Uma Idéia De Gênio

História dos Irmãos Metralha, de 1982.

Bem, se tem gênio no título, geralmente é porque tem gênio na garrafa, também. Até aí, tudo bem. O problema é que, além do gênio e da ilha deserta vai haver o Metralha 1313, só para adicionar mais uma pitada de caos à confusão.

Como já vimos em outras histórias de papai sobre o tema, conseguir bons resultados ao fazer pedidos a gênios da garrafa não é tão fácil como parece. Na verdade, isso chega a ser uma arte. Mais ainda, é realmente preciso ser mesmo um “gênio”, uma pessoa muito inteligente, para conseguir arrancar algo que preste de um gênio da garrafa.

O Gênio de hoje é até bem generoso: ao ver cinco “candidatos a amo” em volta de sua garrafa na areia, concede um pedido a cada um. Parece bom, mas como evitar fazer pedidos conflitantes naquele estilo dos “dois náufragos, o gênio, três pedidos e a linguiça”? (Só para lembrar: o primeiro está com fome, e pede uma linguiça. O segundo fica com raiva, e manda a linguiça ficar grudada no nariz do primeiro. No final, eles têm de usar o terceiro pedido para tirar a linguiça do nariz do rapaz e acabam ficando a ver navios.) É aí que o Metralha Intelectual vai colocar toda a sua inteligência para funcionar, e chegar ao que parece ser o pedido perfeito. É essa a “ideia de gênio” de que fala o título.

Mas não vamos nos esquecer de que a família que é também uma quadrilha só está onde foi parar porque roubou um iate do banqueiro Patacôncio. Eles são bandidos, são ladrões, são vilões, trapaceiros, desleais até com os próprios parentes e não merecem que nada de bom aconteça com eles, decididamente.

Assim, papai usará o 1313 como o elemento curinga que, com sua ideia de “jênio” (com “J” mesmo, para enfatizar a burrada) colocará tudo a perder e servirá o castigo de bandeja aos primos. É a famosa “ideia de Jerico“.

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A Morte da Medusa

História do Homem Pássaro, escrita em fevereiro de 1977 e publicada pela Editora Abril em novembro do mesmo ano na revista Heróis da TV número 30.

Nosso herói é atraído a uma ilha deserta pela Medusa, sua arqui-inimiga, que tem (para variar) a intenção de matá-lo, desta vez com uma arma de raios absorventes de energia solar.

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A inspiração, aqui, parece vir de um velho ditado popular de inspiração bíblica (Apocalipse 13:10, Mateus 26:52): “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. (Ou como se dizia, brincando, em Campinas naqueles tempos: “quem com ferro fere, conferido será ferrado”).

A Medusa tentará assassinar o Homem Pássaro sem rodeios, sem jogos, sem armadilhas e sem delongas. É a versão espacial de uma execução sumária a mão armada. Sendo assim o herói, por sua vez, terá o privilégio de assistir à destruição da vilã.

É claro que ele, como o bonzinho da história, não poderá simplesmente tomar a arma da mão dela e matá-la. Isso não é algo que heróis fazem. Por isso, papai lança mão de um “personagem” inesperado, mas que já estava na história desde o primeiro quadrinho, para não deixar pontas soltas: o vulcão da ilha (não é à toa que ela está deserta, afinal), que explodirá no momento exato, quando tudo já estiver parecendo perdido.

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Em todo caso, a história termina de um modo levemente diferente da maioria das outras do tipo: como todo bom monstro da ficção, a ela será dada a possibilidade de voltar, quem sabe, um dia. Por isso, ao invés de “fim”, o que temos ao pé do último quadrinho é um enigmático “será?”.

A tradição das histórias em quadrinhos nos diz que o herói, qualquer que seja ele, não pode morrer. Esse seria o fim definitivo de suas aventuras, o que deixaria muitos leitores decepcionados. Mas a verdade é que o vilão supremo também não pode. Há vilões “menores”, que vêm e vão, mas sempre há aquele sem o qual a própria existência do herói não teria sentido.

A Medusa parece ser um desses monstros indispensáveis. Por isso, matar a vilã definitivamente seria uma verdadeira ousadia por parte do autor. Afinal, quem é o leitor que nunca torceu justamente por isso?

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Robinson Peninha

História do Peninha, publicada pela primeira vez em 1974.

O título é uma alusão à história de Robinson Crusoé, e uma indicação do que vai acontecer com o nosso pato predileto. Mas não apenas com ele. O Ronrom, gato do Pato Donald, também vai estar envolvido na confusão.

Uma coisa interessante é que esta história não tem “splash panel“, aquele primeiro quadrinho que geralmente engloba as duas primeiras tiras da primeira página de uma HQ. Muito pelo contrário, são quatro quadrinhos, dois por tira, onde o leitor vê o Peninha saindo de casa de fininho com seu caniço de pesca e bolsa de apetrechos, trocando de veículos pelo menos uma vez e olhando por cima do ombro o tempo todo, como se temesse estar sendo seguido.

De quem, exatamente, ele está fugindo é revelado no quadrinho seguinte, quando “aquele gato” finalmente aparece, de clandestino no para choque do táxi. O Ronrom também não gosta nadinha do Peninha, mas adora peixes, que o Donald nunca serve a ele. Vai daí…

Assim, a primeira página é usada para apresentar tanto o tema da história quanto os personagens, e o “conflito” inicial em toda a sua rica complexidade. É um bocado de informação para 7 quadrinhos, mas mesmo assim a coisa toda parece bastante natural e fluida.

É no final da segunda página que o caldo engrossa: não apenas o Ronrom não foi despistado, como o Peninha se esqueceu de checar a previsão do tempo antes de sair. Quando ele finalmente liga o rádio, já é tarde demais. Outra coisa interessante é aquele “sexto sentido” que o Peninha tem, que é mais ou menos o mesmo que a sensação que o Mickey tem quando o Mancha Negra está por perto.

Robinson Peninha

O resto da história dá conta de como os dois, que certamente não se bicam, vão conseguir se virar juntos em uma ilhota que não é muito maior do que uma mesa de festa até serem finalmente resgatados. A sequência de quadrinhos que começa ao final da sexta página, com a descoberta do segundo par de pegadas na areia, e que continua por toda a sétima, na qual o Peninha passa por algumas das fases do Modelo de Kübler-Ross, desde a negação, passando pela negociação e até a constatação da chocante realidade, é francamente hilária.

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Inimigo é Para Essas Coisas

História do personagem Gordo, de Ely Barbosa, escrita em maio de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista “O Gordo” número 8, de 16/11/1987.

É uma típica aventura de meninos, mais uma vez inspirada nos jogos e brincadeiras de outros tempos, quando as cidades ainda não eram tão grandes nem tão cheias de concreto, e as crianças ainda podiam ter um contato mais próximo com a natureza.

Gordo inimigo

Neste caso, a natureza em questão é um rio, e os meninos das duas turminhas rivais, a Turma do Gordo e a Turma do Jarbas, estão brincando de navegar. Os problemas começam quando o caiaque do Gordo se choca com a jangada pirata do Jarbas. Acabada a brincadeira, os meninos tentam se afastar de seus “inimigos”, sem sucesso. Demora um pouco para que eles (e o leitor também) se deem conta de onde estão.

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É aí que entra o elemento moralizante e educativo da história, que era uma proposta consciente do Ely Barbosa. As história deveriam não apenas divertir, mas ensinar alguma coisa às crianças, como cooperação e amizade, respeito pelas diferenças (anti-bullying), a às vezes até um pouco de ciências, matemática e coisas assim.

A lição, aqui, é um incentivo para que se deixe de lado as rivalidades infantis na hora em que algo realmente sério acontece. É só quando os meninos resolvem parar de birra cooperar que eles finalmente conseguem se salvar da encrenca em que se meteram.

O quadrinho “recheado” de onomatopeias, uma das marcas registradas de papai para as cenas de briga, também está presente aqui com algumas bastante criativas.

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Férias Em Toa-Toa

História do Zé Carioca, de 1983.

Conhecendo o modo de trabalho de papai, acho que posso afirmar com bastante certeza que ela foi escrita em referência aos 100 anos da explosão do vulcão Krakatoa, em 1883 na Indonésia, o maior e mais destrutivo de que se tem notícia na História registrada da humanidade.

Clandestinos em um navio só pela aventura de viajar por aí, Zé e Nestor acabam descobertos e lançados ao mar. Nadando, chegam a uma ilha, que eles pensam ficar nos “mares do sul”. O local tem todas as características de algo parecido com o Havaí, com cabanas de palha e “completa” com um alto vulcão no meio.

A rigor, os vulcões havaianos, a exemplo do Kilauea, são bem mais baixos e com erupção de lava menos viscosa que os europeus, que têm a forma “clássica” de montanha, mas se papai houvesse pedido ao desenhista para fazer um vulcão verdadeiramente havaiano, corria o risco de “desorientar” o leitor, que poderia não entender. Os quadrinhos se alimentam, frequentemente, de clichês, com uma “linguagem visual” onde os desenhos têm o mesmo peso das palavras. Mudar o desenho é quase o mesmo que mudar o “idioma”, por assim dizer.

Enfim. Apesar dos temores do Zé, que realmente não prima pela coragem,  a recepção dos nativos é amigável. Muito amigável, na verdade. Na ilha ninguém trabalha, é feriado todo dia, e os tremores de terra frequentes causados pelo vulcão têm suas vantagens, como derrubar cocos maduros dos coqueiros. Até Hino Nacional a ilha de Toa Toa tem, uma paródia de A Banda, de Chico Buarque.

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Parece o paraíso, e o vulcão realmente não é o maior dos problemas do local. Mas algumas coisas são curiosas, para o leitor atento: como é que todo mundo na ilha fala Português, se estamos nos “mares do sul”? E como o Nestor bem observa, se ninguém ali trabalha, quem fez tudo o que há lá?

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Essa é a grande sacada, e também a explicação do mistério e solução da trama toda.

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Perigo Na Ilha

História do Capitão Valente, de 1981, publicada na Revista Pic-Pic número 18, com desenho de Claudino e arte final de Átila.

A revista-brinquedo trazia também os modelos em papel cartão de um Mirage 103 E e Mustang P-51, para as crianças montarem.

Já a aventura do Capitão é uma adaptação resumida (em 4 páginas) de uma história (de 22 páginas) que papai escreveu (sob o nome de mamãe) para o personagem Falcon, da Editora 3, em 1977. A trama é basicamente a mesma: em busca pelos pilotos de sua esquadrilha, que sumiram ao sobrevoar uma ilha deserta e rochosa, ele mesmo é atraído até lá, com avião e tudo, por uma força misteriosa. Uma vez no chão, o Capitão Valente é feito prisioneiro por seus próprios companheiros, que estão sob o efeito de um “raio do controle mental” desenvolvido por um cientista maluco.

Apesar da diminuição brutal no número de páginas, os principais elementos da primeira história continuam aí: o cientista maluco, o raio que atrai aeronaves, o aparelho que controla a mente, a tentativa de fazer o herói passar, ele também, pelo aparelho, e também a explosão final da ilha inteira, de onde os heróis escapam por um triz.

Aqui vemos, além da já conhecida e reconhecida capacidade de pesquisa de papai, uma também incrível capacidade de síntese. A história mais curta “funciona” tão bem quanto a mais longa, sem perder nada em relação à outra. Além disso, há tanta ação em meras 4 páginas, que a história até parece mais longa.

E acima de tudo, este é um bom exemplo de como papai às vezes “reciclava” ideias, e as reaproveitava, com algumas adaptações, sempre que possível. Para um artista que produzia com a intensidade dele naqueles tempos, nos quais era super requisitado para vários projetos ao mesmo tempo, esta era até mesmo uma “técnica de sobrevivência”

CV Ilha

Zé Crusoé

Esta história de 1977 é muito livremente inspirada na história de Robinson Crusoé, o romance de Daniel Defoe de 1719.

Alguns dos detalhes originais estão certamente presentes, como o naufrágio, a ilhota deserta, as roupas improvisadas com materiais encontrados no local, tentativas de fazer fogo e outros clichês do gênero. Aliás, o próprio Zé Carioca menciona “o filme que ele viu” para o Nestor em vários momentos durante a história.

A aventura tem até momentos de suspense, quando nossos heróis percebem que não estão sozinhos na ilha. Para dois pássaros do morro carioca, a “natureza selvagem” da ilhota é certamente assustadora. Mas é claro que, tendo saído da costa num pequeno bote construído pelo próprio Zé (chamado, aliás, de “Zé I”), eles não podem estar assim tão longe, e são logo encontrados.

O detalhe curioso desta história fica por conta da cena de “nudez” dos nossos heróis entre as pedras da praia.

ZC Nu