Pé de Sapo, Mangalô Três Vezes!

História da Patrícia, de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril na revista da personagem número 12 em março de 1988.

Hoje papai trata de explicar a origem do Sapo Urucubaca, que diz ter sido um marinheiro enfeitiçado por uma bruxa. Como em toda boa história de marinheiros e piratas de todos os tipos, a trama envolve também um tesouro enterrado e a busca por ele.

Levado pela bruxa a uma ilha cheia de sapos, ele é persuadido a desenterrar um baú cheio de coisas preciosas com a promessa de que poderá ficar com ele, mas acaba transformado em sapo pela maldição do tesouro.

A referência, além de às histórias da literatura sobre viajantes do mar e tesouros enterrados, é também à história da Odisseia, especialmente a passagem que coloca Ulisses na ilha da feiticeira Circe, que se divertia transformando homens em animais diversos, e especialmente porcos.

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O Navio-Fantasma

História do Donald e do Peninha, de 1977.

Enviados pelo Tio Patinhas a uma localidade no litoral para um trabalho, os dois primos se vêm às voltas com o que parece ser um caso de aparição de fantasmas, completo com uma misteriosa caravela que aparece e desaparece aparentemente do nada.

Como sempre fazia quando compunha esse tipo de história, papai faz o mistério e o suspense aumentarem a cada quadrinho que se adiciona aos demais, mas também deixa pistas para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões, com uma série de silhuetas escuras à espreita pelos cantos (mesmo que nosso amigo leitor precise, talvez, de uma lente de aumento para perceber do que se trata).

Quem serão essas pessoas, e quais serão as intenções delas? Também como sempre, nada nem ninguém é o que parece ser, e é melhor que o leitor atento desconfie de tudo e de todos, porque tudo é muito misterioso e muito suspeito. Na verdade, nem mesmo a função dos repórteres de A Patada na trama é o que parece ser.

Uma pista bastante óbvia do que pode realmente estar acontecendo é a ausência do pato muquirana do escritório, quando o Donald finalmente consegue encontrar um telefone fixo para tentar falar com o tio. (Pois é, houve um tempo em que nem se sonhava com telefones celulares, e esse tipo de desencontro era algo muito comum.) Se o Patinhas não está onde deveria estar, então onde está ele?

É preciso não esquecer que, na literatura de mistério policial na qual esta história se insere e à qual faz homenagem, nada acontece por acaso e o vilão é geralmente o personagem que menos levanta suspeitas.

Papai tira sua inspiração não apenas das tramas clássicas de estilo policial, de suspense, de terror e de mistério, mas também das histórias de piratas e ilhas do tesouro, completas com mapas antigos e grandes pedras em forma de caveira.

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O Misterioso Capitão Do Pérola Negra

História do Zé Carioca, de 1973.

O Zé certamente tem um jeito bastante particular de tentar encontrar trabalho. O surpreendente é que às vezes é o trabalho que encontra o Zé. Não que isso seja sempre uma coisa boa, é claro. Hoje, o “contratante” é ninguém menos que o Mancha Negra.

Assim, para começar, tudo o que diz respeito ao vilão tem a ver com “borrões”, que é sinônimo de “manchas”, ou com outras referências à cor preta. Desde o nome falso, de “Capitão Borrão”, que ele escolhe para se apresentar, passando pelo nome do navio, Pérola Negra, e até a ilha do tesouro, chamada Ilha da Borrasca.

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“Borrasca” certamente começa com “borr”, como “borrão”, mas na verdade é sinônimo de tempestade, um temporal com ventania violenta e de pouca duração. Em todo caso, está valendo o jogo de palavras.

Já o nome que o Mancha escolhe para o navio que roubou seria usado novamente décadas mais tarde pela franquia “Piratas do Caribe”, também da Disney, aliás. Coincidência?

E desta vez o tesouro existe de verdade! Mas, é claro, ninguém ficará com ele. O Mancha certamente não pode, porque é bandido, e o Zé porque, se ele ficar definitivamente rico, que graça isso vai ter?

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Hoje temos também uma primeira versão da origem do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé. Ao contrário do que vemos em “O Gazéteiro”, já comentada aqui, onde ele acompanha o Zé desde menino, nesta história o cãozinho acaba de ser encontrado perambulando pelo cais do porto. Ele é informalmente adotado quando resolve acompanhar seus novos amigos em sua soneca sobre as sacas de café.

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Mas se notarmos bem, veremos que este Soneca tem a pelagem cinza, enquanto na maioria das outras histórias o bichinho tem a pelagem castanha, ou até branquinha (em “Morcego Verde Ataca Novamente”, também já comentada aqui). Vai daí, e deduzo que o Zé simplesmente vai dando o nome de “Soneca” a todos os cãezinhos que vai adotando ao longo da vida e que, admiravelmente, têm essa característica dorminhoca.

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

O Grande Golpe Do Senhor X

História do Sr. X, de 1974.

De todos os planos maléficos que não dão certo, os do Senhor X, auto-intitulado “Rei do Crime”, são os mais fracassados. Tanto, que ele e seu bando nem procurados pela polícia são.

Mas comecemos pelo começo: um pato magrinho e fracote sabe que está numa pior quando resolve ir ao porto procurar trabalho como estivador, e ainda por cima não entende por que ninguém o contrata.

O cais do porto, como todos sabemos, é lugar “barra pesada”, onde todo tipo de pessoa pode ser encontrado, e onde golpes são aplicados. É desse modo que o Peninha, demitido pela milésima vez da Patada, encontra o Sr. X bancando o pirata com seu comparsa corvo, o X-8, tentando vender um velho mapa do tesouro.

O fato é que os velhos marinheiros dos antigos livros de histórias nos quais papai se inspirava não tinham apenas papagaios como mascote, mas corvos também, e esses pássaros pretos também aprendiam a falar, embora com um pouco menos de desenvoltura que os seus colegas verdes.

O plano do Sr. X é fazer algum dinheiro com o mapa “sem valor”, vendendo cópias baratas feitas no mimeógrafo por qualquer preço. Para um “Rei do Crime”, é um golpe dos bem mixurucas, convenhamos. Mas como esse antigo aparelho de impressão caseira imprimia na verdade imagens “em espelho” das figuras que passavam por ele, se seu operador não prestasse atenção (pois é, crianças, a vida era dura antes dos computadores e de suas impressoras), ele acaba desvendando o segredo do mapa, sem querer.

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É neste momento que entra na história o Capitão Mobidique, que examina o mapa do Peninha e resolve sair atrás do tesouro. Interessante seria saber quem é o “Aldo” que dá nome à bacalhoada servida no restaurante onde eles se encontram. Nas histórias de papai, esse tipo de coisa não era coincidência.

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Ao contrário de outras histórias de tesouro de papai, este realmente existe. Mas como sempre, ninguém ficará com ele. E para piorar, o “candidato” a Rei do Crime consegue até se apoderar do tesouro por algum tempo, mas no final acaba descobrindo que mais uma vez não conseguiu praticar crime algum, para seu supremo desgosto.

O termo náutico da vez, influência dos clássicos livros de aventuras e usado em uma das falas do Capitão, é “boreste“, sinônimo de “estibordo” e significa o lado direito da embarcação, do ponto de vista de quem olha para a sua proa. O lado esquerdo do navio é “bombordo”.

O Tesouro De Tortuga

História do Zé Carioca, de 1973.

Dormir nas pedras da praia parece agradável, mas pode ter suas desvantagens, como ser mordido no pé por uma tartaruga com um mapa de tesouro gravado no casco. (Eu disse tesouro?)

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A história gira em torno de uma história de tesouro enterrado contada por um marinheiro aparentemente maluco, de nome Omar Tufão (“o tufão do mar”, ou algo parecido). Há também o Pedro Gaivota, um pescador, que ajuda nossos heróis Zé e Nestor a seguir o mapa. Como gaivotas são pássaros costeiros que se alimentam entre outras coisas dos peixes que conseguem pescar ou roubar dos pescadores, então o nome está bastante apropriado.

O tesouro descrito é enorme, mas é claro, nunca foi encontrado. Também pouco importa para o bom andamento desta aventura se ele realmente existe ou não. Como diz o velho ditado, “mais importante que o destino, é o caminho para se chegar lá”.

A ilha citada é a famosíssima Ilha de Tortuga, no Caribe, citada em inúmeras histórias da literatura infanto-juvenil dos séculos XIX e XX, e mais recentemente na série de filmes “Piratas do Caribe”. Como é que um bote a vela faz o percurso todo do Brasil até lá é outra história, possível mesmo só nos quadrinhos.

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Mas o fato é que essas ilhas do tesouro não são tão raras quanto parece. Outra ilha famosa é Oak Island, no Canadá, explorada até hoje por caçadores de tesouros.

Além da simpática tartaruga com o mapa no casco, que o desenho do Canini deixou mais charmosa ainda, temos também uma engraçadíssima cena onde o Nestor, de tão enjoado pela viagem de barco, até muda de cor:

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A Ilha Do Tesourão

Esta história do Peninha e sua turma, publicada em 1984, é uma adaptação de A Ilha do Tesouro, clássico livro de literatura infanto juvenil sobre piratas e aventuras no mar.

Como num teatro, os personagens principais da história original de Robert Louis Stevenson estão presentes, sendo representados pela família Pato, e é claro que papai não poderia deixar de adicionar o seu “toque pessoal”, com a Maga Patalójika no papel de vilã.

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Interessante é o formato da “Ilha do Tesourão” no mapa: é uma ilha em formato de “X”, que lembra tanto o instrumento de jardinagem quanto o clássico sinal que marca o local de um tesouro num desses mapas.

De resto a confusão impera, no melhor estilo das histórias do Biquinho. Há também todo o linguajar “náutico” característico desse tipo de aventura, e que era adotado pelas crianças que liam esse tipo de livro quando brincavam de pirata.

Esse, aliás, é outro modo de interpretar esta história: além de ser um “teatrinho”, ela é a história da Ilha do Tesouro vista pelos olhos de uma criança, e uma representação das brincadeiras de pirata que eram inspiradas pelo livro.

Me parece também que discussões como a mostrada abaixo eram comuns entre papai e seus coleguinhas de infância, quando brincavam de pirata. No afã de mostrar que entendiam dos termos náuticos dos livros mais do que os outros, “só” porque haviam lido determinado livro de aventuras talvez mais vezes do que as outras crianças, corrigiam-se entre si na base do “foi-não-foi, é-não-é”.

bruxa piratas

O mais provável é que nenhum deles entendesse realmente o que estava dizendo. Eles estavam apenas repetindo o que haviam lido, de um modo bastante parecido com o do papagaio do pirata, que repete sem entender as palavras que ouve.