O Navio-Fantasma

História do Donald e do Peninha, de 1977.

Enviados pelo Tio Patinhas a uma localidade no litoral para um trabalho, os dois primos se vêm às voltas com o que parece ser um caso de aparição de fantasmas, completo com uma misteriosa caravela que aparece e desaparece aparentemente do nada.

Como sempre fazia quando compunha esse tipo de história, papai faz o mistério e o suspense aumentarem a cada quadrinho que se adiciona aos demais, mas também deixa pistas para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões, com uma série de silhuetas escuras à espreita pelos cantos (mesmo que nosso amigo leitor precise, talvez, de uma lente de aumento para perceber do que se trata).

Quem serão essas pessoas, e quais serão as intenções delas? Também como sempre, nada nem ninguém é o que parece ser, e é melhor que o leitor atento desconfie de tudo e de todos, porque tudo é muito misterioso e muito suspeito. Na verdade, nem mesmo a função dos repórteres de A Patada na trama é o que parece ser.

Uma pista bastante óbvia do que pode realmente estar acontecendo é a ausência do pato muquirana do escritório, quando o Donald finalmente consegue encontrar um telefone fixo para tentar falar com o tio. (Pois é, houve um tempo em que nem se sonhava com telefones celulares, e esse tipo de desencontro era algo muito comum.) Se o Patinhas não está onde deveria estar, então onde está ele?

É preciso não esquecer que, na literatura de mistério policial na qual esta história se insere e à qual faz homenagem, nada acontece por acaso e o vilão é geralmente o personagem que menos levanta suspeitas.

Papai tira sua inspiração não apenas das tramas clássicas de estilo policial, de suspense, de terror e de mistério, mas também das histórias de piratas e ilhas do tesouro, completas com mapas antigos e grandes pedras em forma de caveira.

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O Conde De Montecristal

História da Família Metralha, de 1980.

Inspirada no livro “O Conde de Monte Cristo”, escrito por Alexandre Dumas e publicado na forma de capítulos em série a partir de 1844, esta é mais uma daquelas histórias que o Vovô Metralha conta e que a gente não sabe se é verdade ou inventada.

De qualquer maneira, o que o Vovô parece estar fazendo (e o que papai estava fazendo sem sombra de dúvida com os leitores) é tentar ensinar, de maneira bem indireta e divertida, alguma coisa de História e literatura aos seus desmiolados netos (até mesmo porque ensinar também é uma forma de amar).

Quando leitura é manga de colete e o interesse pelos estudos é nulo (afinal de contas, se gostassem de ler e estudar talvez os Metralhas não tivessem se tornado bandidos), um “teatrinho” e uma história bem contada podem fazer uma pessoa aprender sem perceber, enquanto pensa que está só se divertindo um pouco.

Já o “papel” de Edmond Dantés (pronuncia-se “Dantês”) é perfeito para o Metralha Azarado, já que se pode argumentar que o personagem principal do livro de Dumas também era um bocado sem sorte. Assim, ele será o personagem central e também a maior vítima de todo tipo de desventura, para a diversão do leitor.

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Quanto ao próprio 1313, além de ser a “linha de ligação” entre todas as histórias desta série, é divertido ver a paixão com a qual ele sempre defende seus vários “antepassados”, na (vã) esperança de encontrar algum que não tenha sido assim tão azarado. Ele parece pensar que encontrar um “1313 sortudo” em algum lugar do passado talvez possa redimi-lo, mesmo que seja só um pouquinho.

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Um Natal Do Passado

Publicada pela primeira vez em dezembro de 1982, a história mescla acontecimentos do tempo presente com as lembranças de Natais passados da Vovó Donalda.

Assim, temos os personagens que já conhecemos, juntamente com suas versões mais jovens e outros, apresentados hoje ao leitor, que são antepassados dos atuais, mais ou menos como aconteceu na saga da História de Patópolis (que foi publicada, aliás, no mesmo ano). Seria esta uma história de Natal não oficial da série?

Não há menção à Pedra do Jogo da Velha, mas temos um mapa das minas de ouro da cidade, encontrado e muito bem oculto pelo jovem Patinhas que, na época, era apenas um patinho, assim como a Donalda. Outros personagens são tios avós dos metralhas atuais, e alguns parentes da Vovó, como sua própria avó, de nome Hortênsia, e um tio chamado Donaldo.

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O trunfo da história, o detalhe central que denota a esperteza precoce do Patinhas e leva à derrota dos bandidos, gira em torno do boneco de neve que a jovem Donalda, na época com 5 anos de idade, está fazendo quando a história começa. Papai confia na atenção do leitor para que ele perceba o que está acontecendo.

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O resto é a história da luta de uma família desarmada contra bandidos ferozes, com o uso de um engraçado detalhe, que é o que vai finalmente colocar os vilões para correr sem que os patos precisem recorrer à violência. Uma vez derrotados os bandidos, a história pode então terminar enquanto começa a festa de Natal da Família Pato, com direito a votos de Boas Festas aos leitores.

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O Tesouro Do Capitão Currupaco

História do Zé Carioca, de 1974.

Esta história é um misto de caça ao tesouro com mistério policial. Como sempre acontece nas histórias de papai com este estilo, nada é o que parece ser e ele se diverte à beça confundindo o leitor até não mais poder.

O vilão Patotonto está de volta, para sua terceira e última aparição nas histórias de meu pai. Ele foi criado por ele em 1973 para a história “Morcego Vermelho em Copabacana”, já comentada aqui, e o único outro autor que usou o vilão foi o Julio de Andrade em 1975, em uma só história.

Outro personagem criado por meu pai que aparece nesta história é o Omar Tufão, um caçador de tesouros usado no ano anterior em “O Tesouro de Tortuga”, também já comentada aqui. Esta será também sua última aparição nos quadrinhos Disney. Apesar de grandalhão e mal-encarado, ele não é um bandido, e acaba ajudando os heróis, no fim.

Tudo gira em torno de um misterioso documento, que o Patotonto diz ser um mapa de tesouro e vende aos amigos Zé e Nestor por uma ninharia. Ao ver isso, o leitor terá certeza de que o mapa é falso. Mas o “caldo” começa a engrossar quando o vilão passa a querer o papel de volta a todo custo, usando o Omar Tufão para tentar comprá-lo de volta por uma pequena fortuna. Isso, é claro, vai dar um “nó nas ideias” do leitor: se o mapa é falso, para quê ele o quer de volta com tanta insistência?

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O local mencionado, a Ponta do Casqueiro, existe de verdade e fica no Brasil, mas não no Rio de Janeiro, e sim em Santa Catarina. Mas por uma questão de brevidade, papai deixa esse “detalhe” de lado e coloca o local lá mesmo no Morro do Papagaio ou adjacências. Se para ir a Tortuga, no Caribe, os nossos heróis usaram um mero bote a vela, desta vez eles irão ao Casqueiro a pé.

Mas será que o papel é mesmo um mapa? Será que esse tesouro existe realmente? E será que é possível encontrar um tesouro enterrado com base na interpretação equivocada de algo que não é sequer um mapa?

Como sempre, a aventura é mais importante do que a existência ou não de um tesouro. Mas não podemos nos esquecer que, nos quadrinhos, tudo é possível.

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O Baú Misterioso

História do Zé Carioca, publicada uma vez só em 1975.

A história trabalha as expectativas do leitor ao brincar com as dos personagens: neste caso, um “baú misterioso” vem parar nas mãos do Zé. Por serem geralmente associados a tesouros, a menção a baús, especialmente em conjunção com mistérios, logo desperta a imaginação das pessoas.

O expediente do leilão é comum em histórias em quadrinhos, e um ótimo ponto de partida para uma bela confusão. Um incauto qualquer (hoje o Zé) vai assistir a um leilão só para ver como é que é, e por acaso faz um gesto brusco que é interpretado como o lance final que arrematará um objeto. Pode ser uma coisa involuntária, como um espirro ou, no nosso caso, um aceno amigável ao leiloeiro.

(Papai uma vez me contou uma história sobre um amigo ou parente que um dia entrou em uma casa de leilões e, ao ver um belo vaso de aparência oriental sendo leiloado pelo que parecia ser um valor irrisório, resolveu dar uns lances. Foi só depois que arrematou a coisa que ele descobriu que aquilo era um antiquíssimo vaso chinês, e que o preço era *por grama* de peso do objeto. Mas regras são regras, e a pessoa teve de fazer um acordo, pagar em prestações, mas não conseguiu anular a compra.)

Além disso, temos outros elementos na história que vão se conectando como em um jogo de “ligar os pontos”. O Nestor está com fome, e entende tudo o que o Zé fala como referência a comida. Assim, “leilão” vira “leitão” em sua imaginação esfomeada, o dinheiro pago pelo baú é lamentado porque poderia comprar um sanduíche, etc.

Isso é uma referência a uma velha piada que papai contava sobre uma pessoa que estava com tanta fome que acabava entendendo “dez para as três” como “dez pastéis”. Mas, mais do que só isso, a fome do Nestor terá na trama uma função a mais: ela vai ajudar com a surpresa final.

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Enquanto isso o Zé está às voltas com a *possibilidade* de um tesouro. O baú está vazio, mas há um mapa sob o forro, visível por um rasgo. A pista que papai dá ao leitor é o nome do antigo dono, um certo “Marquês de Qué-Qué-Qué”. Isso é uma referência à brincadeira que se fazia no passado para denotar desprezo por títulos de nobreza: o nobre é sempre um barão, marquês, duque, etc. de algum lugar. Assim, temos o “Duque de Norfolk”, o “Barão de Mauá”, e o “Conde de não sei quê”.

Além disso, a onomatopeia “qué” lembra o grasnar dos patos e é usada como riso, nas histórias Disney. No final, a busca pelo tesouro é mais importante (e mais divertida) do que achar um tesouro ou não. A parte mais importante da viagem é o caminho, dizem os sábios, e nem sempre o lugar onde se quer chegar.

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O Signo Dos Gatos

História dos Aristogatas, de 1976.

Trata-se de um mistério policial e de uma história de detetive, mas neste caso há poucas pistas que o leitor possa seguir para tirar suas próprias conclusões. É, na verdade, uma paródia e uma crítica aos velhos clássicos da literatura do gênero.

O ratinho Roquefort, amigo dos gatos, é um detetive mais ou menos no estilo do Zé Carioca. Ele vai seguindo as poucas pistas que tem e chegando às suas próprias conclusões – que parecem boas à primeira vista – mas que podem ou não corresponder à realidade dos fatos.

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O comentário dos gatos, de que ele resolveu o mistério “sentado em uma velha poltrona” é uma referência aos grandes detetives da ficção, como Hércules Poirot ou Sherlock Holmes. Mas as pessoas já estão tão acostumadas com esses personagens clássicos que se esquecem de que eles, e os crimes que eles investigam, são ficcionais e cuidadosamente orquestrados para chegar às conclusões que vemos ao final dos livros.

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O autor da ficção (tanto da clássica quanto da paródia) não está narrando um caso real, mas algo inventado, e é ele quem decide o que vai acontecer, ao seu bel prazer e para servir aos seus propósitos, principalmente o de entreter o leitor.

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O Misterioso Capitão Do Pérola Negra

História do Zé Carioca, de 1973.

O Zé certamente tem um jeito bastante particular de tentar encontrar trabalho. O surpreendente é que às vezes é o trabalho que encontra o Zé. Não que isso seja sempre uma coisa boa, é claro. Hoje, o “contratante” é ninguém menos que o Mancha Negra.

Assim, para começar, tudo o que diz respeito ao vilão tem a ver com “borrões”, que é sinônimo de “manchas”, ou com outras referências à cor preta. Desde o nome falso, de “Capitão Borrão”, que ele escolhe para se apresentar, passando pelo nome do navio, Pérola Negra, e até a ilha do tesouro, chamada Ilha da Borrasca.

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“Borrasca” certamente começa com “borr”, como “borrão”, mas na verdade é sinônimo de tempestade, um temporal com ventania violenta e de pouca duração. Em todo caso, está valendo o jogo de palavras.

Já o nome que o Mancha escolhe para o navio que roubou seria usado novamente décadas mais tarde pela franquia “Piratas do Caribe”, também da Disney, aliás. Coincidência?

E desta vez o tesouro existe de verdade! Mas, é claro, ninguém ficará com ele. O Mancha certamente não pode, porque é bandido, e o Zé porque, se ele ficar definitivamente rico, que graça isso vai ter?

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Hoje temos também uma primeira versão da origem do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé. Ao contrário do que vemos em “O Gazéteiro”, já comentada aqui, onde ele acompanha o Zé desde menino, nesta história o cãozinho acaba de ser encontrado perambulando pelo cais do porto. Ele é informalmente adotado quando resolve acompanhar seus novos amigos em sua soneca sobre as sacas de café.

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Mas se notarmos bem, veremos que este Soneca tem a pelagem cinza, enquanto na maioria das outras histórias o bichinho tem a pelagem castanha, ou até branquinha (em “Morcego Verde Ataca Novamente”, também já comentada aqui). Vai daí, e deduzo que o Zé simplesmente vai dando o nome de “Soneca” a todos os cãezinhos que vai adotando ao longo da vida e que, admiravelmente, têm essa característica dorminhoca.

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