O Circo Voador

História do Zé Carioca, de 1984.

Inaugurado em outubro de 1982 no bairro da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, o “Circo Voador” é um daqueles espaços culturais tão importantes e benéficos para a população em geral que chegou a ser fechado por vários anos por um prefeito de Ego frágil.

Mas, me adianto. Voltando um pouco no tempo, na época em que esta história foi escrita ele havia acabado de abrir as portas, atiçando a curiosidade e a imaginação de todas as pessoas que se interessavam por espetáculos de circo, dança e música de todos os estilos em nosso País.

Mas acima de tudo, o nome do espaço cultural era o que mais intrigava as pessoas. Afinal, por quê “Circo Voador”? Papai, é claro, oferecerá sua própria explicação, que certamente causará muitas risadas ao leitor.

Outra definição com a qual ele brinca é a de “trapézio voador“, uma popular atração de qualquer circo que se preze. Quando bem executadas, as acrobacias desta modalidade podem ser realmente emocionantes. Mas não será este o caso, hoje.

Seria de admirar bastante se uma construção de fundo de quintal, feita por duas crianças com os aparatos de cama, mesa e banho da família para uma brincadeira, tivesse uma atração dessas.

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O Caçador De Caloteiros

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1983, e republicada recentemente.

O papagaio verde pode não ser o melhor pagador da praça, mas isso não quer dizer que ele viva em paz com essa condição. Como todo brasileiro atolado em dívidas, ele gostaria de poder pagá-las, e se atormenta por isso. A esperança de quem sabe um dia conseguir acertar as contas, por outro lado, faz com que ele impulsivamente contraia mais dívidas, mas isso é outra história.

Ele certamente fica muito incomodado quando alguém vem cobrá-lo, especialmente se essa pessoa é um amigo. Aí a coisa toda se torna um real pesadelo: ele não pode pagar, certamente, mas também não pode aborrecer um amigo, ainda mais alguém tão estimado quanto o Panchito. E agora, José? Em todo caso, as efusivas boas vindas ao amigo foram tiradas diretamente do filme “Alô Amigos”.

ZC calotero

A história toda é uma comédia de erros, baseada em “falsos cognatos” em um idioma intermediário entre o Espanhol e o Português (o famoso “Portunhol”), e no pavor que o Zé tem de cobradores. Vai daí que, quando o Panchito chega, armado com pistolas e se dizendo caçador de “caloteros”, o Zé quase tem um faniquito. Seria um “calotero” alguma espécie de “caloteiro”?

A palavra “calota”, tanto quanto eu pude pesquisar, significa mais ou  menos a mesma coisa nos dois idiomas em questão: é algo como uma cúpula, um objeto abaulado. Mas “calotero” não parece existir. A tradução para “caloteiro” enquanto mau pagador parece ser “perezoso”, que significa algo como preguiçoso. Pode ser que o Panchito esteja tentando falar Português, ou usar uma palavra que ele acha que o Zé vai entender, mas a verdade é que ele acaba causando mais confusão ainda com isso.

Outra coisa bastante fantasiosa é a identidade do tal “calotero”. Ele seria um tipo de lagarto peçonhento com uma protuberância óssea no alto do crânio, algo parecido com uma “calota”, daí a denominação. Mas, também de acordo com as minhas pesquisas, esse bicho não existe. Papai representa seu animal inventado (quem disse que todas as coisas que aparecem em uma história em quadrinhos precisam ser rigorosamente reais?) com base na figura de um dinossauro, o Paquicefalossauro. Mas acho que ninguém no mundo pode dizer se esse animal era venenoso ou não.

ZC calotero1

Além disso, não existem lagartos peçonhentos no Brasil. Pelo menos, nenhum dos lagartos nativos daqui é venenoso. Na verdade, existem apenas três espécies de lagartos venenosos no mundo: uma na Ásia e duas na América do Norte, ocorrendo dos EUA ao México, justamente o país de onde vem o galo de sombreiro. Assim, o “calotero” do Panchito poderia ser na realidade um Monstro de Gila, mas este, apesar de venenoso, não tem a tal calota na cabeça.

Mas apesar de tudo isso, e até que o mal entendido se desfaça, o leitor já vai ter se divertido bastante com as tentativas do Zé de distrair o amigo e, assim, evitar ser cobrado por ele.

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Papagaio Disco Clube

A pedidos, abro as atividades deste ano com uma história do Zé Carioca publicada originalmente em 1980.

Consta que papai foi o primeiro a levar para os quadrinhos este conceito de se “puxar” energia elétrica por meio de ligações improvisadas de uma casa a outra, muito comum nas favelas em geral desde aquele tempo e até os dias de hoje. Na época em que esta história foi escrita papai costumava visitar a favela do Morro do Pavão, próxima à redação de O Pasquim, onde conversava com os moradores e colhia ideias para as histórias do papagaio, e onde certamente ficou sabendo desta popular “solução energética”.

Assim, para fornecer energia para a sua discoteca, inspirada no estabelecimento paulistano/carioca quase homônimo de propriedade de Ricardo Amaral (aqui chamado de Ricardo Amarelo), o Zé aceita a oferta do Pedrão e faz um “gato” de energia da casa do amigo até o seu estabelecimento comercial. Até aí, tudo bem, se o Pedrão não tivesse puxado a sua energia do Afonsinho, que puxou a luz de um tal de Cebola, que estava usando a eletricidade de um certo Mané. Ou seja, algo assim não pode dar lá muito certo.

ZC Discoteca

A “arquitetura” da discoteca do Zé é inspirada numa discoteca ao ar livre que ao que parece existiu no Morro da Urca, mas o detalhe interessante é que o lugar onde está localizada a Vila Xurupita, nesta altura do campeonato, não se chama mais “Morro” do Papagaio, mas sim “Bairro” do Papagaio. Com o sucesso das histórias brasileiras no exterior, a direção da redação resolveu transformar a favela em bairro popular, para não perpetuar estereótipos “lá fora”.

ZC Discoteca1

Com a previsível queda de energia provocada pela sobrecarga das extensões clandestinas o Zé quase vê seu sonho de se tornar o “rei da noite carioca” ruir na sua frente (e quem disse que ele não gosta de trabalhar? Ao longo dos anos, o personagem mostrou o seu lado empreendedor muitas vezes). Mas quem tem amigos baladeiros nunca está sozinho, e uma ideia criativa salva a noite e a festa, ainda por cima sem precisar de energia elétrica, resgatando as tradições brasileiras frente à “americanização” proposta pela discoteca.

Esses Psitacídeos…

História do Pateta, de 1973.

Esta trama é um apanhado de piadas de papagaio ou, mais exatamente, dos temas das piadas de papagaio. Não reproduz nenhuma piada reconhecível, mas aborda o folclore em torno dessas aves de maneira criativa.

Começa quando um tipo mal encarado coloca nas mãos do Pateta uma gaiola com um papagaio, num beco de Patópolis. Sem saber o que fazer com o bicho, o Pateta vai pedir conselhos ao sobrinho Gilberto. As tentativas de entregar o bicho às autoridades não são lá muito bem sucedidas, especialmente depois que o pássaro resolve desfiar seu repertório de palavrões.

Pateta psitacideo   Pateta psitacideo1

Psitacídeo, como o Gilberto o chama, é o nome científico desse tipo de ave, que inclui também araras, cacatuas e calopsitas, entre outros. Mas o nome que o Gilberto dá a ele é Eleutério.

Mas o bicho tem outros talentos, como declamar fórmulas matemáticas e até um trecho de um poema clássico de Camões, e por isso o Pateta tem a ideia de levar o animal à TV para participar do programa de variedades “Fora do Sério” (alusão à expressão “fora de série”) e, com a exposição, tentar localizar o verdadeiro dono do bicho.

Interessantes são os nomes dos ex donos, que acabam aparecendo: Acadêmico Caminhas, Omar Manjo e Prof. Equacionildo. O primeiro, especialista em Luís de Camões, tem por sobrenome um “diminutivo”, por assim dizer, do seu nome. O segundo é marinheiro, e seu nome é um jogo de palavras com “marmanjo”, e o terceiro é um matemático, cujo sobrenome lembra a palavra “equação”.

A Volta Do Morcego Verde

Segunda história do Morcego Verde, de 1975.

O Zé finalmente consegue guardar todas as suas revistas do Morcego Vermelho dentro de um armário… ou quase. Novamente soterrado por elas quando o móvel feito de tábuas se quebra, o Zé resolve sair por aí fantasiado para combater o crime.

O poster autografado do Morcego Vermelho na parede mostra que o Zé é realmente muito fã dele. Mais do que isso, mostra que o Morcego Vermelho sabe que o Zé é seu fã. Aliás, esse poster ainda pode estar guardado em algum canto da casa do Zé, só esperando ser achado, não pode? (Só uma dica…) 😉

MOV poster

A participação do Soneca, nesta história, é muito importante para livrar o Zé de uma encrenca de verdade, e permitir ao nosso herói dar a volta por cima e finalmente prender os bandidos.

soneca 1

O Morcego Verde pode realmente ser muito mais trapalhão que o Vermelho, mas o Zé, assim como o Peninha, é muito inteligente. A partir do momento em que ele descobre o tamanho do erro que estava cometendo, o Zé consegue dar a volta por cima e usar seu erro para virar o jogo.

Mas eu realmente preciso abrir o meu coração: não consigo aceitar esse negócio de “rivalidade” e “duelo” entre os Morcegos, como está sendo feito nas histórias atuais. Como pode ser claramente visto nas histórias de papai para esses personagens, o Zé Carioca e o Peninha se conhecem pessoalmente, são amigos. O Zé é super fã do Morcego Vermelho, a ponto de escrever cartas para o seu fã clube em Patópolis, e receber de volta um poster autografado pelo próprio herói vermelho, como cortesia.

Sinceramente, eu só aceitaria essa tal aparente rivalidade, se isso fosse algum plano secreto dos dois Morcegos para tentar convencer os amigos do Zé e o povo do Rio de Janeiro de que o papagaio e o Morcego Verde não são a mesma pessoa. E peço humildemente ao amigo Arthur Faria Jr. que considere essa possibilidade com carinho.