O Pena Das Selvas Ataca Novamente

História do Pena das Selvas, criada em 1978 e publicada em 1981.

A princípio, este deveria ter sido mais um dos personagens da linha de quadrinhos do Peninha na redação de A Patada, em adição ao Pena Kid, o Xaxam e a Assombração do Porão. Com o passar do tempo, porém, o elemento de meta quadrinhos deixou de ser usado para ele.

Em todo caso, na trama de hoje ainda temos o Peninha em sua mesa de trabalho, às voltas com o lápis, o papel e o esquadro de ângulo reto, como eu vi meu próprio pai fazer tantas vezes ao longo dos anos.

Pena das Selvas

A história em si é propositadamente meio tosca, já que está sendo escrita pelo Peninha, mas tem alguns elementos interessantes que são a marca registrada de papai. O primeiro é a menção a uma “Cachoeira de Tangananika”, um trocadilho com as palavras “tanga” e “nanica”, e uma referência ao Lago Tanganica, na África.

Além disso, temos um “guerreiro africano” que foi contratado para participar da história montando guarda no acampamento dos caçadores (como se contrataria um figurante de um filme de Tarzan) no Rio de Janeiro, mais exatamente no Morro do Pavãozinho (que, como todos sabem, é a inspiração para o “Morro do Papagaio”, morada do Zé Carioca).

Pena das Selvas1

Para finalizar voltamos ao Peninha em sua mesa de desenho, mais uma vez mostrando ao leitor como se faz uma história em quadrinhos ou filme B com tema de selva. O argumentista tem uma lista de elementos “selvagens” que ele pode combinar para montar sua aventura. Até aí, tudo bem. O problema é que o Peninha peca pelo excesso, combinando elementos demais e tumultuando a história.

Pena das Selvas2

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Papagaio Disco Clube

A pedidos, abro as atividades deste ano com uma história do Zé Carioca publicada originalmente em 1980.

Consta que papai foi o primeiro a levar para os quadrinhos este conceito de se “puxar” energia elétrica por meio de ligações improvisadas de uma casa a outra, muito comum nas favelas em geral desde aquele tempo e até os dias de hoje. Na época em que esta história foi escrita papai costumava visitar a favela do Morro do Pavão, próxima à redação de O Pasquim, onde conversava com os moradores e colhia ideias para as histórias do papagaio, e onde certamente ficou sabendo desta popular “solução energética”.

Assim, para fornecer energia para a sua discoteca, inspirada no estabelecimento paulistano/carioca quase homônimo de propriedade de Ricardo Amaral (aqui chamado de Ricardo Amarelo), o Zé aceita a oferta do Pedrão e faz um “gato” de energia da casa do amigo até o seu estabelecimento comercial. Até aí, tudo bem, se o Pedrão não tivesse puxado a sua energia do Afonsinho, que puxou a luz de um tal de Cebola, que estava usando a eletricidade de um certo Mané. Ou seja, algo assim não pode dar lá muito certo.

ZC Discoteca

A “arquitetura” da discoteca do Zé é inspirada numa discoteca ao ar livre que ao que parece existiu no Morro da Urca, mas o detalhe interessante é que o lugar onde está localizada a Vila Xurupita, nesta altura do campeonato, não se chama mais “Morro” do Papagaio, mas sim “Bairro” do Papagaio. Com o sucesso das histórias brasileiras no exterior, a direção da redação resolveu transformar a favela em bairro popular, para não perpetuar estereótipos “lá fora”.

ZC Discoteca1

Com a previsível queda de energia provocada pela sobrecarga das extensões clandestinas o Zé quase vê seu sonho de se tornar o “rei da noite carioca” ruir na sua frente (e quem disse que ele não gosta de trabalhar? Ao longo dos anos, o personagem mostrou o seu lado empreendedor muitas vezes). Mas quem tem amigos baladeiros nunca está sozinho, e uma ideia criativa salva a noite e a festa, ainda por cima sem precisar de energia elétrica, resgatando as tradições brasileiras frente à “americanização” proposta pela discoteca.

Agência Moleza De Investigações

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1975.

Aqui vemos que o endereço Vila Xurupita/Morro do Papagaio já existe, e a história em si é inspirada em mais de uma novela policial da Agatha Christie, daquelas que papai gostava de ler.

ZC anuncio moleza

 

“Vila Xurupita” foi um nome que papai inventou para fazer os censores militares da época de bobos, já que a palavra em si tem uma conotação sexual e pejorativa, um obscuro xingamento dirigido a crianças do sexo feminino, algo que de outro modo dificilmente seria usado nos quadrinhos Disney.

Já o “Morro do Papagaio” foi em parte inspirado no Morro do Pavão, no Rio de Janeiro, onde papai colheu nos anos seguintes muitas ideias para histórias, conversando com a população local.

A ambientação da história em si não poderia ser mais clássica: um milionário que se curou recentemente de uma surdez graças a um aparelho de audição novo, suspeita que há uma conspiração de seus herdeiros para matá-lo e ficar com a herança.

Há mais ou menos uma dezena de pessoas vivendo com ele na mansão, entre parentes e empregados, e todos são suspeitos. O Zé é contratado porque consegue convencer o ricaço de que o fato de não se parecer com um detetive é o seu maior trunfo para manter as investigações secretas, e juntamente com o Nestor é levado à mansão para iniciar as investigações.

ZC sobrinhos  ZC sobrinhas mordomo

A técnica narrativa, aqui, é também clássica das histórias policiais: o culpado é sempre o personagem mais óbvio e menos suspeito, e de tudo um pouco é feito para confundir o leitor e desviar sua atenção para comportamentos suspeitos de outros personagens. Há pistas falsas e armadilhas – algumas bem perigosas – por todos os lados, e em quase todos os quadrinhos há um parente do Comendador em atitude suspeita, vigiando os detetives, ou olhando de soslaio. Em dado momento, a suspeita é lançada até mesmo sobre o próprio milionário.

ZC flecha

O Zé e o Nestor conseguem desvendar o mistério no final, meio por acidente, mas conseguem, e esta é uma das raras vezes em que tudo termina bem para eles, com direito a recompensa e tudo.

E só um esclarecimento: o Renato Canini desenhou esta história. Ele desenhou, muito bem aliás, mas só desenhou. Desenhar uma história não dá a artista nenhum a autoria da história. O autor dela é Ivan Saidenberg, o meu pai. Foi papai quem criou a trama de mistério, e os personagens que participam dela, os diálogos, etc. O Canini só, apenas, única e exclusivamente, desenhou. Eu gostaria muito que alguns fãs dos quadrinhos Disney, e especialmente os donos de outros blogs mais influentes que o meu, entendessem isso e parassem de dar automaticamente ao Canini o crédito por tudo o que papai fez, só porque ele é o desenhista. Não é justo, nem para a memória do desenhista, e nem para a memória do meu pai (o escritor). Obrigada.

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