No Território Dos Pés-Chatos

História do Pena Kid, de 1975.

Esta história, na verdade, é menos sobre o que acontece entre o Vingador do Oeste e os índios Pés Chatos (ênfase em “chatos”) do que sobre o “processo criativo” do Peninha na redação de A Patada e como os palpites do Tio Patinhas influenciam na coisa toda.

É também uma crítica aos clichês dos filmes de faroeste “macarrônicos“, produções italianas e espanholas de baixo custo e muitas improvisações que tomaram as telas dos cinemas nos anos 1960, na onda dos grandes Westerns Norte Americanos dos anos 1950.

Assim, além dos panos de fundo mal disfarçados e cidades construídas somente de fachadas, outros elementos que não podiam faltar eram o conflito com os índios, as cenas de luta corpo a corpo das quais o herói sempre começava perdendo mas no final saía vencedor (mesmo que para isso fosse preciso dar uma forçada no roteiro), a presença e o salvamento de uma mocinha em apuros (idem), a ocasional cena melodramática (ibidem) e outras coisas do gênero.

E tudo isso, é claro, era feito na intenção de manter feliz ao público que assistia esses filmes. Os produtores temiam que, se os espectadores saíssem descontentes dos cinemas, eles fossem acabar perdendo dinheiro. Era algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje em dia com as novelas de televisão, que vão avançando às vezes de maneira meio errática, mas sempre de acordo com os gostos dos telespectadores.

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Sempre Cabe Mais Um…

História do Pena Kid, de 1976.

Quando não estava parodiando velhos filmes de faroeste, ou explorando algum aspecto ou clichê do tema, papai usava as atividades do Peninha na redação de A Patada como uma metáfora e uma aula sobre como (não) se faz quadrinhos, a cada vez examinando um aspecto da produção das histórias.

Já vimos, por exemplo, como um desenho/rafe pode ser facilmente alterado para se modificar a ambientação de uma história, em “A Legião dos Renegados”, ou mais recentemente uma reflexão sobre a importância do nome de uma história, em “Uma Missão Espinhosa”. O título desta aqui, aliás, é inspirado em uma antiga campanha publicitária da marca Rexona.

Aqui vamos ver qual é a importância do número de personagens em uma trama. Se um personagem só “não faz história” (assim como “uma andorinha só não faz verão”), um roteiro com personagens demais também pode se tornar impraticável. Mas nesta história em especial, o que temos é o Peninha tentando tirar uma soneca na hora do trabalho, e como sempre “trollando” o Tio Patinhas quando seus planos são frustrados pelo velho muquirana, que exige que uma história seja feita, e já!

PK Mais um

E pior, com muitos personagens, e consequentemente muita ação, porque é isso que (na opinião do editor) vende uma história em quadrinhos de faroeste, e jornais, principalmente.

PK Mais um1

O Peninha, então, para se vingar, resolve atender o pedido do tio ao pé da letra, juntando em um só quadrinho todos os personagens dos quais se lembra, e de quebra algumas caricaturas dos artistas da redação da Editora Abril da época, em primeiro plano:

PK Mais um2

Só que a história de faroeste, em si, acaba não “acontecendo”. Tudo o que o leitor vê é a discussão entre o Tio Patinhas e o Peninha, e as soluções arrevesadas que o “autor da história” encontra para cumprir as ordens do outro, de má vontade e de modo a “fazer sem fazer”, para se desincumbir o mais rápido possível e poder ir tirar a sua sonequinha. E esta é, na verdade, a história.

E no final das contas é muito interessante que o Peninha seja um “quadrinista” assim tão relutante. Afinal, sem ter muita vontade de colocar uma história no papel, e sem muito amor pela arte, quadrinista nenhum faz muita coisa. Na prática, o Peninha quadrinista é o exato oposto de papai, que acordava cedinho todo dia, todo animado para trabalhar com aquilo de que mais gostava, e dava o melhor de si em cada história que escrevia.

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A Conquista Do Oeste

História do Pena Kid, de 1983.

O Inducks nos diz que esta é a primeira história do Vingador do Oeste que é desvinculada da série “Histórias em Quadrinhos na Redação de A Patada”. O interessante é que ela foi escrita três anos antes de sua publicação. Disso, eu concluo que esta mudança pode muito bem ter sido uma sugestão de papai, mais do que um pedido da redação, ao contrário da transformação do Alazão de Pau em cavalo de verdade (mas isso já é outra história).

Aqui papai nos conta sobre o “desbravamento” do Oeste, e as origens da fundação de Pacífica City, mais ou menos nos moldes da origem do Alazão de Pau, por exemplo.

Começa com o Pena Kid, no estilo “cavaleiro solitário” atravessando o deserto enquanto canta “Oh Suzana” sendo contratado por um grupo de pioneiros em seus carroções para afugentar índios com sua, bem, música. Até uma certa lesma parece ter sido posta para correr. A letra cantada por ele é diferente das mais tradicionais, mas até aí, essas canções folclóricas podem mesmo ter muitas versões (se bem que esta letra em particular é uma “composição original” do Mestre Said em pessoa).

Pena Kid Oh Suzana

A história pode ser dividida em várias partes. Na primeira, o Oeste é chamado de “bravio”, e os pioneiros têm a missão de passar pelos índios para chegar lá. Por um pedágio montado pelos índios Pés Chatos (o que parece ser uma homenagem a Humpá-Pá, de Uderzo & Goscinny), mais exatamente.

Encontrada uma área apropriada e fundada a cidade, entramos numa segunda fase, onde o Oeste é chamado de “desbravado”, só por causa da existência da cidade à qual o Pena Kid dá o nome de Pacífica City. Logo de cara aparece o Zé Cejames (Jesse James), a quem o nosso herói enfrenta e vence, literalmente no grito.

Pena Kid Oleriqui

Mas a cidade é feita só de fachadas, como num filme de faroeste tipo B, e o bandido acaba fugindo da cadeia. Aqui começa a terceira parte da história, onde o Pena Kid se embrenha nos “confins do Oeste” e enfrenta seus muitos perigos, voltando de lá meio chamuscado (quarta parte), é verdade, mas trazendo consigo seu primo e ajudante de xerife Donald Kid, cuja origem é desta maneira também explicada.

As páginas estão recheadas de referências ao Velho Oeste dos EUA, aos filmes e às suas figuras históricas.

Assim, além da canção clássica, que se refere também à época da Corrida do Ouro (e que o Tio Patinhas conhece bem), e do bandido, temos menções a Pancho Aldeia (Pancho Villa), aos chefes indígenas Touro Sentado, Pé Grande (Bigfoot) e Cavalo Louco, e ao general Custo (Custer) do lendário Sétimo Regimento de Cavalaria.

Pena Kid Chefes Indigenas

A ameaça do índio, que menciona a curva de um rio, é uma referência ao Best Seller de 1970 (e subsequente filme) “Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”, que pela primeira vez conta a história da Conquista do Oeste do ponto de vista dos índios americanos, que foram os grandes conquistados nessa história toda.

Pena Kid Curva Rio