O Sumiço Da Gabriela

História do Zé Carioca, de 1975.

Esta é mais uma daquelas histórias nas quais o Zé Queijinho, primo mineiro do Carioca, convida o Zé e o Nestor para irem à Vila-Fim-Do-Mundo (aquela que fica depois de onde Judas perdeu as botas) investigar um mistério. É que o primo sabe que eles são detetives no Rio, e na sua ingenuidade de matuto acredita que é uma ocupação séria.

Desta vez temos o sumiço da cabra Gabriela, mascote do Zé queijinho, a poucos dias de um grande concurso de cabras leiteiras na vila. O Zé, que aparentemente andou lendo livros de Agatha Christie, logo vai raciocinando como um clássico detetive desse tipo de história. Papai me dizia que o primeiro passo para desvendar uma trama dessas é descobrir quem é que tem o motivo para cometer o crime.

Desse modo, todas as suspeitas apontam para o “Coroner” Pafúncio e a nova cabra que ele acaba de mandar vir da capital, chamada Amélia. Cabra essa, aliás, que chegou no mesmo ônibus que o Zé e o Nestor.

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O nome “Amélia” me lembra uma antiga canção de nome “Saudades da Amélia“, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Isso me faz pensar que o nome “Gabriela” pode muito bem ter sido inspirado na canção tema da heroína de “Gabriela Cravo e Canela“, de Jorge Amado. Conhecendo o estilo de papai como eu conheço, a ideia faz sentido.

Mas investigar a fazenda do coronel não vai ser fácil: além dos 20 capangas e dos dois cães de guarda, o lugar tem também uma “onça de guarda”. Se, com o passar dos anos, o Zé até que “chegou a um acordo” com jacarés e crocodilos (o outro terror animal das histórias criadas por papai), as onças nunca deixaram de ser um problema. A ideia do Zé para entrar às escondidas na fazenda do coronel rival até que é boa, mas ele esquece que felídeos são animais “tridimensionais”, que não se limitam a ficar apenas no chão:

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Mas como sempre acontece nas histórias de papai nada é tão simples, e nem sempre o raciocínio dos livros policiais se aplica. A solução do sumiço da cabra é só metade da história, que continua recheada de surpresas até o último quadrinho.

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Recheado de boas histórias e até de algumas surpresas é também a minha biografia de papai, à venda nas melhores livrarias:

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O Amigo Da Onça

História do Zé Carioca, publicada em 1984.

Mais uma vez o papagaio malandro se vê às voltas com uma onça, e com um rival. Apesar de o Zé Galo já existir desde o ano anterior, papai preferiu usar aqui o Luis Carlos, certamente por causa da ligação do personagem com a amazônia e aventuras de caça na floresta.

Desde “A Onça e o Valente”, já comentada aqui, sabemos que o Zé não simpatiza muito com esses felinos, para dizer o mínimo. Para dizer a verdade, ele tem tanto pavor de onças como tem de jacarés e crocodilos, ambos animais recorrentes em suas aventuras mais selvagens.

Para fazer frente ao Luis Carlos (que na verdade nem é tão valente assim, mas costuma fingir melhor do que o Zé) e sua arma de dardos tranquilizantes, e principalmente para não fazer feio na frente da Rosinha, o nosso herói resolve usar sua fanfarronice em proveito próprio, com a ajuda dos amigos. O plano é caçar um “amigo da onça”, ou melhor, um amigo do Zé disfarçado de onça, para tentar desmoralizar o rival e impressionar a namorada. O problema é que uma trapaça dessas nunca poderia dar certo numa história Disney, e o Zé e seus amigos Nestor e Afonsinho são logo desmascarados.

ZC onça

É na hora em que o Zé está mais desmoralizado (e a gente sabe que a Rosinha está realmente chateada quando ela começa a chamar o papagaio de “Senhor José”), e quando ninguém mais está esperando, que aparece… a onça! Quando a Rosinha está em perigo de verdade o Zé vira bicho, e esquece que tem medo até da própria sombra.

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Mas não é “só” porque foi obrigado a cumprir o que prometeu, salvou a namorada e realmente pegou uma onça a unha, que ele vai poder colher os louros da vitória e da glória, ou contar vantagens. A história termina como começou, com o Zé dormindo na rede acompanhado de seu cachorrinho de estimação, o Soneca, mas não exatamente por preguiça.

“Amigo da Onça”, é uma expressão que significa uma pessoa traiçoeira, uma espécie de “quinta coluna”, que trai os amigos e favorece os inimigos. Foi também um personagem clássico dos quadrinhos nacionais.

A Onça E O Valente

Nos tempos de criança de papai, quando ele morava na fazenda, o povo do interior costumava se reunir na praça para conversar, e se divertia contando vantagens principalmente sobre dois tipos de atividades que eram comuns entre o povo do campo naquela época: a caça e a pesca.

Dentre as caçadas, as mais perigosas, que exigiam mais coragem do caçador, eram certamente as de onças. Era uma tradição que vinha desde os tempos da colonização, quando o “espírito” da onça, sua força e ferocidade, era uma parte importante da cultura indígena.

Esta história do Zé Carioca publicada em 1978 é uma típica lorota de caçador de onças. Pois, afinal, “quem conta um conto aumenta um ponto”, e não raro essas histórias de caçador continham muitos exageros dos fatos reais, ou eram totalmente inventadas. Quem não conhece, por exemplo, a história de pescador “daquele peixe que escapou”, que era deeeesse tamanho? Então:

O fato é que o Zé Queijinho, primo mineiro do Zé Carioca, está às voltas com uma enorme onça que está tentando transformar a cabra Gabriela em jantar.

Outro fato é que, enquanto o Nestor e o Zé Queijinho tentam manter a onça afastada, o Zé Carioca passa a história inteira desmaiando de medo a cada vez que ouve alguém pronunciar a palavra “onça”.

E a graça da história toda é essa: seria apenas mais uma “história de onça”, se não fosse a “valentia” do personagem que deveria ser o protagonista.

Mas é claro que, uma vez de volta ao Rio de Janeiro, a história que o Zé conta para a Rosinha é bem outra, para a surpresa e indignação do Nestor.