Zé Bombeiro

História do Zé Carioca, de 1978.

Ao contrário do Donald e do Gastão, quatro anos antes, o Zé não se torna bombeiro voluntário por vaidade, ou somente para impressionar a namorada. Mas isso não quer dizer que ele esteja realmente afoito para combater muitos incêndios. Como quase sempre, ele se coloca na situação por falar demais.

Em todo caso, uma vez eleito, ele sinceramente e de boa vontade faz o melhor que pode e acaba ajudando de verdade a prender um incendiário piromaníaco que resolveu atacar o morro, mesmo sem conseguir sequer pronunciar a palavra “piromaníaco” direito. Ainda assim ele é parabenizado pelo chefe dos Bombeiros, que não é um chato como o chefe do Donald e do Gastão.

Interessante é a “Mansão do Nestor”, uma criativa barrica transformada em casebre. Isso me lembra vários contos de fadas que começam com pessoas que são tão pobres, mas tão pobres, que moram em velhas barricas. Há também a lenda do filósofo Diógenes, que também, dizem, morava dentro de um barril para expressar seu desprezo pelas riquezas materiais. Assim, nosso amigo corvo está em boa companhia na escolha de sua moradia.

Outra coisa legal desta história são os nomes de alguns coadjuvantes que papai inventou para terem seus barracos incendiados: João Cebola (assim como a casa do Zé parece ser feita de caixotes de sabão, será que a desse personagem é feita de engradados de cebola?), Toninho Estilingue e Chico Rapadura, além, é claro, do vilão Zé Foguinho. Todos eles são personagens de uma história só.

Enquanto isso, discretamente e nas entrelinhas, papai vai descrevendo a vida na favela mais alta do morro mais alto do Rio de Janeiro: falta água encanada, o que torna a mangueira emprestada ao Zé inútil, e também não há eletricidade que possa causar um curto circuito para iniciar um incêndio. São realmente condições bastante precárias de vida.

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Ora, Pipocas!

História do Zé Carioca, escrita em dezembro de 1976 e publicada pela primeira vez em março de 1978.

Ela segue a mesma linha de outra, chamada “Zé da Venda” e já comentada aqui, escrita poucos meses antes no mesmo ano de 1976. A trama também é parecida: precisando de um dinheiro, o Zé resolve abrir um pequeno negócio no qual não precise trabalhar duro demais.

Apesar de (ainda) estar creditada ao Julio de Andrade, a presença do nome da história na lista de trabalho e da revista na coleção não me deixam dúvidas. Além disso, papai também adorava uma pipoca feita na manteiga, gosto esse que “deu” ao Zé.

Outra pista é a presença do personagem Zé Gaivota, um marinheiro criado por papai e usado só por ele como uma espécie de “conhecido” da turma do Morro do Papagaio. A função do personagem é aparecer de vez em quando meio assim do nada, apenas passando pela rua, e interagir de alguma maneira. Por ser marinheiro ele viaja muito, o que justifica as longas ausências, e por ter uma profissão e um emprego, ele tem a vantagem de sempre ter algum dinheiro no bolso.

Quer dizer, vantagem, em termos. Ele inclusive já emprestou o dinheiro para o Zé abrir a famosa venda, mas hoje vai tentar comprar dois saquinhos de pipoca de dois Cruzeiros cada com uma nota de quinhentos Cruzeiros.

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De trapalhada em trapalhada, de gente a quem ele deve pequenos valores aproveitando para comer uma pipoquinha na faixa e até uma tentativa de golpe, o Zé acaba não vendendo nada. Mas isso não quer dizer que ele ficará sem o dinheiro para comprar o presente da Rosinha.

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Esta também é a primeira e única aparição do vilão da história, um certo Quico Urubu (e não “Chico” como consta no Inducks), o que faz dele mais uma das criações de meu pai.

A interjeição “Pipocas!”, ou mesmo “Ora, Pipocas!” era, naqueles tempos, uma exclamação muito comum para quem quisesse expressar seu descontentamento com algo sem precisar recorrer a palavras de baixo calão.

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O Pena Das Selvas Ataca Novamente

História do Pena das Selvas, criada em 1978 e publicada em 1981.

A princípio, este deveria ter sido mais um dos personagens da linha de quadrinhos do Peninha na redação de A Patada, em adição ao Pena Kid, o Xaxam e a Assombração do Porão. Com o passar do tempo, porém, o elemento de meta quadrinhos deixou de ser usado para ele.

Em todo caso, na trama de hoje ainda temos o Peninha em sua mesa de trabalho, às voltas com o lápis, o papel e o esquadro de ângulo reto, como eu vi meu próprio pai fazer tantas vezes ao longo dos anos.

Pena das Selvas

A história em si é propositadamente meio tosca, já que está sendo escrita pelo Peninha, mas tem alguns elementos interessantes que são a marca registrada de papai. O primeiro é a menção a uma “Cachoeira de Tangananika”, um trocadilho com as palavras “tanga” e “nanica”, e uma referência ao Lago Tanganica, na África.

Além disso, temos um “guerreiro africano” que foi contratado para participar da história montando guarda no acampamento dos caçadores (como se contrataria um figurante de um filme de Tarzan) no Rio de Janeiro, mais exatamente no Morro do Pavãozinho (que, como todos sabem, é a inspiração para o “Morro do Papagaio”, morada do Zé Carioca).

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Para finalizar voltamos ao Peninha em sua mesa de desenho, mais uma vez mostrando ao leitor como se faz uma história em quadrinhos ou filme B com tema de selva. O argumentista tem uma lista de elementos “selvagens” que ele pode combinar para montar sua aventura. Até aí, tudo bem. O problema é que o Peninha peca pelo excesso, combinando elementos demais e tumultuando a história.

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A Volta De Luís Carlos

História do Zé Carioca, de 1977.

Luís Carlos, antigo pretendente da Rosinha, volta do exterior para atazanar o seu rival. Arrogante como sempre, não perde a oportunidade de tentar humilhar o Zé, comentando sobre o quanto ele é pobre, e exibindo um carro esporte enorme.

O fato é que o vilão menciona o “estratagema”, nas palavras da Rosinha, que o Zé usou para conquistá-la, ou seja, o fato de ele ter se passado por rico para poder se aproximar da moça. Enquanto isso, ele próprio afirma estar mais rico do que nunca.

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A história mexe bastante com aquele estereotipo que os brasileiros têm, aquela impressão de que basta sair do Brasil por alguns anos para se voltar podre de rico.

Interessante, aqui, é que a Rosinha está morando em uma casinha de alvenaria, simples mas arrumadinha, com um belo jardim de margaridas, e não na mansão de seu pai. Essa casinha não parece ficar muito longe do Morro do Papagaio, aliás.

E por falar em margaridas, o leitor vai perceber que a periquita parece estar se comportando mais ou menos como uma certa pata com nome de flor que mora em Patópolis. Ela aceita passear de carrão com o Luis Carlos, mas a verdade é que dá um jeito de fazê-lo levar o rival com eles. Parece estar bastante atraída pelo tucano arrogante, mas insiste em ter um cada vez mais enciumado Zé ao seu lado o tempo todo. Qual é a dela, afinal?

E para coroar a tarde dos comportamentos estranhos, quando o Zé volta ao morro recebe do Nestor a notícia que eles têm um novo vizinho, e que ele tem um carro “maior do que o barraco onde mora”. É aí que todas as peças do quebra-cabeças se juntam: o Luis Carlos está tentando fazer o mesmo que o Zé fez, mas com uma diferença… ele não tem amor pela Rosinha. Apenas uma grande vontade de dar o golpe do baú.

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E antes que os machistas de plantão venham atacar a reputação da Rosinha, ela logo aparece para se explicar: já estava sabendo do plano todo pelas amigas (o que seria de uma mulher chique sem suas amigas fiéis?) e só fingiu se interessar pelo pilantra para ganhar tempo e desmascará-lo. Seu coração sempre foi e sempre será do Zé Carioca, mas acontece que ela é uma moça fina demais para fazer barracos, e prefere esperar o momento certo para agir.

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Papagaio Disco Clube

A pedidos, abro as atividades deste ano com uma história do Zé Carioca publicada originalmente em 1980.

Consta que papai foi o primeiro a levar para os quadrinhos este conceito de se “puxar” energia elétrica por meio de ligações improvisadas de uma casa a outra, muito comum nas favelas em geral desde aquele tempo e até os dias de hoje. Na época em que esta história foi escrita papai costumava visitar a favela do Morro do Pavão, próxima à redação de O Pasquim, onde conversava com os moradores e colhia ideias para as histórias do papagaio, e onde certamente ficou sabendo desta popular “solução energética”.

Assim, para fornecer energia para a sua discoteca, inspirada no estabelecimento paulistano/carioca quase homônimo de propriedade de Ricardo Amaral (aqui chamado de Ricardo Amarelo), o Zé aceita a oferta do Pedrão e faz um “gato” de energia da casa do amigo até o seu estabelecimento comercial. Até aí, tudo bem, se o Pedrão não tivesse puxado a sua energia do Afonsinho, que puxou a luz de um tal de Cebola, que estava usando a eletricidade de um certo Mané. Ou seja, algo assim não pode dar lá muito certo.

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A “arquitetura” da discoteca do Zé é inspirada numa discoteca ao ar livre que ao que parece existiu no Morro da Urca, mas o detalhe interessante é que o lugar onde está localizada a Vila Xurupita, nesta altura do campeonato, não se chama mais “Morro” do Papagaio, mas sim “Bairro” do Papagaio. Com o sucesso das histórias brasileiras no exterior, a direção da redação resolveu transformar a favela em bairro popular, para não perpetuar estereótipos “lá fora”.

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Com a previsível queda de energia provocada pela sobrecarga das extensões clandestinas o Zé quase vê seu sonho de se tornar o “rei da noite carioca” ruir na sua frente (e quem disse que ele não gosta de trabalhar? Ao longo dos anos, o personagem mostrou o seu lado empreendedor muitas vezes). Mas quem tem amigos baladeiros nunca está sozinho, e uma ideia criativa salva a noite e a festa, ainda por cima sem precisar de energia elétrica, resgatando as tradições brasileiras frente à “americanização” proposta pela discoteca.

“Os Urubusservadores”

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1973.

Dizem que a sorte é igual para todos, mas nada como ter uma ajudinha. As pessoas sempre tiveram os mais variados métodos para “ajudar a sorte” e tentar adivinhar o resultado da loteria. E para ganhar na loteria, vale tudo, até confiar em sonhos. Esse método, aliás, era muito usado no passado para apostas no jogo do bicho, por exemplo. Talvez até ainda seja.

O interessante aqui é o “sonho profético” do Zé. Papai dizia que os tinha, mas pelo menos nunca com esse efeito.

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No caso desta história, o Zé, além de sonhar, é capaz de interpretar o sonho. E com base no que viu, ele desenvolve um “método” para fazer suas apostas. De acordo com o urubu que pousasse num certo telhado do Morro do Urubu, vizinho ao Morro do Papagaio (cujo nome foi inspirado no Morro do Pavão, no Rio), o Zé foi marcando, ao longo de quatro dias, os 13 palpites da loteria esportiva.

O palpite do Zé se revela correto, no final, mas quem finalmente recebe o prêmio não é ele, e sim um primo pobre o Tio Patinhas. A ambição de ganhar na loteria ameaça o relacionamento com os amigos, e ele acaba jogando o bilhete preenchido fora. Fica a pergunta: o que vale mais, dinheiro, ou amizade/amor sinceros?

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Aviso aos navegantes: estou em semana de férias, com família em casa, e pode ser que não consiga atualizar o blog todos os dias.

Agência Moleza De Investigações

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1975.

Aqui vemos que o endereço Vila Xurupita/Morro do Papagaio já existe, e a história em si é inspirada em mais de uma novela policial da Agatha Christie, daquelas que papai gostava de ler.

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“Vila Xurupita” foi um nome que papai inventou para fazer os censores militares da época de bobos, já que a palavra em si tem uma conotação sexual e pejorativa, um obscuro xingamento dirigido a crianças do sexo feminino, algo que de outro modo dificilmente seria usado nos quadrinhos Disney.

Já o “Morro do Papagaio” foi em parte inspirado no Morro do Pavão, no Rio de Janeiro, onde papai colheu nos anos seguintes muitas ideias para histórias, conversando com a população local.

A ambientação da história em si não poderia ser mais clássica: um milionário que se curou recentemente de uma surdez graças a um aparelho de audição novo, suspeita que há uma conspiração de seus herdeiros para matá-lo e ficar com a herança.

Há mais ou menos uma dezena de pessoas vivendo com ele na mansão, entre parentes e empregados, e todos são suspeitos. O Zé é contratado porque consegue convencer o ricaço de que o fato de não se parecer com um detetive é o seu maior trunfo para manter as investigações secretas, e juntamente com o Nestor é levado à mansão para iniciar as investigações.

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A técnica narrativa, aqui, é também clássica das histórias policiais: o culpado é sempre o personagem mais óbvio e menos suspeito, e de tudo um pouco é feito para confundir o leitor e desviar sua atenção para comportamentos suspeitos de outros personagens. Há pistas falsas e armadilhas – algumas bem perigosas – por todos os lados, e em quase todos os quadrinhos há um parente do Comendador em atitude suspeita, vigiando os detetives, ou olhando de soslaio. Em dado momento, a suspeita é lançada até mesmo sobre o próprio milionário.

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O Zé e o Nestor conseguem desvendar o mistério no final, meio por acidente, mas conseguem, e esta é uma das raras vezes em que tudo termina bem para eles, com direito a recompensa e tudo.

E só um esclarecimento: o Renato Canini desenhou esta história. Ele desenhou, muito bem aliás, mas só desenhou. Desenhar uma história não dá a artista nenhum a autoria da história. O autor dela é Ivan Saidenberg, o meu pai. Foi papai quem criou a trama de mistério, e os personagens que participam dela, os diálogos, etc. O Canini só, apenas, única e exclusivamente, desenhou. Eu gostaria muito que alguns fãs dos quadrinhos Disney, e especialmente os donos de outros blogs mais influentes que o meu, entendessem isso e parassem de dar automaticamente ao Canini o crédito por tudo o que papai fez, só porque ele é o desenhista. Não é justo, nem para a memória do desenhista, e nem para a memória do meu pai (o escritor). Obrigada.

Já passou pela Amazon hoje para ver o livro de papai? É aqui.