O Vale Dos Desaparecidos

História do Pena Kid, de 1975.

As histórias do Pena Kid buscam divertir não apenas pelo humor da comédia do absurdo, mas também pela sátira dos clichês dos filmes de faroeste. Me parece, inclusive, que os quadrinhos e o cinema, que surgiram mais ou menos na mesma época, eram uma inspiração um para o outro, “emprestando” clichês de lado a lado.

O título da história vem de um seriado com temática de faroeste dos EUA dos anos 1940. Ele é tão antigo, na verdade, que naquele tempo era exibido nos cinemas.

Um exemplo de clichê dos filmes e quadrinhos clássicos que tem sido usado até hoje, com poucas variações, é o do medalhão. Em tempos muito anteriores aos exames de DNA, uma joia de família ou outro objeto pessoal passado de uma geração a outra poderia ser uma das poucas evidências que se poderia usar para tentar identificar um suposto parente, com todas as desvantagens que isso acarretava. O problema é que isso foi tão explorado nos melodramas como solução rápida e fácil, que rapidamente ficou cansativo.

pk-vale

Quanto à interpretação por papai do nome do vale em questão a situação começa bem prosaica, como apenas mais uma desculpa do Peninha para cochilar durante o expediente, e vai ficando cada vez mais elaborada à medida que a insatisfação do Tio Patinhas com a condução do roteiro vai aumentando. Mas isso não quer dizer que as sucessivas soluções encontradas pelo Peninha para os desaparecimentos não vão ser menos clichê (e absurdas) do que o resto.

pk-vale1

As sucessivas reviravoltas ilógicas introduzidas por papai vão deixando a história cada vez mais caótica. A mensagem que ele tenta passar é a de que se, por um lado, um pouco de confusão é algo bom, uma situação absurda demais pode transformar até o mais sério dos filmes de faroeste em uma comédia. Um delicado equilíbrio é necessário para fazer a história “funcionar”, mesmo em situações declaradamente satíricas. Já o uso do “Peninha Quadrinista” dava a ele uma liberdade de brincar com os elementos das histórias em quadrinhos que ele não tinha com outros personagens mais tradicionais.

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

 

Anúncios

A Explosão Do Pavio Curto

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

O Metralha Pavio Curto é mais um daqueles primos obscuros que papai criava, ou importava de histórias estrangeiras. Como não encontrei mais nenhuma referência a ele nas lista de personagens do Inducks, quero crer que ele é criação de papai.

Ele é similar ao “Primo Meio Quilo”, no sentido de também ser um “baixinho invocado”. Tenho a impressão que esta associação entre homens de pouca estatura e uma tendência à ira, que se traduz no Transtorno Explosivo Intermitente, vem do folclore dos pátios de colégio, onde meninos de baixa estatura eram frequentemente zoados como parte de processos de bullying. Geralmente espera-se que os homens sejam altos e fortes ,assim como se espera que mulheres sejam impecavelmente belas e delicadas. Um homem baixinho foge ao ideal, o que o torna, na cruel sociedade infantil, alvo de represálias.

E este é bem o temperamento do “Pavio Curto”: ele tem a inteligência emocional de um menino de 10 anos de idade, e a capacidade de raciocínio (limitada, diga-se de passagem) de uma criança ainda mais nova. É o menino que só fica quieto, em sala de aula, depois que a professora cola uma estrelinha dourada em seu caderno, ou que faz birra no supermercado até ganhar um doce da mãe. Não tem tolerância alguma à frustração, e reage violentamente à menor provocação. Infelizmente, pessoas com esse tipo de limitação também podem ser facilmente manipuladas, e é isso que os Irmãos fazem, em um plano de assalto:

Metralhas pavio curto

A denominação “Pavio Curto” vem das bombas de antigamente, que eram constituídas de algum objeto dentro do qual se colocava pólvora ou dinamite. Para que ele explodisse, era preciso atear fogo no explosivo, mas pobre de quem tentasse encostar um fósforo na coisa. Não haveria tempo algum para sair correndo e escapar  aos terríveis efeitos destrutivos da explosão.

Assim foi criado o pavio, como um longo cordão embebido em material inflamável, que permitisse ao acionador da bomba ter tempo para se distanciar. O problema é que, em situação de guerra, por exemplo, o comprimento desse pavio era de importância crucial: se fosse longo demais, os inimigos também teriam tempo de fugir, ou pior, desativar a bomba e confiscá-la para uso próprio. Já se fosse curto demais, a bomba explodiria muito rapidamente e o próprio bombardeador poderia se ferir no processo. O maior problema, portanto, era calcular um comprimento de pavio que fosse adequado à situação.

Não se sabe exatamente quando, mas depois de algum tempo essa técnica de guerra acabou sendo associada a certos tipos de temperamentos, especialmente os particularmente irascíveis, por similaridade.

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix