A Descoberta do Brasil

História do Terremoto, da turma da Patrícia de Ely Barbosa, composta em março de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista Patrícia em Quadrinhos número 8 em janeiro de 1988.

Mais uma vez papai usa os personagens da turminha para tentar ensinar um pouco de História do Brasil ou, pelo menos, despertar a curiosidade da criançada para que prestem atenção na aula, quando a professora mencionar o assunto.

O Terremoto de papai tem um pouco de Patinho Biquinho da Disney com algo da personalidade do meu irmão quando era pequeno, mas elevado ao cubo, é claro. Ele era arteiro, mas nem tanto. Em todo caso, isso certamente faz parte da percepção que os adultos têm das crianças, e da tendência que temos de interpretar a exuberância delas como “traquinagem”. A frase abaixo é algo que o meu irmão disse um dia ao ser confrontado por causa de alguma “arte”.

O resto da história é uma brincadeira com a tendência que algumas crianças têm de levar o que os adultos dizem ao pé da letra e com a percepção que a televisão passa sobre como são os índios, sempre ao estilo norte-americano. Assim, quando a professora diz que “Cabral partiu de Lisboa à frente de 13 naus”, é isto que o Terremoto imagina:

É esse jogo de percepções de lado a lado e a representação das falhas de comunicação entre adultos e crianças que tornam a história engraçada. Enquanto as crianças têm seu próprio modo de pensar e ver o mundo e ainda não aprenderam que ele não é o único possível, é preciso que os adultos procurem ter a sensibilidade de entender as crianças e dar a elas o carinho e o apoio dos quais elas necessitam para ter um desenvolvimento saudável.

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A Invasão Dos Piratas

Este é o segundo episódio da História de Patópolis, de 1982.

O herói é um antepassado do Zé Carioca, que em 1789 chega à cidade no navio do “pirata do Caribe” El Borrón, antepassado do Mancha Negra.

O nome “Zé Cariboca” é uma brincadeira com o “Carioca” do Zé do presente: se carioca é como se chama uma pessoa do Rio de Janeiro, “cariboca” deve ser alguém que vem do Caribe. Mas logo no primeiro quadrinho temos um equívoco, talvez do letrista: onde o Prof. Ludovico fala “Carioca”, leia-se “Cariboca”, é claro.

A história, como todas as outras, gira em torno da então Vila de Patópolis e dos esforços de seus habitantes fundadores para consolidar o assentamento e fazer a cidade prosperar contra todas as adversidades. Além disso aqui, também, a “Pedra do Jogo da Velha” terá um papel central na trama: o Zé Cariboca, apaixonado por uma ancestral da Rosinha, a usa para afastar os piratas da Vila com promessas de que ela seria um mapa para tesouros de ouro e prata.

A localização exata de Patópolis, como sempre, não fica clara: papai seguia a linha criativa de Carl Barks, e considerava que ela fica em algum lugar no Hemisfério Norte, nos EUA. Mas o pessoal da Editora Abril queria que se passasse a impressão de a cidade fica no Brasil, para que o leitor brasileiro pudesse se identificar mais facilmente. O fato é que, pela localização do Caribe a meio caminho entre Brasil e EUA, os piratas teriam igual facilidade em atacar ambos. Em todo caso, as roupas dos antigos patopolenses, a arquitetura das casas e a aparência dos índios são, todas elas, típicas da parte Norte do planeta.

Interessante é a placa que aponta para “Patópolis a 1500 Km”. Ora, nós sabemos que o Zé carioca vem do Rio de Janeiro, e sabemos onde a cidade fica. Assim, de duas, uma: ou consideramos que Patópolis fica a 1500 Km de lá, ou que o Zé já estava “a meio caminho” de Patópolis ao passar pela placa. Assim sendo, a essa distância do Rio temos algumas referências interessantes: se formos para o Norte, estaremos passando por algum lugar ao Sul de Salvador, no litoral da Bahia.

Se formos para o Sul do Brasil, chegaremos em Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul (já que Patópolis é sem dúvida uma cidade de praia). Mais interessantemente ainda, se voltarmos nossa atenção para o próprio mar, a 1500 Km do Rio na direção do mar aberto foi descoberto por geólogos um possível “continente submerso“. Seria Patópolis algum tipo de “Atlântida”? 😉 O certo é que o Zé precisou andar um bocado.

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O Cavalo-de-Ferro

História do Pena Kid, de 1976.

A estrela de hoje é o trem, e tudo gira em torno dele. A estrada de ferro está chegando a Pacífica City, no legendário faroeste, trazendo consigo o progresso e o desenvolvimento. Até mesmo o assalto cometido pelos Metraltons tem menos importância na história do que o trem, e o ataque dos índios também não passa de “cena de filme”.

E por falar em filmes, é neles que papai foi buscar a inspiração: “The Iron Horse” (O Cavalo de Ferro) é um filme mudo dos EUA que foi lançado em 1924, dirigido por John Ford e produzido pela Fox Film. Ele conta a história, iniciada em 1825, dos fatos, intrigas, disputas políticas e conflitos (incluindo a clássica cena do ataque dos índios) que levaram à abertura da primeira linha férrea nos EUA. Ele pode, aliás, ser assistido aqui, com as vinhetas (meio mal) legendadas em Português, mas está valendo.

Em 1966 uma série para TV, também ambientada no velho oeste e chamada de Iron Horse/Cavalo de Ferro, foi lançada com 47 episódios divididos em duas temporadas. A abertura dessa série pode ser vista aqui.

PK Ferro

O resto são os geniais meta-quadrinhos de sempre, primeiro com uma pequena demonstração de como se fazia o rafe, e depois com os costumeiros palpites do Tio Patinhas e as soluções mirabolantes do Peninha.

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Zorro Contra Dom Del Oro

História do Zorro, de 1974.

O tema de hoje é uma crítica sutil ao racismo do qual eram vítimas os nativos norte americanos por parte dos conquistadores brancos europeus. Antes o único povo a habitar essas terras, eles acabaram tratados como verdadeiros intrusos em seu próprio território, que ia encolhendo ano a ano como resultado da colonização branca.

Até mesmo guerras aconteceram por causa disso (um povo guerreiro como os “peles vermelhas” não seria conquistado sem luta), e nos filmes de faroeste até a década de 1950 eles eram sempre os vilões, que atacavam cruelmente os acampamentos e vilarejos dos brancos, sempre retratados cheios de inocentes mulheres e crianças.

Antes das histórias do Zorro ganharem popularidade na TV, nos anos 1960, era a história de Davy Crockett, herói nacional, matador e pacificador de índios e “Rei das Fronteiras” (título de um filme – baseado em uma série de TV – de 1955) que tinha maior visibilidade, e com ela, o racismo contra os índios.

Considerados “ladrões, vagabundos e imprestáveis” pelos brancos, e muitas vezes confinados às suas reservas, desempregados, segregados e abandonados a vícios adquiridos dos próprios conquistadores, como o alcoolismo, eles rapidamente se tornaram uma população vulnerável, em situação de risco, e presa fácil de todo tipo de golpe e exploração. Afinal, a quem eles poderiam recorrer, se fossem chantageados ou extorquidos? (Qualquer semelhança, aliás, com a situação dos indígenas brasileiros, desde aqueles tempos do Regime Militar e até os dias de hoje, não terá sido mera coincidência).

São presas fáceis, em suma, para qualquer bandido covarde que apareça. É neste ponto que entra o personagem “Dom Del Oro” (em espanhol “senhor do ouro”, em tradução livre), um pretenso ser sobrenatural que faz aos índios exigências que ele sabe que eles não poderão cumprir, sob pena de terríveis consequências, supondo que eles não poderão se defender, não terão a quem recorrer.

Ou será que terão? Ao ver a injustiça acontecendo bem debaixo de sua janela, Dom Diego, o Zorro, eterno defensor dos fracos e oprimidos, logo se lança escadaria abaixo em defesa de seus amigos.

Zorro DomDelOro

A inspiração vem de mais um seriado cinematográfico, “Zorro’s Fighting Legion”, (ou “A Legião do Zorro” no Brasil), uma produção da Republic Pictures de 1939, na qual Dom Diego luta contra Dom Del Oro no México (se passa quatro anos após a história original, quando a Califórnia estava nas mãos do México). Nesse seriado o Zorro tem, curiosamente, um cavalo branco.

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Marsupial: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Comix: http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=23238

Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/p/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-15071096

Monkix: http://www.monkix.com.br/serie-recordatorio/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-serie-recordatorio.html

Forte Apache

História do Pena Kid, de 1975.

A história, hilária e recheada de piadas do começo ao fim, é uma coleção de respostas irreverentes para aquelas perguntas que as crianças fazem a seus pais como, por exemplo, por quê os fortes do Exército dos EUA no tempo da Conquista do Oeste ficaram conhecidos como “Forte Apache“, se não havia índios da etnia Apache dentro deles? Ou será que havia?

Outra dessas perguntas diz respeito a expressões populares, como “na calada da noite”. Quem já passou uma noite de verão em uma área rural, ou de modo geral mais afastada de uma cidade, sabe do que eu estou falando. São grilos, aves noturnas, gatos, cachorros… Nos desertos são os lobos, coiotes, cascavéis, corujas… de “calada” a noite não tem nada!

PK apache

A segunda sacada diz respeito ao processo de criação das histórias em quadrinhos, já que geralmente é fácil colocar o herói em apuros. O difícil é achar uma saída convincente da situação complicada. É aí que entra, muitas vezes, a parceria entre argumentista e desenhista (desde que os dois estejam, é claro, na mesma sintonia):

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Alguns clichês dos filmes de Faroeste também são usados para adicionar à graça da coisa toda, incluindo uma participação especial de Jerônimo, o mais famoso dos guerreiros Apaches.

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No final uma solução é realmente encontrada, afinal, já estava na cabeça de papai (ao contrário do que ele faz parecer na história) desde antes de ele começar a rascunhar, e ela é tão engenhosa quanto simples e inteligente. Mas se eu contar, perde a graça.

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Marsupial: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

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Monkix: http://www.monkix.com.br/serie-recordatorio/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-serie-recordatorio.html

O Ataque Dos Pés-Pretos

História do Urtigão publicada pela primeira vez em 1977, e republicada recentemente no gibi comemorativo de 50 anos do personagem.

O nome dos Índios é uma referência a uma tribo que existiu de verdade, no Velho Oeste norte americano. Os mocassins com sola preta que eles calçavam lhes renderam o apelido de blackfeet – “pés pretos”, em inglês. Se valiam de uma agressiva cavalaria e de armas de fogo, para dominar tribos vizinhas e tocar o terror contra os invasores de pele branca. Ficou célebre uma carta que o chefe da tribo escreveu aos brancos, naquela época.

Em nossa história, Donald e Peninha vão ao sítio tentar fazer uma reportagem sobre “os problemas de um sitiante”, e encontram o Urtigão enrolado até o pescoço com problemas bem mais sérios do que os que são corriqueiros no dia a dia de um sítio comum.

Urtigao pes pretos

O que se revela depois ser uma falsa tribo de índios está tentando afugentar o Urtigão de lá, para ficar com a terra. Mas eles não são páreo para a engenhosidade dos patos da cidade, que conseguem solucionar o mistério e ajudar o capiau a se livrar dos invasores, enquanto de quebra ainda escrevem uma espetacular matéria para A Patada, mas que não vai ser publicada, no final.

No nível da inspiração de papai para a maioria das histórias de sítios, sejam do Urtigão ou da Vovó Donalda, estão a infância dele na fazenda, e também nossas frequentes visitas, naquela época, a uma chácara de um irmão de minha mãe próxima a Campinas. De tudo isso ele tirava a ambientação rural, e até uma ou outra piada inspirada pelos “causos” do meu tio ou dos vizinhos dele, e pelas farras e brincadeiras das crianças.

E tem o livro de papai sobre a História dos Quadrinhos no Brasil, não esqueçam de dar uma olhada, bem aqui.

Na Terra Dos Tasca-Lasca

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1972.

O que começa inocentemente como um passeio próximo aos Arcos da Lapa num dia de verão se transforma numa complexa aventura, com mistério para resolver e tudo, a partir do momento em que o Zé encontra uns índios estranhos.

A graça principal da coisa toda fica por conta do choque cultural entre os índios e o nosso herói, que começa pelo modo como eles falam, com todos os verbos no infinitivo. Especialmente hilário, porque totalmente inesperado, é o meio de transporte dos forasteiros. Quando eles se referem a um “grande pássaro”, o Zé chega a pensar que seria apenas uma maneira deles de se referir a um avião:

ZC gde pass

Na floresta, descobrimos que a tribo está sob ataque de saraivadas diárias de flechas, e sofre até tentativas de incêndio. Aos poucos o mistério vai sendo revelado ao leitor, e o próprio Zé chega no final e meio por acaso à solução de tudo, enquanto tenta fugir da tribo em mais um dos seus “ataques de coragem” às avessas.

ZC buga

Numa época em que o Zé Carioca ainda tinha um universo limitado de personagens coadjuvantes, essas aventuras em estilo “anti-Mickey” eram comuns no lápis de papai.