Mal Me Quer, Bem Me Quer

História do Morcego Vermelho, de 1973.

Por causa de suas aventuras como herói, o Peninha está atrasado para seu trabalho em A Patada. Na pressa, ele acaba pisando na sombra da Bruxa Má, que considera isso ofensa o suficiente para lançar-lhe um feitiço. E o pior de tudo é que o Peninha nem viu a vilã, muito menos a sombra.

A intenção do feitiço é que quem gosta do pato passe a não gostar dele, e quem não gosta passe a gostar. Mas a coisa é um pouco mais caótica do que isso: as mudanças de tratamento acompanham as mudanças de humor das pessoas, o que leva a uma série de situações hilárias e inusitadas.

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O problema é que a urucubaca não está apenas com o Peninha. Mesmo em sua identidade secreta como Morcego Vermelho ele passa a ser hostilizado pelo povo e amado pelos bandidos. Até o Donald, que também não está entendendo nada, quase revela a identidade do primo, só para melhor maltratá-lo.

A sorte do nosso amigo enfeitiçado é que o feitiço só dura um dia. E não nos esqueçamos da bruxa: ela também terá o seu castigo por atacar um pato perfeitamente inocente, e também não vai entender nada, quando o feitiço virar contra a feiticeira.

O personagem “Dr. Importantino” é uma sátira com os figurões das colunas sociais, aquela gente fútil de Ego inchado que se acha muito importante e adora se ver no jornal, e que fica furiosa com coisas bobas, como pequenos erros de grafia em seus nomes, e coisas assim.

Uma década depois papai voltaria a este tema com “O Feitiço da Vila”, história do Zé Carioca já comentada aqui, onde faz uma variação, melhorando a ideia e misturando o feitiço da inversão dos amores e ódios com as três bruxas de Macbeth e a música de Noel Rosa.

Se estivesse vivo, papai completaria hoje 75 anos de idade. Por favor dedique um momento de oração à sua memória.

As Árvores Ambulantes

História do Tio Patinhas, publicada uma única vez em 1977.

Papai era fã de Macbeth, a “Peça Escocesa” de Shakespeare, e usou o tema em várias de suas histórias. A princípio o leitor tem a impressão que está lendo mais uma história das bruxas, e em especial da Maga Patalójika, mas isso é só uma distração, um artifício baseado nas técnicas usadas para confundir o leitor nos romances policiais que ele também gostava de ler.

Um ponto fraco do Patinhas é a supersticiosidade: ele não apenas acredita que a primeira moeda que ganhou é um talismã poderoso que trouxe a ele toda a sua fortuna, e que perdê-la traria a sua ruína, como também acredita piamente em todo tipo de oráculo e presságio. Isso, é claro, abre “brechas” para muitas confusões.

O leitor atento vai começar a desconfiar que há algo errado com as bruxas quando elas dão a entender que não foram as criadoras do início de tempestade que assustou o velho muquirana logo no início da história. Se elas não têm poderes mágicos, então quem são elas?

Arvores

As coisas começam a ficar mais claras para o leitor quando um dos Irmãos Metralha é preso por um policial muito suspeito:

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Por fim, a atitude e comportamento das árvores ambulantes é mais suspeito ainda. Nesse angu tem caroço, decididamente:

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Papai não gostava muito de ir ao médico. Isso se reflete nesta história no fato que os conselhos dos médicos do Tio Patinhas e do Donald só adicionam à confusão: foi por aceitar a sugestão de caminhar mais que o Patinhas se deparou com as supostas bruxas, e o Donald literalmente dorme em serviço também por causa de seu médico, que receitou calmantes a ele. Apesar disso tudo, todos nós sabemos que médicos são gente boa, e que seus conselhos devem ser seguidos, não é mesmo?

Por fim, são os três sobrinhos do Donald que descobrem o que está errado e salvam o dia: tudo não passava de um muito bem elaborado plano dos Metralhas, baseado nas leituras do Metralha Intelectual.

O Feitiço Da Vila

História do Zé Carioca, publicada em 1984.

O título da história é inspirado numa canção de Noel Rosa, composta em 1934 para homenagear seu bairro, Vila Isabel, e as três bruxas (na verdade Maga Patalójika, Min e Bruxa Vanda) são inspiradas nas três bruxas de Macbeth, peça teatral de William Shakespeare, considerada “amaldiçoada”, e cujo nome não deve ser dito em voz alta.

Na peça, as três bruxas abrem a trama com uma profecia: “Salve, Macbeth! Salve, Barão de Glamis! Salve, Macbeth! Salve Barão de Cawdor! Salve, Macbeth! Ainda serás rei!”

Nesta história não é diferente: “Salve, Zé Carioca, o ser mais feliz da terra. Que nunca precisou trabalhar pra viver. E que um dia será milionário!”

Elas invertem as personalidades de todos os amigos do Zé para se divertirem, o enchem de dinheiro e presentes, e ele estava até gostando da ideia, até o momento em que percebeu que a personalidade da Rosinha também havia sido invertida.

É aí que as bruxas acabam descobrindo que o nosso herói dá mais valor ao amor da Rosinha do que a todo o dinheiro do mundo.

No final, a história vale também como reflexão filosófica: o que é mais importante neste mundo? O dinheiro ou o amor?