Um pouco de História da Arte

Comentar as histórias do meu pai tem sido muito divertido, ao longo de todo esse tempo desde maio de 2013, mas o que eu talvez tenha deixado escapar é que existe uma lógica por trás dessa “bagunça organizada” e que, na verdade, mesmo sem saber, ao cursar Artes Plásticas (Belas Artes – teoria – e Oficinas de Arte – prática) na Universidade de Haifa em Israel eu estava me preparando justamente para isto.

Então, agora que este blog está chegando em sua reta final (tenho histórias Disney para somente mais uma semana, e depois vou diminuir bastante o ritmo com as “não-Disney” restantes) permitam-me elaborar um pouco sobre de onde eu venho em História da Arte e sobre como o que eu aprendi em Haifa é usado aqui.

O método de estudo de História da Arte ensinado na minha época se chamava “arte comparativa”, e consiste em examinar uma obra de arte à luz de outras (por isso vocês me viram muitas vezes citando outras histórias semelhantes de meu pai ao comentar uma delas, ou buscando tão ativamente as referências das fontes de inspiração para elas).

Por exemplo, vamos hoje examinar alguns dos meus quadros prediletos de uma série de grandes mestres, tentar entender como eles se relacionam entre si, de onde buscam suas inspirações e como podem ser na verdade “lidos” como cartas.

O primeiro quadro que eu gostaria de comentar é a Vênus de Urbino, concluído em 1538 pelo mestre Ticiano. Ele, por sua vez, se inspirou na Vênus Adormecida de Giorgione, e acabou inspirando a Manet, já no século XIX (mais sobre isso adiante).

Este quadro é um presente de casamento, uma obra privada que não era destinada à visitação pública em um museu, e apresenta a recém casada em seus últimos momentos como virgem, deitada em seu leito nupcial à espera de seu noivo.

Apesar da sensualidade da obra, tudo nela inspira paz e demonstra “domesticidade”: é a Deusa Vênus da mitologia grega, em toda a sua gloriosa sensualidade, devidamente “domada” pelo casamento Cristão. O lençol branco representa a sua “pureza nupcial”, e o vermelho logo abaixo simboliza a defloração que logo virá. As mulheres ao fundo estão arrumando os baús do dote da noiva (provavelmente desfazendo as malas que ela trouxe da casa do pai dela para sua nova morada) e ela tem, aos seus pés, um cachorrinho adormecido que é o símbolo da fidelidade e paz conjugal.

Nada nela vai contra as crenças estabelecidas, e ao dar o nome de “Vênus” à moça deitada, o pintor faz o possível para distanciá-la de nós no tempo e no espaço e transformar esse corpo nu em uma alegoria, em algo quase não-físico, justamente para não causar escândalo. Não é uma “mulher pelada”: ela é um símbolo da harmonia conjugal que se espera de todo casal. E, naquele tempo, todos acreditavam nesse conceito piamente, como a verdade absoluta.

O próximo quadro parece inocente, mas não é. Concluído em 1767 por Fragonard e de nome O Balanço, ele esconde uma riqueza de detalhes que parecem sem sentido para o observador casual, mas que são bastante significativos para quem sabe vê-los com os olhos certos.

A princípio se percebe só a moça. Mas se observarmos bem, veremos que ela está oscilando entre dois homens: um, mais velho, nas sombras atrás dela, controla o balanço por “rédeas”. Ele pode simbolizar o marido, ou a instituição do casamento. Na frente dela, entre os arbustos, vemos o amante, um rapaz bem mais novo, que se empolga olhando para dentro das dobras da saia dela. Aos pés do homem mais velho, meio escondido entre a folhagem e disfarçado por ela, vemos o “cachorrinho da fidelidade conjugal” latindo, desesperado. Do outro lado, a sandália que voa do pé simboliza os valores morais “soltos” da moça.

Este quadro (e também o Ticiano acima) na verdade conta uma história. Ele é quase um quadrinho de uma história em quadrinhos: a mensagem que ele passa é a de que o adultério pode parecer divertido, mas terá consequências terríveis para a mulher já que, naqueles tempos, havia um castigo para as condenadas pelo “crime de adultério”. Esse castigo era “balançar na ponta de uma corda”, enforcada. E isso, amigos, é o que o balanço simboliza.

E ele também não desafia o “status quo”, mas sim tem a intenção de ser uma “parábola moralizante” para a “educação” das mulheres mais jovens. O escândalo que ele evoca é tanto, que a moça em questão nem precisa estar nua. Mas até aí, ela não é nenhuma figura da mitologia: o que ela representa é uma mulher de carne e osso.

Essa tendência de fazer de cada quadro uma “narrativa moralizante” continuou pelos séculos seguintes: um quadro deveria contar uma história “educativa” e os nus, se presentes, nunca representavam pessoas de carne e osso, mas ideias e ideais “materializados” em figuras alegóricas ou mitológicas.

É o caso, por exemplo, de A Liberdade Guiando o Povo, de 1830, pintado por Eugène DelacroixEsse quadro é o que se chama de “alegoria”, e nem de longe pretende representar um campo de batalha real ou histórico.

Você, leitor, está vendo os lindos seios desnudos da moça com a bandeira, delicadamente pintados em sua modelagem ligeiramente cônica e quase sem mamilos? Então: esse é o jeito que o pintor achou de representar a “liberdade”. (Aliás, qualquer mulher que já chegou em casa, depois de um dia de trabalho duro, morrendo de vontade de tirar aquele sutiã apertado que a incomodou o dia inteiro em nome da estética e do bom convívio social sabe do que eu estou falando). Mas não há nenhuma intenção sexual, aqui: não é uma deusa da sensualidade, não é nem mesmo uma mulher soldado, já que isso não existia naquela época. A nudez dos seios representa somente a liberdade, e só isso.

Mas é agora que as coisas começam a ficar realmente interessantes: com o tempo, e especialmente a partir da segunda metade do século XIX, toda essa ideia do nu feminino como uma “alegoria” já estava bastante desgastada. A sociedade como um todo já não era assim tão inocente nem ingênua, e esse moralismo todo passou a ser usado para tentar disfarçar uma percepção cada vez mais livre da sexualidade por parte do público.

Todo mundo já tinha perfeita consciência do valor erótico da representação de um corpo nu em um quadro, mas ninguém queria dar o braço a torcer e ser o primeiro a reconhecer que ia às exposições de arte só para ver imagens de gente pelada penduradas pelas paredes. É a isso que se chama “hipocrisia puritana”. Assim, os pintores convencionais tentavam servir ao seu público mantendo esta cada vez mais mal disfarçada aura de “inocência” em suas obras, “tingindo” seus nus com um mero verniz de mitologia.

É nesse ponto que chegamos a Alexandre Cabanel e O Nascimento de Vênus, de 1863.

Retirados os querubins alegóricos com seus quase inocentes pipizinhos pendurados no ar e o óbvio pano de fundo marinho sobre o qual a modelo está deitada, resta pouca coisa, além da pele extremamente alva e da total falta de pelos corporais, para criar uma “narrativa” que convença o espectador de que ele está vendo uma figura mitológica e o transporte para um outro tempo e lugar. A impressão que se tem é a de que nem o pintor acredita mais nisso. A técnica de pintura, aliás, pouco faz para disfarçar a sensação de que a “deusa” está na verdade deitada sobre um tablado e que as pedras são nada mais que almofadas. É uma mulher pelada disfarçada de deusa, só isso.

O ano de 1863, aliás, representa o ponto de virada nessa situação: por um lado, desde 1667 a academia de artes estatal do governo francês organizava o “Salão de Paris“, uma prestigiosa exposição anual de artes que pretendia mostrar ao público a mais sublime produção dos mais excelentes artistas da França. Qualquer pintor ou escultor que quisesse ser reconhecido, bem visto, ou pelo menos vender umas obras, tinha obrigatoriamente que fazer parte dele, ou não seria “ninguém”. Ser recusado pelo salão era uma humilhação pública, um atestado oficial da “falta de qualidade” da sua arte. Um desastre. O quadro acima, aliás, fez parte do salão de ’63.

O problema é que a Academia Francesa de Belas Artes estava “engessada” nesse modelo puritano, e o chefe da coisa toda (nem me peça para lembrar o nome dele) era um chato que odiava as vertentes de vanguarda que estavam surgindo, e começou a boicotar ativamente aos realistas e (especialmente) impressionistas da época.

Assim, após fortes protestos e pressões por parte dos artistas boicotados, o imperador Napoleão III organizou o Salão dos Recusados como uma forma de acalmar os ânimos. A princípio visto como uma piada, um monte de “panos quentes”, a verdade é que o salão dos recusados acabou superando o oficial e se tornando o padrão das exposições de arte a partir daí.

Mas a coisa começa a ficar realmente boa agora: recusado em 1863 pelo salão oficial com seu quadro O Almoço sobre a Relva, que foi exposto no salão alternativo já mencionado acima, Édouard Manet em 1865 “emplacou” Olympia, que o salão oficial foi praticamente obrigado a aceitar para afastar acusações de discriminação contra o artista.

Apesar de seu nome, que evoca o Monte Olimpo e seus deuses, Olympia não é nenhuma deusa. Ela não é uma ninfa da mitologia, e não personifica altos ideais como a pureza e a liberdade. Olympia é um tapa na cara da hipocrisia puritana da época.

Inspirada no primeiro quadro que eu mostrei, sua iconografia e simbologia é cuidadosamente estudada para subverter a ideia da Vênus de Urbino e trazê-la para a verdade nua e crua dos “boudoirs” (ou salas privativas) de Paris do século XIX.

Alguns elementos são mantidos, como os lençóis em branco e vermelho, representando a pureza e o sexo, mas a eles é adicionada uma colcha em brocado dourado, representando o dinheiro (misturazinha explosiva, essa, cujo significado não foi perdido pelos visitantes do salão). Os adornos da moça, como a fita de veludo preto no pescoço e a pulseira no braço, são coisas muito comuns da época em que este quadro foi feito.

As empregadas ao fundo são substituídas pela serviçal negra com o maço de flores ao pé da cama (quem enviou essas flores? e por quê? e será que só a negra é uma “escrava”?). Para os pés da moça, Manet adotou a “sandália voadora” de Fragonard, que ele coloca displicentemente jogada aos pés dela.

Mas se, em Fragonard, há uma narrativa clara que conta uma história em uma imagem só, aqui muita coisa (e há quem diga “coisa demais”), foi deixada de fora da narrativa, para o observador adivinhar. E não se esqueça, leitor: a maldade sempre está nos olhos de quem a vê.

E o “cachorrinho da fidelidade”, coitadinho, nem está mais lá: foi sumariamente substituído por um filhote de gato preto arrepiado que, como a moça sobre o divã, encara o observador de seu cantinho escuro quase fora da tela, logo depois das chinelas da infidelidade.

Olympia, aliás, não tem tem nada da meiguice recatada da noivinha de Ticiano: ela olha diretamente nos olhos do espectador enquanto desafiadoramente tapa seu próprio sexo com a mão, fazendo com que ele se sinta quase nu, também, como se estivesse na mesma sala que ela e expondo-o à condição de “cliente” dela na frente de todo mundo, de toda a nata da sociedade parisiense que veio ver o salão, e que tentava desesperadamente esconder sua paixão impura pelas prostitutas de luxo que adorava visitar.

Foi um escândalo! Foi pior do que o “homem pelado” no MAM! E olha que naquele tempo eles não tinham Internet, mas nem precisou. Uma vez aceito pelo salão o quadro não podia ser retirado da exposição, mas teve de ser mudado de lugar e pendurado lá no alto da parede, quase fora das vistas, para que não pudesse ser vandalizado.

Finalmente, para adicionar a pá de cal sobre o puritanismo francês, Courbet pintou, em 1866, A origem do Mundo, que basicamente e de maneira bem didática nos mostra de onde viemos de acordo com a ciência: não de Deus, não de um paraíso bíblico hipotético, mas do ventre de uma mulher.

Não é o Nascimento de Vênus, nem em suas formas mais sinceras, e nem nas mais decadentes: é a biologia, pura e simples, “esfregada na cara” do observador.

Bônus: dois vídeos didáticos da Khan Academy, um sobre Olympia e o outro sobre O Almoço sobre a Relva.

E um último conselho: não precisa ser no Musée d’Orsay, mas pegue os seus filhos e leve-os para ver “gente pelada” no museu mais próximo. Pode ser a Pinacoteca do Estado (que, se eu entendi certo, vai estar com entrada franca de 12 a 15 de outubro agora), ou o MASP, ambos em São Paulo.

Como exercício, tentem analisar, juntos, quais nus representam alegorias, como ideias, deuses e seres mitológicos, e quais são “só” gente nua. Para facilitar, muitos nus clássicos mostram pessoas em atitudes aceitas e assexuais, como no ato de tomar banho, por exemplo, e sem muita coisa realmente à mostra, ou com toalhas em lugares estratégicos.

Aproveitem também para explicar às crianças que uma exposição em um museu não é uma ameaça, mas que elas não devem ver gente pelada longe da supervisão direta dos pais. E o bônus: não é preciso nem falar com eles sobre sexo. É só mesmo o corpo humano como meio de representar outras coisas que não são só sexo.

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A Fazenda Modelo

História dos Irmãos Metralha, de 1981.

Uma “fazenda modelo”, por definição, é uma instalação agrícola cuja estrutura e métodos servem de exemplo (ou modelo) para outras. Há fazendas desse tipo que prestam serviços, como o de locação para festas e eventos, outras são centros de acolhimento de animais abandonados e outras ainda praticam várias formas de agricultura experimental.

A fazenda onde meu avô, pai de papai, trabalhou como engenheiro agrônomo em Tietê/SP e onde meu pai passou parte da infância era uma dessas fazendas experimentais nas quais árvores frutíferas de todos os lugares do mundo eram aclimatadas para cultivo em grande escala no Brasil.

Já a fazenda do Tio Patinhas, que será atacada hoje pelos Metralhas, é uma fazenda experimental em um sentido mais tecnológico: em mais uma “profecia futurista” de papai, todo o trabalho, do plantio à colheita, e incluindo os cuidados com os animais e a ordenha do leite, é feito por máquinas e robôs autônomos de tipos variados. As fazendas atuais, aliás, já estão quase lá, com muitas de suas atividades feitas por grandes máquinas.

Dentre essas máquinas todas o destaque vai para o robô gigante de nome Ciclópton, que serve de segurança do local. Assim, enquanto as outras são programadas apenas para trabalhar, mas não para se defenderem ou reagirem se forem atacadas, o robô de um olho só faz o “trabalho sujo” de montar guarda e lidar com ladrões.

Papai deixa claro que a referência é à mitologia grega e à lenda de Ulisses: durante a Odisseia, a épica viagem de volta para casa depois da guerra de Troia, o herói e sua tripulação vão dar com os costados em uma ilha habitada por gigantes devoradores de homens de um olho só chamados Ciclopes. Para não servirem eles também de comida de gigante, os marinheiros primeiro cegam o gigante, ferindo seu único olho, e depois se agarram aos carneiros criados pelo monstro para conseguirem sair da caverna onde estão presos.

Assim, o plano é usar disfarces de ovelha para tentar entrar na fazenda, na esperança de conseguir enganar o robô. Mas é só esperança, mesmo: é óbvio que o plano vai dar espetacularmente errado, para a diversão do leitor.

Esta história contém também uma das piadas recorrentes mais engraçadas que eu já vi nas histórias de meu pai: cada pessoa que tenta contar as ovelhas cai no sono imediatamente. Primeiro o Donald, e depois o Tio Patinhas. E se acordam e tentam contar as ovelhas de novo, caem no sono outra vez, todas as vezes. Isso, é claro, não é somente mais uma piada engraçada, mas terá uma função decisiva no desfecho da trama.

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A Nova Metralhópolis

História da Família Metralha, de 1981.

Esta é a segunda história sobre o tema. A primeira foi publicada em 1974, mas não tenho a revista na coleção. Em todo caso, papai faz aqui um resumo dela para o leitor: os Metralhas se mudaram para a antiga Metralhópolis para escapar da polícia, mas acabaram se dando mal por causa da mania do Vovô de roubar e depois esquecer. Já vimos que isso também foi usado em histórias como “Campistas Vigaristas”, entre outras.

A cidade de Metralhópolis não deixa de ser um conceito interessante. Afinal de contas, se existe Patópolis, que é a cidade dos patos, Gansópolis, para os gansos, e até mesmo uma Ratópolis na “região metropolitana” de Patópolis, é natural que outros grupos resolvam formar suas próprias comunidades.

Para tentar resolver o problema dos roubos em família, a nova regra da cidade é que não haja dinheiro entre eles, para que os “cidadãos” não se sintam tentados. A ideia é boa, não há como negar.

Mas o caldo começa a entornar quando surgem notas no valor de “quinhentos” (não fica clara a moeda, que tanto pode ser cruzeiros ou patacas patopolenses) rolando no chão. Em alguns quadrinhos aparece inclusive uma mão que disfarçadamente as joga entre os membros do bando. Portanto, não é coincidência. Este é o “Pomo da Discórdia” que dá início à queda de Nova Metralhópolis. (Em tempo: os deuses parecem ter um senso de humor dos infernos, especialmente quando se trata de avacalhar com os mortais, mas essa é outra história.)

Proposto o problema, papai começa a colocar pistas estratégicas da solução para o leitor atento. O interessante é que elas são tão óbvias que passam completamente despercebidas. Além disso, é preciso ter acompanhado toda a trajetória dos personagens e conhecer a família muito bem para matar a charada de primeira. Essa é para fãs de verdade.

Por fim, papai escancara para o leitor na forma da dedução do Sherlock Metralha, que aqui é usado como o “suspeito óbvio demais” dos grandes contos policiais, aquele que serve para desviar a atenção do leitor do verdadeiro culpado.

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A Receita Da Invisibilidade

História do Professor Pardal, de 1980.

O título original na lista de trabalho era “A Fórmula Da Invisibilidade”, o que faz muito mais sentido, mas o editor achou por bem mudar, sabe-se lá por qual motivo.

A inspiração vem da literatura, mais especificamente de uma novela de ficção científica escrita por H. G. Wells e publicada em capítulos em 1897, antes de ser lançada como livro no mesmo ano. Além disso, a história virou também filme em 1933, com várias sequências pelos anos 1940 adentro e nas muitas décadas desde então.

Ao longo dos séculos figuras mitológicas, magos e cientistas vêm procurando uma maneira de tornar coisas e pessoas invisíveis, seja por meio de “poções”, capas ou mantos, anéis, capacetes (como o de Hades, depois emprestado a Perseu) e outros objetos e métodos.

Aqui papai segue a linha de Wells, com o Tio Sabiá inventando uma fórmula (se fosse uma bruxa, poderia ser igualmente uma poção) que, quando fervida, produz um vapor que deixa invisíveis a tudo e a todos que toca. O efeito é tão forte que até a casa do inventor fica completamente transparente. Parte da graça da história é observar o Pardal trabalhando às cegas em um laboratório e com objetos que ninguém vê.

A tarefa do Pardal será encontrar um antídoto para ajudar o tio a voltar ao normal, enquanto enfrenta o Professor Gavião com a ajuda do Lampadinha para que a receita não caia em mãos erradas.

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Os Metralhas Olímpicos

História dos Metralhas Históricos, de 1982.

A poucos dias do início das Olimpíadas do Rio de Janeiro, esta história vem bem a calhar. Se bem que o termo “olímpicos”, aqui, está mais para “deuses olímpicos” do que “atletas olímpicos”. O que acontece é que o Monte Olimpo é a suposta morada dos deuses gregos, daí a alcunha “olímpicos”. E as Olimpíadas originais aconteciam na cidade de Olímpia, chamada assim em homenagem ao monte e aos deuses.

Mas não havia só deuses na mitologia grega: na verdade, para se tornarem deuses de pleno direito, eles primeiro precisaram lutar contra e derrotar seus próprios antecessores, os Titãs. Eles eram monstros enormes e bárbaros, eternos rivais dos deuses pela adoração dos seres humanos. Mas apesar de cruéis, os Titãs fizeram algumas benfeitorias aos humanos. A principal delas foi ensinar os mortais a usar o fogo, e é este o ponto de partida para esta história.

O interessante é que a civilização humana, de acordo com a mitologia grega, começa com um roubo. O Titã Prometeu rouba o fogo do Olimpo e ensina os humanos a usá-lo. É o domínio do fogo (saber fazer, manter aceso e usar para os mais diversos fins) que diferencia os seres humanos dos animais e nos aproxima dos deuses. Mas o semideus foi duramente punido por isso, sendo acorrentado a uma pedra para que uma águia devorasse o seu fígado durante o dia. À noite o órgão se regenerava, e na manhã seguinte lá estava a águia de novo. Era o tormento perfeito.

Outro simbolismo do fogo ligado ao Olimpo, aos deuses e às Olimpíadas é, obviamente, o da Tocha Olímpica. Aceso quase sem intervenção humana (sem ferramentas como as pedras de sílex mostradas nesta história), mas diretamente pelos raios do Sol concentrados em um espelho côncavo, ele era considerado a manifestação física do deus Apolo na Terra. Ver passar a Tocha era o mesmo que ver passar um deus.

Uma das piadas de papai nesta história é justamente com o nome do Titã, que em português soa como alguma coisa ligada a “promessas”. Na verdade não é bem isso. O nome significa “aquele que pensa antes (de agir)”. Ele tem um irmão, chamado Epimeteu, ou “aquele que pensa depois”, e os dois, juntamente com Pandora, esposa do segundo, são os criadores da humanidade.

Metralhas olimpicos

Uma grande sacada é a comparação entre o topo do Olimpo, morada dos deuses, e Bruxópolis. Quem conhece as histórias de bruxas criadas por ele certamente reconhecerá a placa. A diferença é que, aqui, a palavra “ogros” é substituída por “titãs e humanos”. Mas é o mesmo conceito.

Metralhas olimpicos1

Além disso, ele faz uma comparação entre Prometeu e o próprio Metralha 1313. E como essa coisa de devorar fígados não “cabe” em histórias Disney, papai é obrigado a “dar uma diluída” no mito. (Aqui, o condenado é só “chateado” por abutres.) O leitor atento vai notar que há uma leve confusão entre o romano Febo e o grego Apolo, coisa que papai tentava evitar ao máximo, mas nem sempre conseguia, naqueles tempos anteriores à internet e suas pesquisas instantâneas. Antigamente, a coisa funcionava na base da memória, mesmo, e ela às vezes nos prega peças. Em todo caso, ele não perde a oportunidade de ensinar um pouco de mitologia ao leitor.

Metralhas olimpicos2

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Olimpíadas No Olimpo

História do Peninha, de 1984, escrita e publicada por ocasião das Olimpíadas de Los Angeles, que aconteceram naquele mesmo ano.

Se, em 1972, o “Pateta Olímpico” representava as Olimpíadas da Era Moderna, a história que comento hoje nos leva de volta aos tempos da Grécia antiga.

O fato é que Zeus está entediado, lá no alto do Monte Olimpo, e Hermes, o mensageiro dos deuses, é enviado à terra abaixo para ordenar aos mortais que divirtam o deus supremo. Os escolhidos, mais por obra do acaso do que desígnio, e aliás bem em linha com as vertentes mais fatalistas do modo de pensar da Era Clássica, são o Peninha, em sua identidade como “Penóibos”, e seu sobrinho Biquinho, aqui chamado de “Bikinhos”. Os finais em “OS” são comuns em nomes e sobrenomes gregos até hoje, e muito usados também para fazer graça com eles.

Peninha Olimpo

O interessante é que existe mesmo, desde tempos antigos, uma cidade na base do monte, chamada Litókhoro. Era ali perto, aliás, que Alexandre O Grande e seu pai, o rei Felipe da Macedônia, faziam suas oferendas aos deuses.

Papai faz, aqui, um esforço usar apenas os nomes gregos dos deuses, mas que é muito fácil e muito comum que as pessoas façam confusão entre os nomes gregos e romanos dessas divindades. Alguns, como Hermes e Zeus, são mais conhecidos. Mas outros, como Hefestos e Apolo, podem ser mais facilmente identificáveis por seus nomes romanos. Era comum papai confundir um pouco, e usar o nome romano do deus do Sol em lugar do grego.

Peninha Olimpo1

Hoje vemos, também, uma espécie de “origem” da Companhia Teatral Peninha. Assim como há Metralhas em todas as épocas e civilizações, ao que parece há também diferentes “encarnações” da CTP.

Peninha Olimpo2

No final das contas, apesar de todas as confusões e bagunças da trama, que servem para divertir o leitor até mais do que aos deuses, esta é mais uma daquelas aulas informais de história que ele gostava de dar, com informações históricas corretas até o último detalhe, incluindo as datas. Nossa história começa no ano 780 antes de Cristo, e termina quatro anos depois, em 776 AC. Se isso causar estranheza a alguém, é preciso lembrar que os anos antes de Cristo contam-se de trás para frente, como uma espécie de “contagem regressiva”.

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A Mãe do Mato

História da Patrícia, escrita em março de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista Patrícia número 1 em outubro do mesmo ano.

Um dos temas que papai gostava de explorar para os personagens com os quais trabalhava era o folclore brasileiro, como lendas indígenas, por exemplo. Hoje temos a “Mãe do Mato”, que em alguns casos é apenas outro nome dado ao Curupira, mas que em Macunaíma, de Mário de Andrade, é caracterizada como uma Rainha Amazona, da tribo de mulheres indígenas que fez os exploradores europeus batizarem parte da região norte do Brasil em homenagem às Amazonas da mitologia grega.

Mas por ser uma história infantil, papai toma um terceiro caminho para este personagem, enquanto mantendo-se fiel à essência do mito, que trata de um espírito protetor da fauna e da flora contra a exploração predatória. Aqui, a entidade protetora toma a forma de uma enorme árvore animada que comanda outras árvores do mesmo tipo em um esforço para atrair a Patrícia até o centro da floresta e pedir socorro contra um madeireiro ilegal.

A prática denunciada pela Mãe do Mato de papai é, aliás, algo muito real e muito comum entre os madeireiros ilegais em nossas florestas.

Patricia Mato

A revista Patrícia 1 contém outras duas histórias escritas pela família: “Uma Charada Diabólica” é de autoria de minha mãe, Thereza Saidenberg, e trata de charadas e ditos populares com uma pitada de situação insólita.

Patricia charada

A outra história nesta revista com autoria conhecida é minha, “Robô Trapalhão”, criação de um personagem robô que causa confusão por causa de uma programação mal feita.

Patricia robo

Papai colocou as duas histórias em sua lista de trabalho por causa de pequenas correções e adaptações que fez (com a nossa permissão, é claro, afinal, esse era um trabalho em equipe) quando elas voltaram da redação para serem reformuladas.

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