O Capitão Metralha

História do Vovô Metralha, de 1975.

O que parece um “mero conto” de piratas está recheado de referências históricas sutis. Também pertencente à série “Metralhas históricos”, este é mais um exercício de imaginação sobre o tema “piratas” inspirado nos livros que papai lia quando criança.

A história se inicia com uma sutil “conta de mentiroso”, mais ou menos no estilo do conto de fadas chamado “O Alfaiate Valente”, também conhecido como “Mata Sete”. Isso serve para jogar aquela dúvida inquietante na direção do leitor: será que os antepassados que povoam todas essas histórias que o Vovô conta existiram de verdade, ou ele os está inventando à medida que vai falando?

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O resto da história versa sobre os usos e costumes dos antigos piratas como os percebemos nos livros de História e Literatura. A espionagem feita por agentes infiltrados é algo que a polícia usa até hoje com bandos de motoqueiros, por exemplo, e que devia ser muito comum naqueles tempos.

As superstições também. O próprio ambiente inclemente dos navios e da vida à margem da lei no mar dava ensejo a todo tipo de pensamento e comportamento “mágico” que pudesse dar a seus praticantes a sensação de estar atraindo a sorte e a vitória para si. Assim, coisas como comer certos alimentos ou fazer certas ações repetitivas logo antes de um momento desafiador poderiam servir como uma válvula de escape para aliviar a tensão e proporcionar confiança para a batalha.

O prato servido ao Capitão Metralha não é aleatório. Além de ser muito popular ainda hoje em restaurantes à beira mar ao redor do mundo, especialmente os com temática “pirata”, o peixe frito com batatas é um típico lanche britânico, conhecido como Fish and Chips. É óbvio que existem muitas variações desse prato, e eu não duvido que piratas de verdade o tenham preparado em seus navios. Mas isso também coloca o Capitão Metralha como britânico.

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O Almirante Patiñas, por sua vez, por causa do “ene com til” no nome, (bem como o Grumete Peniña) está claramente a serviço da coroa espanhola. Ingleses contra Espanhóis, aliás, foi a principal guerra entre nações durante algum tempo no mundo. Ela se iniciou no finalzinho do Século XVI e se estendeu até o Século XVIII, e os piratas e corsários das duas nacionalidades tiveram um papel de destaque nela.

Mas a preocupação do Patiñas com a permanência dos ratos no navio (sua fuga significaria a derrota na batalha) me lembra bastante o antigo costume de se manter alguns Corvos na Torre de Londres, pois existe uma profecia que diz que, se esses pássaros abandonarem o local, o Reino Unido será destruído.

Além disso, esse tipo de fora da lei marinho é chamado pelo nome genérico de “pirata”, mas ao longo do tempo eles foram conhecidos por várias denominações, como piratas, bucaneiros, corsários, flibusteiros, etc. O fato é que qualquer ladrão pé-de-chinelo em um bote a remos que pratique assaltos aos turistas que se aventuram no mar pode ser, até hoje, considerado um pirata.

Mas um tipo especial desses vilões que existiu eram os Corsários, “piratas oficiais” e profissionais que trabalhavam diretamente para os governos da Espanha e do Reino Unido dos séculos XVI e XVII. Assim, tudo leva a crer que os antepassados de ambos os lados nesta história não são exatamente piratas, mas corsários.

Por fim, a impagável participação do Azarado 1313 (que aliás passa a história toda dormindo enquanto seu antepassado apronta) é a linha que perpassa, une e arremata a tudo no final.

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A Visita do Juquinha – Inédita

História do Zé Carioca, composta em 14 de agosto de 1993.

Esta é, definitivamente, a última história escrita e rascunhada por papai para o universo Disney. Aqui termina a prolífica produção de quadrinhos de Ivan Saidenberg, no que talvez seja um final bastante apropriado.

Mas me adianto: vamos começar pelo começo. O “Juquinha” era um gatinho de pelagem cinza-chumbo que foi jogado no jardim do prédio onde nossa família morava em Yavne, Israel, e que eu peguei para cuidar. A pobre coisinha era tão novinha que ainda tinha os olhinhos fechados e um pedaço do cordão umbilical preso ao corpinho. Foi preciso tratar o bichinho na base da mamadeira e garrafa de água morna para que ele sobrevivesse, mas posso dizer, e com orgulho, que consegui salvar uma vidinha.

O único problema era que, pelo menos nas primeiras semanas, o bichinho acordava miando para mamar a cada duas horas, no máximo, não importava se era dia ou noite. Não foi um período fácil, mas valeu a pena, para mim e para ele, que acabou tendo a ideia para esta história.

Desconfio, aliás, que a “Prima Donna”, a mãe cantora de ópera que o Biquinho inventa para o seu alter Ego seja uma alusão a esta que vos escreve, e que sempre gostou de cantar em tons agudos. E há até quem diga que eu nem canto tão mal assim. (A verdade é que eu tento. Às vezes dá certo, e fica até bonito. Mas em outras vezes dá errado, e aí vira um desastre.) 😉

Só me incomoda um pouco a extrema falta de modos do Biquinho nesta história. O personagem está um pouco radical demais em comparação com a proposta original do personagem, e xinga bastante no decorrer das páginas. Ao que parece papai ficou mais irritado com os miados do gatinho do que demonstrou na minha frente, e isso se refletiu na história.

A citação “de repente, não mais que de repente” que aparece no primeiro quadrinho vem de um poema de Vinícius de Moraes, o Soneto de Separação.

O truque usado pelos verdadeiros sobrinhos do Zé para capturar o intruso e obrigá-lo a tomar um banho remonta às antigas brincadeiras de crianças, e esse tema do “brincar de pirata” foi usado por papai muitas vezes ao longo dos anos, inclusive em histórias do Vovô Metralha, por exemplo mas não somente.

Por fim, o final “à altura”, radical e definitivo, com tudo indo pelos ares. Depois de uma explosão dessas, certamente haveria muitos cacos para juntar, talvez cacos demais. É o fim, da história, talvez até da Vila Xurupita, e da carreira de um brilhante quadrinista.

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A Troca De Prisioneiros

História do Fantasma do Espaço, criada em fevereiro de 1977 e publicada pela Editora Abril Na revista Heróis da TV número 25 em junho do mesmo ano.

Esta história poderia se passar também no planeta Terra, e funcionar perfeitamente como uma história de piratas no mar. Ela é, na verdade, uma transposição, assim como muitas histórias de Capa e Espada, Velho Oeste e até de Samurais já foram adaptadas na forma de aventuras espaciais. Basta trocar as naus por naves, o mar pelo espaço sideral e fazer algumas adaptações em função das particularidades do tema espacial, sem, é claro, esquecer de inventar uma boa história para acompanhar o exercício de imaginação.

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Se passando por náufragos, os piratas pegam desprevenidas a Jan e Jaci, as duas crianças que são ajudantes do Fantasma. Em seguida, passam a exigir a soltura de seu chefe. O plano parece, como sempre, perfeito, mas os bandidos não contam com a astúcia e os poderes do herói. Ele também tem seus truques, e não hesitará em usá-los.

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O Misterioso Capitão Do Pérola Negra

História do Zé Carioca, de 1973.

O Zé certamente tem um jeito bastante particular de tentar encontrar trabalho. O surpreendente é que às vezes é o trabalho que encontra o Zé. Não que isso seja sempre uma coisa boa, é claro. Hoje, o “contratante” é ninguém menos que o Mancha Negra.

Assim, para começar, tudo o que diz respeito ao vilão tem a ver com “borrões”, que é sinônimo de “manchas”, ou com outras referências à cor preta. Desde o nome falso, de “Capitão Borrão”, que ele escolhe para se apresentar, passando pelo nome do navio, Pérola Negra, e até a ilha do tesouro, chamada Ilha da Borrasca.

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“Borrasca” certamente começa com “borr”, como “borrão”, mas na verdade é sinônimo de tempestade, um temporal com ventania violenta e de pouca duração. Em todo caso, está valendo o jogo de palavras.

Já o nome que o Mancha escolhe para o navio que roubou seria usado novamente décadas mais tarde pela franquia “Piratas do Caribe”, também da Disney, aliás. Coincidência?

E desta vez o tesouro existe de verdade! Mas, é claro, ninguém ficará com ele. O Mancha certamente não pode, porque é bandido, e o Zé porque, se ele ficar definitivamente rico, que graça isso vai ter?

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Hoje temos também uma primeira versão da origem do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé. Ao contrário do que vemos em “O Gazéteiro”, já comentada aqui, onde ele acompanha o Zé desde menino, nesta história o cãozinho acaba de ser encontrado perambulando pelo cais do porto. Ele é informalmente adotado quando resolve acompanhar seus novos amigos em sua soneca sobre as sacas de café.

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Mas se notarmos bem, veremos que este Soneca tem a pelagem cinza, enquanto na maioria das outras histórias o bichinho tem a pelagem castanha, ou até branquinha (em “Morcego Verde Ataca Novamente”, também já comentada aqui). Vai daí, e deduzo que o Zé simplesmente vai dando o nome de “Soneca” a todos os cãezinhos que vai adotando ao longo da vida e que, admiravelmente, têm essa característica dorminhoca.

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No Tempo Dos Bucaneiros

Sátira histórica com o Metralha Azarado, de 1979.

Papai gostava de retratar “antepassados” dos Irmãos Metralha em diversos períodos da História mundial.

Desta vez é o Azarado 1313 que faz o papel de pirata, numa história contada pelo Vovô Metralha. Todos os clichês do Azarado se aplicam: todo navio em que ele embarca, afunda, por exemplo. Ele é também atrapalhado, a ponto de derrubar balas de canhão no próprio pé, e mesmo quando parece estar tendo alguma sorte, logo as coisas se viram contra ele novamente. Mas para um marinheiro que não sabe nadar, até que ele não se dá tão mal.

Há também várias referências às histórias clássicas de piratas e marinheiros: os ratos que acompanham o 1313 durante toda a história são, segundo a tradição, sempre os primeiros a abandonar um navio que está para afundar, mesmo que a tripulação ainda não tenha percebido o perigo.

“O Esquife”, nome do navio pirata que recolhe o Azarado depois do primeiro naufrágio, é sinônimo de “caixão” (isso, daqueles funerários). “Capitão Flint” é o nome do capitão fictício do navio pirata Walrus do livro A Ilha do Tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson, e “Benn Gunn” é o nome de outro personagem do mesmo livro.

E a Ilha Barataria, que o Azarado acaba conseguindo alcançar com parte do tesouro, ficava na rota entre as ilhas de Grande Terre e Ilha Grande, na Louisiana, e era a base do contrabandista Jean Lafitte (1776 – 1826), um pirata e corsário francês que agia no Golfo do México no início do século XIX.

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Da mesma época é um tipo de munição de fragmentação para canhões chamado justamente “metralha“, de onde vem também a palavra “metralhadora”. Consistia de um cano ou rede de metal cheio de bolas e fragmentos menores do mesmo material.

 

Barbatralha, O Pirata

História publicada pela primeira vez em 1975.

A princípio tem-se a impressão que esta será mais uma história da série “metralhas através da história”, mas não é o caso. O que acontece aqui é que o Vovô Metralha está lendo um livro sobre “os piores piratas de todos os tempos”. A princípio o livro inspira uma brincadeira entre os Metralhinhas 1, 2 e 3, mas depois o sugestionável (e meio gagá) Vovô acaba aprontando a maior confusão, por causa dessa mesma leitura.

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As falas do Vovô Metralha nesta história são uma verdadeira coleção de termos náuticos e relacionados. Alguns desses termos são bastante específicos, e só conhecidos mesmo de quem é do ramo, ou de quem já leu muitos livros de aventuras náuticas na vida.

Em outros tempos, quando as crianças liam mais, repetir durante as brincadeiras os termos náuticos (ou termos técnicos de outras áreas) aprendidos nos livros de histórias de aventura fazia parte da diversão, mesmo que as crianças não entendessem exatamente o que elas mesmas estavam dizendo.

Cliquem nos links para ver as definições de algumas das palavras menos comuns usadas por papai nesta história:

Bucaneiro
Andar na prancha
Popa
Virar de bordo
Davante
Escota
Proa
Flibusteiro
Orça
Galeota
Amuras
Boreste
Bolina
Galera

E por aí vai. Como ele mesmo dizia, quadrinhos também são cultura. E ele tentava não apenas divertir, mas também instruir.

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Mas a “crueldade” da vez que papai faz com os Irmãos Metralha é a melhor parte da história, a meu ver. Com uma família dessas, a polícia nem tem muito trabalho para frustrar os planos deles. Eles quase que “se prendem” sozinhos.

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