Nem Vendo Se Acredita

História do Zé Carioca, de 1981.

Quando lê revistas demais do Morcego Vermelho, o Zé se transforma no Morcego Verde e sai dando os seus pulinhos pela Vila Xurupita. Se ele resolve um caso ou prende um bandido, é por mera coincidência, e hoje não vai ser diferente. “Diferente”, sim, e surpreendente, será o final da história.

Curiosamente, depois de criar o personagem, foram poucas as histórias de papai para ele. Em compensação, vários outros autores não hesitaram em adotá-lo, com resultados variados. Já o charmoso cachorrinho Soneca será mais uma vez um misto de narrador da história, assistente de super herói e cão de guarda.

A trama colocará o Zé “entre a cruz e a espada”, por assim dizer: de um lado, ele se vestiu de herói em uma tentativa de despistar a Anacozeca, que está atrás dele para tentar cobrá-lo. De outro, se vê às voltas com o vilão Tião Medonho, um enorme pássaro bicudo de dois metros de altura e máscara ao estilo Irmãos Metralha que detesta heróis.

A cada vez que ele consegue fugir de um, é (quase) capturado pelos outros, e vice-versa. E é nesse acidentado “pingue-pongue de herói” que a história vai caminhando para o seu desfecho.

Interessante é a menção ao Brejo da Tijuca, para onde o Zé foge de seus perseguidores. Mais uma vez, papai demonstra seus conhecimentos sobre o Rio de Janeiro e tenta ensinar alguma coisa ao leitor. Quando se pensa nessa região da Cidade Maravilhosa, o mais comum é lembrar da Floresta da Tijuca, ou da Barra da Tijuca. Mas a verdade é que o nome do local, de origem indígena (“TY YUC”), significa “água podre, charco ou brejo”, e se refere às lagoas da atual Barra.

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Invasores e Cobradores – Inédita

História do Zé Carioca, composta em 19 de julho de 1993 e nunca comprada ou publicada.

Ela na verdade se parece um pouco com a história chamada “Os Invasores”, de 1984, já comentada aqui, que foi a última história deste tipo escrita por papai e publicada oficialmente.

Mais uma vez, depois de muito conspirar, os perigosos alienígenas transmorfos resolvem colocar em prática seu plano maligno de invadir a Terra. Novamente, eles vão pousar justamente na Vila Xurupita. E de novo, se deparam com o Zé e o Nestor, e tomam a aparência e o lugar deles. Além disso, como sempre, eles não têm a menor capacidade de entender a cultura e os costumes, e se acham superiores a todas essas coisas “primitivas”.

Para complicar, papai reabre a “Escola de Heróis” e ainda por cima convoca os cobradores da Anacozeca, só para chatear. Como se não bastasse, ao que parece, está todo mundo sem dinheiro na Vila, porque a cada vez que os terráqueos avistam notas “dando sopa” é um deus-nos-acuda. E como se tudo isso não fosse o suficiente para criar a maior confusão e fazer o leitor rir, papai usa liberalmente uma cacofonia de palavras e onomatopeias de sons terminados em “um”, como “fium”, “zum” e outros, que só adicionam à confusão e à graça da coisa toda.

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É uma espécie de “apanhado” e “concentrado” final das outras histórias da série, a tentativa de invasão definitiva, a invasão para acabar com todas as invasões. Interessante é a similaridade das cenas onde o invasor disfarçado de Zé enfrenta os Anacozecos. É só pena que voa.

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Heróis que não tão no gibi – Inédita

História do Zé Carioca, de 10 páginas, composta em 10 de abril de 1993 e nunca publicada.

A trama começa simples, boba até, e vai se complicando rapidamente, quase que de um quadrinho ao outro. O Zé se disfarça para despistar um cobrador, mas acaba espalhando boatos sobre um bandido e uma recompensa, e acaba alvoroçando a turma toda.

A história chegou a ser enviada à redação para avaliação, e foi devolvida com várias marcações, que podem ser vistas em azul em algumas das páginas. As “sombras” do lápis apagado em alguns balões mostram que ele chegou a fazer reformulações, talvez até mesmo durante o processo de criação, ou como preparação para tentar uma nova avaliação.

Ela foi devolvida também com uma folha de rosto contendo comentários mais detalhados, mas papai não costumava guardar esse tipo de coisa. Ele sabia que fazia parte do trabalho, mas não gostava nadinha delas, e seguia a máxima de Chico Buarque, de quem era fã: “todo artista tem que tomar as críticas como se fossem tapas na cara”. O fato é que alguns tapas podem até servir para (ou ter a intenção de) fazer uma pessoa despertar, cair em si e entender algo, mas todos doem e alguns até ofendem.

Sobre as marcações em si nesta história, algumas servem para lembrar papai de detalhes como o nome da “identidade secreta” do Zé Galo, por exemplo, ou citar referências, e outras servem como revisão de texto para palavras repetidas sem necessidade.

Mas com uma em especial eu não concordo. Ela está no topo da segunda página, acusando a repetição da frase “grande novidade”. É que cada balão tem um tom: no primeiro, o Nestor não está nada animado com a ideia de um bandido estar escondido na vila. Já no segundo, ele fica animadíssimo ao ouvir falar de recompensa.

Uma última anotação, na página 9, expressa um certo desconforto com o nome da “identidade secreta” da Gilda. Papai quis fazer uma brincadeira com o personagem de capa e espada Zorro mas, realmente, a expressão “Zorra” fica meio estranha. Hoje um pouco menos, por causa de certos programas de TV, mas creio que há 23 anos essa palavra não era tão comum de se ouvir.

Digno de nota é o uso do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé, que só papai realmente soube usar. Também interessante é a abordagem bastante “feminística” do finalzinho. Papai estava começando a pegar o jeito dos novos tempos.

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A Bruxa Que Só Falava Abóbora

História do Morcego Verde, de 1984.

Na época em que esta história foi criada, em Janeiro de 1982, havia surgido uma gíria nova entre os jovens que rapidamente virou mania nacional: “falar abóbora”, ou “falar abobrinhas”, virou sinônimo de “dizer besteiras”, ou não fazer sentido nenhum. Essa gíria estava sendo usada por toda parte, do pátio da escola aos programas de televisão e, como reflexo da sociedade que são, os quadrinhos não poderiam ficar alheios.

Quem quisesse parecer atualizado e “antenado” com as tendências culturais da época era quase obrigado a usar a tal gíria, sob pena de parecer “careta”. Assim, papai resolveu adotá-la em uma história ou duas, meio como “exercício em atualidade” e meio para, quem sabe, atrair mais alguns leitores dentre a “juventude descolada” da época.

O Zé andou lendo as revistas do Morcego Vermelho novamente, e resolveu sair por aí com sua capa verde, aprontando. Por sorte dele, o cachorrinho Soneca não desgruda de seu mestre, mais ou menos como o cãozinho da carta de Tarot “O Louco” (em inglês, “O Tolo”), salvando-o repetidas vezes das enrascadas e tropeços nos quais o papagaio se mete.

Tarot Louco

Já sabemos que a identidade do Morcego Verde não é segredo para ninguém. Quer dizer, só o Afonsinho ainda não desconfiou. Ele sempre trata o Zé fantasiado como a um verdadeiro herói e, quando uma bruxa de verdade, dessas de vassoura e tudo, invade sua quitanda, não hesita em ir pedir ajuda.

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É aí que entra o tema “abóboras”: ela (que não é nenhuma das bruxas mais conhecidas do leitor) está procurando pelo vegetal entre as muitas frutas e verduras do Afonsinho, pelos motivos dela, e só fala sobre isso, como uma ideia fixa. Para piorar, é tão míope que não enxerga um palmo à frente do próprio bico. Mas como toda bruxa que se preza, é ávida por lançar feitiços e transformar pessoas.

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Apesar de a gíria em si não ter sido usada exatamente de acordo com o seu sentido “clássico” (papai inconscientemente enveredou por um caminho mais conhecido, o da associação de bruxas com abóboras, Halloween e transformações no estilo Cinderela), a confusão que se cria é grande, e o leitor terá motivo de sobra para rir das desventuras do nosso desastrado aspirante a herói e seus amigos.

http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Escola De Heróis

História do Zé Carioca, de 1984.

“Quando está muito duro, mas muito duro mesmo, o Zé Carioca resolve dar duro”. As palavras de abertura da história descrevem muito bem a personalidade do Zé, que tem fama de folgado, mas que sabe trabalhar (ou algo parecido) quando precisa muito.

O Inducks nos informa que esta seria a última história de papai pela Editora Abril (provavelmente como contratado), mas já vimos que ele continuou escrevendo com menos frequência até 1988, como freelancer.

A história é bem criativa, e os novos heróis criados, hilários. O mais engraçado deles é o alter Ego do Afonsinho que, fantasiado de “Pato Aranha”, consegue escalar paredes após “tomar aulas” com uma lagartixa. Ao que parece o bobinho do Afonsinho é tão sugestionável que consegue convencer a si mesmo que é capaz de fazer qualquer coisa. Se o Zé Morcego Verde tivesse dito a ele que o ensinaria a voar, ele estaria voando só com o poder da mente. Além disso o Pato Aranha chega, inclusive, a usar o bordão “Bandidos Tremei” do Morcego Vermelho, o que só adiciona mais graça ainda à coisa toda.

Pato Aranha Afonsinho

Os outros heróis criados para esta história são o Robin Nestor, o Rei das Selvas Pedrão e o General América Zé Galo. A confusão fica completa com a presença dos cobradores da ANACOZECA, já que o Zé cobrou dos amigos pelas aulas e está com dinheiro no bolso.

O preço do curso, aliás, cinco mil Cruzeiros, pode soar salgado para os ouvidos atuais. Mas é só quando o Zé se refere ao preço pago pelo Zé Galo (10 mil) como “Dez Barões” que percebemos que não era tanto assim. Naqueles tempos de inflação galopante, 1000 unidades da moeda tinham o poder de compra de uma só. Tudo era precificado aos milhares de Cruzeiros.

Para uma “última” história, esta ainda se parece bastante com um “auge de carreira”, para mim. É uma pena que esses 10 anos de Disney tenham passado tão rápido, e terminado tão bruscamente. Se apenas as coisas tivessem sido diferentes, papai ainda teria décadas de boas histórias para criar.

Em 1993, com a retomada da colaboração, lá de Israel mesmo, papai voltaria ao tema da Escola de Heróis, em uma história ainda inédita:

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Penado, O Espírito Que Desanda

História do Pena das Selvas, publicada em 1984.

Este é um alter-Ego “duplo”, quer dizer, é um alter-Ego do Pena das Selvas, que é um alter-Ego do Peninha. A ideia é que, assim como o Peninha se transforma no Morcego Vermelho, o Pena das Selvas se transforme em Penado, o Espírito que Desanda. Só que, bem no estilo do Morcego Verde, alter-Ego do Zé Carioca, todo mundo sabe quem ele é.

Trata-se, é claro, de uma paródia de um clássico dos quadrinhos dos anos 1930: Fantasma (The Phantom), o Espírito que Anda. O trocadilho aqui é com a palavra “alma penada”, que também é sinônimo de fantasma. Até o uniforme do nosso “genérico” é parecido com o original, além de vários outros elementos “emprestados”, como o lobo que acompanha o herói, e nomes como Guran, o chefe dos pigmeus e amigo do Fantasma.

O caldo aqui começa a engrossar quando o bruxo-doutor da aldeia reconhece o Pena das Selvas fantasiado como uma figura mítica que é esperada há séculos, e passa a tratá-lo de acordo, ao ponto dos nativos amigos do pato também passarem a acreditar que o Pena realmente se transformou.

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Como não poderia deixar de ser, uma história de um personagem nesse estilo não seria completa sem a presença de piratas (aqui com a participação especial do Capitão Gancho e sua tripulação), e da indefectível mocinha em apuros, uma certa Diana Palmeira, inspirada na Diana Palmer, namorada do Fantasma original.

O resto são as hilárias trapalhadas de praxe. Tantas, aliás, que o Pena logo desiste da ideia de “encarnar” o Penado algum dia novamente.

Penado piratas

Morcego Verde Ataca Novamente

Publicada pela primeira vez em 1976, esta história do Morcego Verde é uma boa comédia de erros.

“Sob a influência” das revistas do Morcego Vermelho, e desesperado para bancar o herói e ajudar alguém, o Zé (digo, o Morcego Verde) acaba aprontando a maior confusão no cais do porto.

A participação do super charmoso Soneca, que nesta história está acompanhando o Nestor, é quase um cameo, uma “pontinha” apenas, mas sua presença é uma constante em todas as histórias de papai para este personagem.

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Mas o que torna esta história interessante, não está na trama nem na participação do Soneca. Está nos detalhes.

Um exemplo é a constatação do Zé, no início e no final da história, como uma profecia que se realiza a si mesma, que “os heróis não têm o mesmo cartaz de antigamente”.

Outro detalhe engraçadíssimo está na “estratégia de marketing” e nas plaquinhas ao redor da banquinha do Zé, tanto no início como no final.

Coisas como “ganhe uma flâmula” (algo que foi bastante usado no passado pelo comércio na vida real, até que ficou tão “batido” que foi abandonado) e “só até sábado” (essa muito usada até hoje) são exemplo das campanhas publicitárias mais sem imaginação do mercado. Já “limonada grátis” chega a ser coisa de criança, de tão bobinho.

MV ataca

Mas a maior piada da história, para mim, é a tabela de preços no último quadrinho “rua errada”, sinceramente, “não tem preço”.

Soneca placa