdade roubadas da decoração de objetos religiosos variados.

Elas são parábolas para a arrogância dos britânicos frente à religiosidade “primitiva” dos nativos, que a moral cristã (convencida de sua própria suposta superioridade) considera meras superstições. Mas o ato de se arrancar olhos, mesmo que seja de estátuas inanimadas, causava uma profunda má impressão e certamente horror e remorsos até mesmo nos próprios ladrões.

A história se passa na Inglaterra, mas se refere a acontecimentos de um passado recente na Índia. Um homem atormentado por visões procura outro que ele conheceu no navio que tomou para voltar da Índia à Inglaterra, no tempo em que o país asiático era colônia do europeu. No decorrer das páginas da história o primeiro vai desfiando uma história inacreditável de ganância e sacrilégio enquanto o outro o encoraja a “contar tudo e não esconder nada”, adotando uma postura paternalista, como a de um médico ou psiquiatra.

Mas é só quando o supostamente racional “doutor” dá completo crédito à história, no final da penúltima página, que o leitor atento começa a desconfiar que algo está mais errado do que o pobre atormentado ladrão de jóias se dá conta. Mas aí, como sempre, já é tarde demais.

A moral da história, além da advertência contra a arrogância religiosa, é que não se deve ir logo acreditando ou confiando em estranhos. Eles nem sempre são o que dizem ser.

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O Coronel Galdino

História curta de terror, publicada na revista Histórias Macabras 43, da Editora Outubro, aparentemente em 1965. O texto é de Ivan Saidenberg e os desenhos de Luiz Saidenberg.

Trata-se de uma história de traição no casamento com um final especialmente macabro. Em uma época em que “crimes de honra” eram comuns (hoje em dia não se chamam mais assim, mas continuam apavoradoramente comuns), e na qual homens de um certo status social (como esses auto-proclamados “coronéis” de engenho de antigamente) nunca eram punidos por esse tipo de crime contra a mulher, a única esperança de se fazer “justiça” vinha da crença no “além” ou em alguma vingança divina, seja com a promessa de uma punição no inferno pelo pecado cometido, ou de algo mais tétrico.

Naqueles tempos a profunda crença em superstições que as pessoas tinham, como o medo de fantasmas, por exemplo, ajudava a tornar essas lendas moralizantes parcialmente eficazes. Enquanto o medo de uma maldição fosse mais forte do que a vontade de matar, talvez o “machão” se contivesse um pouco.

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Horrores à parte, minha biografia de papai está à espera de vocês nas melhores livrarias:

Marsupial: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Comix: http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=23238

Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/p/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-15071096

Amazon:http://www.amazon.com.br/Ivan-Saidenberg-Homem-que-Rabiscava/dp/8566293193/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1427639177&sr=1-1

Minha Vida Daria Um Livro

História do Peninha, publicada pela primeira vez em 1973.

Ela foi feita primeiramente para promover o Manual do Peninha, que seria lançado pouco depois, e cujo tema é o jornalismo. Mas isso só será mostrado ao leitor nos últimos quadrinhos.

O que acontece durante a trama é uma combinação recorrente das ideias “jornalismo” e “livro”. O Peninha quer escrever um livro, mas não sabe exatamente sobre o quê. A ideia inicial que ele tem é um livro de suspense e terror, chamado “O Barão, o Porão e a Assombração”, mas o editor, no caso o Tio Patinhas, não quer nem ouvir falar disso.

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Mandado cobrir um incêndio no “Edifício Martelinho” (que me lembra bastante o nome Martinelli, edifício onde aliás ficava o estúdio no qual papai, seu irmão Luiz e alguns colegas produziam histórias em quadrinhos de terror nos anos 1960), nosso herói passa a história toda filosofando sobre que tipo de livro daria cada aspecto da vida e profissão dele: a vida de repórter primeiro “daria um romance”, aí “daria uma tragédia”, depois “daria uma comédia”, então “daria um conto de suspense”, e por fim “daria uma novela”. Todos esses aspectos da vida de repórter se fundem, no final, na ideia do Manual, que seria em teoria escrito pelo Peninha com o apoio moral do Donald e publicado pelo Tio Patinhas.

Nesta história também aprendemos que Patópolis tem mais um jornal, além de “A Patada” e “A Patranha”. Chama-se “A Patativa Ilustrada”.

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Aqui vemos também lançada a base para a história que seria publicada no ano seguinte, e que eu já comentei neste blog, na qual o Peninha transforma o livro de terror em história em quadrinhos. O que era para ser um livro pouco interessante, virou uma HQ de vanguarda. Às vezes, o formato é que faz a diferença.